Política Internacional

A Europa à Venda

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A Europa à Venda

Como Putin transformou a ingenuidade, o dinheiro e a fragmentação europeia em armas contra a própria democracia

Nota de abertura:
Durante décadas, a Europa acreditou que o comércio, o gás e a integração financeira domesticariam o regime de Vladimir Putin. Aconteceu o contrário: o Kremlin estudou as fraquezas europeias, comprou intermediários, explorou divisões, executou opositores, promoveu operações clandestinas e aprendeu a atacar sem declarar guerra.

Durante mais de duas décadas, a Europa contemplou Vladimir Putin como quem observa um crocodilo através da montra de uma loja de luxo: reconhecia vagamente os dentes, mas deixava-se tranquilizar pela elegância do fato, pela conta bancária dos acompanhantes e pelo preço favorável do gás.

Os dirigentes europeus convenceram-se de que o comércio civilizaria a Rússia, de que a interdependência económica moderaria o Kremlin e de que os oligarcas, depois de adquirirem mansões em Londres, clubes de futebol, propriedades na Côte d’Azur e respeitabilidade social, se transformariam espontaneamente em discípulos de Montesquieu.

Aconteceu o contrário.

A Europa não domesticou Putin. Putin estudou a Europa.

Estudou-lhe a ganância, a lentidão administrativa, as rivalidades nacionais, a dependência energética, a permeabilidade dos partidos, a vaidade dos políticos e aquela extraordinária capacidade europeia de convocar uma conferência sobre um problema enquanto o problema já entrou pela porta das traseiras, comprou o prédio e contratou o advogado.

O regime russo percebeu que não precisava de derrotar militarmente a Europa. Bastava enfraquecê-la por dentro, financiar os seus extremos, explorar os seus ressentimentos, intimidar os seus opositores, comprar intermediários, provocar incidentes difíceis de atribuir e obrigar as democracias a discutir durante anos se aquilo que acabara de acontecer tinha realmente acontecido.

Putin não inventou todas as fraquezas europeias. Limitou-se a fazer-lhes uma auditoria.

O erro original: confundir comércio com conversão democrática

A grande ilusão europeia consistiu em acreditar que um regime autoritário, integrado na economia mundial, se tornaria inevitavelmente mais liberal. Era uma tese confortável para governos, bancos, empresas energéticas, escritórios de advogados e consultoras.

Também era uma excelente desculpa para ganhar dinheiro.

Em 2021, o gás russo representava aproximadamente 41% das importações europeias de gás através de gasodutos. A dependência total das importações russas, considerando as diferentes formas de fornecimento, foi suficientemente elevada para transformar a energia numa vulnerabilidade estratégica. No segundo trimestre de 2025, a participação russa no total das importações de gás da União Europeia já tinha descido para cerca de 12%.

A descida foi significativa, mas ocorreu apenas depois da invasão em grande escala da Ucrânia, iniciada em 24 de Fevereiro de 2022, quando aquilo que durante anos fora apresentado como pragmatismo comercial se revelou uma dependência cuidadosamente cultivada.

Durante anos, o gás barato foi apresentado como bom senso económico. Na realidade, era uma apólice de seguro político entregue ao Kremlin.

A dependência energética não deu apenas receitas à Rússia. Criou grupos empresariais europeus interessados na continuidade das relações, governos receosos de enfrentar Moscovo e antigos dirigentes políticos disponíveis para transformar prestígio institucional em consultoria energética.

Enquanto os discursos europeus celebravam a interdependência, o Kremlin aprendia uma lição muito diferente: quanto mais dependente fosse a Europa, mais caro lhe seria defender os próprios princípios.

O gás corria para Ocidente. O dinheiro regressava para Leste. E a lucidez europeia evaporava-se algures no gasoduto.

1999: as explosões que acompanharam a ascensão de Putin

O historial de suspeitas começa antes de Putin se consolidar no poder.

