As Alterações Climáticas, os Profetas e a Preguiça Mental
BOX DE FACTOS
- O clima da Terra nunca foi imutável: houve glaciações, períodos interglaciares e variações naturais ao longo de milhões de anos.
- Isso não anula o facto científico central: as actividades humanas, sobretudo as emissões de gases com efeito de estufa, aqueceram inequivocamente o planeta nas últimas décadas.
- Segundo a Agência Internacional de Energia, as emissões globais de CO₂ relacionadas com energia atingiram novo máximo em 2024: cerca de 37,8 gigatoneladas.
- Segundo a NOAA, o nível médio global do mar subiu cerca de 21 a 24 cm desde 1880, com aceleração nas últimas décadas.
- A questão climática deve ser tratada como problema civilizacional de prevenção, adaptação, engenharia, energia e território — não como religião apocalíptica nem como anestesia negacionista.
O Clima, os Profetas e a Preguiça Mental
Crónica sobre ciência, ideologia, medo, prevenção e o velho hábito humano de transformar conhecimento em catecismo.
Aquilo que começou, em parte, como uma interrogação pertinente e necessária, com figuras públicas como Al Gore a levarem o tema das alterações climáticas para o centro da conversa pública, transformou-se hoje, demasiadas vezes, numa espécie de ideologia de pensamento único.
E aqui convém começar com cuidado, para que os sacerdotes dos dois extremos não saltem imediatamente do altar. Não se trata de negar a ciência. Pelo contrário. Trata-se de a defender da sua própria caricatura pública.
Há alterações climáticas. Há aquecimento global. Há efeito de estufa agravado pela queima massiva de combustíveis fósseis. Há poluição atmosférica. Há subida do nível médio dos oceanos. Há extremos meteorológicos mais frequentes em várias regiões. Há impactos reais sobre agricultura, água, florestas, saúde pública, zonas costeiras, cidades e infra-estruturas.
Mas também há outra coisa: há oportunismo. Há propaganda. Há preguiça mental. Há imprensa dita credível a misturar ciência com fantasia, estatística com superstição, relatório técnico com catecismo de fim do mundo. E há uma multidão de comentadores, activistas, consultores e novos profetas que descobriram que o medo é uma energia renovável: nunca se esgota, vende bem e exige pouca profundidade intelectual.
Entre a ciência e a liturgia
A ciência climática séria é uma construção difícil, vasta, interdisciplinar e probabilística. Trabalha com física atmosférica, oceanografia, paleoclimatologia, estatística, satélites, gelo polar, modelos computacionais, séries históricas, química, dinâmica dos fluidos e medições globais.
Não cabe numa manchete. Não cabe num grito. Não cabe num cartaz pintado à pressa. E também não cabe na frase preguiçosa: “o clima sempre mudou, portanto não se passa nada”.
Sim, o clima sempre mudou. A Terra teve períodos de gelo e de degelo. Houve glaciações, recuos de gelo, alterações orbitais, variações solares, vulcanismo, deslocações de continentes e transformações profundas da atmosfera. O planeta nunca foi uma peça de museu protegida por vidro.
Mas o facto de o clima ter mudado naturalmente no passado não prova que a pressão humana actual seja irrelevante. Isso seria o equivalente intelectual a dizer que, como sempre houve incêndios naturais, então deitar gasolina numa floresta não altera nada. Altera. E bastante.
O ponto essencial está na escala, no ritmo e na causa. Desde a revolução industrial, a humanidade queimou em poucos séculos uma quantidade imensa de carbono fóssil acumulado durante milhões de anos. Carvão, petróleo e gás natural alimentaram fábricas, navios, aviões, automóveis, centrais eléctricas, indústria pesada, aquecimento, agricultura industrial, produção química e uma civilização inteira baseada em energia abundante.
O resultado foi extraordinário e terrível ao mesmo tempo. Tivemos progresso, mobilidade, medicina moderna, electricidade, telecomunicações, produção em massa, conforto e crescimento económico. Mas também injectámos na atmosfera gases capazes de reter calor, degradámos ecossistemas, poluímos ar e água, e construímos cidades como se o território fosse uma folha em branco sem memória geológica.
A palavra “emergência” e a infantilização do cidadão
Detesto a expressão “emergência climática” quando é usada como arma psicológica apontada ao coração dos cidadãos. Não porque o problema seja pequeno, mas porque uma sociedade madura não deve ser governada por pânico permanente.
A palavra “emergência” tem utilidade quando há fogo, inundação, guerra, colapso iminente ou necessidade de acção imediata. Mas quando tudo passa a ser emergência, nada é verdadeiramente planeado. A emergência contínua transforma-se em método de governo, desculpa para decisões mal discutidas, instrumento moral para calar dúvidas e oportunidade de negócio para os bem instalados.
