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Os especialistas em nada: quando a política se transforma numa profissão sem mundo

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Os especialistas em nada: quando a política se transforma numa profissão sem mundo

A democracia precisa de jovens e de políticos profissionais. O que não precisa é de uma classe dirigente criada quase inteiramente dentro da própria máquina partidária.

Nota de abertura:
Há uma diferença essencial entre entrar na política depois de conhecer uma profissão, uma empresa, um hospital, uma escola, um laboratório, uma fábrica ou a administração pública, e entrar muito cedo num circuito em que quase toda a experiência adulta é adquirida dentro de partidos, gabinetes, assessorias, parlamentos e estúdios de televisão. Esta crónica não é um ataque à juventude. É uma crítica à monocultura do poder.

Há uma nova profissão em Portugal que não consta oficialmente da Classificação Portuguesa das Profissões, mas que ocupa cada vez mais espaço nos corredores do poder: o especialista em política que nunca conheceu praticamente nada fora da política.

O percurso começa cedo.

Associação académica. Juventude partidária. Estrutura concelhia. Estrutura distrital. Gabinete parlamentar. Assessoria. Comunicação. Comentário televisivo. Parlamento. Governo. Parlamento Europeu.

E, subitamente, aos trinta e poucos anos, temos diante de nós alguém perfeitamente preparado para explicar ao país como deve funcionar a economia, a Segurança Social, o Serviço Nacional de Saúde, a administração pública, a agricultura, a indústria, a habitação, a defesa ou a transformação digital.

É uma carreira admiravelmente eficiente.

Só falta um pequeno detalhe: ter conhecido aquilo sobre que se governa.

A política tornou-se uma profissão de circuito fechado

Durante muito tempo, os parlamentos foram compostos por pessoas provenientes de profissões muito diferentes. Havia médicos, professores, engenheiros, agricultores, empresários, juristas, operários, economistas, cientistas, militares, trabalhadores da administração pública e dirigentes associativos.

Entravam na política depois de terem conhecido outras realidades.

Hoje assistimos, com crescente frequência, ao fenómeno inverso: pessoas que entram muito jovens na política e fazem dela praticamente toda a sua vida profissional.

Não chegam à política depois de uma carreira.

A política é a carreira.

A ciência política conhece bem o fenómeno. Um artigo publicado na European Political Science Review sistematizou o conceito de career politician através de quatro dimensões: forte compromisso com a política como carreira, experiência profissional estreita, experiência de vida estreita fora do universo político e forte ambição por cargos públicos. Não se trata, portanto, de uma invenção de café nem de uma irritação exclusivamente portuguesa. É um problema estudado nas democracias contemporâneas.

E isso produz uma transformação profunda. Porque alguém que passou vinte anos numa empresa conhece problemas que nenhum relatório consegue explicar completamente.

Sabe o que significa pagar salários quando os clientes ainda não pagaram.

Quem dirigiu equipas conhece a diferença entre uma decisão escrita num PowerPoint e a realidade de conseguir que vinte pessoas diferentes trabalhem na mesma direcção.

Quem administrou sistemas informáticos sabe que uma alteração aparentemente inocente pode derrubar uma infra-estrutura inteira.

Quem trabalhou num hospital conhece a diferença entre estatísticas de produção e sofrimento humano.

Quem viveu numa pequena empresa sabe que preencher mais um formulário não é uma abstracção administrativa: são horas retiradas ao trabalho produtivo.

Essa experiência não torna ninguém automaticamente melhor político. Mas fornece uma coisa difícil de aprender nos gabinetes:

A experiência do mundo não garante boas decisões. Mas ensina uma coisa que a política de circuito fechado tende a esquecer: todas as decisões têm consequências fora do papel.

Governar não é comentar

Há uma diferença gigantesca entre analisar um problema e ser responsável pelas consequências da solução.

O comentador pode dizer: é necessário aumentar a produtividade.

O empresário pergunta: como? Com que capital? Com que trabalhadores? Com que tecnologia? Com que custos energéticos? Com que impostos? Com que mercado?

O político pode declarar: precisamos de digitalizar a Administração Pública.

O engenheiro pergunta: que sistemas? Que arquitectura? Que interoperabilidade? Que segurança? Que migração de dados? Que plano de continuidade? Quem responde quando o sistema falhar numa segunda-feira às oito da manhã?

