Os Lusíadas do Balcão Único
Fragmentos do Caos · FC-Chronic-News
Os Lusíadas do Balcão Único
Uma epopeia humorística sobre o Portugal actual, onde Camões já não enfrentaria Adamastor: enfrentaria portais digitais, senhas, formulários e a infinita glória nacional do despacho pendente.
Por Aletheia Veritas · Para Fragmentos do Caos
Cantemos, pois, os heróis da repartição, os que por mares nunca dantes navegados ousaram entrar no Portal das Finanças sem password expirada, sem erro 503 e sem perder a alma em três autenticações.
Cantemos esse povo antigo e resignado, que já deu novos mundos ao mundo, mas hoje, para renovar o cartão de cidadão, precisa de marcação, senha digital, comprovativo, declaração sob compromisso de honra e talvez uma pequena oferenda ao deus do PDF.
Ó Portugal, pátria de navegadores, poetas e recibos verdes, terra onde outrora se partia em caravelas e hoje se parte em prestações, és ainda grande no teu destino, embora o destino tenha sido concessionado a uma entidade reguladora, com parecer não vinculativo e prazo de resposta estimado em 90 dias úteis.
No princípio era o mar. Depois veio o império. Depois a decadência. Depois a democracia. Depois o Excel. E, por fim, o formulário online que não aceita caracteres especiais, como se a própria pátria tivesse decidido que o “ç” era uma ameaça à segurança nacional.
Aqui vive o povo lusitano, esse animal nobre, paciente e levemente cozido, que trabalha, paga, espera, vota, reclama no café, volta a votar, volta a pagar e depois se admira que os mesmos actores continuem em cena, como se a República fosse uma telenovela com orçamento de Estado e maus argumentistas.
Os Novos Capitães do Ministério
Temos políticos de peito cheio, que falam em produtividade como quem descobriu uma nova Índia, embora muitos deles nunca tenham produzido mais do que discursos, tachos, comissões e aquela preciosa arte nacional de explicar ao povo que o povo vive mal porque ainda não se esforçou o suficiente para merecer viver melhor.
Ó grandes capitães do ministério, que anunciais reformas com trombetas, planos com mapas, pacotes com laços e estratégias nacionais para tudo, desde a inovação até à melancolia, dizei-nos: onde está a terra prometida?
Ficou presa na comissão parlamentar? Foi para consulta pública? Aguarda visto do Tribunal de Contas? Ou perdeu-se, pobre coitada, numa rotunda à entrada de Leiria?
A Epopeia do T1 Impossível
E que dizer da habitação, essa nova epopeia de pedra, renda e desespero? O jovem português, esse Ulisses de T1, navega entre anúncios de apartamentos onde uma arrecadação com janela é descrita como “charmoso estúdio urbano”, ideal para casal, gato, bicicleta, teletrabalho e colapso nervoso moderado.
Em Lisboa, Porto e Algarve, as casas subiram aos céus, talvez com esperança de encontrar salários que as acompanhassem. Mas os salários, prudentes e patrióticos, ficaram cá em baixo, ajoelhados diante do senhorio, do banco, do condomínio e da palavra “oportunidade”, essa máscara com que o mercado se disfarça quando quer vender miséria a preço de luxo.
O trabalhador português, esse Adamastor da sobrevivência mensal, enfrenta monstros mais temíveis do que os mares do Cabo: a renda, a luz, o gás, o supermercado, a prestação, o seguro, o IMI, o IRS, e aquele pequeno dragão doméstico chamado “despesas imprevistas”, que aparece sempre no fim do mês com a delicadeza de um cobrador medieval.
O Estado Vela Por Nós. Às Vezes Parece Que Dorme.
Mas não choreis, ó lusitanos, porque o Estado vela por vós. Vela tanto que por vezes parece adormecido. Vela em fila de espera. Vela em sistema informático indisponível. Vela em despacho pendente. Vela em chamada gravada para efeitos de qualidade, embora a qualidade tenha fugido pela janela da extensão 4.
