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Burocracia Digital: O Papel Electrificado do Século XIX

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BOX DE FACTOS

  • Portugal fala de Inteligência Artificial e transição digital
  • Os sistemas públicos continuam baseados em formulários arcaicos
  • Burocracia foi digitalizada sem reengenharia de processos
  • O cidadão é forçado a adaptar-se à máquina

A Burocracia Digital: o Papel Electrificado do Século XIX

Em plena era da Inteligência Artificial, Portugal conseguiu o feito notável de transformar
a burocracia em algo ainda mais complexa, mais opaca e mais desumana — agora em formato digital.

A burocracia, quando transportada para sistemas digitais sem mudança de mentalidade,
não se moderniza. Multiplica-se.

Antes havia balcões, funcionários, papéis e carimbos. Era lento, sim — mas humano.
Hoje temos portais, sub-portais, formulários encadeados, erros com códigos crípticos e cidadãos abandonados frente a um ecrã que não explica, não orienta, não perdoa.

Chamaram-lhe “transformação digital”. Na prática, foi apenas papel electrificado.

O Estado que tudo sabe… menos o essencial

O Estado sabe quanto ganhamos.
Sabe se atrasámos um euro.
Sabe onde gastámos, quando gastámos e quanto declaramos.

Mas não sabe que alguém morreu.

Mesmo depois do registo civil.
Mesmo depois de documentos oficiais.
Mesmo depois de cruzamentos que deveriam ser automáticos.

O cidadão é então convidado — em silêncio digital — a provar:

  • que a mãe morreu
  • que é filho da mãe
  • que a herança existe
  • que os bens já foram declarados noutra herança
  • que sabe escrever fracções no formato exacto exigido pela máquina

Tudo isto num dos momentos mais frágeis da vida humana: o luto.

Formulários do século XX, lógica do século XIX

Os sistemas informáticos do Estado português não foram concebidos para servir o cidadão.
Foram concebidos para proteger departamentos, hierarquias e irresponsabilidades acumuladas.

A tecnologia não falhou.
Falhou a concepção.

Digitalizar um mau processo não o torna bom.
Torna-o apenas mais rápido a errar.
Estamos a falar de cérebros com efeito complicometro. Foram formatados para complicar a simplificação, e em camadas sobre camadas.
Assim se explica o estado actual da digitalização em Portugal, seja no fisco, segurança social, SNS, ou outro qualquer balcão “virtual” de Portugal.

Criaram-se validações cegas, dependências circulares e formulários que exigem
ao cidadão um conhecimento jurídico e fiscal que o próprio sistema deveria abstrair.

Isto não é modernização.
É burrologia computacional.

A ironia suprema

Falamos de Inteligência Artificial.
Falamos de automação inteligente.
Falamos de futuro.

Mas exigimos que um cidadão em luto:

  • crie verbas fictícias para satisfazer validadores
  • associe manualmente beneficiários a bens
  • corrija erros com códigos opacos
  • prove ao Estado factos que o próprio Estado já conhece

Não é atraso tecnológico.
É atraso civilizacional.

Neste país, o futuro chega sempre atrasado… porque tem de preencher um formulário primeiro.

Epílogo: quando a máquina manda e o humano obedece

Um Estado verdadeiramente digital simplifica.
Anteciparia.
Guiaria.
Respeitaria.

Este limita-se a exigir.

Até lá, continuaremos com sistemas:

  • pensados por gente do século XIX
  • implementados com ferramentas do século XX
  • impostos a cidadãos do século XXI

A tecnologia existe.
A inteligência também.
O que falta é coragem para mudar o modelo.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
(Em co-autoria crítica com Augustus Veritas)
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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