Democracia e Sociedade

Risco Máximo para Quem? A pedagogia do fogo num país que continua a arder

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Risco Máximo para Quem? A pedagogia do fogo num país que continua a arder

Portugal comunica o risco como se fosse eficiência, combate o fogo como se fosse destino e falha a prevenção como se fosse uma fatalidade meteorológica. O resultado é conhecido: todos os anos o país recebe o verão com mapas vermelhos, discursos sérios e território pronto a arder.

Nota de abertura:
O problema não está em informar os cidadãos sobre o perigo de incêndio. Informação pública é necessária. O problema começa quando essa informação se transforma em espectáculo repetido, paternalismo oficial e substituto da prevenção estrutural. Todos os verões se grita “risco máximo”; todos os invernos se pratica “execução mínima”.

Há duas ou três coisas difíceis de entender neste país incendiável, e não é por falta de mapas, avisos, comunicados e conferências de imprensa. Portugal é pródigo em explicações. Onde falha, como quase sempre, é na consequência.

A primeira perplexidade é esta: os governos mostram-se, ano após ano, incapazes de accionar uma prevenção estrutural, permanente, territorial, mensurável e consequente. Mas, quando chega o calor, aparece a grande coreografia nacional do “risco máximo de incêndio”.

Risco máximo aqui.

Risco máximo ali.

Risco máximo no interior.

Risco máximo no litoral esquecido.

Risco máximo em metade do mapa.

Risco máximo na televisão.

Risco máximo na rádio.

Risco máximo nas redes.

Risco máximo na alma nacional, essa floresta seca onde a responsabilidade raramente germina.

Em teoria, a classificação do perigo de incêndio rural tem utilidade técnica e pública. O IPMA calcula e divulga o Perigo de Incêndio Rural. O ICNF associa a esses níveis várias restrições ao uso do fogo, às queimadas, às queimas, ao uso de máquinas e à circulação em territórios rurais. A ANEPC emite avisos e medidas preventivas. Nada disto é inútil.

Mas a pergunta incómoda permanece:

Risco máximo para quem?

Para o cidadão responsável que já sabe que não deve fazer queimadas, fogueiras, grelhadores em sítios proibidos ou usar maquinaria em condições perigosas?

Para o agricultor que precisa de regras claras, previsíveis e aplicáveis?

Para as autarquias que deviam saber exactamente que medidas executar antes de Julho?

Para as forças de segurança que precisam de inteligência operacional, vigilância e meios?

Ou também, involuntariamente, para o incendiário que vê diariamente o país pintado de vermelho como se fosse um boletim de oportunidades?

Não se trata de defender segredo sobre o risco. Isso seria absurdo. O cidadão tem direito a saber. As populações têm direito a informação. As entidades locais precisam de dados. Mas uma coisa é comunicar risco com inteligência; outra é transformar o mapa do país num cartaz dramático que, durante dias de calor, parece anunciar ao crime onde o território está mais vulnerável.

Até a desgraça precisa de menos teatro e mais método. Exigência revolucionária, portanto.

Informação pública ou espectáculo de risco?

O risco de incêndio deve ser comunicado. A dúvida está no formato, no tom, na repetição e na utilidade prática.

O cidadão não precisa de ser tratado como uma criança distraída com fósforos no bolso. Precisa de saber, com clareza, o que está proibido, o que está condicionado, qual a consequência legal e quem fiscaliza.

A comunicação pública devia ser seca, útil e consequente:

Hoje é proibido fazer queimadas.

Hoje é proibido lançar foguetes.

Hoje há restrições ao uso de maquinaria agrícola e florestal.

Hoje há proibição ou condicionamento de acesso a zonas rurais críticas.

Hoje há patrulhamento reforçado nestes concelhos.

Hoje estas são as coimas.

Hoje estas são as penas.

Hoje estes são os contactos para denúncia.

Hoje estes são os responsáveis operacionais.

Isto é informação pública.

O resto é meteorologia dramatizada com música de telejornal.

Portugal, como sempre, prefere muitas vezes a solenidade à eficácia. Gosta de mostrar mapas, cores, níveis, siglas, comunicados e directos. É visual. Dá sensação de controlo. Parece que há comando. Parece que há estratégia. Parece que há Estado.