O dirigente partidário afirma: precisamos de reformar a Segurança Social.

O actuário pergunta: com que modelo demográfico? Com que taxa de emprego? Com que produtividade? Com que crescimento dos salários reais? Com que saldo migratório? Com que impacto sobre as gerações futuras?

É nesta passagem da frase para a execução que grande parte da política contemporânea começa a revelar as suas fragilidades.

Porque uma coisa é conhecer a linguagem dos problemas. Outra é conhecer os problemas.

A universidade não substitui a experiência

Uma licenciatura é importante.

Um mestrado pode ser importante.

Um doutoramento pode ser extraordinariamente importante.

Mas nenhum deles transforma automaticamente alguém num especialista na complexidade de uma sociedade.

A universidade fornece modelos.

A vida fornece excepções.

E os sistemas humanos complexos são construídos precisamente através da interacção entre ambos.

O problema aparece quando uma geração política começa a confundir formação académica, comunicação, visibilidade mediática e experiência partidária com conhecimento suficiente para governar praticamente todos os sectores de uma sociedade.

Um jovem de vinte e cinco anos pode perfeitamente compreender teoria económica melhor do que alguém de sessenta.

Mas compreender teoria económica não significa automaticamente compreender como funciona uma pequena empresa de construção civil em Castelo Branco, uma exploração agrícola no Alentejo, uma fábrica de componentes em Braga, uma equipa de enfermagem num hospital público ou uma empresa tecnológica a tentar exportar serviços.

São conhecimentos diferentes.

E um país precisa dos dois.

A máquina partidária produz especialistas em sobrevivência política

Há, contudo, uma competência em que estes profissionais se tornam frequentemente extraordinariamente bons:

navegar dentro da própria política.

Sabem quando falar.

Sabem quando ficar calados.

Sabem como responder sem responder.

Sabem como transformar uma pergunta difícil numa crítica à oposição.

Sabem ocupar televisão.

Sabem construir frases para vinte segundos de telejornal.

Sabem interpretar sondagens, reconhecer equilíbrios internos, antecipar mudanças de vento e detectar rapidamente qual será a posição conveniente dentro do partido.

É um conhecimento sofisticado.

Mas existe um problema.

Nada disso constrói hospitais.

Nada disso aumenta produtividade.

Nada disso melhora escolas.

Nada disso moderniza sistemas informáticos.

Nada disso resolve tribunais atrasados.

Nada disso cria empresas exportadoras.

Nada disso reduz filas nos serviços públicos.

Pode ajudar alguém a sobreviver politicamente.

Não significa necessariamente que saiba governar.

E a investigação dá uma pista desconfortável

Um estudo publicado no American Journal of Political Science, baseado em experiências realizadas em três democracias ocidentais, encontrou evidência de que a experiência profissional dos legisladores pode aumentar a sua credibilidade e capacidade de persuasão precisamente nas áreas em que possuem experiência concreta.

A conclusão não é que um professor só possa legislar sobre educação ou que um engenheiro só possa discutir tecnologia. Seria uma caricatura.

A conclusão mais interessante é outra: a diversidade profissional dentro dos parlamentos pode ser um activo democrático.

Pessoas provenientes de mundos diferentes transportam informação diferente, sensibilidades diferentes, redes de contacto diferentes e, sobretudo, diferentes formas de reconhecer quando uma política teoricamente elegante se prepara para embater numa parede muito real.

O QUE DEVE SER RETIDO

  • A investigação académica descreve o career politician como um fenómeno multidimensional que pode incluir experiência profissional e de vida estreita fora da política.
  • Experiências publicadas no American Journal of Political Science sugerem que experiência profissional relevante pode aumentar a credibilidade política em determinadas áreas.
  • Na sondagem da OCDE de 2025, apenas cerca de três em cada dez pessoas, em média nos países abrangidos, consideravam que o sistema político permitia a pessoas como elas ter voz efectiva nas decisões do Governo.
  • Na mesma investigação da OCDE, 40% apontavam como barreira a percepção de que os eleitos não se preocupavam com pessoas como elas.
  • Em Portugal, a OCDE registou em 2025 confiança alta ou moderadamente alta de 40% no Governo nacional, mas apenas 26% nos partidos políticos.
  • A juventude parlamentar continua sub-representada no mundo: a IPU indica que apenas 2,8% dos parlamentares tinham 30 anos ou menos. O problema, portanto, não é haver jovens na política; é haver pouca diversidade de experiências.

