Senhores Governantes, um Radar Não Substitui a Coragem
Senhores Governantes, um Radar Não Substitui a Coragem
Portugal não precisa apenas de condutores que tenham medo dos radares. Precisa de condutores que saibam conduzir quando não existe radar nenhum.
Nota de abertura:
A velocidade é um factor decisivo no risco e, sobretudo, na gravidade dos acidentes. Mas uma política rodoviária séria não pode confundir aquilo que é mais fácil de medir com a totalidade das causas que tornam uma estrada perigosa.
Há uma estranha tendência na governação portuguesa para confundir aquilo que é fácil de fazer com aquilo que é necessário fazer.
Quando aumenta a mortalidade nas estradas, instala-se mais um radar.
Quando há insegurança, anuncia-se mais legislação.
Quando um serviço público falha, cria-se uma comissão.
Quando um problema persiste durante décadas, muda-se-lhe o nome.
E assim vamos administrando consequências enquanto cuidadosamente evitamos as causas.
A sinistralidade rodoviária é um exemplo perfeito desta cultura política.
Portugal tem mortes nas estradas. Muitas. Demasiadas.
E logo surge a solução politicamente confortável: mais radares.
Não porque a velocidade não seja importante. É. Uma colisão a maior velocidade produz inevitavelmente consequências muito mais graves. Controlar velocidades excessivas é uma obrigação de qualquer política de segurança rodoviária séria.
Mas reduzir o problema das estradas portuguesas à velocidade é intelectualmente pobre e politicamente conveniente.
Porque um radar consegue medir quilómetros por hora.
Não consegue medir estupidez.
Não consegue medir agressividade.
Não consegue medir distracção.
Não consegue medir civismo.
Não consegue medir competência.
E, infelizmente, é precisamente aí que reside uma enorme parte do problema.
O condutor perfeito para o radar
Imaginemos um cidadão a circular a 89 quilómetros por hora numa estrada onde o limite é 90.
O radar felicita-o silenciosamente.
Nesse mesmo instante, o homem pode estar com o telemóvel na mão, a dois metros do automóvel da frente, mudar de faixa sem sinalizar, ultrapassar numa curva e considerar que uma rotunda é uma espécie de torneio medieval onde ganha quem entrar primeiro.
Mas está a 89.
Para a máquina, está tudo bem.
É este o absurdo de uma política de segurança rodoviária excessivamente dependente da fiscalização automática.
Fiscalizamos aquilo que as máquinas conseguem medir e começamos lentamente a comportar-nos como se aquilo que não conseguimos automatizar não existisse.
Só que existe.
E mata.
Um radar mede velocidade. Não mede a qualidade do comportamento de quem conduz.
A estrada portuguesa é um retrato do nosso civismo
Quem conduz regularmente em Portugal conhece o catálogo.
O automóvel colado à traseira do veículo da frente.
O condutor que muda de faixa sem indicar a manobra.
O telemóvel junto ao volante.
A ultrapassagem feita porque esperar trinta segundos parece constituir uma intolerável agressão à liberdade individual.
A entrada numa rotunda como se todos os restantes veículos fossem obstáculos colocados pelo Estado.
O sinal STOP transformado em vaga recomendação administrativa.
O amarelo do semáforo interpretado como ordem para acelerar.
O peão encarado como criatura inconveniente que apareceu misteriosamente numa passadeira.
E depois existe aquele extraordinário comportamento nacional de circular a uma distância de segurança que permitiria, quando muito, travar uma bicicleta.
Nada disto é resolvido colocando mais uma caixa metálica na berma da estrada.
Resolve-se com fiscalização presente, educação, formação, responsabilidade e cultura cívica.
Palavras bastante menos fotogénicas numa conferência de imprensa.
Conduzir não é apenas saber movimentar um automóvel
Existe ainda um tema praticamente proibido na discussão pública: nem todas as pessoas conduzem bem.
Possuir uma carta de condução não constitui certificação vitalícia de competência.
Uma pessoa pode ter realizado um exame aos 18 anos e continuar legalmente habilitada várias décadas depois, apesar de entretanto poderem ter mudado os seus reflexos, visão, capacidade de atenção, estado de saúde, medicação ou simplesmente os seus hábitos de condução.
Outros condutores nunca desenvolveram verdadeira capacidade de antecipação.
Sabem mudar de velocidade.
Sabem estacionar.
Sabem fazer arrancar um automóvel.
Mas conduzir é muito mais do que operar uma máquina.
É perceber que aquele veículo à frente pode travar.
Que aquela criança junto ao passeio pode atravessar.
Que aquele motociclista ocupa pouco espaço visual mas continua a ser um ser humano.
Que à chuva 80 quilómetros por hora podem ser perigosíssimos numa estrada onde legalmente se poderia circular a 90.
Isto chama-se condução defensiva.
E devia ocupar muito mais espaço na formação rodoviária portuguesa.
Depois existe o telemóvel
Talvez uma das maiores transformações no risco rodoviário das últimas décadas esteja permanentemente à vista.
Literalmente.
Dentro do automóvel.
Telemóveis.
Mensagens.
Redes sociais.
Notificações.
Navegação.
Conversas.
Há condutores que atravessam uma cidade inteira alternando a atenção entre a estrada e um pequeno rectângulo luminoso.
E continuamos a discutir a segurança rodoviária como se estivéssemos em 1985.
Um condutor distraído durante dois ou três segundos percorre dezenas de metros praticamente sem observar a estrada.
Pode cumprir rigorosamente o limite de velocidade.
Pode passar por todos os radares do país.
Continua a ser perigosíssimo.
O QUE DEVE SER RETIDO
- A velocidade é um factor fundamental de risco e de gravidade.
