Manual Oficial do Disparate em Tempo de Calamidade
- Situação: País em calamidade real.
- Resposta oficial: Frases filosóficas sem utilidade prática.
- Unidade política de medida: 1 disparate = 1 conferência de imprensa.
- Conclusão provisória: a realidade arde mais depressa do que o Estado reage.
Manual Oficial do Disparate em Tempo de Calamidade
a frase certa dita no momento errado.
Há países que enfrentam calamidades com meios, coordenação e urgência.
Portugal enfrenta-as com algo muito mais sofisticado:declarações cuidadosamente inúteis
Não é fácil governar uma tragédia.
Mas é surpreendentemente fácil comentá-la.
E nisso, reconheçamos, o talento nacional continua intacto.
A filosofia do “não sei”
“Não sei o que se passou, é tudo muito complexo.”
Esta frase tem a elegância de uma rendição sem batalha.
Não explica, não esclarece, não promete — apenas paira, como nevoeiro administrativo.
É a primeira regra do manual: quando não souberes, transforma a ignorância em profundidade.
Dizer “não sei” é humano.
Dizer “é muito complexo” é governativo.
A empatia contabilística
“As vítimas vão ter de viver com o ordenado do mês passado.”
Aqui entramos num género novo: a poesia financeira aplicada ao sofrimento humano.
Nada traduz melhor a distância entre poder e realidade do que aconselhar estabilidade orçamental a quem acabou de perder tudo excepto… a conta bancária.
A deusa Logística, padroeira das desculpas
“Geradores europeus não fariam diferença. O problema é a logística.”
Eis a entidade mística do Estado português: invisível, omnipresente e eternamente culpada.
A logística explica tudo:
atrasos, falhas, ausências, silêncios.
É o equivalente administrativo ao destino trágico dos gregos —
mas com menos dignidade estética.
A urgência parcelada em doze prestações
“Pagaremos até 12 900 euros… ao longo de 12 meses.”
Nada simboliza melhor a relação do Estado com a emergência:
a tragédia é imediata; a resposta, faseada.
É a economia da compaixão em prestações suaves, sem juros — mas também sem pressa.
Governar ou apenas permanecer?
Por muito menos caíram governos.
Hoje, não caem — apenas se mantêm, imóveis, como estátuas administrativas colocadas no meio de um incêndio real.
Permanecer no poder deixou de ser consequência da utilidade.
Tornou-se um objectivo em si mesmo. Uma espécie de sobrevivência institucional assistida.
Epílogo — O país que virou conferência de imprensa
Talvez um dia a História olhe para este tempo e não encontre grandes decisões, nem reformas, nem coragem.
Encontrará apenas frases.
Frases ditas com gravidade, repetidas com solenidade, esquecidas com rapidez.
E na vitrine central desse museu improvável estará escrito, em letras discretas:
“Nada foi resolvido.
Mas tudo foi explicado.”
Crónica satírica para o Fragmentos do Caos — onde o humor continua a ser a última forma de lucidez.
Co-autoria humana: Francisco Gonçalves · Porque a ironia também é serviço público.