O problema não é serem jovens

Convém deixar isto absolutamente claro.

O problema não está na idade.

A juventude pode trazer energia, inteligência, irreverência, conhecimento actualizado e uma capacidade extraordinária para questionar estruturas envelhecidas.

Portugal precisa desesperadamente disso.

E existe até um problema inverso: segundo a União Interparlamentar, a representação dos mais jovens nos parlamentos continua extremamente baixa à escala mundial.

O problema é outro:

confundir juventude política com experiência do mundo.

Um engenheiro de trinta anos pode ter passado uma década a resolver problemas técnicos complexos.

Um médico de trinta e cinco pode já ter tomado milhares de decisões clínicas.

Um empresário de trinta pode ter criado uma empresa, contratado pessoas, falhado, recomeçado e aprendido aquilo que nenhum manual ensina.

Um investigador pode ter passado anos a aprender uma disciplina particularmente cruel para a vaidade humana: formular uma hipótese e descobrir que os factos não querem saber da nossa opinião.

Portanto, não estamos perante um conflito entre jovens e velhos.

Estamos perante uma diferença entre experiência diversificada e experiência endogâmica.

A endogamia cognitiva do poder

Quando demasiadas pessoas dentro de um sistema possuem percursos semelhantes, começam inevitavelmente a observar o mundo através de filtros semelhantes.

Frequentaram ambientes semelhantes.

Conhecem as mesmas pessoas.

Leem as mesmas análises.

Participam nas mesmas reuniões.

Circulam entre os mesmos gabinetes.

Falam frequentemente com jornalistas, consultores e assessores que também orbitam esse universo.

A consequência é aquilo que poderíamos chamar de endogamia cognitiva.

O sistema começa a acreditar que conhece o país porque passa o dia a falar sobre o país.

Mas Portugal não existe apenas entre São Bento, os ministérios, Bruxelas e os estúdios de televisão.

Existe numa oficina em Vila Nova de Famalicão.

Num lar de idosos em Bragança.

Num hospital em Lisboa.

Numa empresa informática em Aveiro.

Num campo agrícola no Ribatejo.

Num café em Beja.

Numa família que tenta perceber como pagar a renda no final do mês.

E talvez uma das maiores fragilidades da democracia contemporânea seja precisamente esta distância crescente entre quem produz políticas e quem vive as consequências dessas políticas.

A OCDE encontrou em 2025 uma realidade que devia incomodar qualquer sistema partidário satisfeito consigo próprio: em média, apenas cerca de três em cada dez pessoas nos países abrangidos acreditavam que o sistema político permitia a pessoas como elas ter influência no que o Governo faz. Quarenta por cento apontavam directamente a percepção de que os eleitos não se preocupavam com pessoas como elas.

Isto não prova que a profissionalização partidária seja a única causa. A democracia, para variar, recusa-se a oferecer problemas simples. Mas mostra que existe uma fractura séria entre representação institucional e sentimento de representação efectiva.

Um sistema político pode representar juridicamente todos os cidadãos e, ao mesmo tempo, deixar milhões deles com a sensação de que ninguém naquele sistema conhece verdadeiramente a vida que levam.

Quando todos são especialistas, ninguém assume a responsabilidade

Há ainda uma característica particularmente curiosa deste modelo.

Os especialistas partidários parecem capazes de falar sobre praticamente tudo.

Energia.

Defesa.

Educação.

Habitação.

Inteligência artificial.

Pensões.

Imigração.

Economia.

Saúde.

Agricultura.

Um verdadeiro Renascimento florentino, só que geralmente condensado numa intervenção televisiva de quatro minutos.

Mas quanto mais ampla é esta suposta competência, mais legítima se torna uma pergunta simples:

quem assume responsabilidade quando as políticas falham?

Porque na engenharia, uma ponte que cai obriga a procurar responsabilidades.

Na medicina, um erro grave é investigado.

Numa empresa, uma decisão desastrosa pode provocar falência.

Na investigação científica, uma teoria que não resiste à evidência acaba, mais cedo ou mais tarde, no lugar que merece.

Na política, porém, um programa pode fracassar completamente e, seis meses depois, encontrarmos o responsável num estúdio a explicar o que o próximo Governo deveria fazer.

É um dos poucos ecossistemas profissionais onde o fracasso pode transformar-se numa carreira de comentário sobre o fracasso.

