A Ucrânia Não se Ajoelha
Crónica internacional · Liberdade, resistência e dignidade
A Ucrânia Não se Ajoelha
A epopeia contemporânea de um povo que enfrentou uma potência nuclear e recusou entregar ao invasor o direito de escolher o seu futuro.
Há momentos na História em que um povo deixa de ser apenas uma população inscrita num território e se transforma numa ideia universal. A Ucrânia vive um desses momentos.
Quando, na madrugada de 24 de Fevereiro de 2022, as forças russas atravessaram em grande escala as fronteiras ucranianas, Vladimir Putin não ordenou apenas uma ofensiva militar. Tentou impor pela força uma revisão da História, das fronteiras e do direito de uma nação escolher o próprio destino.
O Kremlin parecia esperar uma campanha rápida, um governo em fuga, forças armadas desorganizadas e uma sociedade resignada. Era o velho erro dos impérios: confundir superioridade material com superioridade moral e imaginar que os povos podem ser apagados com a mesma facilidade com que um burocrata altera uma linha num mapa.
Em vez da rendição, encontrou resistência.
Em vez de uma identidade frágil, encontrou uma nação.
Em vez de silêncio, encontrou milhões de vozes afirmando que a liberdade não seria entregue sem combate.
O homem que decidiu ficar
Volodymyr Zelenskyy não correspondia ao retrato tradicional de um chefe de guerra. Antigo actor e figura televisiva, chegara à Presidência sem a biografia militar, a voz de marechal ou a pose de bronze que tantos dirigentes usam para disfarçar a mediocridade.
Quando a invasão começou, podia ter abandonado Kiev. Teria encontrado justificações diplomáticas, razões de segurança e aviões disponíveis. Os governantes possuem sempre magníficos argumentos para salvar a própria pele, sobretudo quando pedem aos cidadãos que arrisquem a deles.
Zelenskyy ficou.
Essa decisão não ganhou batalhas por si só, mas ofereceu à sociedade ucraniana algo decisivo: a certeza de que o Presidente não exigiria aos outros um sacrifício do qual se afastaria à primeira explosão.
Não é necessário transformá-lo num santo político. As democracias não precisam de santos; precisam de governantes sujeitos a escrutínio, crítica e alternância. Mas naquela hora extrema, Zelenskyy esteve à altura da História. Em Julho de 2026, continua a exercer a Presidência e a representar internacionalmente a resistência ucraniana.[8]
A coragem política não consiste em pronunciar palavras grandiosas quando tudo está seguro. Começa quando permanecer tem consequências.
Um povo transformado em muralha
A resistência ucraniana não pertence apenas ao Presidente, aos generais ou aos soldados. Pertence aos médicos que continuaram a operar sob alarmes, aos bombeiros que procuraram sobreviventes entre ruínas, aos ferroviários que mantiveram comboios em circulação e aos professores que levaram a escola para abrigos subterrâneos.
Pertence às mulheres e aos homens que transportaram mantimentos, repararam redes eléctricas, produziram drones, acolheram deslocados, documentaram crimes, enterraram familiares e regressaram, no dia seguinte, à tarefa brutal de permanecer vivos.
Pertence também aos milhões de refugiados e deslocados que carregaram a Ucrânia dentro de uma mala: a fotografia resgatada, a chave de uma porta que talvez já não exista, a memória da escola dos filhos, o nome de uma rua entretanto destruída.
A ACNUR classificou esta guerra como a maior e mais rápida crise de deslocação na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Em Setembro de 2025, registava cerca de 5,75 milhões de refugiados ucranianos no mundo e 3,75 milhões de deslocados dentro do próprio país.[5]
Uma pátria, compreendemos então, não é apenas um território. É uma língua pronunciada em liberdade. É a memória partilhada. É o direito de regressar. É a recusa de permitir que o invasor escreva a identidade dos vencidos.
A violência convertida em doutrina
A Rússia de Putin entrou na Ucrânia acompanhada por uma doutrina imperial: a ideia de que a soberania ucraniana seria artificial, provisória ou dependente da autorização de Moscovo.
Todos os impérios começam por negar a identidade dos que desejam dominar. Primeiro retiram-lhes a História. Depois retiram-lhes a voz. Finalmente, tentam retirar-lhes o território.