Em Setembro de 1999, uma série de explosões destruiu edifícios residenciais em cidades russas, matou mais de 300 pessoas e criou uma atmosfera de medo que contribuiu para justificar a Segunda Guerra da Chechénia. Putin, então primeiro-ministro e antigo director do FSB, emergiu politicamente como o dirigente forte que prometia esmagar os responsáveis.

O episódio de Riazan continua a alimentar dúvidas profundas. Moradores denunciaram sacos suspeitos colocados na cave de um prédio; a polícia local tratou inicialmente o caso como uma tentativa de atentado; agentes do FSB foram identificados; posteriormente, a direcção do serviço afirmou que tudo não passara de um exercício antiterrorista.

Há investigadores, antigos agentes e jornalistas que consideram plausível uma operação do próprio FSB. Outros autores contestam essa interpretação e aceitam a explicação oficial do exercício.

Não existe uma investigação judicial independente que tenha demonstrado a responsabilidade do FSB pelas explosões. O que existe é um conjunto de contradições, investigações bloqueadas, documentos inacessíveis e perguntas que o Estado russo nunca permitiu esclarecer satisfatoriamente.

Esta distinção é essencial. Não se pode apresentar como facto aquilo que permanece uma suspeita séria.

Mas também não se pode chamar teoria extravagante a uma hipótese que o próprio comportamento das autoridades russas impediu de investigar plenamente.

A opacidade não prova o crime. Porém, é um terreno extraordinariamente fértil para ele.

O polónio atravessa a fronteira

Em Novembro de 2006, Alexander Litvinenko morreu em Londres depois de ter sido envenenado com polónio-210, uma substância radioactiva raríssima.

Litvinenko tinha sido oficial do FSB, tornara-se crítico do regime e acusara publicamente os serviços russos de crimes e operações clandestinas.

A investigação britânica concluiu que Andrei Lugovoi e Dmitry Kovtun administraram o veneno e que a operação terá sido provavelmente dirigida pelo FSB. O inquérito público considerou ainda provável que a operação tivesse sido aprovada por Nikolai Patrushev e por Vladimir Putin.

Em 2021, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos concluiu que a Rússia era responsável pelo assassínio.

Não se tratou apenas da eliminação de um opositor.

Foi uma demonstração de soberania clandestina: o Kremlin mostrou que considerava o território britânico suficientemente vulnerável para nele executar um inimigo utilizando material radioactivo.

A mensagem era dirigida aos exilados russos, mas também aos governos europeus: podem acolhê-los, mas talvez não consigam protegê-los.

A resposta europeia foi diplomática, jurídica e limitada. Moscovo recusou extraditar os suspeitos. Lugovoi tornou-se deputado na Rússia e recebeu uma condecoração estatal.

A Europa apresentou protestos. O regime apresentou medalhas.

Cada lado revelou a natureza do seu poder.

Salisbury: a arma química numa cidade inglesa

Em Março de 2018, Sergei Skripal, antigo oficial russo que colaborara com os serviços britânicos, e a filha Yulia foram envenenados em Salisbury com Novichok, um agente neurotóxico desenvolvido no programa químico soviético.

A Organização para a Proibição de Armas Químicas confirmou tecnicamente a identidade da substância utilizada, embora a atribuição política e criminal tenha cabido às autoridades britânicas.

Meses depois, Dawn Sturgess, uma cidadã britânica sem qualquer relação com espionagem, morreu após contactar com o Novichok abandonado num frasco de perfume.

O inquérito britânico publicado em Dezembro de 2025 concluiu que a operação tinha sido executada por agentes do GRU e autorizada ao mais alto nível do Estado russo. O Governo britânico declarou que a actividade em Salisbury fora pessoalmente ordenada por Putin e respondeu com sanções ao GRU e a vários dos envolvidos.

O episódio é revelador por duas razões.

Primeiro, porque uma operação destinada a eliminar um antigo agente colocou toda uma comunidade em risco através da utilização de uma arma química.

