O 25 de Abril e os festejos da hipocrisia nacional
📷 A festa na AR — enquanto o país arde, os políticos aplaudem-se uns aos outros e chamam-lhe “democracia”.
25 de Abril: 52 anos depois, os políticos festejam — os portugueses sobrevivem
Uma crítica implacável à hipocrisia do poder. Enquanto a Assembleia da República se enche de cravos e discursos vazios, o povo enterra-se em salários de miséria, emigração forçada e serviços públicos de vergonha.
Hoje é dia de festa na Assembleia da República. Os políticos vestem a gravata, colocam o cravo na lapela, entoam o Grândola com lágrima de emoção ensaiada. Discursam sobre liberdade, democracia, conquistas de Abril. Aplaudem-se, abraçam-se, e no final vão para o café da esquina comentar a performance uns dos outros. É o ritual anual. É o teatro do 25 de Abril.
E os portugueses? Os portugueses, esses, têm pouco para comemorar. 52 anos depois da revolução que prometeu “dar o pão a quem tem fome”, o pão encolheu. A liberdade conquistada em 1974 transformou-se, para a maioria, na liberdade de escolher entre um salário baixo e nenhum salário. Entre emigrar ou viver numa casita alugada até morrer. Entre esperar 12 horas por uma vaga nas urgências ou morrer em casa.
Os políticos celebram o espírito de Abril. Mas o espírito de Abril, se hoje encarnasse num cidadão comum, atirava-lhes os cravos à cara. E tinha razão.
🎬 “Portugal: 50 anos de abril, mas e agora?” — um retrato desconfortável do país que a política não quer mostrar.
O que há para comemorar, afinal?
Vamos por partes — sem cravos, sem hinos, sem retórica. Apenas factos.
💰 Salários que envergonham a Europa
O salário médio em Portugal ronda os 1.400 euros brutos — o que, descontado, dá pouco mais de 1.000 euros líquidos. Com este dinheiro, um casal jovem não aluga um T1 em Lisboa ou no Porto sem gastar mais de metade do ordenado. Os políticos recebem (por decisão própria) quase 5.000 euros líquidos por mês + ajudas de custo + despesas de representação + reformas douradas. E ainda se queixam que são mal pagos. A diferença é obscena. E eles sabem.
✈️ A emigração como política de Estado
Um dos “sucessos” silenciosos do Portugal democrático: exportamos jovens aos milhares. Enfermeiros, engenheiros, professores, programadores, operários qualificados. Formamos gente durante 20 anos, pagamos com os impostos de quem fica, e depois eles vão para França, Suíça, Reino Unido, Luxemburgo. Quem fica? Os velhos e os resignados. Os políticos aplaudem as “comunidades portuguesas no estrangeiro” como se fosse uma conquista. Não é. É uma sangria. É o fracasso de um país que não consegue dar futuro aos seus filhos.
🏚️ Habitação: um direito transformado em privilégio
A geração de Abril lutou por casa própria, digna, a preço justo. A geração de hoje vê-se obrigada a viver em quartos partilhados até aos 40 anos. Ou a voltar para casa dos pais — o chamado “ninho vazio”. Os políticos prometeram, prometeram, prometeram. E o preço das casas não parou de subir. Porque muitos deles são senhorios ou têm negócios imobiliários. Conflito de interesses? Que conflito? Isto é Portugal, amigo. Aqui a ética é um conceito abstrato.
🏥 SNS: de orgulho nacional a valeta da morte
O Serviço Nacional de Saúde, uma das maiores conquistas do 25 de Abril, está em coma profundo. Urgências fecham. Listas de espera de meses para cirurgias. Médicos e enfermeiros a emigrar ou a fazer greve. Os políticos prometem “reforços” e “investimentos” que nunca chegam. E enquanto isso, as suas famílias vão a hospitais privados, pagos com subsídios de saúde que eles próprios votaram. Hipocrisia pura e dura.
Os políticos festejam. O povo desconfia.
Assista ao noticiário. Veja as imagens da Assembleia. O primeiro-ministro discursa emocionado sobre os valores de Abril. O líder da oposição aplaude, depois critica, depois também discursa. Os partidos à esquerda acusam a direita de ter traído Abril. A direita responde que a esquerda o transformou num negócio. E assim se sucedem os anos, os discursos, as promessas. E o país continua na mesma — ou pior.
A taxa de abstenção nas legislativas tem subido. Os mais jovens nem sequer se dão ao trabalho de votar. Não porque sejam “desinteressados” — mas porque aprenderam que o voto não muda nada. Que os políticos, uma vez eleitos, ignoram as promessas e tratam dos seus próprios negócios. Que o 25 de Abril, na prática, foi entregue aos “gestores da democracia” — uma casta que se perpetua no poder, rodando cadeiras entre si, enquanto o povo definha.
O que Abril exigiria, se fosse vivo
Se os capitães de Abril voltassem hoje, reconheceriam o país que libertaram? Talvez sim, em parte: já não há PIDE, há liberdade de imprensa, há eleições. Mas também veriam uma nação acorrentada por outra ditadura — a ditadura do dinheiro, da especulação, da precariedade e da indiferença política. E provavelmente pegariam nas armas outra vez. Não contra tanques, mas contra bancos, contra fundos imobiliários, contra a União Europeia dos mercados, contra a ganância legalizada.
Abril não foi feito para termos direito a votar de 4 em 4 anos num sistema que nos ignora. Abril foi feito para dar poder ao povo — poder real, não simbólico. E esse poder, hoje, é quase nulo.
Até que estas coisas aconteçam, o 25 de Abril será um feriado hipócrita. Um dia em que os políticos se vestem de revolucionários, colocam o cravo na lapela, e depois voltam a governar exatamente como antes — a servir os interesses de quem os financia, não do povo que supostamente os elegeu.
O povo português não precisa de cravos. Precisa de salários. Precisa de habitação. Precisa de SNS. Precisa de justiça. Precisa de políticos que tenham vergonha de ostentar a liberdade enquanto vendem o país aos especuladores.
Abril foi um grito. 52 anos depois, o grito transformou-se em sussurro. E os políticos gostam assim — porque um povo que sussurra não lhes tira o sono. Mas os sussurros, um dia, voltam a engrossar. E quando isso acontecer, as gravatas e os cravos não os protegerão. Nenhuma assembleia resiste a um povo que acordou.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


