Crónicas

Os fabricantes de percepções

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Os fabricantes de percepções

A nova indústria política que transforma fracassos em narrativas e cidadãos em problemas de comunicação

Portugal descobriu uma forma extraordinária de resolver problemas sem os resolver: transforma crises em percepções, fracassos em narrativas e cidadãos descontentes em casos de comunicação mal gerida. A realidade permanece no mesmo lugar; apenas recebe uma designação mais elegante.

Portugal descobriu uma maneira extraordinária de resolver os seus problemas sem precisar de os resolver.

Quando a habitação se torna inacessível, não existe uma crise. Existe uma percepção de dificuldade no acesso à habitação.

Quando as urgências fecham, não há degradação do Serviço Nacional de Saúde. Há uma narrativa de fragilidade assistencial.

Quando uma fronteira é atravessada de forma descontrolada, não ocorre uma falha do Estado. Verifica-se uma instrumentalização política de imagens susceptíveis de gerar percepções negativas.

Quando os cidadãos se revoltam, não estão necessariamente descontentes. Foram expostos a discursos simplistas, emoções colectivas e fenómenos de polarização.

A realidade, como se percebe, tem andado muito mal informada.

Felizmente, temos comentadores, politólogos, sociólogos, especialistas, activistas e representantes de organizações suficientemente esclarecidos para nos explicarem que aquilo que observámos não aconteceu exactamente da forma como julgávamos.

As nossas experiências são imperfeitas.

As deles vêm acompanhadas de bibliografia.

A lavandaria das palavras

A política contemporânea criou uma lavandaria vocabular onde os fracassos entram sujos e saem respeitáveis.

A incompetência transforma-se em complexidade.

A falta de planeamento passa a desafio estrutural.

A ausência de controlo torna-se necessidade de abordagem integrada.

A degradação social recebe o nome de percepção de insegurança.

O descontentamento popular é convertido em narrativa populista.

E o colapso de um serviço público pode sempre ser explicado como um problema de comunicação entre instituições e cidadãos.

O segredo está em nunca chamar às coisas pelo nome.

Uma fronteira sem controlo seria demasiado concreto.

Uma “realidade migratória multifactorial” já permite organizar um congresso.

Um hospital sem médicos seria embaraçoso.

Uma “reconfiguração territorial da resposta assistencial” soa quase a inovação.

Uma política que falhou é perigosa.

Uma política que não foi suficientemente explicada pode receber mais financiamento.

É assim que o vocabulário se tornou a primeira linha de defesa do poder. Antes de resolver o problema, redefine-se o problema. Depois de redefinido, talvez já nem seja necessário resolvê-lo.

O comentador como técnico de manutenção do sistema

A televisão encheu-se de especialistas cuja principal função não parece ser interpretar a realidade, mas impedir que ela danifique excessivamente a reputação das instituições.

Quando ocorre uma crise, são convocados para os estúdios. Sentam-se diante das câmaras, inclinam ligeiramente a cabeça e explicam que devemos evitar análises precipitadas.

É sempre necessário contextualizar.

Contextualizar significa, muitas vezes, afastar o acontecimento concreto até que deixe de ser visível.

Uma entrada irregular em massa pode ser dissolvida na história das migrações humanas.

Um episódio de violência pode ser integrado nas desigualdades globais.

Um serviço público degradado pode ser comparado com dificuldades semelhantes noutros países.

Uma decisão governamental desastrosa pode ser colocada no quadro das limitações europeias.

No fim da contextualização, o problema continua exactamente onde estava, mas o espectador sente-se ligeiramente culpado por o ter considerado um problema.

A técnica é engenhosa.

O cidadão chega preocupado com a segurança, a habitação, o salário ou a escola dos filhos. Sai informado de que a sua preocupação pode estar contaminada por preconceitos, simplificações e narrativas extremistas.

Não lhe resolveram a vida.

Melhoraram-lhe o diagnóstico moral.

A esquerda que deixou de ouvir

Uma parte da esquerda institucional tornou-se particularmente talentosa nesta arte.

Nasceu para representar trabalhadores, pessoas vulneráveis e comunidades esquecidas. Acabou instalada em universidades, observatórios, fundações, gabinetes, organizações subsidiadas e painéis televisivos, explicando às classes populares que as suas preocupações são intelectualmente suspeitas.

O trabalhador que vê o salário comprimido e a habitação desaparecer não compreende a complexidade económica.

A família que sente os serviços públicos saturados está a estabelecer relações causais indevidas.