Segundo, porque os executores viajaram para o Reino Unido, circularam pelo país, realizaram a missão e regressaram à Rússia.

A fronteira europeia existia nos mapas. Para o GRU, aparentemente, era sobretudo um detalhe administrativo.

Berlim: execução estatal num parque público

Em Agosto de 2019, Zelimkhan Khangoshvili, cidadão georgiano de origem chechena, foi morto a tiro no Kleiner Tiergarten, em Berlim.

O tribunal alemão concluiu que o assassino agira por ordem de entidades estatais da Federação Russa. A acusação descreveu o homicídio como uma execução ordenada pelo Estado, e o caso foi considerado uma grave violação da soberania alemã.

Não foi um desaparecimento numa fronteira remota. Foi uma execução numa capital europeia.

A Alemanha condenou o executor e expulsou diplomatas. Mas o cérebro político da operação permaneceu em Moscovo, protegido por um Estado que transforma a impossibilidade de extradição numa componente normal da sua doutrina de segurança.

A Rússia aprendeu que podia enviar agentes para matar em cidades europeias e que a reacção, embora firme no vocabulário, permaneceria cuidadosamente abaixo do limiar de confronto.

Essa prudência tem razões compreensíveis. Nenhum governo deseja uma escalada entre potências nucleares.

Mas a prudência repetida sem capacidade de dissuasão começa a parecer uma autorização renovável.

Vrbětice: explosões dentro da União Europeia

Em 2014, duas explosões atingiram depósitos de munições em Vrbětice, na República Checa, matando dois cidadãos.

Após anos de investigação, as autoridades checas atribuíram a operação a oficiais do GRU. A União Europeia declarou publicamente que levava muito a sério as conclusões checas e condenou as actividades ilegais russas.

Eis a guerra híbrida na sua forma mais clara: uma infra-estrutura é destruída, pessoas morrem, os autores pertencem a um serviço militar estrangeiro, mas não há tanques a atravessar a fronteira nem bandeiras hasteadas sobre o local.

A vítima enfrenta então um problema semântico cuidadosamente fabricado: foi um acto de guerra, terrorismo, sabotagem, espionagem ou crime organizado?

Enquanto os juristas procuram a definição exacta, o agressor recolhe o benefício.

A ambiguidade não é um acidente da guerra híbrida. É a sua principal munição.

A nova sabotagem: criminosos descartáveis e ordens à distância

Depois da invasão da Ucrânia em 2022, as operações atribuídas à Rússia na Europa tornaram-se mais frequentes e mais descentralizadas.

Em vez de enviar sempre agentes altamente treinados, os serviços russos passaram a recorrer a intermediários, pequenos criminosos, estrangeiros vulneráveis e pessoas recrutadas através de plataformas digitais.

O sabotador pode receber instruções por mensagem, ser pago em criptomoedas e desconhecer a identidade real de quem o contratou.

É a transformação da sabotagem numa economia de biscates: transportar uma encomenda, incendiar um armazém, fotografar uma instalação militar, cortar um cabo ou colocar um objecto numa linha ferroviária.

A Rússia obtém negação plausível. O executor recebe algumas centenas ou milhares de euros. A Europa recebe um processo judicial contra um indivíduo que, muitas vezes, sabe muito pouco sobre a estrutura que o recrutou.

A União Europeia reconhece oficialmente que as campanhas híbridas russas incluem sabotagem, ataques físicos, perturbação de infra-estruturas críticas, ciberataques, manipulação informativa e interferência eleitoral.

Em Outubro de 2024, a União Europeia criou um regime específico de sanções destinado a responder às actividades russas de desestabilização. O mecanismo foi posteriormente alargado para abranger activos físicos, redes de comunicação, instituições financeiras e prestadores de serviços relacionados com criptoactivos.

A palavra importante é “finalmente”.

A Rússia já praticava operações clandestinas na Europa havia muitos anos. A União Europeia criou um instrumento específico quando o incêndio já atravessara várias divisões da casa.

