O orgulho de cumprir a palavra
O orgulho de cumprir a palavra
O valor de uma vida profissional constrói-se na confiança que a palavra cumprida deixa nos outros.
Nota de abertura:
Há um orgulho que amadurece com os anos: reconhecer que a confiança depositada em nós encontrou resposta no trabalho entregue. Esta é uma reflexão pessoal sobre esse compromisso e sobre a vontade de continuar a aprender e a construir.
«Nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência, então, não é um acto, mas um hábito.»
Will Durant, ao sintetizar o pensamento de Aristóteles em The Story of Philosophy (1926). Tradução portuguesa. [fonte]

Quando a palavra se transforma em trabalho
Ao longo da minha vida profissional, a palavra dada representou sempre uma responsabilidade concreta. Quando assumia um compromisso, alguém passava a contar comigo. Essa confiança tinha consequências, e sempre entendi que me competia honrá-la. Hoje, ao olhar para o percurso feito, posso dizê-lo com orgulho: realizei aquilo que prometi e, muitas vezes, fui mais longe.
Na informática, esta convicção encontra depressa uma prova bastante exigente. Podemos explicar um projecto com entusiasmo, desenhar uma arquitectura elegante e apresentar um calendário irrepreensível. Depois chega o momento em que alguém carrega numa tecla e espera uma resposta. Nesse instante, toda a eloquência do mundo fica dependente de uma coisa muito simples: aquilo funcionar.
As máquinas têm esta qualidade pedagógica. Recebem com a mesma indiferença um discurso de administração e um erro de sintaxe. Um computador pode ter muitos defeitos, mas ainda não aprendeu a considerar um problema resolvido por ter sido criada uma comissão para o acompanhar.
Por detrás dessa exigência técnica estão pessoas. Há quem precise de concluir o seu trabalho, quem tenha dados para consultar, quem dependa de um serviço para manter uma actividade. Um sistema que funciona devolve-lhes tempo e tranquilidade. Foi sempre esse o sentido que atribuí ao meu trabalho: construir alguma coisa de que outros pudessem servir-se com confiança.
Uma promessa profissional começa, por isso, antes de ser pronunciada. Começa no estudo do problema, na avaliação dos meios disponíveis e na coragem de reconhecer aquilo que ainda é preciso aprender. A frase «tenho de analisar melhor» pode parecer pouco espectacular numa reunião. Evita, porém, muitas reuniões posteriores, quase sempre mais desagradáveis.
Depois vem o trabalho que raramente cabe na apresentação inicial. A solução precisa de ser testada, surgem dificuldades, uma hipótese revela-se insuficiente. É preciso voltar atrás e corrigir. A responsabilidade acompanha esse caminho inteiro. A pessoa que confiou em nós deve poder perceber o que está a acontecer, incluindo os obstáculos e a forma de os ultrapassar.
Cumprir exige esta disponibilidade para responder pelo resultado. A perfeição permanece uma ambição exigente; o trabalho concreto pede atenção e capacidade de revisão. Um erro reconhecido a tempo permite continuar a construir. Uma dificuldade escondida cresce à custa da confiança de todos.
A excelência pratica-se
«Tornamo-nos justos praticando actos justos.»
Aristóteles, Ética a Nicómaco, Livro II, capítulo 1. Tradução portuguesa a partir de W. D. Ross. [fonte]
Aristóteles associa a formação do carácter ao exercício das acções e, no mesmo Livro II, sublinha que a virtude envolve conhecimento e escolha. Leio nesta ideia uma exigência que reconheço na profissão: voltar a fazer bem implica conservar o discernimento, rever procedimentos e perceber o efeito das nossas decisões. [1]
A investigação contemporânea ajuda a compreender uma parte deste processo. Na revisão Psychology of Habit, Wendy Wood e Dennis Rünger descrevem como a repetição de respostas em contextos recorrentes contribui para formar hábitos. A qualidade ética do que fazemos continua a exigir uma avaliação própria; a minha leitura é que o hábito de verificar e corrigir pode ajudar a sustentar o cuidado profissional. [4]
Richard Sennett oferece outra aproximação a esta experiência: o compromisso com a qualidade do trabalho e a aprendizagem do ofício. Na apresentação de The Craftsman, a Yale University Press inclui expressamente o programador informático entre os seus exemplos. Reconheço essa disposição no cuidado com uma solução que alguém irá utilizar depois de terminada a nossa intervenção. [6]
E há ocasiões em que se consegue ir mais longe do que o combinado. Uma melhoria torna a utilização mais simples, uma precaução evita um problema futuro, uma explicação permite a alguém ganhar autonomia. Nesses pormenores também se reconhece o cuidado de quem fez. A qualidade de um trabalho vive muito para além da lista de funções que o descreve.
Esse cuidado precisa de condições para durar. O descanso, o respeito pelos próprios limites e uma relação justa entre quem pede e quem executa ajudam a preservar a capacidade de fazer bem. A competência merece ser respeitada, inclusive por quem a possui. Uma vida de responsabilidade também se constrói aprendendo a dar ao esforço a medida que ele pode sustentar.