O morador que testemunha degradação no bairro deve evitar discursos estigmatizantes.

O cidadão que pede controlo das fronteiras está perigosamente próximo de uma narrativa securitária.

Esta esquerda já não pergunta às pessoas o que lhes acontece.

Diz-lhes o que deveriam sentir acerca do que lhes acontece.

Deixou de representar o povo e passou a corrigi-lo.

O povo continua a pagar impostos, rendas, transportes e alimentação. Mas, para participar plenamente no debate público, precisa primeiro de frequentar um seminário sobre linguagem inclusiva, desconstrução de percepções e gestão ética da indignação.

É uma evolução admirável.

A luta de classes foi substituída pela revisão linguística das queixas apresentadas pelas classes.

A generosidade paga pelos outros

A política de salão possui uma característica particularmente cómoda: os princípios são ilimitados porque os recursos utilizados pertencem geralmente a terceiros.

Defendem-se entradas migratórias amplas, mas os alojamentos serão encontrados pelos municípios.

Promete-se integração, mas as escolas terão de criar turmas.

Anuncia-se acolhimento, mas os centros de saúde terão de absorver a procura.

Recusa-se qualquer relação entre imigração rápida e pressão habitacional, enquanto trabalhadores e famílias disputam casas cada vez mais caras.

Proclama-se solidariedade, mas são os contribuintes de rendimento médio e baixo que suportam a maior parte do esforço colectivo.

Quem defende estas políticas raramente oferece a própria casa. Nem deveria ser obrigado a fazê-lo, porque políticas públicas não podem depender de caridade doméstica.

Mas deveria, pelo menos, apresentar contas.

Quantas pessoas podem ser recebidas?

Onde serão alojadas?

Como serão identificadas?

Que recursos adicionais serão destinados a escolas, hospitais e municípios?

Que regras de integração serão exigidas?

O que acontecerá a quem não tenha direito legal a permanecer?

Quem responderá quando a capacidade anunciada for ultrapassada?

Estas perguntas costumam ser recebidas com desconforto. Não porque sejam imorais, mas porque obrigam a abandonar a poesia política e entrar na contabilidade da realidade.

E a realidade tem esse defeito desagradável: exige camas, médicos, professores, polícias, casas, dinheiro e decisões.

O humanismo sem logística

A solidariedade é uma virtude. A solidariedade sem organização pode tornar-se crueldade.

Receber pessoas sem capacidade para as alojar dignamente não é humanidade.

Permitir que sejam exploradas como mão-de-obra barata não é inclusão.

Tolerar que vivam sobrelotadas, sem contrato, sem acesso efectivo a serviços e dependentes de redes informais não é acolhimento.

É abandono administrativo apresentado como superioridade moral.

Alguns dos que mais discursam sobre protecção dos imigrantes parecem surpreendentemente tolerantes perante o modelo económico que necessita de trabalhadores vulneráveis, salários baixos e habitação sobrelotada.

O empresário obtém mão-de-obra barata.

O senhorio multiplica rendas por quarto.

O governante melhora artificialmente alguns indicadores demográficos.

O comentador conserva a sua reputação humanista.

O imigrante recebe a parte menos sofisticada do programa: trabalha, paga e tenta sobreviver.

É uma aliança curiosa entre capitalismo sem escrúpulos e progressismo sem consequências.

Um lado fornece a exploração.

O outro fornece o vocabulário.

Governar por abstracção

O problema agrava-se quando os especialistas da percepção chegam aos governos.

Entram nos ministérios com teorias, relatórios, planos transversais e modelos de governação. Descobrem então que administrar um país exige mais do que formular intenções moralmente correctas.

Os hospitais não funcionam através de narrativas.

As escolas não aumentam de capacidade por despacho.

As casas não aparecem porque o Governo aprovou uma estratégia.

As fronteiras não se controlam com campanhas de sensibilização.

A justiça não se torna mais rápida por adoptar uma nova identidade visual.

Mas a máquina política aprendeu a sobreviver aos seus próprios fracassos. Quando uma medida não funciona, cria-se uma comissão para avaliar a sua implementação.

Quando a comissão identifica problemas, recomenda-se um plano de reforço.

Quando o plano falha, contrata-se uma consultora para produzir um modelo de transformação.

Quando o modelo não produz resultados, culpa-se a complexidade, a conjuntura internacional ou a percepção pública.

O círculo fecha-se.

A incompetência já não é eliminada.

É reciclada.

Os média como fábrica de inocência

Parte da comunicação social participa activamente neste mecanismo.

