Democracia e Sociedade

A Sociedade dos Imbecis: Quando a Leitura Morre e o Algoritmo Pensa por Nós

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BOX DE FACTOS

  • O PISA 2022 atribuiu a Portugal 477 pontos em literacia de leitura, ligeiramente acima da média da OCDE, mas com quebra face a ciclos anteriores.
  • Segundo o IAVE, 76,9% dos alunos portugueses atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura.
  • Estudos recentes sobre hábitos de leitura indicam que há portugueses que continuam a ler livros, mas isso não resolve, por si só, o problema da leitura profunda, demorada e crítica.
  • O ICAD indicou que, entre jovens de 18 anos, a maioria usou a internet durante 4 horas ou mais por dia; 9 a 10 em cada 10 usaram redes sociais online.
  • Dados citados pela CIG assinalaram que 32,5% dos jovens inquiridos sentiam ansiedade quando não tinham o telemóvel.
  • A OCDE define literacia de leitura como a capacidade de compreender, usar e reflectir sobre textos escritos para alcançar objectivos, desenvolver conhecimento e participar na sociedade.

A Sociedade dos Imbecis: Quando a Leitura Morre e o Algoritmo Pensa por Nós

Sem leitura atenta, demorada e exigente, a voragem das redes sociais vai substituindo pensamento por reacção, memória por estímulo, conhecimento por opinião e cidadania por espectáculo.

Há hoje um défice de leitura profunda na população portuguesa, sobretudo entre os mais jovens. Não se trata apenas de contar livros comprados, páginas abertas ou textos percorridos com os olhos. Trata-se de perceber se ainda existe, no interior da sociedade, a capacidade de ler com atenção, de permanecer dentro de uma ideia, de atravessar uma argumentação longa, de suportar a dúvida e de construir pensamento antes de emitir opinião.

A leitura não é apenas uma competência escolar. É uma disciplina interior. É uma forma de organizar o silêncio dentro da mente. Lê-se para saber, sim, mas também para aprender a esperar, comparar, desconfiar, distinguir, imaginar e resistir. Um povo que lê pouco pode continuar a falar muito. Pode comentar tudo. Pode indignar-se todos os dias. Pode partilhar frases, vídeos, escândalos, suspeitas e certezas. Mas vai perdendo a capacidade de pensar em profundidade.

E quando uma sociedade deixa de pensar em profundidade, não fica apenas menos culta. Fica mais manipulável.

É aqui que começa a sociedade dos imbecis. Não por incapacidade natural das pessoas, mas por imbecilização organizada do ambiente mental. Uma sociedade onde o pensamento é substituído pelo impulso, a reflexão pela reacção, a leitura pelo deslizar infinito do dedo no ecrã, e a cidadania por uma sucessão de espasmos emocionais administrados por algoritmos. Um triunfo técnico da estupidez funcional, naturalmente apresentado como conectividade, participação e modernidade. A humanidade nunca perde uma oportunidade de dar nomes elegantes às suas próprias quedas.

Ler não é apenas decifrar palavras

A escola ensinou-nos, pelo menos em princípio, a decifrar palavras. Mas ler verdadeiramente é muito mais do que decifrar. Ler é entrar numa arquitectura de sentido. É seguir uma linha de pensamento. É aceitar que uma ideia se desenvolve no tempo, exige paciência, impõe resistência ao imediatismo e obriga o leitor a sair do seu conforto mental.

A OCDE define a literacia de leitura como a capacidade de compreender, usar e reflectir sobre textos escritos para alcançar objectivos, desenvolver conhecimento e participar na sociedade. Esta definição é importante porque liga a leitura à cidadania. Quem lê mal participa pior. Quem compreende mal escolhe pior. Quem não sabe interpretar textos complexos torna-se presa fácil de discursos simples, promessas fáceis e manipulações grosseiras.

O PISA 2022 mostrou que Portugal obteve 477 pontos em literacia de leitura, ligeiramente acima da média da OCDE. Também mostrou, segundo dados do IAVE, que 76,9% dos alunos portugueses alcançaram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura. Estes números não autorizam um pessimismo preguiçoso. Portugal não está num deserto absoluto de literacia. Mas também não autorizam euforia. A tendência de quebra face a ciclos anteriores e o empobrecimento da atenção levantam uma questão mais funda: não basta saber ler tecnicamente; é preciso continuar a saber pensar a partir da leitura.