O clima não se resolve com histeria litúrgica. Resolve-se com ciência, engenharia, energia, urbanismo, agricultura inteligente, redes eléctricas robustas, caminhos-de-ferro, planeamento costeiro, armazenamento, eficiência, inovação industrial, educação pública e instituições capazes.
O medo pode tocar a campainha. Mas não desenha barragens, não moderniza redes, não protege dunas, não reorganiza transportes, não isola casas, não electrifica indústrias, não cria baterias melhores, não constrói ferrovia, não reforma o ordenamento do território e não substitui uma política energética por gritos de boa consciência.
Uma coisa é dizer: temos um problema grave que exige transição energética e adaptação. Outra, muito diferente, é dizer: o mundo acaba amanhã, portanto calem-se, obedeçam e paguem.
A primeira frase pertence à razão. A segunda pertence à manipulação.
Mais informação, menos entendimento
Vivemos uma ironia cruel: nunca houve tanta informação científica disponível e nunca tanta gente se sentiu tão incapaz de a compreender.
Há relatórios, gráficos, bases de dados, satélites, medições globais, painéis internacionais, universidades, centros de investigação, revistas científicas e visualizações interactivas. Em teoria, o cidadão informado nunca esteve tão bem servido.
Na prática, porém, a informação tornou-se uma floresta densa. O cidadão comum entra nela e encontra siglas, modelos, intervalos de confiança, cenários, ppm, gigatoneladas, anomalias térmicas, forçamentos radiativos, trajectórias de emissões e probabilidades. Passados cinco minutos, aparece sempre alguém de megafone na mão a oferecer uma tradução simples: ou “vamos todos morrer”, ou “é tudo mentira”.
E assim a ciência, que deveria iluminar, é muitas vezes substituída por alquimia mediática. Os jornais publicam artigos que misturam avanços científicos com dramatizações quase fantásticas. Os activistas reduzem incertezas a slogans. Os negacionistas pegam numa incerteza legítima e transformam-na em prova de inexistência. Os oportunistas farejam subsídios, consultoria, mercados de carbono, virtude pública e carreiras.
No meio disto tudo, a razão fica como uma professora cansada numa sala cheia de alunos aos berros.
O problema físico é real
O Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas afirma que as actividades humanas, sobretudo através das emissões de gases com efeito de estufa, causaram inequivocamente o aquecimento global, com a temperatura média global a atingir cerca de 1,1°C acima dos níveis de 1850-1900 no período 2011-2020.
A NASA resume o quadro de evidência: temperatura global em subida, oceanos mais quentes, gelo em retracção, glaciares em recuo, cobertura de neve em diminuição e nível médio do mar em ascensão.
A Agência Internacional de Energia indicou que as emissões de CO₂ relacionadas com energia aumentaram em 2024 e atingiram novo máximo histórico, cerca de 37,8 gigatoneladas. Isto não é poesia activista. É contabilidade energética.
A NOAA estima que o nível médio global do mar subiu cerca de 21 a 24 centímetros desde 1880, com aceleração nas últimas décadas. A Organização Meteorológica Mundial prevê que, entre 2026 e 2030, a temperatura média global anual possa continuar perto de níveis recorde, com probabilidade elevada de pelo menos um ano ultrapassar temporariamente 1,5°C acima da média pré-industrial.
Estes dados não exigem pânico religioso. Exigem lucidez. E a lucidez é mais difícil do que o pânico, porque obriga a escolher prioridades, pagar custos, enfrentar interesses e abandonar ilusões confortáveis.
A costa: onde a negligência foi morar com vista para o mar
Há um ponto que revela bem a hipocrisia civilizacional desta matéria: o nível dos oceanos.
Há mais de sessenta anos que se sabe que o nível médio do mar estava a subir. Não com a velocidade de um tsunami, mas com a persistência implacável de uma factura que chega todos os meses. Ainda assim, políticos, autarquias, promotores imobiliários, investidores e cidadãos continuaram a construir cidades, hotéis, estradas, marinas, urbanizações, infra-estruturas críticas e equipamentos públicos junto à costa como se o mar fosse uma decoração obediente.
O mar nunca assinou esse contrato.
Agora, quando a erosão costeira se torna visível, quando há galgamentos, quando as tempestades têm impactos maiores, quando as seguradoras começam a fazer contas e quando as obras de protecção custam milhões, descobre-se a “emergência”.
Mas a emergência, muitas vezes, é apenas o nome que damos à prevenção que não fizemos.