Não precisa de receber ordens do Governo. Basta partilhar a mesma visão do mundo, circular pelos mesmos espaços, convidar os mesmos especialistas e utilizar o mesmo vocabulário.

Forma-se uma cultura comum entre dirigentes, comentadores, académicos, consultores e jornalistas.

Frequentam as mesmas conferências.

Citam os mesmos relatórios.

Reconhecem-se mutuamente como pessoas responsáveis e moderadas.

E tratam qualquer voz exterior ao circuito como excessiva, populista, simplista ou emocional.

O debate deixa então de confrontar ideias. Passa a seleccionar quem possui legitimidade para participar.

O cidadão que fala de experiência concreta surge como testemunho bruto.

O especialista que nunca administrou um serviço público aparece como intérprete qualificado.

Um descreve o que vive.

O outro explica por que razão essa descrição deve ser tratada com prudência.

A imprensa transforma-se assim numa espécie de alfândega da realidade. Decide quais os factos autorizados a entrar no espaço público e quais devem ser retidos para inspecção ideológica.

Factos primeiro

As percepções existem e são importantes.

Uma sociedade pode sentir mais insegurança mesmo quando alguns indicadores criminais descem.

Pode considerar que a economia piorou mesmo quando o produto interno bruto cresceu.

Pode desconfiar das instituições apesar de estas cumprirem formalmente as suas funções.

Mas a percepção não deve servir para apagar os factos. Deve ser comparada com eles.

Se os dados contradizem a percepção, é necessário explicar a diferença.

Se os dados confirmam a percepção, é necessário actuar.

O que não se pode fazer é utilizar a palavra “percepção” como sinónimo educado de ignorância popular.

A ordem correcta é simples:

Primeiro, os factos.

Depois, a análise.

Por fim, a interpretação política.

O sistema actual prefere outra sequência:

Primeiro, a narrativa.

Depois, a escolha dos factos compatíveis.

Por fim, a acusação de extremismo contra quem ainda se lembre dos restantes.

A nova aristocracia moral

Estamos a assistir ao nascimento de uma aristocracia peculiar.

Não governa pela riqueza hereditária nem por títulos de nobreza. Governa pela posse do vocabulário aceitável.

Sabe quais as palavras permitidas.

Conhece as expressões que conferem respeitabilidade.

Domina os códigos que transformam uma opinião ideológica numa análise técnica.

Pode defender políticas ruinosas sem parecer radical, desde que utilize linguagem suficientemente académica.

Pode recusar limites materiais sem parecer irresponsável, desde que invoque direitos universais.

Pode desprezar as preocupações populares sem parecer arrogante, desde que fale em combate à desinformação.

São tribos modernas vestidas de fato e gravata, protegendo o seu território institucional com palavras civilizadas e reflexos profundamente sectários.

Mudaram as pinturas de guerra por credenciais académicas.

Substituíram os tambores pelos estúdios televisivos.

Trocaram o totem por um financiamento público.

O instinto tribal permanece admiravelmente preservado.

O país sitiado pela incompetência

Portugal não vive um estado de sítio jurídico. Vive algo talvez mais persistente: um Estado sitiado pela sua incapacidade de executar.

A saúde funciona em emergência.

A habitação vive em emergência.

A justiça está permanentemente atrasada.

A escola administra carências.

As forças de segurança acumulam desgaste.

Os municípios recebem responsabilidades sem recursos suficientes.

E, sobre tudo isto, paira uma nuvem de especialistas explicando que a situação é complexa e as percepções devem ser cuidadosamente geridas.

A política deixou de premiar quem resolve problemas.

Premia quem sabe explicar por que razão o problema não poderia ter sido resolvido.

Já não se governa para produzir resultados.

Governa-se para sobreviver comunicacionalmente à ausência deles.

Quando o cidadão protesta, dizem-lhe que está mal informado.

Quando insiste, acusam-no de radicalização.

Quando vota contra o sistema, organizam uma conferência para estudar o crescimento do populismo.

Nunca ocorre perguntar se o populismo não poderá ser também a factura acumulada da arrogância institucional.

O regresso da responsabilidade

Uma democracia adulta exige mais do que boas intenções e linguagem moralmente elegante.

Exige limites, escolhas e responsabilidade.

Quem propõe uma política deve explicar os seus custos.

Quem toma uma decisão deve responder pelos resultados.

Quem defende acolhimento deve apresentar capacidade de integração.

Quem promete serviços deve garantir recursos.