A natureza humana continua extremamente criativa.

Precisamos de políticos que conheçam o mundo

Nenhuma democracia moderna pode funcionar sem políticos profissionais.

Governar é difícil.

Legislar exige conhecimento.

Negociar interesses contraditórios requer experiência.

Conhecer instituições, procedimentos, direito parlamentar, diplomacia e construção de maiorias é trabalho verdadeiro e conhecimento verdadeiro.

O problema surge quando a política profissional expulsa progressivamente todas as outras experiências da política.

Um parlamento verdadeiramente representativo não deveria representar apenas partidos, territórios, idades e correntes ideológicas.

Deveria representar também experiências.

Pessoas que tenham trabalhado no SNS.

Pessoas que tenham criado empresas.

Investigadores.

Engenheiros.

Professores.

Trabalhadores.

Agricultores.

Cientistas.

Programadores.

Gestores.

Pessoas que tenham conhecido o país fora dos corredores institucionais.

Não porque essas pessoas sejam moralmente superiores.

Mas porque trazem consigo uma coisa que a política precisa desesperadamente:

realidade.

O país como laboratório dos profissionais da política

Talvez esta seja a questão essencial.

Quando alguém passa toda a vida profissional dentro da política, existe sempre o risco de começar a ver o país como um conjunto de variáveis abstractas.

Percentagens.

Orçamentos.

Metas.

Indicadores.

Sondagens.

Dossiers.

Mas por detrás de cada variável existem pessoas.

Uma alteração fiscal pode decidir se uma pequena empresa contrata mais alguém.

Uma regra administrativa pode significar semanas de atraso num investimento.

Uma decisão hospitalar pode significar meses de espera para um doente.

Uma reforma das pensões pode alterar o último terço da vida de milhões de cidadãos.

Por isso governar exige mais do que inteligência.

Exige algo difícil de obter sem contacto prolongado com o mundo real:

prudência.

A prudência de quem sabe que sistemas complexos raramente obedecem ao PowerPoint.

Talvez devêssemos inverter o percurso

Em vez de:

universidade → juventude partidária → assessoria → parlamento → governo

talvez fosse saudável vermos mais vezes:

universidade → profissão → responsabilidade → experiência → política.

Primeiro conhecer uma parte do mundo.

Depois tentar governá-lo.

Parece uma ideia quase revolucionária.

Na realidade, durante grande parte da história democrática, chamava-se simplesmente experiência de vida.

Portugal não precisa de menos jovens na política.

Precisa de mais diversidade de experiências dentro da política.

Porque um país não é uma associação académica ampliada para dez milhões de habitantes.

E governar uma sociedade complexa deveria exigir algo mais do que conhecer profundamente a arte de sobreviver dentro de um partido.

Deveria exigir conhecer aquilo que existe fora dele.

A política não deveria ser o lugar onde alguém aprende como funciona o mundo. Deveria ser o lugar onde alguém coloca ao serviço dos outros aquilo que aprendeu no mundo.

Nota Editorial

Esta é uma crónica de opinião sobre a profissionalização e a endogamia dos sistemas partidários. Não pretende sustentar que a juventude, a formação universitária ou a dedicação profissional à política sejam defeitos. Pelo contrário: parlamentos envelhecidos e incapazes de integrar novas gerações constituem também um problema democrático.

A crítica incide sobre outra realidade: percursos políticos demasiado homogéneos e demasiado desligados de experiências profissionais exteriores à própria política. A investigação académica citada abaixo mostra que o conceito de career politician é objecto de estudo sistemático e que a diversidade ocupacional dos representantes pode ter efeitos relevantes na credibilidade e na qualidade da representação.

Os dados da OCDE sobre confiança e voz política não demonstram uma relação causal directa entre carreirismo partidário e desconfiança pública. São aqui utilizados como contexto para um problema mais amplo: a distância que muitos cidadãos percepcionam entre as instituições representativas e a sua experiência quotidiana.

O objectivo editorial é defender uma democracia mais aberta à diversidade de percursos, onde a competência política profissional conviva com experiência concreta do trabalho, da ciência, das empresas, dos serviços públicos e da sociedade civil. Um parlamento não ganha qualidade por trocar especialistas por amadores. Ganha-a quando deixa de recrutar quase sempre pessoas feitas da mesma matéria biográfica.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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