Uma civilização madura teria perguntado há décadas: onde se pode construir? Onde se deve recuar? Que zonas devem ser protegidas? Que infra-estruturas são críticas? Que cidades costeiras precisam de planos de adaptação? Que seguros fazem sentido? Que regras urbanísticas devem impedir a estupidez com vista para o oceano?
Em vez disso, preferimos a velha fórmula: construir primeiro, fazer discursos depois, pedir fundos no fim.
Transição energética não é penitência: é engenharia de futuro
A transição energética não devia ser apresentada como castigo moral, nem como sermão contra a vida moderna. Devia ser apresentada como aquilo que é: uma transformação técnica, económica e civilizacional.
A humanidade precisa de energia. Muita energia. Energia para hospitais, indústria, transportes, habitação, saneamento, agricultura, telecomunicações, computação, dessalinização, ciência, investigação, defesa, cultura e qualidade de vida. Fingir que a solução passa por empobrecer todos em nome de uma pureza ecológica abstracta é infantil.
A questão não é voltar à vela, ao burro e ao candeeiro de petróleo — embora alguns pareçam secretamente nostálgicos de uma Idade Média com painéis solares decorativos. A questão é produzir energia de forma mais limpa, mais segura, mais abundante, mais resiliente e menos dependente de combustíveis fósseis.
Solar, eólica, hídrica, nuclear onde fizer sentido, armazenamento, redes inteligentes, eficiência energética, hidrogénio em aplicações adequadas, biometano, geotermia, electrificação selectiva, captura de carbono em sectores difíceis, reindustrialização limpa e investigação em novas tecnologias: isto é transição. O resto é teatro.
E aqui há uma verdade desconfortável: não basta instalar renováveis e proclamar virtude. É preciso estabilidade de rede, capacidade de reserva, armazenamento, interligações, planeamento de procura, indústria capaz, matérias-primas, licenciamento sério, manutenção, formação técnica e contas honestas.
A energia não obedece a slogans. Obedece à física.
A imprensa entre o esclarecimento e o espectáculo
A imprensa tem aqui uma responsabilidade enorme. Quando comunica ciência, não pode comportar-se como se estivesse a narrar uma novela meteorológica.
Nem cada dia quente prova o fim do mundo. Nem cada dia frio desmente o aquecimento global. Nem cada tempestade é automaticamente “causada” pelas alterações climáticas. Nem cada modelo é profecia. Nem cada incerteza é falsidade.
O jornalismo sério deveria ajudar os cidadãos a distinguir clima de tempo, tendência de episódio, risco de certeza, cenário de previsão, correlação de causalidade, adaptação de resignação, mitigação de moralismo.
Mas a imprensa contemporânea vive demasiado da urgência emocional. Precisa de cliques, drama, conflito, indignação e medo. Uma manchete sóbria não corre; uma manchete apocalíptica cavalga.
Depois admiram-se que o cidadão desconfie. Quando se grita todos os dias “última oportunidade”, “ponto sem retorno”, “fim iminente”, “catástrofe final”, a linguagem perde valor. O alarme permanente transforma-se em ruído de fundo. E quando há um perigo verdadeiro, já ninguém sabe distinguir o sino da buzina.
Nem tribo climática, nem tribo fóssil
Há duas tribos particularmente cansativas neste debate.
A primeira é a tribo climática apocalíptica. Para ela, tudo confirma o fim, toda a discordância é crime moral, toda a complexidade é sabotagem, toda a dúvida é negacionismo. Esta tribo não quer debate: quer confissão pública.
A segunda é a tribo fóssil anestesiada. Para ela, nada se passa, tudo é invenção, os cientistas estão comprados, os dados são propaganda e qualquer transição energética é conspiração. Esta tribo também não quer debate: quer dormir descansada dentro de um motor a gasóleo.
Ambas empobrecem a inteligência pública. Uma transforma ciência em religião. A outra transforma ignorância em resistência.
Entre as duas há um caminho mais difícil: reconhecer a realidade física do problema, rejeitar o pânico como método, combater o oportunismo, exigir planeamento, defender inovação, proteger os cidadãos vulneráveis, preparar o território e fazer uma transição energética com cabeça.
Esse caminho não dá tão bons cartazes. Mas talvez dê melhor futuro.
Prevenção: a palavra que devia ter chegado antes da emergência
A prevenção é uma virtude silenciosa. Não dá grandes discursos, não rende fotografias dramáticas, não permite a pose heróica de quem chega tarde com capacete e conferência de imprensa.
Mas é a prevenção que salva. A prevenção planeia bacias hidrográficas, protege solos, ordena florestas, evita construção em leitos de cheia, gere água, reforça hospitais, adapta escolas, protege idosos do calor, moderniza redes eléctricas, cria redundância, prepara bombeiros, melhora alertas, revê normas de construção, protege zonas costeiras e educa cidadãos.