O padrão é inquietante: Moscovo testa permanentemente o limiar de tolerância europeu.

Um incêndio isolado parece crime comum. Um cabo cortado parece vandalismo. Um comboio parado parece avaria. Uma campanha digital parece apenas ruído. Um político que repete argumentos russos pode alegar convicção pessoal.

Separados, os episódios parecem pequenos. Reunidos, formam uma estratégia.

O dinheiro: o agente mais eficaz do Kremlin

Nem todas as operações russas precisam de explosivos ou venenos. Algumas necessitam apenas de transferências bancárias, contratos, honorários, empréstimos e acesso social.

O dinheiro russo entrou na Europa através da banca, do imobiliário, de empresas de fachada, de fundos offshore, de clubes desportivos, de sociedades de advogados, de consultoras e de estruturas partidárias.

O relatório do Comité de Inteligência e Segurança do Parlamento britânico classificou a influência russa no Reino Unido como uma realidade normalizada e criticou a subestimação governamental da ameaça.

Londres tornou-se um centro de integração social, financeira e reputacional de fortunas associadas ao sistema russo.

O oligarca não comprava apenas uma casa.

Comprava advogados capazes de ameaçar jornalistas, consultores capazes de abrir portas, relações públicas capazes de fabricar respeitabilidade e proximidade a políticos encantados por convites, donativos ou oportunidades futuras.

A corrupção estratégica raramente chega num envelope marcado “suborno do Kremlin”. Aparece como investimento, patrocínio, consultoria, empréstimo ou amizade empresarial.

É por isso mais eficaz.

Em França, o partido de Marine Le Pen recebeu em 2014 um empréstimo de cerca de nove milhões de euros de um banco russo. A dívida foi posteriormente transferida para outra entidade e o partido anunciou tê-la liquidado em 2023.

O empréstimo não prova que Le Pen recebesse ordens de Putin. Criou, porém, uma relação financeira politicamente tóxica entre uma força candidata ao poder em França e estruturas financeiras russas.

No Reino Unido, o caso de Nathan Gill ultrapassou o domínio da suspeita. O antigo eurodeputado do UKIP e dirigente do Reform UK no País de Gales foi condenado, em Novembro de 2025, a dez anos e meio de prisão.

Gill admitiu ter recebido cerca de 40 mil libras para apresentar moções, fazer discursos e facilitar o acesso aos meios de comunicação em benefício de interesses pró-russos.

Este caso não demonstra que Nigel Farage tenha sido pago por Putin, nem permite atribuir directamente o Brexit ao Kremlin.

Demonstra algo suficientemente grave: existiam políticos eleitos no ecossistema eurocéptico britânico dispostos a vender intervenções públicas favoráveis a interesses russos.

Quanto ao referendo do Brexit, o problema central continua a ser a insuficiência da investigação.

O relatório parlamentar britânico concluiu que o Estado tinha subestimado durante anos a influência russa e que não fora realizada uma avaliação completa das possíveis tentativas de interferência no referendo de 2016.

As sucessivas respostas governamentais limitaram-se frequentemente a afirmar que não tinham encontrado provas de interferência “bem-sucedida”, formulação particularmente cómoda quando não se procura de modo suficientemente profundo.

Não é possível afirmar honestamente que Putin comprou o Brexit.

Também não é intelectualmente sério concluir que nada aconteceu apenas porque o Estado britânico preferiu não abrir completamente a caixa.

Serviços secretos competentes, Estados politicamente fracos

É tentador concluir que os serviços secretos europeus são simplesmente incompetentes. A realidade é mais complexa e talvez mais grave.

Existem bons serviços, técnicos altamente qualificados e cooperação internacional real. Muitas operações foram descobertas, agentes identificados e redes desmanteladas.

O problema encontra-se frequentemente entre a recolha de informação e a decisão política.

Os serviços podem identificar uma ameaça. Mas os governos precisam de decidir se a tornam pública, se expulsam diplomatas, se iniciam processos, se impõem sanções ou se aceitam consequências económicas.

