Democracia e Sociedade

Quando a Opinião Pública Condena Quem Resiste e Absolve Quem Mata

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BOX DE FACTOS

  • Israel enfrenta organizações terroristas como o Hamas e o Hezbollah, ambas inseridas numa rede regional de influência iraniana.
  • A crítica legítima a decisões do Governo israelita não deve transformar-se em negação do direito de Israel existir e defender-se.
  • A pressão pública ocidental sobre Israel tem vindo a crescer, frequentemente sem distinguir governo, Estado, população civil e povo judeu.
  • A mesma lógica de fadiga moral pode, no futuro, atingir a Ucrânia, favorecendo a narrativa russa.
  • O Ocidente parece cada vez mais vulnerável à guerra de percepção, à manipulação emocional e à inversão entre agressor e vítima.

Quando a Opinião Pública Condena Quem Resiste e Absolve Quem Mata

Há um momento perigoso na vida das democracias: quando a compaixão se transforma em cegueira, quando a indignação se torna espectáculo, e quando a opinião pública já não procura compreender a realidade, mas apenas encontrar um culpado fácil para aliviar a consciência.

A comunidade internacional, a opinião pública, muitos comentadores, a ONU e, agora, vários governos ocidentais parecem ter entrado numa espécie de tribunal emocional permanente contra Israel. Primeiro julga-se, depois condena-se, e só no fim, se houver tempo entre duas indignações televisivas, talvez se tente perceber a complexidade da realidade. Um método brilhante, como quase tudo o que nasce da combinação entre redes sociais, diplomacia performativa e memória histórica de peixe ornamental.

As narrativas são nobres. Falam de paz, de direitos humanos, de protecção dos civis, de legalidade internacional e de sofrimento palestiniano. Tudo isso importa. Seria moralmente monstruoso ignorar a dor dos civis em Gaza, a destruição, a fome, o medo e a humilhação de uma população encurralada entre a brutalidade da guerra e a tirania dos próprios grupos armados que dizem defendê-la.

Mas a realidade objectiva não desaparece só porque incomoda a sensibilidade dos salões europeus. Israel está a lutar contra organizações terroristas. O Hamas não é uma associação cultural de bairro com problemas de comunicação. O Hezbollah não é um grupo de escuteiros com excesso de entusiasmo geopolítico. São estruturas armadas, ideológicas, profundamente militarizadas, que operam numa lógica de destruição, intimidação e guerra prolongada.

A Confusão Moral como Arma

O perigo começa quando a crítica legítima a decisões concretas do Governo israelita passa a ser convertida numa condenação global de Israel enquanto Estado. Uma coisa é discutir operações militares, proporcionalidade, colonatos, violência de colonos, erros estratégicos ou responsabilidades políticas. Outra, muito diferente, é dissolver tudo numa narrativa onde Israel surge como agressor absoluto e os seus inimigos como meras expressões desesperadas de resistência.

Essa simplificação é moralmente preguiçosa e politicamente perigosa. Porque quando se apaga a natureza terrorista do Hamas e do Hezbollah, quando se esquece o papel do Irão na alimentação desses conflitos, quando se reduz tudo a uma imagem de opressor e oprimido, abre-se a porta à legitimação indirecta da barbárie.

E os terrorismos sabem ler a fraqueza do Ocidente. Não precisam que Paris, Londres, Bruxelas ou Nova Iorque emitam comunicados a legalizá-los formalmente. Basta-lhes que a opinião pública transforme os seus actos em contexto, em reacção, em desespero, em “resistência”. A linguagem, essa velha ferramenta humana que tanto serve para iluminar como para envenenar, passa então a funcionar como escudo semântico da violência.

O Irão e a Estratégia da Paciência

O Irão percebe bem este mecanismo. A sua estratégia regional não depende apenas de mísseis, drones, milícias ou influência religiosa. Depende também da erosão moral do Ocidente. Depende de fazer com que as democracias se cansem de defender aliados, se envergonhem da sua própria força e confundam prudência com cobardia.

O objectivo não é apenas derrotar Israel militarmente. É isolá-lo politicamente. É transformar o direito de defesa numa suspeita. É fazer com que cada resposta israelita, mesmo quando dirigida contra estruturas terroristas, seja apresentada como prova de culpa absoluta. E quanto mais a opinião pública ocidental embarca nessa leitura simplificada, mais força recebem os grupos que vivem precisamente da guerra, do martírio fabricado e da propaganda.

O Ocidente parece não perceber que, perante movimentos totalitários, a hesitação moral raramente produz paz. Produz espaço. Espaço para a reorganização, para o rearmamento, para a intimidação e para a repetição da violência. Naturalmente, depois todos ficam espantados. O espanto é a grande indústria renovável das democracias cansadas.

