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Portugal não pode viver de décimas

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Portugal não pode viver de décimas

Quando um crescimento de 1,7% é celebrado como triunfo e a ambição nacional permanece em ponto morto

Um país não se mede pela habilidade de celebrar décimas, mas pela capacidade de transformar crescimento em produtividade, salários, indústria, ciência e coesão. Crescer 1,7% pode parecer razoável quando a zona euro avança ainda menos; para um país que permanece longe do rendimento e da produtividade do centro europeu, é manifestamente insuficiente.

O Governo português e Luís Montenegro congratulam-se frequentemente com taxas de crescimento que rondam 1,7%, como se cada décima fosse uma medalha olímpica conquistada contra as leis da economia.

A Comissão Europeia prevê para Portugal um crescimento real de 1,7% em 2026 e 1,8% em 2027. É superior ao previsto para a zona euro em 2026, cerca de 0,9%, mas fica abaixo dos 2,4% previstos para Espanha. Portanto, Montenegro pode subir ao púlpito e anunciar que Portugal cresce mais do que a média europeia. Também um caracol rápido ultrapassa um caracol cansado. O problema é descobrir quando chega ao destino.

Crescer acima da média não significa convergir

Portugal parte de um nível de rendimento por habitante bastante inferior ao das economias mais ricas. Para recuperar esse atraso, não basta crescer algumas décimas acima de uma Europa quase estagnada. É necessário manter, durante muitos anos, um diferencial de crescimento significativo, sustentado por produtividade, investimento tecnológico, empresas exportadoras e salários reais.

O próprio Fundo Monetário Internacional concluiu que a grande diferença portuguesa de PIB por habitante face às economias mais ricas da zona euro resulta sobretudo de um défice de produtividade. A OCDE estima que a produtividade portuguesa permanece cerca de 17% abaixo da sua média. Eis o elefante na sala, calmamente ignorado enquanto o Governo inaugura mais uma conferência sobre competitividade.

O crescimento português continua demasiado dependente de:

  • consumo interno;
  • turismo;
  • imobiliário;
  • imigração para aumentar a população activa;
  • fundos europeus e execução temporária do PRR;
  • actividades de baixo e médio valor acrescentado.

Nada disto é inútil. Mas não constitui, por si só, uma estratégia de desenvolvimento. A OCDE reconhece que os fundos do PRR impulsionam temporariamente o investimento e o FMI alerta para a redução significativa do investimento público quando terminarem os projectos financiados pelo Mecanismo de Recuperação e Resiliência, ainda que os fundos de coesão possam amortecer parte da queda.

A contabilidade não substitui a economia real

Também importa separar prudência orçamental de propaganda.

Portugal apresentou em 2025 um excedente orçamental de 0,7% do PIB e a dívida pública continuou a descer. Isso é positivo e não deve ser desvalorizado apenas porque o Governo o celebra com a modéstia de um imperador romano regressado da Gália.

Mas os números agregados escondem movimentos menos festivos. O Conselho das Finanças Públicas assinalou que a despesa primária financiada por recursos nacionais cresceu 5,8% em termos nominais em 2025, ou 6,4% considerando determinadas medidas discricionárias, acima do limite recomendado de 5%. Também identificou medidas temporárias, efeitos do PRR e alterações de despesa que influenciam a leitura entre anos.

Isso não prova, por si só, manipulação ilegal. Demonstra apenas que uma fotografia orçamental pode ser cuidadosamente iluminada até parecer uma pintura renascentista.

Portugal tem condições para muito mais

Portugal possui quase todas as matérias-primas necessárias para realizar um salto de desenvolvimento:

  • estabilidade democrática e integração europeia;
  • boa produção científica;
  • engenheiros e técnicos competentes;
  • energia renovável;
  • posição atlântica privilegiada;
  • portos, cabos submarinos e ligação a vários continentes;
  • diáspora empresarial e científica;
  • sectores sólidos na indústria, saúde, aeroespacial, software, moldes, electrónica e engenharia;
  • acesso ao mercado único europeu e a financiamento comunitário.

O que falta não é talento. Falta densidade estratégica.

Portugal precisaria de escolher algumas grandes prioridades nacionais e mantê-las durante quinze ou vinte anos, em vez de reconstruir o país a cada mudança de ministro. Uma verdadeira estratégia teria de incluir energia competitiva para a indústria, capitalização das empresas, transferência efectiva de conhecimento das universidades, justiça económica mais rápida, ensino técnico exigente, habitação acessível, administração pública digital e apoio criterioso a sectores capazes de aumentar brutalmente o valor produzido por trabalhador.

