Ser Português: a arte antiga de sobreviver ao próprio país
Ser Português: a arte antiga de sobreviver ao próprio país
Uma crónica sobre a verdade, a mudança e este estranho país que continua a chamar destino àquilo que tantas vezes foi apenas falta de coragem.
Ser português é nascer com uma espécie de nevoeiro dentro do peito. Não é tristeza pura, nem orgulho inteiro. É uma mistura estranha de saudade, desconfiança, paciência e cansaço histórico, como se cada criança viesse ao mundo já com uma repartição pública pendurada no destino.
Somos um povo que aprendeu a sobreviver antes de aprender a transformar. Talvez por isso admiremos tanto os que resistem e desconfiemos tanto dos que querem mudar. O português respeita o sofrimento como se fosse uma certidão de autenticidade. Quem sofre em silêncio é digno. Quem denuncia, incomoda. Quem propõe, ameaça. Quem pensa diferente, “arma-se em esperto”.
Pequena tragédia nacional: confundimos muitas vezes humildade com submissão, prudência com medo, e realismo com desistência.
Ser português é viver entre duas pátrias: a pátria gloriosa dos discursos e a pátria cansada das filas. A primeira aparece nas cerimónias, nos hinos, nos painéis de azulejo, nas frases sobre os Descobrimentos, nos brindes oficiais e nas comemorações com políticos alinhados como móveis antigos. A segunda está nos hospitais à espera, nas escolas remendadas, nos salários curtos, nas reformas apertadas, nas aldeias abandonadas, nos jovens que fazem as malas, nos velhos que contam moedas, nos contribuintes que pagam tudo e nos poderosos que explicam tudo sem nunca responder por nada.
Portugal gosta muito de se lembrar do mar. Talvez porque o mar não exige actas, nem concursos públicos, nem pareceres jurídicos. O mar foi a nossa fuga, a nossa grande metáfora, o nosso espelho azul. Mas há muito tempo que deixámos de navegar para passar a aguardar.
Aguardar fundos europeus. Aguardar reformas. Aguardar governos. Aguardar que alguém resolva. Aguardar que a vida melhore. Aguardar que a próxima geração faça o que a anterior adiou.
Portugal não é pobre por falta de inteligência; é pobre por falta de coragem organizada.
E, no entanto, somos inteligentes. Terrivelmente inteligentes. O português desenrasca-se com uma criatividade quase criminosa, no bom e no mau sentido. Faz muito com pouco, inventa soluções, adapta-se, aprende depressa, trabalha bem quando lhe dão condições e brilha lá fora com uma regularidade que devia envergonhar quem o desperdiça cá dentro.
O problema é esse: Portugal exporta talento e importa desculpas.
Somos um país onde há sempre explicações para o atraso. A culpa é da Europa, do passado, da crise, da Troika, da pandemia, da guerra, dos mercados, dos patrões, dos trabalhadores, dos impostos, da burocracia, dos sindicatos, dos ricos, dos pobres, dos outros.
Nunca é da nossa cobardia colectiva. Nunca é deste pacto mole entre elites sem visão e povo sem confiança. Um casamento infeliz, mas duradouro. Como muitos casamentos, mantém-se não por amor, mas por hábito e medo da mudança.
O império do “não vale a pena”
Ser português é também viver sob o império do “não vale a pena”. Essa frase devia estar gravada em muitas fachadas institucionais, talvez em pedra, para honrar a tradição.
“Não vale a pena reclamar.” “Não vale a pena tentar.” “Não vale a pena mexer.” “Não vale a pena dizer.”
E assim, enquanto não vale a pena, vale tudo para quem sabe usar o sistema. Os espertos prosperam. Os sérios cansam-se. Os melhores emigram. Os medíocres fazem carreira. Uma arquitectura delicada de decadência, construída com recibo verde, carimbo e sorriso falso.
Mas a pior pobreza de Portugal não é apenas económica. É moral. É a pobreza de ambição. A pobreza de exigência. A pobreza de verdade. Há muita gente boa neste país, mas há pouca coragem colectiva para dizer basta.
Somos capazes de indignações intensas, mas breves. Ardemos nas redes sociais durante dois dias e depois voltamos à rotina, como se a indignação fosse uma vacina suficiente contra a injustiça. Não é. É só febre.