O valor de reconhecer o caminho percorrido
Ao fim de décadas, o orgulho ganha uma forma particular. Consigo olhar para o trabalho realizado e reconhecer nele os princípios que defendo. A memória guarda o esforço de compreender e a satisfação de encontrar uma solução. Saber que a palavra dada chegou a transformar-se em alguma coisa útil permite fazer as pazes com muitas horas difíceis.
Reconhecer esse valor em nós próprios é um exercício de honestidade. Trabalhámos, aprendemos, assumimos responsabilidades. Temos o direito de dar significado ao que fizemos. A modéstia pode conviver perfeitamente com a consciência do próprio mérito; até lhe faz bem alguma companhia.
Quando a apresentação de uma intenção recebe o aplauso de uma obra concluída, sinto falta desta exigência elementar. Gostava que perguntássemos mais vezes o que ficou feito, quem passou a viver ou a trabalhar melhor e como se manteve aquilo que foi entregue. Estas perguntas servem uma empresa, uma instituição pública e a nossa própria consciência.
As grandes coisas começam muitas vezes à escala de um problema concreto. Resolver bem aquilo que nos foi confiado pode ter uma importância que nunca chegaremos a conhecer por inteiro. Para quem ficou com o problema resolvido, o benefício tem um nome e uma utilidade. Essa dimensão basta para justificar o cuidado.
É também por isso que faço questão de falar no presente. A experiência acumulada continua disponível para novas perguntas. A curiosidade ainda me leva a aprender e a procurar soluções. O passado dá profundidade ao que faço hoje, enquanto cada novo compromisso volta a pedir trabalho e atenção.
Tenho orgulho no que fui e no que ainda sou. Esse orgulho acompanha-me quando me sento diante de um problema e começo a procurar uma maneira de o resolver. Ainda há muito para aprender e coisas úteis para construir. A palavra que dou continua a levar o meu nome.
A EXCELÊNCIA E AS SUAS FONTES
- A formulação sobre a excelência como hábito pertence a Will Durant, numa síntese da ética aristotélica.
- Aristóteles relaciona o carácter com a prática das acções e com a escolha consciente, no Livro II da Ética a Nicómaco.
- O trabalho de Richard Sennett estende a ideia de artífice a profissões como a programação informática.
Nota Editorial
Esta crónica preserva integralmente o testemunho pessoal de Francisco Gonçalves sobre a responsabilidade profissional e a palavra dada. O seu ponto de partida é a coerência entre o compromisso assumido e o resultado entregue, bem como o direito de reconhecer com orgulho um percurso de trabalho exigente.
Por rigor de atribuição, a frase «Nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência, então, não é um acto, mas um hábito» é apresentada como uma formulação de Will Durant, em The Story of Philosophy, obra originalmente publicada em 1926. É uma síntese do pensamento de Aristóteles, frequentemente divulgada como se fosse uma citação literal do filósofo grego. A segunda citação corresponde a uma passagem do Livro II, capítulo 1, da Ética a Nicómaco, em tradução portuguesa a partir da versão de W. D. Ross. [3]
As referências internacionais enquadram a reflexão em três planos: a formação do carácter na filosofia, o estudo dos hábitos na psicologia e a aprendizagem do trabalho bem feito. A ligação destes contributos à experiência profissional constitui uma interpretação ensaística. A exigência que atravessa o texto mantém-se aberta ao futuro, em cada novo problema que merece atenção e em cada pessoa que volta a confiar.
Referências credíveis
- [1] Aristóteles — Ética a Nicómaco, Livro II, capítulos 1 e 4
Texto primário, em tradução inglesa de W. D. Ross, disponibilizado pelo Internet Classics Archive do MIT. A formação do carácter pela prática e a importância da escolha consciente. - [2] Will Durant — The Story of Philosophy, capítulo II, secção VII, Ethics and the Nature of Happiness
Obra originalmente publicada em 1926; exemplar digital de uma reedição disponível no Internet Archive. Origem da formulação sobre a excelência como hábito. - [3] Frank Herron — It’s a MUCH More Effective Quotation to Attribute It to Aristotle, Rather than to Will Durant
Publicação de 8 de Maio de 2012, alojada na University of Massachusetts Boston, que documenta a atribuição da frase a Durant e a sua relação com Aristóteles. - [4] Wendy Wood e Dennis Rünger — Psychology of Habit
Annual Review of Psychology, volume 67, 2016, pp. 289–314. Revisão científica sobre a formação de hábitos pela repetição de respostas em contextos recorrentes. DOI: 10.1146/annurev-psych-122414-033417. - [5] Richard Sennett — Labours of love
The Guardian, 2 de Fevereiro de 2008. Ensaio do próprio autor sobre o compromisso com a qualidade, a aprendizagem e o respeito por si próprio que pode nascer do trabalho bem feito. - [6] Yale University Press — Sennett’s The Craftsman in print, blogs, and air waves
Apresentação editorial de 18 de Março de 2008 da obra The Craftsman, incluindo o programador informático entre os exemplos contemporâneos do trabalho de artífice.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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