Depois o fogo chega e demonstra que o PowerPoint arde mal, mas protege ainda pior.

O paternalismo oficial

A segunda perplexidade é a linguagem dos governantes e das entidades oficiais.

Quando chegam os incêndios, surgem as frases habituais:

“As condições são extremas.”

“Estamos a fazer o melhor.”

“O dispositivo está no terreno.”

“Os portugueses devem evitar comportamentos de risco.”

“Não façam queimadas.”

“Tenham cuidado com o fogo.”

Tudo isto é verdade em parte. Mas repetido assim, ano após ano, começa a soar como insulto.

Claro que os portugueses não devem fazer queimadas em dias de perigo. Claro que não devem fazer fogueiras. Claro que não devem usar fogo de forma irresponsável. Claro que há comportamentos negligentes, criminosos e absolutamente estúpidos. A estupidez inflamável existe e, infelizmente, não paga imposto especial.

Mas falar aos portugueses como se todos fossem crianças perigosas, enquanto se evita discutir a falha estrutural do Estado, é um truque velho.

Chama-se deslocação de responsabilidade.

O Governo falha a prevenção?

“Tenham cuidado.”

A floresta está abandonada?

“Não façam queimadas.”

O cadastro continua insuficiente?

“Evitem comportamentos de risco.”

O território rural está envelhecido, fragmentado, despovoado e mal gerido?

“As condições meteorológicas são extremas.”

O Estado não executa o que promete?

“Estamos todos mobilizados.”

Está visto: quando a política não resolve, dá conselhos. É barato, cabe bem no teleponto e não exige roçar um hectare.

A palavra fatalidade, essa lavandaria de responsabilidades

A palavra mais perigosa em época de incêndios não é “calor”.

É “fatalidade”.

Fatalidade é uma palavra cómoda. Parece limpa. Parece neutra. Parece que ninguém manda nela. Parece coisa do destino, do vento, do azar ou de uma entidade invisível com gosto por tragédias rurais.

Quando se chama fatalidade àquilo que se repete todos os anos, deixa-se de fazer análise e começa-se a fazer absolvição.

O calor é real.

A seca é real.

O vento é real.

As alterações climáticas agravam o risco.

Mas a falta de prevenção também é real.

A floresta mal gerida é real.

A fragmentação da propriedade é real.

O abandono do interior é real.

A fiscalização insuficiente é real.

O incendiarismo é real.

A negligência é real.

A impunidade é real.

E a governação falhada é dolorosamente real.

O clima cria condições. O Estado devia reduzir vulnerabilidades. Quando não reduz, a tragédia deixa de ser apenas natural. Passa a ser política.

Portugal comunica o risco como se fosse eficiente, combate o fogo como se fosse heróico, e falha a prevenção como se fosse inevitável.

A pergunta que devia abrir os telejornais

A pergunta séria não é apenas:

“Qual é hoje o risco de incêndio?”

A pergunta séria é:

O que fez o Estado entre Outubro e Maio?

Quantos hectares foram geridos?

Quantas faixas de gestão de combustível foram verificadas?

Quantas autarquias cumpriram metas?

Quantas falharam?

Quantos proprietários foram apoiados?

Quantos terrenos críticos foram intervencionados?

Quantas acções de fiscalização foram feitas?

Quantos autos foram levantados?

Quantos incendiários reincidentes foram monitorizados?

Quantos processos chegaram a condenação?

Quantas recomendações de relatórios anteriores foram executadas?

Quantos milhões foram gastos em prevenção efectiva e não em prevenção declamada?

É isto que devia ocupar espaço mediático. Não apenas a liturgia diária do vermelho no mapa e do “tenham cuidado”.

Porque o verdadeiro risco máximo não é apenas meteorológico.

O verdadeiro risco máximo é político, institucional e cultural.

Comunicação adulta para um país adulto

Um país adulto não esconde o risco. Mas também não o comunica como quem dramatiza uma telenovela.

A comunicação devia ter três níveis distintos.