A Ucrânia Pode Ser a Próxima Vítima da Fadiga Moral

O mesmo padrão pode repetir-se com a Ucrânia. Primeiro veio a solidariedade. Depois a comoção. Depois as bandeiras nas fachadas. Depois a inflação, o cansaço, as eleições, os comentadores prudentes, os diplomatas de sofá e os especialistas em rendição elegante. Não tardará muito até se ouvir, com cada vez mais insistência, que talvez a Ucrânia deva “ser realista”, que talvez deva ceder território, que talvez a paz seja mais importante do que a justiça.

E assim, pouco a pouco, a vítima começa a ser tratada como inconveniente. A Rússia invade, destrói, deporta, bombardeia, ocupa e mente. Mas, com o passar do tempo, a pergunta pública deixa de ser “como travamos o agressor?” e passa a ser “até quando teremos de continuar a ajudar a vítima?”. É uma inversão moral quase perfeita. Cobarde, mas perfeita.

A propaganda russa não precisa de convencer todos de que Moscovo tem razão. Precisa apenas de convencer muitos de que ninguém tem razão. Quando tudo parece confuso, quando tudo parece discutível, quando a verdade parece apenas mais uma opinião, o agressor ganha tempo. E, em guerra, o tempo é território.

A Tragédia dos Civis e a Armadilha da Simetria

Nada disto significa que Israel deva estar acima da crítica. Nenhum Estado deve. Nenhum governo democrático deve receber carta branca, sobretudo em guerra. A protecção dos civis palestinianos é uma exigência moral séria. A crítica aos excessos, aos colonatos, às políticas erradas ou aos abusos deve existir. Uma democracia que não aceita crítica começa a perder o seu próprio fundamento.

Mas criticar Israel não pode significar absolver o Hamas. Defender civis palestinianos não pode significar romantizar organizações terroristas. Condenar abusos israelitas não pode implicar esquecer massacres, reféns, foguetes, túneis, escudos humanos, fanatismo religioso e ambições genocidárias. A simetria falsa é uma das formas mais elegantes da mentira.

A posição moralmente decente exige mais esforço do que um slogan. Israel tem direito a existir e a defender-se. Os palestinianos têm direito a viver livres da guerra, da ocupação, da miséria e da instrumentalização terrorista. O Hamas e o Hezbollah devem ser tratados pelo que são: organizações armadas totalitárias. O Irão deve ser entendido como potência regional que alimenta conflitos por procuração. E o Ocidente deve reaprender a distinguir compaixão de ingenuidade.

O Ocidente Contra a Sua Própria Memória

O mais inquietante não é apenas a pressão sobre Israel ou a eventual fadiga em relação à Ucrânia. É a perda mais vasta de memória estratégica. O Ocidente parece cada vez menos capaz de reconhecer padrões históricos: regimes autoritários testam limites, movimentos totalitários exploram concessões, agressores usam a linguagem da paz quando precisam de tempo, e terroristas invocam sofrimento civil enquanto o multiplicam deliberadamente.

A Europa, em particular, vive muitas vezes como se a História tivesse terminado dentro de uma conferência de imprensa. Mas a História não terminou. Está apenas a regressar com botas, drones, milícias, propaganda digital e velhos impérios disfarçados de vítimas. Enquanto isso, os governos ocidentais tentam parecer humanos, justos, equilibrados e respeitáveis. Lindo. O problema é que os inimigos da liberdade não querem parecer respeitáveis. Querem vencer.

E talvez seja esse o maior desequilíbrio do nosso tempo: as democracias querem ser admiradas; os autoritarismos querem ser temidos. As democracias querem justificar-se; os terrorismos querem paralisar. As democracias hesitam diante da complexidade; os seus inimigos simplificam tudo numa vontade de poder.

Conclusão: A Paz Não Nasce da Cegueira

A paz verdadeira não nasce da condenação automática de quem se defende, nem da absolvição sentimental de quem pratica o terror. Também não nasce da indiferença perante civis mortos, cidades destruídas ou populações esmagadas. A paz exige lucidez, coragem moral e memória histórica. Três coisas raras, portanto, quase exóticas, como honestidade em campanha eleitoral.

Se o Ocidente continuar a transformar guerras complexas em espectáculos de indignação selectiva, acabará por condenar os seus aliados, cansar-se das vítimas, normalizar os agressores e fortalecer os inimigos da liberdade. Hoje será Israel. Amanhã poderá ser a Ucrânia. Depois talvez seja Taiwan. E, quando a tempestade chegar mais perto, talvez as mesmas vozes descubram finalmente que a realidade não se compadece com narrativas confortáveis.

A Europa precisa de recuperar uma espinha dorsal moral clara: defender o povo judeu sem apagar o sofrimento palestiniano; condenar o terrorismo sem transformar a crítica política em tabu; apoiar a Ucrânia sem negociar a sua mutilação; e recordar que a memória histórica não é decoração de museu, mas instrumento de sobrevivência.

Porque quando as democracias se cansam da verdade, os tiranos nunca se cansam da mentira.

Referências e Leituras Recomendadas

Autor: Francisco Gonçalves

Co-autoria editorial e estruturação crítica: Augustus Veritas

Fragmentos do Caos — onde a lucidez ainda tenta sobreviver à espuma dos dias.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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