A Comissão Europeia identifica exactamente alguns destes bloqueios: baixa inovação, inadequação de competências, obstáculos administrativos, lentidão judicial e limitações no ambiente empresarial.

Portanto, o diagnóstico está feito. O país já possui diagnósticos suficientes para pavimentar a A1 de Lisboa ao Porto com papel A4.

Falta executar.

O problema chama-se ambição governativa

Um Governo digno desse nome não deveria congratular-se com previsões de 1,7%. Deveria apresentar uma estratégia credível para elevar progressivamente o crescimento potencial acima de 2,5%, aproximar a produtividade da média europeia, aumentar o investimento empresarial em investigação e duplicar a presença de empresas portuguesas nas cadeias tecnológicas internacionais.

Não através de metas inventadas para a próxima campanha eleitoral, mas por meio de políticas avaliadas anualmente, com responsáveis identificados e resultados públicos.

Portugal não precisa de promessas de enriquecimento instantâneo nem de mais um plano estratégico com fotografias de jovens sorridentes diante de turbinas eólicas. Precisa de uma governação capaz de ligar educação, ciência, tecnologia, indústria, energia, financiamento e território.

O país não está condenado a ser a periferia solarenga da Europa, fornecendo turismo, mão-de-obra barata e imóveis a quem possui rendimentos estrangeiros.

Tem capacidade para ser uma economia industrial, tecnológica e atlântica moderna. Mas isso exige governantes que não confundam equilíbrio contabilístico com desenvolvimento, nem crescimento acima de uma Europa parada com verdadeiro sucesso nacional.

Celebrar 1,7% é administrar a sobrevivência.
Governar seria preparar Portugal para crescer, produzir e viver como um dos países mais desenvolvidos da Europa.

Nota editorial

Esta crónica é um texto de opinião e interpretação política de Francisco Gonçalves. Os valores económicos citados baseiam-se nas previsões da Primavera de 2026 da Comissão Europeia, no Inquérito Económico da OCDE sobre Portugal, na consulta de 2026 do Fundo Monetário Internacional, nos documentos do Semestre Europeu e na análise do Conselho das Finanças Públicas.

Previsões económicas são estimativas condicionadas por informação e pressupostos disponíveis numa determinada data e podem ser revistas. As expressões “truques contabilísticos”, “propaganda” e outras formulações críticas pertencem ao domínio da opinião editorial; não constituem alegações de fraude ou ilegalidade. A tese central é normativa: Portugal dispõe de recursos humanos, científicos, tecnológicos e geoestratégicos que justificam uma ambição de desenvolvimento muito superior à simples celebração de taxas de crescimento inferiores a 2%.

Referências e leituras internacionais

  1. Comissão Europeia, Economic forecast for Portugal, 21 de Maio de 2026. Previsões de crescimento, inflação, desemprego, saldo orçamental e dívida pública. Consultar publicação.
  2. Comissão Europeia, Spring 2026 Economic Forecast: Slowdown in growth as energy shock drives up inflation, 21 de Maio de 2026. Enquadramento das previsões para a União Europeia e para a zona euro. Consultar publicação.
  3. Comissão Europeia, Economic forecast for Spain, 21 de Maio de 2026. Comparação com a trajectória de crescimento da economia espanhola. Consultar publicação.
  4. OCDE, OECD Economic Surveys: Portugal 2026, 6 de Janeiro de 2026. Produtividade, estrutura empresarial, inovação, competências e eficiência da despesa pública. Consultar publicação.
  5. Fundo Monetário Internacional, IMF Executive Board Concludes 2026 Article IV Consultation with Portugal, 24 de Junho de 2026. Recomendações sobre produtividade, inovação, crescimento empresarial, educação e integração europeia. Consultar publicação.
  6. Fundo Monetário Internacional, Ippei Shibata, Portugal’s Productivity Gap vis-à-vis Europe and the United States: A Firm-Level Analysis, 17 de Julho de 2026. Análise do défice de produtividade, escala empresarial, capital de risco e dinamismo das empresas portuguesas. Consultar publicação.
  7. Comissão Europeia, European Semester 2026: Portugal. Síntese dos desafios em inovação, competências, burocracia, justiça, energia, habitação e saúde. Consultar publicação.
  8. Eurostat, Purchasing power parities and GDP per capita – preliminary estimate for 2025. Comparação do PIB por habitante em padrões de poder de compra na União Europeia. Consultar publicação.
  9. Conselho das Finanças Públicas, Parecer relativo ao Relatório Anual de Progresso 2026, 30 de Abril de 2026. Análise da trajectória da despesa líquida e da despesa primária financiada por fundos nacionais. Consultar publicação.

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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