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A Internacional dos Bajuladores — Quando o Poder Espirra, Há Sempre Quem Aplauda

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FRAGMENTOS DO CAOS · CRÓNICA · 29 OUTUBRO 2026

A Internacional dos Bajuladores — Quando o Poder Espirra, Há Sempre Quem Aplauda

A reverência profissional tornou-se tão eficiente que já nem precisa de resultados: basta um cargo, uma publicação e uma fila de adjetivos.

O incenso digital

Há dias em que abrir o LinkedIn é como entrar numa catedral dedicada à carreira alheia. Não se ouvem sinos: ouvem-se adjetivos. «Visionária», «inspiradora», «extraordinária», «transformadora». Cada comentário parece competir pelo privilégio de ser o mais ajoelhado. A cerimónia tem uma particularidade: ninguém exige bilhete para entrar, mas todos parecem querer sair com um cartão de visita.

O pretexto chama-se Christine Lagarde

A 29 de outubro de 2026, Christine Lagarde anunciou que deixará a presidência do Banco Central Europeu em 7 de fevereiro de 2027, antes do termo previsto do mandato. A notícia é relevante e justifica reconhecimento pelo serviço prestado, mas também uma avaliação exigente das decisões tomadas. Não está confirmado que já tenha assumido outro cargo. O anúncio serviu, sobretudo, de ocasião para observar um hábito antigo em vestuário digital: perante uma figura poderosa, a análise cede frequentemente o lugar ao louvor automático.

O elogio e a vénia não são sinónimos

Há elogios merecidos, afetos sinceros e gratidão legítima. Confundir tudo isso com bajulação seria tão absurdo como declarar suspeito qualquer aperto de mão. A bajulação começa quando o elogio deixa de descrever factos e passa a funcionar como moeda de aproximação ao poder. Não pergunta «que fez?», mas «quem poderá ver-me a elogiar?». É menos uma opinião do que um investimento de risco calculado — com uma vantagem: não exige capital inicial, apenas uma coluna vertebral suficientemente flexível.

O LinkedIn, essa bolsa de valores da reverência

A plataforma que prometia ligar profissionais descobriu uma segunda vocação: transformar a adulação numa competência transversal. Uns publicam conquistas, outros vendem inspiração ao quilo e há sempre quem escreva «que liderança extraordinária!» sem identificar uma única decisão extraordinária. O comentário é curto, polido e cuidadosamente vazio. É uma espécie de cartão de Natal empresarial enviado a quem talvez um dia controle a lista de convidados.

A ciência da lisonja

A psicologia organizacional estuda há décadas as estratégias de gestão de impressões e de aproximação a superiores. A investigação mostra que a deferência excessiva pode alimentar comportamentos de lisonja e que dirigentes vistos a recompensar bajuladores podem perder credibilidade perante terceiros. Não é uma condenação científica de quem elogia; é um aviso sobre a fragilidade das organizações que confundem concordância com competência.

A crítica não é uma falta de educação

O mandato de quem dirige um banco central pode e deve ser discutido em termos de estabilidade de preços, decisões monetárias, comunicação, independência institucional e efeitos distributivos. A política monetária atua num mundo de choques que nenhum presidente controla sozinho; precisamente por isso, uma avaliação séria distingue decisões, contexto e consequências. Trocar essa discussão por uma procissão de superlativos não homenageia o trabalho público: dispensa-o de escrutínio.

A fábrica do silêncio

A bajulação tem um cúmplice discreto: o silêncio dos que discordam. Numa rede profissional, criticar pode parecer arriscado; elogiar custa pouco. Daí resulta uma ilusão ótica: a caixa de comentários parece unanimidade, quando pode ser apenas uma seleção de pessoas dispostas a falar. Não sabemos o que pensam os silenciosos, nem podemos deduzir as intenções individuais dos comentadores. Mas sabemos reconhecer o problema coletivo quando a discordância desaparece do espaço visível.

O perigo para a democracia e para as empresas

Um dirigente rodeado de aplausos não recebe necessariamente boa informação. Quando os colaboradores aprendem que a promoção passa por concordar, a organização perde a capacidade de detetar erros. Nas empresas, isso custa dinheiro e talento. Na política, custa confiança e pode custar direitos. O poder precisa de contraditório como um sistema informático precisa de registos de erro: desligar os alertas não torna o sistema mais saudável; torna a avaria mais surpreendente.

Conclusão: aplaudir não é pensar

A essência humana não é a bajulação. Também somos capazes de coragem, independência e honestidade intelectual. Mas o oportunismo tem uma longevidade impressionante: sobreviveu a impérios, cortes, ministérios e conselhos de administração, e agora dispõe de notificações em tempo real. O problema não é alguém receber um elogio. O problema é quando o poder se habitua tanto a ser elogiado que começa a considerar a crítica uma insolência. Nessa altura, quando o poder espirra, há sempre quem aplauda — e quase ninguém pergunta se está constipado.

Referências e leituras

  1. Banco Central Europeu — anúncio oficial, 29/10/2026
  2. Conselho Europeu — declaração de António Costa, 29/10/2026
  3. The Guardian — cobertura da saída anunciada, 29/10/2026
  4. Rogers, Sezer & Klein (2023), Journal of Personality and Social Psychology
  5. De Clercq & Pereira (2023), Personnel Review
  6. Korzynski, Protsiuk & Turnley (2026), European Management Journal

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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