Informação para cidadãos

Clara, curta, útil, territorializada e orientada para acção: o que é proibido, o que é permitido, onde há restrições, quais as coimas, como denunciar, que comportamentos evitar.

Informação operacional

Técnica, detalhada e reservada aos canais próprios de autoridade, protecção civil, GNR, autarquias, bombeiros, vigilância e decisão operacional. Nem toda a informação útil ao Estado tem de ser convertida em espectáculo público.

Prestação de contas

Pública, mensal, por concelho e com indicadores verificáveis: prevenção executada, fiscalização, incumprimentos, detenções, condenações, áreas tratadas, falhas detectadas e responsáveis identificados.

Isto seria informação.

Isto seria prevenção comunicacional.

Isto seria Estado adulto.

Logo, naturalmente, parece uma ideia perigosa para um país que prefere comunicados a consequências.

O verdadeiro escândalo

O verdadeiro escândalo não é dizer que há risco máximo.

O verdadeiro escândalo é viver há décadas num país onde o risco máximo é o calor chegar e encontrar tudo preparado para arder, excepto os responsáveis.

O verdadeiro escândalo é o Governo aparecer a pedir prudência como se a prudência individual substituísse ordenamento florestal.

O verdadeiro escândalo é invocar condições extremas enquanto se deixam condições estruturais por resolver.

O verdadeiro escândalo é pedir aos cidadãos que tenham cuidado com o fogo, quando o próprio Estado passa anos a brincar com pólvora institucional.

O verdadeiro escândalo é transformar bombeiros em muralhas humanas contra a ausência de prevenção.

O verdadeiro escândalo é falar em fatalidades para evitar a palavra responsabilidades.

O verdadeiro escândalo é o país aceitar que todos os verões sejam uma repetição do mesmo filme, com novo elenco governativo, novos mapas vermelhos e a mesma paisagem carbonizada.

Conclusão: risco máximo de infantilização nacional

Portugal precisa de comunicar o risco de incêndio. Mas precisa, acima de tudo, de reduzir o risco que comunica.

Não basta avisar.

É preciso prevenir.

Não basta recomendar.

É preciso fiscalizar.

Não basta proibir.

É preciso punir.

Não basta mostrar mapas.

É preciso gerir território.

Não basta elogiar bombeiros.

É preciso evitar que sejam enviados todos os anos para compensar a falha dos outros.

Não basta pedir cuidado aos portugueses.

É preciso que o Estado deixe de tratar os portugueses como crianças e comece a tratar a prevenção como obrigação.

O país não arde por falta de avisos. Arde porque os avisos chegaram ao lugar da acção.

E enquanto isto continuar, todos os anos ouviremos a mesma cantiga:

“Risco máximo.”

“Condições extremas.”

“Dispositivo preparado.”

“Populações devem ter cuidado.”

“Serão apuradas responsabilidades.”

Depois vem a cinza.

Depois vem o silêncio.

Depois vem o inverno.

Depois não vem nada.

Até ao próximo verão, quando o país volta a descobrir, com espanto de repartição pública, que o calor aquece, o mato arde e a incompetência também propaga.

Nota Editorial

Esta crónica não contesta a necessidade de informar os cidadãos sobre o perigo de incêndio rural. Essa informação é necessária e tem base técnica, nomeadamente nos dados divulgados pelo IPMA e nas restrições associadas pelo ICNF, pela ANEPC e pelas autoridades competentes.

O que se critica é a transformação dessa comunicação num ritual mediático repetitivo, muitas vezes desligado de uma prestação de contas séria sobre prevenção estrutural, fiscalização, investigação criminal, execução municipal, gestão do território e responsabilização política.

Um país adulto deve saber comunicar risco sem dramatizar inutilmente, informar cidadãos sem os infantilizar, reservar informação operacional sensível para canais próprios e, sobretudo, prestar contas sobre o que fez antes da época crítica.

O perigo de incêndio é real. Mas o perigo maior é a normalização da repetição: todos os anos há avisos, mapas, discursos e promessas; todos os anos falta a pergunta essencial: quem falhou, onde falhou e que consequências teve?

Referências credíveis

Aletheia Veritas
Fragmentos do Caos
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🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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