A emergência aparece quando a prevenção falhou, foi ignorada ou perdeu eleições.
Portugal conhece bem esta tragédia. Temos talento quase artístico para transformar problemas previsíveis em dramas inevitáveis. Construímos onde não devíamos, abandonámos caminhos-de-ferro, deixámos arder florestas, concentrámos população no litoral, degradámos serviços públicos, fizemos urbanismo de ocasião e depois olhámos para o céu como se a culpa viesse sempre das nuvens.
Não vem. Muitas vezes vem da nossa mediocridade organizada.
A ciência deve iluminar, não governar por medo
A ciência não é um parlamento. Não decide valores, prioridades sociais ou distribuição de custos. A ciência informa. Mede. Modela. Estima. Corrige-se. Reduz ignorância. Mostra riscos.
A política deve decidir com base nessa informação, mas também com base em justiça social, liberdade, economia, soberania energética, coesão territorial, capacidade tecnológica e protecção dos mais frágeis.
Quando a política se esconde atrás da frase “a ciência diz”, está muitas vezes a fugir à responsabilidade democrática. A ciência pode dizer que há risco. Mas decidir quem paga, como se adapta, que tecnologias se escolhem, que prazos se impõem, que sectores se protegem e que sacrifícios são aceitáveis é matéria política.
Confundir ciência com governo tecnocrático é perigoso. Confundir democracia com gritaria ignorante também.
Precisamos de uma cultura pública capaz de aceitar a ciência sem a transformar em religião, e capaz de discutir política sem cuspir nos factos.
Epílogo: o clima não precisa de profetas
O clima não precisa de profetas. Precisa de meteorologistas, físicos, engenheiros, urbanistas, agricultores, economistas, médicos, técnicos, programadores, decisores honestos e cidadãos informados.
Também não precisa de apocalipses em horário nobre. Precisa de continuidade, prudência, investimento, adaptação e prevenção.
A humanidade não deve tratar as alterações climáticas como uma seita de culpa, nem como uma conspiração inventada por burocratas internacionais. Deve tratá-las como aquilo que são: um problema civilizacional real, agravado por uma economia fóssil gigantesca, por urbanismo irresponsável, por desigualdades globais, por interesses instalados e por uma comunicação pública frequentemente histérica.
O planeta não vai acabar amanhã. Mas isso não nos autoriza a continuar como ontem.
A transição terá de ser feita. Não por penitência. Não por moda. Não por obediência a profetas. Mas porque uma civilização inteligente não insiste eternamente em queimar o passado geológico para alimentar o presente, deixando ao futuro a factura, a inundação e o sermão.
A verdadeira escolha não é entre apocalipse e negação.
A verdadeira escolha é entre inteligência preventiva e estupidez tardia.
O medo grita. A ciência mede. A prevenção constrói.
E talvez seja por isso que a palavra mais séria de todo este debate não seja “emergência”.
É responsabilidade.
REFERÊNCIAS INTERNACIONAIS CONSULTADAS
-
IPCC — AR6 Synthesis Report, Summary for Policymakers
Declarações principais sobre aquecimento global, emissões de gases com efeito de estufa, impactos observados e riscos futuros.
https://www.ipcc.ch/report/ar6/syr/resources/spm-headline-statements/ -
NASA — Evidence: Climate Change
Síntese de evidências observacionais: temperatura global, oceanos, gelo, glaciares, neve e subida do nível do mar.
https://science.nasa.gov/climate-change/evidence/ -
NOAA Climate.gov — Climate Change: Global Sea Level
Dados sobre subida do nível médio global do mar desde 1880 e aceleração recente.
https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/climate-change-global-sea-level -
International Energy Agency — Global Energy Review 2025: CO₂ Emissions
Dados sobre emissões globais de CO₂ relacionadas com energia em 2024, combustíveis fósseis e tendências regionais.
https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2025/co2-emissions -
World Meteorological Organization — Global Annual to Decadal Climate Update 2026-2035
Projecções para 2026-2030, incluindo probabilidade de anos temporariamente acima de 1,5°C face à média pré-industrial.
https://wmo.int/resources/publication-series/wmo-global-annual-decadal-climate-update/global-annual-decadal-climate-update-2026-2035 -
UNEP — Emissions Gap Report 2025
Avaliação sobre lacuna entre compromissos climáticos, trajectórias de emissões e riscos associados a diferentes níveis de aquecimento.
https://www.unep.org/resources/emissions-gap-report-2025
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
Crónica escrita em diálogo com Augustus Veritas, sobre ciência, alterações climáticas, medo público, prevenção e responsabilidade civilizacional.