A propaganda chama libertação à ocupação, operação à guerra e necessidade defensiva à agressão. A linguagem é ferida antes das pessoas, porque o poder autoritário necessita de destruir o sentido das palavras para poder destruir cidades sem confessar o crime.
Os mortos tornam-se «danos colaterais».
As cidades arrasadas tornam-se «alvos militares».
As crianças transferidas tornam-se «protegidas».
A invasão transforma-se, por decreto televisivo, em defesa.
O Tribunal Penal Internacional emitiu, em Março de 2023, mandados de captura contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova, considerando existirem fundamentos razoáveis relativos à deportação e transferência ilegais de crianças das áreas ocupadas da Ucrânia.[6]
Este acto judicial não substitui um julgamento nem autoriza simplificações. Mas destrói a fantasia segundo a qual se trata apenas de uma disputa geopolítica indistinta, com culpas vaporosamente distribuídas por todos para que, no fim, ninguém responda por nada.
Os civis continuam a pagar
A guerra prolongada não se tornou menos cruel. Tornou-se mais quotidiana, e é precisamente essa normalização que ameaça a consciência europeia.
A Missão de Monitorização dos Direitos Humanos das Nações Unidas verificou que Maio de 2026 foi o mês com o maior número total de civis mortos e feridos em quatro anos: pelo menos 274 mortos e 1.763 feridos. Os ataques de longo alcance, incluindo mísseis e drones, foram uma das principais causas dessas vítimas.[3]
Entre 1 de Dezembro de 2025 e 31 de Maio de 2026, o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos confirmou pelo menos 1.270 civis mortos e 6.850 feridos.[4]
O que os números não conseguem conter:
Cada unidade estatística representa uma vida interrompida, uma família destruída, uma casa abandonada ou um corpo que alguém teve de reconhecer. As tabelas são indispensáveis para documentar a guerra, mas são demasiado pequenas para transportar a dor.
A Europa diante do espelho
A guerra revelou também a fragilidade estratégica e moral da Europa. Durante anos, numerosos governos imaginaram que o comércio amansaria a tirania. Compraram energia, aprofundaram dependências e trataram a paz como uma propriedade natural do continente, não como uma construção que exige vigilância, preparação e coragem.
Quando a Ucrânia foi invadida, a Europa despertou. Mas despertou lentamente, como geralmente acontece a quem dorme confortável enquanto outros são bombardeados.
Houve apoio militar, financeiro e humanitário de enorme importância. Houve acolhimento e solidariedade genuína. Mas houve igualmente hesitações, atrasos, cálculos eleitorais e prudências estratégicas cuja factura foi paga por soldados e civis ucranianos.
Cada sistema defensivo entregue tarde chegou depois de alguém morrer. Cada sanção enfraquecida protegeu um interesse imediato. Cada discurso sobre «fadiga da guerra» esqueceu que os europeus estavam cansados de ver notícias, enquanto os ucranianos estavam cansados de enterrar familiares.
É fácil pedir negociações a quem foi invadido. Sobretudo quando a nossa casa continua intacta.
A paz é indispensável. Mas uma paz que premie a conquista territorial, legalize a deportação ou reconheça o direito do mais forte não é paz. É um intervalo oferecido ao agressor para reorganizar as forças e preparar a próxima exigência.
Em Fevereiro de 2026, a Assembleia-Geral das Nações Unidas voltou a aprovar uma resolução em defesa de uma paz duradoura, reafirmando a soberania, a independência e a integridade territorial da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas.[1]
A liberdade não é uma herança garantida
A Ucrânia recordou às democracias uma verdade que o conforto tinha começado a apagar: a liberdade não existe para sempre apenas porque foi escrita numa Constituição, gravada num monumento ou celebrada num feriado nacional.
A liberdade sobrevive porque, em cada geração, há pessoas dispostas a defendê-la quando a defesa deixa de ser um discurso e se transforma em risco.
Os ucranianos pagam esse preço com sangue, ruínas, separações, amputações, exílio e uma dor que atravessará várias gerações. Não combatem apenas por uma bandeira ou por quilómetros de território. Combatem para que nenhum império possa decidir em seu nome quem são, que língua devem falar, que governo podem escolher ou com quem se podem aliar.
A liberdade não é uma concessão do invasor nem uma moeda de troca entre grandes potências. É o direito de um povo escrever o futuro com a própria mão.