Quem governa deve medir o que fez, publicar os resultados e reconhecer os fracassos.

E quem comenta deve distinguir análise de propaganda.

Não precisamos de mais fabricantes de percepções.

Precisamos de pessoas capazes de olhar para a realidade sem a cobrir imediatamente com um lençol de conceitos.

Porque a habitação não é uma narrativa.

A insegurança não é apenas uma percepção.

A saturação dos serviços não é uma construção discursiva.

E a incompetência governativa não desaparece quando um especialista a pronuncia numa linguagem mais delicada.

A realidade pode ser injusta, contraditória e desconfortável.

Mas tem uma vantagem sobre a propaganda:

No fim, acaba sempre por apresentar a conta.

Nota editorial

Esta crónica é um texto de opinião e sátira política. Critica práticas discursivas, padrões institucionais e formas de comentariado que, na perspectiva do autor, substituem demasiadas vezes a avaliação dos resultados pela gestão da narrativa pública.

As referências a sectores da esquerda institucional, aos média, a académicos, consultores e governantes não devem ser interpretadas como uma acusação indistinta contra todas as pessoas ou organizações desses universos. O pluralismo, a investigação académica, o jornalismo independente, a protecção de refugiados e a integração de migrantes são componentes legítimas de uma democracia. A crítica dirige-se à ausência de limites, planeamento, escrutínio, prestação de contas e coerência entre discurso e execução.

As fontes internacionais listadas abaixo não confirmam cada juízo retórico da crónica. Servem para enquadrar temas objectivos que lhe estão subjacentes: confiança institucional, integridade da informação, polarização, enquadramento mediático, pressão sobre sistemas migratórios, capacidade local de integração e função fiscalizadora do jornalismo.

Referências internacionais e enquadramento

  1. Reuters Institute for the Study of Journalism, Digital News Report 2026: Overview and Key Findings, 16 de Junho de 2026. O relatório descreve audiências inquietas, baixa confiança e a crescente fragmentação do ecossistema informativo, num contexto em que plataformas, criadores e meios tradicionais disputam a interpretação da realidade política. Consultar publicação.
  2. OCDE, OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2024 – Trust and Information Integrity, 10 de Julho de 2024. A OCDE relaciona confiança institucional com decisões baseadas em evidência, transparência e comunicação pública inclusiva, advertindo que o ambiente informativo dificulta a avaliação da credibilidade das mensagens. Consultar publicação.
  3. Conselho da Europa, Public Service Media in the Context of Disinformation and Propaganda, 2018. A Assembleia Parlamentar sublinha que os média de serviço público devem promover debate pluralista, participação democrática, coesão social e independência editorial. Consultar publicação.
  4. Nature – Humanities and Social Sciences Communications, Towards a Deeper Understanding of Information Manipulation: Proposing a Multilevel Framework for the Analysis of Manipulative Narratives, 2026. O estudo propõe um quadro para analisar narrativas manipuladoras, desinformação e os seus efeitos sobre a democracia, distinguindo conteúdo, actores, canais e contexto institucional. Consultar publicação.
  5. Nature – Scientific Reports, Threat and Blame Frames in Political Rhetoric about Societal Issues Lead to Neural and Political Polarization, 2026. Investigação experimental sobre a forma como enquadramentos políticos centrados em ameaça e culpa podem intensificar adesão emocional e polarização. Consultar publicação.
  6. OCDE, International Migration Outlook 2024, 14 de Novembro de 2024. O relatório assinala níveis elevados de imigração em vários países, pressão sobre sistemas de recepção, habitação e serviços públicos, bem como alterações nas políticas de asilo e integração. Consultar publicação.
  7. OCDE, Working Together for Local Integration of Migrants and Refugees, 2018. A OCDE demonstra que a integração exige coordenação entre níveis de governo, financiamento, habitação, educação, emprego, saúde e capacidade efectiva das autoridades locais. Consultar publicação.
  8. ACNUR / UNHCR, Local Integration, consulta em Julho de 2026. O ACNUR define a integração como processo jurídico, económico, social e cultural gradual, que exige políticas sustentáveis e participação das comunidades de acolhimento. Consultar publicação.
  9. Pew Research Center, Most Americans Continue to Say Media Scrutiny Keeps Politicians from Doing Things They Shouldn’t, 2 de Dezembro de 2024. O estudo recorda a função democrática indispensável da fiscalização jornalística, mesmo num ambiente de forte desconfiança e divisão partidária. Consultar publicação.


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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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