A Criança que Permanece em Nós
A Criança que Permanece em Nós
Crescer sem perder o espanto, a curiosidade e a reserva secreta de magia
Nota de abertura:
Crescer não deveria significar expulsar de nós a criança que um dia fomos. Deveria significar aprender a caminhar com ela, permitindo que a experiência do adulto proteja a sua curiosidade sem lhe apagar a luz.
Todos deveríamos conservar a criança que existe dentro de nós.
Não para permanecermos presos à infância, nem para recusarmos as responsabilidades da vida adulta, mas para impedir que o tempo nos retire aquilo que havia de mais precioso no nosso olhar: a curiosidade, o espanto, a imaginação e a capacidade de acreditar que o impossível talvez esteja apenas mal explicado.
A criança que fomos não deveria morrer quando crescemos.
Deveria apenas aprender a caminhar ao lado do adulto.
O adulto conhece os riscos, as perdas, o peso das escolhas e a fragilidade dos sonhos. A criança, porém, continua a perguntar porquê. Continua a olhar para uma nuvem e a descobrir nela um navio. Continua a acreditar que uma porta fechada pode esconder um mundo inteiro. Continua a imaginar caminhos onde os outros já aceitaram os muros.
Quando a maturidade se transforma em secura
Muitos adultos confundem maturidade com secura.
Abandonam os sonhos para parecerem responsáveis, trocam a curiosidade pela rotina e passam a chamar ingenuidade a tudo aquilo que ainda possui luz. É uma das mais estranhas proezas humanas: envelhecer o corpo e, por excesso de zelo, também envelhecer a alma.
O mundo adulto recompensa a conformidade. Ensina-nos a cumprir horários, repetir fórmulas, obedecer a procedimentos e desconfiar de tudo aquilo que não apresenta resultados imediatos.
Com o tempo, a imaginação passa a ser considerada improdutiva. O sonho só é tolerado quando pode ser convertido num plano de negócios. A contemplação torna-se perda de tempo. E o espanto vai sendo substituído por uma indiferença cuidadosamente treinada.
A criança que ainda pergunta porquê
A criança interior é aquela parte de nós que ainda não aceita o mundo apenas porque o mundo existe.
É ela que pergunta porquê quando todos já se habituaram. É ela que duvida quando a maioria repete. É ela que imagina uma solução antes de saber se possui autorização para a tentar.
É ela que encontra beleza numa estrela, numa árvore, numa música, num código elegante ou numa ideia aparentemente impossível.
Sem essa criança, a inteligência torna-se apenas cálculo. A experiência transforma-se em prudência excessiva. E a vida corre o risco de se reduzir a uma longa administração de tarefas, facturas, compromissos e dias iguais.
Viver não deveria ser apenas sobreviver com os documentos em ordem.
A imaginação como forma de resistência
Conservar a criança interior não significa fugir da realidade. Significa impedir que a realidade nos convença de que não pode ser transformada.
Toda a criação começa por uma forma de desobediência imaginativa. Alguém olha para aquilo que existe e pergunta por que razão deveria continuar assim.
Uma invenção, uma obra de arte, uma descoberta científica ou uma solução tecnológica nasce frequentemente desse gesto quase infantil: imaginar algo que ainda não existe.
Os adultos chamam-lhe risco.
A criança chama-lhe possibilidade.
Crescer sem perder o assombro
Talvez crescer de verdade seja ganhar experiência sem perder o assombro, aprender a prudência sem matar a ousadia, aceitar a realidade sem deixar de a interrogar e atravessar os anos sem permitir que o mundo apague completamente a luz com que um dia olhámos para ele.
A criança interior não exige que sejamos ingénuos. Pede apenas que não sejamos definitivamente cínicos.
Não nos obriga a acreditar em tudo. Lembra-nos apenas que ainda existem coisas dignas de serem acreditadas.
Não nos impede de conhecer a tristeza. Ajuda-nos a reconhecer a beleza apesar dela.
A reserva secreta de magia
A infância não deveria permanecer apenas como uma idade perdida.
Deveria sobreviver dentro de nós como uma reserva secreta de magia contra a pobreza do real.
Um lugar interior onde ainda somos capazes de sonhar sem pedir licença, onde a curiosidade não é uma fraqueza, onde a imaginação não precisa de justificar a sua utilidade e onde o futuro ainda não está completamente fechado.
Talvez seja essa criança que nos salva quando o mundo adulto se torna demasiado pesado.
Talvez seja ela que nos devolve a esperança depois das perdas.
E talvez seja ela que nos recorda, no silêncio dos anos, que o tempo pode envelhecer o rosto sem ter necessariamente de envelhecer a alma.
Crescer deveria ser aprender a proteger a criança que fomos, e não obrigá-la a desaparecer.
Nota Editorial
Esta reflexão não propõe uma fuga nostálgica para a infância, nem a recusa das responsabilidades adultas. Propõe algo mais exigente: conservar, ao longo da vida, a abertura mental, a curiosidade e a capacidade de imaginar futuros diferentes.
A maturidade não deveria ser medida pela quantidade de sonhos abandonados, mas pela capacidade de lhes dar forma sem lhes destruir a essência.
Num mundo que recompensa a repetição e transforma o espanto em distracção, preservar a criança interior é um gesto de liberdade. É manter acesa uma pequena luz capaz de recordar ao adulto que a realidade nunca foi definitiva.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