O cálculo que se voltou contra o tirano
Putin queria provar que a Ucrânia era uma construção artificial. Contribuiu para consolidar a identidade nacional que pretendia dissolver.
Queria afastar a NATO das fronteiras russas. A invasão levou a Finlândia e a Suécia, países de longa tradição de não-alinhamento militar, a pedir adesão. A Finlândia entrou na Aliança em Abril de 2023 e a Suécia em Março de 2024.[7]
Queria dividir o Ocidente. Não eliminou as divisões, porque as democracias têm o inconveniente de discutir em público, mas obrigou-as a reconhecer que a força imperial não desaparece por ser recebida em cimeiras, fotografada em palácios ou alimentada por contratos energéticos.
Queria ser lembrado como o restaurador da grandeza russa. Poderá ficar na História como o dirigente que sacrificou centenas de milhares de vidas, comprometeu o futuro económico e moral do seu país e transformou uma nação vizinha num inimigo profundo durante gerações.
É a tragédia recorrente dos tiranos: desejam construir eternidade e acabam a fabricar ruínas.
A nação que permanece de pé
Não sabemos ainda como terminará esta guerra. A História continua aberta, escrita diariamente nas trincheiras, nos hospitais, nos centros de acolhimento, nas fábricas, nas salas diplomáticas e nas casas onde alguém espera uma chamada que talvez nunca chegue.
Mas uma coisa já está decidida.
A Ucrânia não desapareceu.
Sobreviveu ao primeiro ataque, à tentativa de decapitação política, à ocupação de cidades, ao terror dos mísseis e ao cansaço intermitente dos aliados.
Sobreviveu porque milhões de pessoas decidiram que uma existência submetida ao invasor não seria verdadeiramente vida.
Um dia, os historiadores discutirão estratégias, erros militares, apoios internacionais, decisões políticas e oportunidades diplomáticas perdidas. Mas terão de reconhecer algo maior: no início do século XXI, quando muitos julgavam que o conforto tinha substituído a coragem, a Ucrânia levantou-se.
Não porque não sentisse medo. Mas porque descobriu que existia algo ainda mais terrível: deixar de existir como povo livre.
Os tanques podem atravessar fronteiras. Os mísseis podem destruir cidades. Os tiranos podem falsificar mapas. Mas existe uma fronteira que nenhum exército conquista definitivamente: a que separa a submissão da dignidade.
Foi nessa fronteira que a Ucrânia decidiu combater. E é nela que continua, ferida, exausta e ensanguentada, mas ainda de pé.
A Ucrânia escolheu não se ajoelhar.
Nota Editorial
Referências internacionais
-
Assembleia-Geral das Nações Unidas — Resolução A/RES/ES-11/10, «Support for lasting peace in Ukraine», aprovada em 24 de Fevereiro de 2026 por 107 votos favoráveis, 12 contrários e 51 abstenções.
Consultar a resolução e o registo da votação -
Secretário-Geral das Nações Unidas — Declaração no quarto aniversário da invasão russa em grande escala, defendendo um cessar-fogo e uma paz conforme à Carta das Nações Unidas, à soberania e à integridade territorial da Ucrânia.
Consultar a declaração -
Missão de Monitorização dos Direitos Humanos das Nações Unidas na Ucrânia — Balanço de vítimas civis de Maio de 2026, o mais elevado em quatro anos.
Consultar o relatório -
Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos — Intervenção de Volker Türk, Julho de 2026, sobre vítimas civis, violações e necessidade de uma paz fundada nos direitos humanos.
Consultar a intervenção -
ACNUR — Emergência na Ucrânia e dados sobre refugiados e deslocação interna.
Consultar a informação humanitária -
Tribunal Penal Internacional — Situação na Ucrânia e mandados de captura emitidos no contexto da deportação e transferência ilegais de crianças.
Consultar o processo -
NATO — Adesão da Finlândia em 4 de Abril de 2023 e da Suécia em 7 de Março de 2024, após a mudança do ambiente de segurança provocada pela invasão russa.
Consultar a cronologia oficial -
Presidência da Ucrânia — Portal oficial e actividade do Presidente Volodymyr Zelenskyy em Julho de 2026.
Consultar o portal oficial
Fontes consultadas até 14 de Julho de 2026. Os números de vítimas e deslocados são provisórios, sujeitos a verificação e actualização pelas organizações responsáveis.