A diferença é decisiva. Pode haver jovens capazes de ler um enunciado, responder a um teste e, ainda assim, incapazes de permanecer vinte minutos dentro de um texto exigente sem sentir a mão procurar o telemóvel como quem procura oxigénio. A leitura formal sobrevive; a leitura profunda recua. A superfície mantém-se; a profundidade rarefaz-se.

O telemóvel como máquina de dispersão

O telemóvel é talvez a mais brilhante e perigosa extensão do corpo humano moderno. Pôs o mundo no bolso, mas também pôs a atenção humana em saldo permanente. A cada notificação, a mente é chamada para fora de si. A cada vídeo curto, aprende a esperar recompensa imediata. A cada comentário, aprende a reagir antes de compreender. A cada escândalo, aprende a esquecer o escândalo anterior.

O ICAD indicou, no estudo sobre jovens de 18 anos e utilização da internet, que 9 a 10 em cada 10 usaram redes sociais online e que a maioria usou a internet durante 4 horas ou mais por dia. Estes dados não significam automaticamente decadência intelectual. A internet também permite estudar, pesquisar, aprender e criar. Seria absurdo negar isso. O problema é que a arquitectura dominante das redes sociais não foi desenhada para formar cidadãos lúcidos. Foi desenhada para capturar atenção, prolongar permanência, estimular reacções e converter comportamento humano em dados, influência e receita.

A economia digital descobriu uma verdade antiga: a atenção é poder. Quem controla a atenção controla a agenda mental. Quem controla a agenda mental condiciona a opinião. Quem condiciona a opinião pode moldar sociedades inteiras sem precisar de censura clássica. Basta inundar. Basta acelerar. Basta fragmentar. Basta transformar tudo em espectáculo.

O resultado é uma mente pública saturada, nervosa, cansada, reactiva e superficial. Uma multidão de pessoas permanentemente informadas e raramente esclarecidas. Um prodígio civilizacional: nunca tivemos tanto acesso à informação e talvez nunca tenhamos desperdiçado tanto a possibilidade de compreender.

Da opinião ao reflexo

Uma das grandes derrotas do nosso tempo é a substituição da opinião pelo reflexo. A opinião exige tempo. Exige leitura, comparação, dúvida, memória, alguma humildade e a capacidade de reconhecer que o mundo não cabe numa frase curta. O reflexo dispensa tudo isso. Basta ver, sentir, reagir e publicar.

As redes sociais não criaram a superficialidade humana. Essa nobre tradição acompanha-nos desde as cavernas, provavelmente logo após o primeiro hominídeo ter criticado a parede pintada pelo vizinho. Mas as redes deram-lhe escala, velocidade e recompensa. Hoje, a frase apressada vence o argumento. A indignação vence a análise. O insulto vence a subtileza. A certeza vence a pergunta. O ruído vence a leitura.

A sociedade dos imbecis nasce quando a reacção passa a parecer pensamento. Quando repetir slogans passa por consciência política. Quando partilhar indignações pré-fabricadas passa por participação cívica. Quando a complexidade é tratada como suspeita e a simplicidade brutal como autenticidade.

É uma inversão perigosa. A democracia exige cidadãos capazes de pensar contra o impulso. Mas a cultura digital treina o impulso como se fosse virtude. A política exige memória. Mas as redes vivem da sucessão infinita de presentes. A cidadania exige juízo. Mas os algoritmos premiam emoção intensa, conflito e tribalização.

A morte lenta da atenção

A atenção é uma das faculdades mais civilizadoras da mente humana. Sem atenção não há estudo sério, leitura profunda, escuta verdadeira, amizade exigente, pensamento filosófico, ciência rigorosa ou democracia deliberativa. A atenção é o lugar onde a inteligência encontra o tempo.

Quando a atenção se fragmenta, a inteligência não desaparece, mas perde profundidade. Torna-se mais nervosa, mais impaciente, mais dependente de estímulo. A pessoa já não habita a ideia; visita-a. Já não lê; percorre. Já não escuta; espera a sua vez de reagir. Já não pensa; posiciona-se.

A leitura profunda é precisamente o contrário desta fragmentação. Um livro obriga-nos a aceitar uma temporalidade diferente. Não pisca, não vibra, não suplica, não nos oferece um vídeo a seguir. Um livro não tenta agradar-nos a cada cinco segundos. Um livro exige de nós uma forma de fidelidade mental. Por isso mesmo é revolucionário numa época que transforma a atenção em mercadoria.

