A Internacional dos Idiotas — São Muitos, São Atrevidos e Alguns Já Têm Gabinete
Crónica satírica sobre a arrogância da ignorância, a mediocridade recompensada e a democracia que precisa de cidadãos, não de fiéis.
A grande promoção da ignorância
Durante séculos, a humanidade esforçou-se por combater a ignorância. Criou escolas, universidades, bibliotecas, laboratórios e métodos científicos. Depois inventou as redes sociais e descobriu que bastava falar com absoluta convicção para dispensar quase tudo o resto. A ignorância deixou de ser um problema a resolver. Tornou-se, em certos círculos, uma competência de liderança. O currículo ideal? Não saber, não perguntar e nunca admitir um erro. A dúvida é para os fracos; a certeza absoluta, para quem ainda não leu o manual.
O efeito Dunning-Kruger chegou à administração
Em 1999, David Dunning e Justin Kruger publicaram um estudo sobre a tendência de pessoas com fraco desempenho em certas tarefas sobrestimarem as próprias capacidades. O fenómeno foi depois popularizado, muitas vezes de forma simplista: não significa que todas as pessoas incompetentes sejam arrogantes, nem que os competentes estejam condenados à insegurança. Mas é irresistível imaginar uma repartição onde a falta de conhecimentos é compensada por um gabinete maior. O especialista apresenta evidências; o atrevido apresenta uma conferência de imprensa. Adivinhem quem aparece primeiro no telejornal.
O idiota moderno não caminha: inaugura
O idiota tradicional dizia disparates à mesa do café. O moderno dispõe de gabinete de comunicação, assessores, viatura oficial e uma apresentação PowerPoint com o título «Estratégia Transformadora 2035». Não se limita a cometer erros: inaugura-os. Quando um projeto falha, anuncia-se uma reforma. Quando a reforma falha, constitui-se um grupo de trabalho. Quando o grupo de trabalho termina, cria-se uma comissão para estudar as recomendações do grupo. E, se tudo correr mal, culpa-se o cidadão por não ter compreendido a visão estratégica.
A democracia não é uma sociedade de admiradores
Uma democracia saudável precisa de instituições robustas e de cidadãos que as possam questionar. Portugal continua classificado como país livre pela Freedom House, o que importa reconhecer. Mas essa classificação não transforma cada decisão administrativa, política ou judicial numa obra-prima. A democracia não é uma porcelana de museu que se protege proibindo perguntas. É uma prática de fiscalização permanente. Defender instituições não é canonizar titulares de cargos. E criticar o poder não é, por definição, atacar o regime. O aplauso obrigatório pertence a outros sistemas políticos, geralmente pouco recomendáveis para quem aprecia pensar pela própria cabeça.
A indústria da certeza
A informação tornou-se abundante; a atenção, escassa. Num ambiente destes, a frase mais ruidosa ganha muitas vezes à mais bem fundamentada. O relatório da OCDE sobre confiança nas instituições mostra como a perceção de não ter voz e a dúvida sobre decisões baseadas em evidências corroem a confiança pública. Entretanto, o profissional da certeza vende soluções instantâneas para problemas que não compreende. A ciência precisa de hipóteses, testes e revisão; o charlatanismo precisa apenas de um microfone com bateria.
Quando o erro não tem consequências
O problema maior não é o disparate ocasional. Todos nos enganamos. O problema começa quando os erros são recompensados, as responsabilidades se evaporam e o sistema promove quem melhor explica o fracasso sem nunca o assumir. O cidadão paga, espera, reclama e volta a pagar. O responsável declara que «foram retiradas as devidas ilações», expressão administrativa que significa, frequentemente, que ninguém viu ilação alguma. É o milagre da responsabilidade evaporativa: há sempre uma falha, mas raramente aparece o respetivo autor.

A resistência dos que ainda pensam
A solução não é substituir o debate por insultos nem declarar estúpido quem discorda de nós. Seria apenas aderir à mesma associação com outra camisola. A resposta é exigir provas, transparência, competência, contraditório e consequências proporcionais para os erros. É ensinar a perguntar «como sabes?» antes de perguntar «de que partido és?». É recuperar a humildade intelectual, essa estranha virtude de quem sabe o suficiente para reconhecer quanto ainda ignora. A democracia precisa menos de devotos e mais de cidadãos. Menos de certezas encenadas e mais de problemas efetivamente resolvidos.
Conclusão: são muitos, são atrevidos — mas não são invencíveis
Talvez os idiotas não estejam a tomar conta do mundo. Talvez tenham apenas descoberto que o mundo oferece excelentes condições acústicas à estupidez confiante. A inteligência trabalha, duvida, corrige e volta a tentar. A arrogância chega atrasada, interrompe a reunião e anuncia que já resolveu tudo. Resta-nos uma escolha: aplaudir o espetáculo ou exigir que se acendam as luzes. Porque o futuro não pertence necessariamente aos mais barulhentos. Pertence, se ainda formos a tempo, aos que recusam trocar pensamento por obediência. E, por favor, não criem uma comissão para estudar esta conclusão. Já temos comissões suficientes para perder a próxima década.
Referências e leituras internacionais
- Freedom House, Freedom in the World 2026 — Global Freedom Declined for 20th Consecutive Year
- Freedom House, Portugal: Freedom in the World 2026
- OCDE, Survey on Drivers of Trust in Public Institutions (2024)
- Kruger & Dunning (1999), Journal of Personality and Social Psychology
- International IDEA, Global State of Democracy 2026