No Serviço Nacional de Saúde, há médicos que ainda fazem milagres, enfermeiros que sustentam o templo, auxiliares que seguram paredes invisíveis e utentes que envelhecem na espera com a serenidade de quem sabe que a consulta talvez venha, se Deus quiser, ou se a agenda libertar vaga antes da próxima era geológica.
E a escola? A escola resiste, pobre nau, com professores cansados, alunos distraídos, pais aflitos, programas imensos e ministros convencidos de que o futuro se resolve com plataformas digitais, metas curriculares e uma palestra sobre competências do século XXI, ministrada numa sala onde o projector não funciona.
A Justiça, Essa Dama Que Não Encontra a Porta
A justiça, essa dama vendada, continua tão vendada que por vezes parece não encontrar a porta. Os processos caminham devagar, com a dignidade de uma procissão, e quando finalmente chegam ao fim, já mudaram os governos, as moedas, os ministros, os arguidos, os juízes, as modas e talvez até a própria definição de paciência humana.
Os Navegadores do Dinheiro Alheio
Entretanto, os grandes senhores da banca, esses navegadores do dinheiro alheio, lançaram-se em aventuras arriscadas, afundaram navios cheios de crédito, e quando o casco começou a meter água, chamaram o povo para remar.
O povo, naturalmente, pagou. Porque em Portugal o prejuízo é sempre democrático. O lucro, esse, é mais reservado, mais discreto, mais selecto, quase uma espécie protegida.
Vieram troikas, memorandos, cortes, sacrifícios, e o povo, como sempre, foi chamado a salvar aquilo que nunca governou. Salvar bancos, salvar contas, salvar reputações, salvar o défice, salvar a credibilidade, salvar a Europa, salvar a pátria, salvar tudo, enfim, menos o próprio povo, que aparentemente nasceu para ser bombeiro de incêndios acendidos por outros.
Ainda Assim Há Sol
E ainda assim há sol. Há café. Há mar. Há sardinha. Há velhos à janela. Há crianças a rir. Há gente decente a trabalhar em silêncio. Há pequenos gestos de bondade num país onde a bondade raramente chega ao poder, talvez por não saber preencher candidaturas.
Portugal é isto: um país de poetas governado por contabilistas sem lirismo, um país de coragem administrado por prudentes medíocres, um país que descobriu oceanos e agora se perde no balcão das senhas, um país que tem alma para epopeia e gestão para condomínio em conflito.
Se Camões Cá Voltasse
Se Camões cá voltasse, não precisaria de Adamastor. Bastava-lhe tentar resolver uma herança nas Finanças, marcar consulta no centro de saúde, pedir licença à câmara, arrendar casa em Lisboa e perceber a factura da electricidade.
Ao fim de uma semana, teria escrito nova epopeia, não sobre armas e barões assinalados, mas sobre carimbos, portais e cidadãos entalados.
Ó pátria minha, de glória tão falada,
que foste império, nau, sonho e tormenta,
hoje és balcão, senha, dívida e entrada
num sistema que promete e nunca aguenta.
Ainda Não Estamos Perdidos
Mas não morras ainda, terra teimosa. Há no teu povo mais vida do que nos teus decretos. Há mais futuro numa oficina, numa escola, num hospital, num pequeno negócio, numa conversa lúcida de café, do que em mil conferências de ministros sobre transformação estratégica da coisa nenhuma.
Portugal continua vivo. Cansado, sim. Endividado, também. Mal governado, frequentemente. Ridículo, quase sempre. Mas vivo.
E enquanto houver quem ria da tragédia, quem diga a verdade sem pedir licença, quem escreva, proteste, trabalhe, cuide, invente e se recuse a aceitar a mediocridade como destino, ainda não estamos perdidos.
Estamos apenas no intervalo entre uma grande epopeia antiga e uma enorme reclamação por resolver.
Nota Final
Portugal talvez nunca tenha deixado de ser uma epopeia. Apenas mudou de cenário: das caravelas para os balcões, dos monstros marinhos para os formulários digitais, dos Adamastores para os sistemas indisponíveis. O herói português já não atravessa oceanos. Atravessa serviços públicos, recibos, senhas, prazos, rendas e paciência. E ainda assim, estranhamente, continua de pé.