Recuperar a leitura é recuperar soberania interior. É voltar a possuir a própria mente por períodos mais longos. É recusar que cada minuto de consciência seja colonizado por notificações, publicidade, micro-escândalos e guerras emocionais fabricadas para consumo rápido.

A escola entre o livro e o ecrã

A escola portuguesa enfrenta aqui uma batalha decisiva. Durante décadas, falou-se muito de modernização, competências digitais, equipamentos, plataformas, quadros interactivos, tablets e ambientes virtuais. Tudo isso pode ter utilidade. Mas nenhuma tecnologia substitui a formação profunda da leitura, da escrita, da argumentação, da memória e do pensamento crítico.

Uma escola que abdica da leitura exigente em nome da facilidade está a trair os seus alunos. Uma escola que transforma tudo em actividade leve, projecto colorido, apresentação breve e consumo visual está a preparar jovens adaptados à superfície, não à complexidade. E o mundo que os espera é tudo menos simples.

Ensinar a ler bem é ensinar a pensar bem. Ensinar a escrever bem é ensinar a ordenar o pensamento. Ensinar literatura, filosofia, história, ciência e argumentação não é luxo humanista. É defesa civilizacional. Sem essas ferramentas, o jovem fica tecnologicamente equipado e intelectualmente vulnerável. Uma bela combinação: telemóvel topo de gama, mas espírito em modo pré-pago.

A obsessão contemporânea com “competências para o mercado” esquece muitas vezes que o mercado também precisa de pessoas capazes de interpretar, decidir, inovar, liderar e resistir à manipulação. A leitura profunda não é uma relíquia. É infra-estrutura cognitiva.

O empobrecimento da linguagem

Uma sociedade que lê pouco empobrece a linguagem. E quando a linguagem empobrece, o pensamento estreita-se. As palavras não são apenas etiquetas. São ferramentas de percepção. Quem tem poucas palavras tem menos instrumentos para distinguir nuances, nomear emoções, compreender injustiças, desmontar mentiras e formular alternativas.

O empobrecimento da linguagem é politicamente perigoso. Um povo com vocabulário reduzido torna-se mais vulnerável à propaganda. Aceita etiquetas em vez de ideias. Reage a palavras-gatilho. Confunde adversário com inimigo. Troca análise por caricatura. Perde a capacidade de distinguir entre crítica, ódio, ironia, argumento, manipulação e verdade.

É por isso que a degradação da leitura é também degradação democrática. A democracia não vive apenas de votos. Vive de palavras. Vive da possibilidade de discutir o comum com alguma precisão. Quando a linguagem pública se transforma num conjunto de grunhidos sofisticados, memes, slogans e insultos formatados, a democracia passa a funcionar como uma feira de vaidades feridas.

Não admira que os regimes autoritários, populistas ou corruptos detestem leitores exigentes. O leitor exigente é incómodo. Faz perguntas. Recorda. Compara. Desconfia da frase bonita. Procura a nota de rodapé. Pergunta quem beneficia. Não se deixa embalar tão facilmente pela música do poder.

A cidadania transformada em espectáculo

A política contemporânea aprendeu a adaptar-se à cultura das redes. Menos pensamento, mais performance. Menos programa, mais frase. Menos responsabilidade, mais imagem. Menos debate, mais guerra de clipes. O cidadão é convocado não tanto a pensar, mas a reagir. Não tanto a deliberar, mas a alinhar-se. Não tanto a participar, mas a amplificar.

A cidadania transforma-se assim em espectáculo. Cada escândalo dura até ao próximo escândalo. Cada indignação serve até à próxima indignação. Cada causa é consumida como produto emocional. A política deixa de ser construção paciente do bem comum e passa a ser gestão de percepções em tempo real.

Nesta sociedade, a ignorância já não aparece como silêncio. Aparece como ruído. A pessoa não sabe, mas comenta. Não leu, mas acusa. Não compreendeu, mas partilha. Não conhece, mas julga. É uma ignorância activa, confiante, militante e por vezes orgulhosa. A velha ignorância ainda tinha algum pudor; a nova tem conta verificada.

Este é o ponto em que a sociedade dos imbecis se torna politicamente perigosa. Não porque todos sejam imbecis, mas porque o ambiente recompensa o comportamento imbecilizante: rapidez sem reflexão, emoção sem contexto, julgamento sem conhecimento, adesão tribal sem consciência.

A solidão do leitor

O leitor profundo é hoje uma figura quase subversiva. Enquanto o mundo grita, ele recolhe-se. Enquanto o algoritmo acelera, ele abranda. Enquanto todos opinam, ele procura compreender. Parece um gesto pequeno, mas é uma forma de resistência.

