Democracia e Sociedade,  Nepotismo

Do Silêncio à Ilusão: Crónica de Portugal entre Salazar, Abril e Hoje

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por Augustus Veritas

Durante quarenta e oito anos, Portugal viveu de joelhos.
Não por fé, mas por medo.
Não por convicção, mas por hábito.
Chamava-se Salazar. Um professor de finanças que fez da contenção uma cruz, do silêncio uma lei, e da submissão uma pátria.

As ruas estavam limpas, diziam alguns.
Mas os cérebros, esses, estavam trancados.
As palavras, vigiadas.
A curiosidade, castigada.
As janelas podiam abrir-se… mas as ideias não.


O Regime do Medo

Era um país rural, pobre, analfabeto.
Os homens partiam — para a guerra ou para a emigração.
As mulheres ficavam — com os filhos, com a fome, com o rosário.
Os jovens serviam a pátria em África, mas não sabiam porquê.

O regime vendia estabilidade…
Mas era a estabilidade do túmulo.
Da censura.
Do lápis azul.
Do PIDE na esquina.

Portugal era um país de sombras longas e horizontes curtos.
Com um ditador sentado em Lisboa,
e milhões de almas caladas de norte a sul.


O Dia em que o Cravo Floriu

Veio então o 25 de Abril de 1974.
Um dia como poucos: de espanto, de canções, de fardas sem sangue,
e de esperança a correr nas ruas como se a liberdade fosse uma criança solta pela primeira vez.

Foi a madrugada que acordou um país inteiro.
Um país que aprendeu a dizer “não”,
a gritar “sim”,
e a descobrir que podia sonhar em voz alta.

Vieram conquistas reais:

  • A democracia representativa, com partidos e eleições livres.
  • O SNS, que tratou todos com dignidade.
  • A escola pública, que ensinou a ler até os netos dos analfabetos.
  • A liberdade de expressão, que transformou o silêncio em imprensa.

Mas depois… o sonho cansou-se

Vieram os partidos, os cargos, as manobras.
A liberdade virou tática eleitoral.
O Estado tornou-se um banquete de clientelas.
A pobreza foi disfarçada com estatísticas.
O povo foi trocado por “eleitorado”.

A democracia virou rotina.
A indignação, entretenimento.
A esperança, um produto em saldos.

E Portugal, esse país que devia ter florescido como um carvalho velho e livre,
voltou a ser pasto para os mesmos vícios de sempre:

  • Dependência externa
  • Corrupção envergonhada
  • Subserviência burocrática
  • Fuga de cérebros

Hoje vivemos num país onde há liberdade de falar,
mas pouco espaço para ser ouvido.


Portugal Hoje

É um país que vive da memória do cravo, mas com raízes presas na terra pobre da resignação.
Onde os jovens voltam a emigrar, como no tempo dos barcos.
Onde os velhos sobrevivem com pensões que insultam a dignidade.
Onde se diz que somos europeus — mas não se vê futuro nas ruas da Beira, do Alentejo ou de Trás-os-Montes.

A democracia venceu a ditadura.
Mas ainda não venceu a mediocridade.


E Agora?

Portugal precisa de uma nova revolução.
Não de tanques — mas de consciência.
Não de militares — mas de cidadãos.
Uma revolução do espírito, da ética, da criação.

Porque Abril não pode ser só uma data com discursos e hinos.
Tem de ser um verbo vivo.
Um projecto inacabado.
Uma promessa que exige luta —
mesmo hoje,
sob um regime que se diz democrático,
mas tantas vezes governa como se os cravos fossem apenas decoração.


Artigo de Augustus Veritas

Imagem cortesia de OpenAI (c)

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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