- A distracção, incluindo o uso do telemóvel, aumenta significativamente o risco de colisão.
- Álcool, fadiga, condução agressiva, incumprimento das regras e deficiências da infra-estrutura também contam.
- A segurança rodoviária exige medidas combinadas, não uma única ferramenta de fiscalização.
O problema chama-se coragem política
É aqui que chegamos ao incómodo essencial.
Governar verdadeiramente a segurança rodoviária obrigaria a tomar medidas muito menos populares.
Seria necessário colocar novamente fiscalização humana suficiente nas estradas.
Fiscalizar seriamente telemóveis.
Controlar distâncias de segurança.
Combater condução agressiva.
Avaliar melhor álcool e drogas.
Rever formação de condutores.
Introduzir mais formação em condução defensiva.
Identificar pontos negros e corrigir estradas mal concebidas.
Rever sinalizações absurdas.
Analisar individualmente as causas dos acidentes mortais.
Estudar se determinados condutores mantêm efectivamente condições para conduzir.
E sobretudo fazer aquilo que governos detestam fazer:
Dizer aos cidadãos que também têm responsabilidades.
Porque durante décadas fomos construindo uma cultura política onde o cidadão é simultaneamente eleitor, contribuinte, consumidor e criatura que nunca deve ser demasiado incomodada.
É mais fácil instalar um radar.
O radar não protesta.
Não vota.
Não aparece na televisão.
Não exige agentes policiais.
E ainda produz receita.
Uma maravilha administrativa.
Queremos saber por que morrem as pessoas
Cada acidente mortal deveria ser tratado como uma fonte de conhecimento.
Não basta publicar um número de mortos.
Precisamos de saber porquê.
Quantos acidentes envolveram excesso de velocidade?
Quantos velocidade inadequada às condições?
Quantos álcool?
Quantos drogas?
Quantos telemóveis?
Quantos fadiga?
Quantos ultrapassagens perigosas?
Quantos desrespeitos pela prioridade?
Quantos erros de infra-estrutura?
Quantos veículos em más condições?
Quantos condutores sem capacidade adequada?
E, sobretudo, quantos resultaram da combinação de vários destes factores?
Sem conhecer profundamente as causas, qualquer política é parcialmente construída às cegas.
Segurança rodoviária não é caça à multa
Existe também uma questão essencial de legitimidade.
Um cidadão aceita melhor fiscalização quando percebe que ela existe para protegê-lo.
Um radar colocado num local de elevada sinistralidade faz sentido.
Um radar associado a uma escola faz sentido.
Controlo de velocidade numa zona urbana onde circulam peões faz todo o sentido.
Mas quando o cidadão começa a desconfiar de que determinada fiscalização serve sobretudo para produzir contra-ordenações, destrói-se algo muito importante:
a confiança.
E sem confiança não existe política pública eficaz.
A segurança rodoviária não deve ser uma guerra entre Estado e automobilistas.
Deve ser uma aliança entre ambos contra comportamentos perigosos.
Governar é mexer nas causas
Senhores governantes,
instalem radares onde eles forem necessários.
Mas tenham a coragem de fazer o resto.
Tenham a coragem de dizer que conduzir com um telemóvel na mão é socialmente inaceitável.
Tenham a coragem de fiscalizar quem conduz agressivamente.
Tenham a coragem de exigir competência.
Tenham a coragem de reformar a formação rodoviária.
Tenham a coragem de colocar agentes nas estradas.
Tenham a coragem de corrigir infra-estruturas.
Tenham a coragem de publicar os dados completos.
Tenham, finalmente, a coragem de tratar cidadãos como adultos responsáveis pelos seus actos.
Porque uma sociedade civilizada não é aquela onde todos obedecem quando existe uma câmara.
É aquela onde as pessoas respeitam uma passadeira mesmo quando ninguém está a observar.
Respeitam a distância de segurança mesmo quando não existe polícia.
Não pegam no telefone mesmo quando sabem que não serão multadas.
Reduzem a velocidade quando começa a chover mesmo que o sinal continue a permitir 90 quilómetros por hora.
Isso não se chama medo da autoridade.
Chama-se civismo.
E talvez seja precisamente esse o problema mais difícil de todos.
Porque radares compram-se.
Leis publicam-se.
Coimas imprimem-se.
Civismo constrói-se.
E construir civismo exige tempo, educação, coerência e exemplo.
Quatro coisas que não cabem facilmente num anúncio de Governo.
Mas são justamente aquilo de que Portugal precisa.
Nota Editorial
Esta crónica não contesta a utilidade do controlo de velocidade. A evidência internacional demonstra que a velocidade influencia fortemente o risco e, sobretudo, a gravidade das colisões.
O argumento é outro: uma política pública de segurança rodoviária não pode reduzir um problema sistémico a uma única variável apenas porque é a mais simples de fiscalizar automaticamente.
A abordagem contemporânea de segurança rodoviária considera simultaneamente o comportamento humano, a velocidade, o álcool, a distracção, os sistemas de retenção, os veículos, a infra-estrutura e a resposta após o acidente. Segurança eficaz exige dados, fiscalização inteligente, desenho rodoviário seguro, formação, responsabilidade individual e capacidade política para intervir onde as causas realmente estão.
Referências credíveis
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Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) — Informação institucional, campanhas e sinistralidade rodoviária
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Comissão Europeia / European Road Safety Observatory — Key Performance Indicators
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European Road Safety Observatory — Focus on Driver Distraction
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Organização Mundial da Saúde — Road traffic injuries
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International Transport Forum / OECD — The Safe System approach
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Comissão Europeia / European Road Safety Observatory — Thematic Reports
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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