Ler é recusar a tirania do imediato. É dizer: não aceito que a minha atenção seja totalmente governada pelo ruído. Não aceito que a realidade me chegue apenas em fragmentos editados para me excitar. Não aceito que pensar seja substituído por escolher campo numa guerra permanente de simplificações.

A leitura ensina uma virtude rara: a convivência com a complexidade. Um bom livro não nos dá apenas respostas; alarga a qualidade das perguntas. Faz-nos perceber que os problemas humanos são antigos, densos, contraditórios e difíceis. Ensina-nos a humildade que falta aos comentaristas instantâneos e aos donos de certezas embaladas em formato vertical.

Numa sociedade saturada de opinião, o leitor é aquele que ainda aceita ser transformado antes de falar.

O que fazer perante a imbecilização

Não basta lamentar. A lamentação é uma especialidade nacional, servida muitas vezes sem acompanhamento de acção. É preciso recuperar a leitura como política pública, como prática familiar, como exigência escolar e como disciplina pessoal.

Nas famílias, é preciso devolver presença ao livro. Não como obrigação punitiva, mas como objecto natural da casa. Crianças que crescem rodeadas de livros percebem cedo que o mundo não cabe no ecrã. Nas escolas, é preciso ler mais, escrever mais, discutir melhor, exigir argumentação e combater a facilidade que infantiliza. Nas bibliotecas, é preciso criar comunidades de leitura, debates, clubes e encontros intergeracionais. Na comunicação social, é preciso valorizar textos longos, entrevistas sérias, investigação e análise, em vez de alimentar apenas a espuma do dia.

E cada cidadão, individualmente, precisa de recuperar algum domínio sobre a sua atenção. Ler diariamente algumas páginas com concentração pode parecer pouco. Mas talvez seja uma das formas mais simples de resistência mental. Numa época que tenta transformar cada pessoa num terminal de consumo emocional, ler é um acto de soberania.

Não se trata de rejeitar a tecnologia. Seria ridículo, e a nostalgia costuma ser má conselheira, além de vestir muito mal. Trata-se de colocar a tecnologia no seu lugar. O ecrã deve servir a inteligência, não substituí-la. A rede deve ampliar o conhecimento, não esmagar a atenção. O algoritmo deve ser ferramenta, não tutor espiritual de uma humanidade distraída.

Epílogo: o povo que deixa de ler deixa de se defender

Um povo que deixa de ler profundamente deixa de se defender. Defende-se pior da mentira, da propaganda, da corrupção, da manipulação emocional, do populismo, da infantilização e da servidão voluntária. Pode continuar a votar, consumir, comentar e reclamar. Mas perde instrumentos interiores para compreender o que lhe acontece.

A leitura não salva tudo. Há leitores corruptos, leitores cruéis, leitores vaidosos e leitores perfeitamente capazes de usar grandes livros como decoração da própria arrogância. A humanidade é inventiva até na arte de desperdiçar luz. Mas sem leitura profunda, a probabilidade de uma sociedade produzir cidadãos livres, exigentes e lúcidos diminui drasticamente.

Portugal precisa de mais leitura, mas não apenas de mais livros vendidos. Precisa de mais leitores verdadeiros. Leitores capazes de atravessar ideias difíceis. Leitores capazes de resistir ao ruído. Leitores capazes de desconfiar do poder, dos slogans, dos tribalismos e até de si próprios.

Porque a democracia não morre apenas quando os poderosos abusam. Morre também quando os cidadãos já não têm instrumentos mentais para reconhecer o abuso.

Sem leitura, a sociedade torna-se mais rápida e menos sábia. Mais informada e menos lúcida. Mais conectada e mais manipulável. Mais ruidosa e mais vazia.

E quando o algoritmo pensa por nós, a sociedade dos cidadãos começa lentamente a transformar-se numa sociedade dos imbecis: não por destino, não por genética, não por fatalidade, mas por abandono da atenção, da memória, da linguagem e da leitura.

O futuro não pertencerá aos que apenas deslizam o dedo no ecrã. Pertencerá aos que ainda forem capazes de parar, ler, pensar e dizer não.

Referências usadas

Texto: Francisco Gonçalves

Co-autoria editorial e revisão crítica: Augustus Veritas / Fragmentos do Caos News Team

O futuro não pertencerá aos que apenas deslizam o dedo no ecrã. Pertencerá aos que ainda forem capazes de parar, ler, pensar e dizer não.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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