A verdade como escândalo
Há em Portugal uma relação estranha com a verdade. Dizemos que a queremos, mas muitas vezes só a aceitamos se não nos alterar a vida. Queremos justiça, mas sem desconforto. Queremos mudança, mas sem conflito. Queremos modernidade, mas com velhos privilégios intactos. Queremos mérito, mas desconfiamos de quem se destaca. Queremos transparência, mas pedimos “jeitinho” quando nos convém.
Somos um povo que odeia a corrupção em abstracto e tolera pequenas corrupções em concreto. Depois espantamo-nos com o resultado, como quem planta silvas e espera vinhas.
A verdade assusta porque obriga a agir. A mudança assusta porque tira conforto. E muitos portugueses, pobres incluídos, foram domesticados para preferir uma miséria conhecida a uma liberdade incerta.
É trágico. Mas também compreensível. Quem viveu sempre com pouco tem medo de perder o pouco. O problema começa quando esse medo passa a ser moral nacional.
A verdade, em Portugal, raramente é combatida por ser falsa. É combatida por ser inconveniente.
A ternura que ainda nos salva
Ainda assim, ser português não é apenas isto. Não pode ser apenas isto.
Ser português é também uma ternura antiga. É uma mesa posta mesmo quando há pouco. É a vizinha que ajuda. É o café onde se sabe o nome de toda a gente. É o homem que arranja uma máquina velha com arame e paciência. É a mulher que sustenta a família com uma força que nenhuma estatística mede. É o avô que conta histórias. É a mãe que poupa para os filhos. É o trabalhador que levanta cedo e não aparece nos debates televisivos, essa feira de vaidades onde se fala muito do povo sem nunca lhe pedir licença.
Ser português é ter uma língua que sabe chorar sem cair no ridículo. Uma língua com palavras como saudade, madrugada, abrigo, silêncio. Uma língua que transporta séculos de perda e beleza. Talvez por isso nos custe tanto abandonar a melancolia: ela é quase uma forma de pertença.
Mas uma coisa é memória. Outra é prisão.
Sobreviver não é projecto nacional
Portugal precisa de deixar de ser apenas um país que resiste. Resistir foi nobre. Resistir salvou-nos muitas vezes. Mas resistir não chega. Sobreviver não é projecto nacional. Desenrascar não é estratégia. Aguardar não é futuro.
Ser português, hoje, devia ser ter a coragem de amar o país sem lhe desculpar os vícios. Amar Portugal não é aplaudir bandeiras em dias de futebol e calar a mediocridade nos restantes. Amar Portugal é exigir melhores escolas, melhor justiça, melhor saúde, melhor economia, melhor administração pública, melhor ética política, melhor imprensa, melhores empresas, melhores cidadãos.
Sim, também melhores cidadãos. Porque a democracia não é um serviço de entrega ao domicílio. Dá trabalho, esse conceito aparentemente ofensivo.
Talvez o verdadeiro patriotismo português esteja ainda por nascer. Não o patriotismo de peito inchado e memória selectiva. Mas um patriotismo adulto, lúcido, impaciente. Um patriotismo que diga: este país é nosso. Não dos partidos, não dos escritórios, não dos donos disto tudo, não dos oportunistas, não dos resignados.
Nosso.
E se é nosso, então não temos o direito de o deixar apodrecer com elegância.
O futuro não virá buscar-nos a casa
Ser português é carregar um país difícil no sangue. Mas talvez seja também isso que nos dá alguma beleza. Somos feitos de contradições, derrotas, ternuras, ironias, naufrágios e recomeços. Temos dentro de nós tanto cansaço como possibilidade.
O problema é que Portugal ainda vive como se o futuro fosse uma coisa que acontece aos outros.
E talvez esteja na hora de lhe dizer, sem pedir desculpa:
O futuro não virá buscar-nos a casa.
Ou o construímos, ou continuaremos sentados à janela, a ver partir os melhores, a ouvir discursos dos piores, e a chamar destino àquilo que foi apenas falta de coragem.
Nota editorial: esta crónica não nasce do desprezo por Portugal, mas precisamente do contrário. Só se critica assim um país quando se nasce dentro dele e ainda se acredita que ele podia ser mais do que a soma dos seus medos, dos seus vícios e das suas desculpas.
Uma crónica de :
Francisco Gonçalves
para Fragmentos do Caos (2026)