É nesse espaço que entram os interesses comerciais, o medo da escalada, as disputas partidárias e a preocupação de não perturbar relações diplomáticas cuidadosamente cultivadas durante décadas.

A Europa tem ainda outra fragilidade estrutural: possui dezenas de serviços de informações, polícias, procuradorias e sistemas judiciais, cada qual limitado por fronteiras nacionais, regras processuais e culturas institucionais diferentes.

A Rússia possui uma estratégia centralizada. A Europa responde com reuniões de coordenação.

O Kremlin pode ordenar uma operação numa tarde. A União Europeia necessita de traduções, pareceres jurídicos, consenso político, avaliação de impacto e uma fotografia de família no final do Conselho.

A democracia tem necessariamente regras. O problema começa quando as regras deixam de proteger a democracia e passam a proteger o agressor contra uma resposta rápida.

A arma principal não é a mentira: é a dúvida

A propaganda russa não precisa de convencer todos os europeus de que Moscovo está inocente.

Basta convencer uma parte de que nunca será possível saber a verdade.

Após cada operação surgem versões contraditórias, falsos especialistas, contas anónimas, documentos fabricados e acusações dirigidas à CIA, à NATO, à Ucrânia ou ao próprio governo do país atacado.

O objectivo não é estabelecer uma narrativa coerente. É produzir tantas narrativas que o cidadão desista de procurar a realidade.

No caso Litvinenko, a Rússia negou.

No caso Skripal, negou e multiplicou explicações incompatíveis.

No caso de Vrbětice, negou.

No homicídio de Berlim, negou.

Nas campanhas de sabotagem e interferência, continua a negar.

A repetição da negação não demonstra inocência. Demonstra apenas que a negação é barata.

A Europa, pelo contrário, exige processos longos, provas públicas, protecção de fontes, cooperação judicial e respeito pelo contraditório. São características essenciais de um Estado de direito.

Putin explora precisamente essa diferença: o agressor mente instantaneamente; a democracia demora anos a provar.

Os incêndios e a obrigação de investigar sem fantasiar

É neste contexto que devem ser observados acontecimentos como os grandes incêndios em França.

O historial russo torna legítimo que os serviços franceses investiguem possíveis ligações a sabotagem estrangeira, recrutamento digital, financiamento clandestino ou campanhas coordenadas de desinformação.

Mas o historial não constitui prova sobre um incêndio concreto.

A análise responsável deve manter simultaneamente duas ideias.

A primeira é que a Rússia demonstrou capacidade, intenção e precedentes de sabotagem em território europeu.

A segunda é que atribuir sem provas cada catástrofe a Moscovo favoreceria a própria estratégia russa de criar confusão e desconfiança.

A vigilância não exige credulidade. Exige método.

A Europa não pode continuar a ignorar hipóteses incómodas por receio de parecer alarmista. Mas também não deve substituir investigações por intuições, por mais plausíveis que sejam.

O combate à guerra híbrida começa precisamente pela defesa da verdade verificável.

A vantagem acumulada de Putin

Putin ganhou durante anos porque a Europa confundiu moderação com fraqueza, diplomacia com negação e comércio com segurança.

Ganhou quando governos europeus aceitaram dependências energéticas perigosas.

Ganhou quando oligarcas compraram acesso social e protecção jurídica.

Ganhou quando partidos receberam dinheiro de fontes russas ou próximas da Rússia.

Ganhou quando opositores foram mortos em cidades europeias e a resposta terminou em algumas expulsões diplomáticas.

Ganhou quando operações de sabotagem foram tratadas isoladamente, como episódios policiais sem relação estratégica.

Ganhou quando a Europa hesitou em investigar interferências eleitorais porque o resultado poderia ser politicamente embaraçoso.

E ganhou, sobretudo, quando conseguiu fazer com que cada sociedade europeia passasse a desconfiar mais das suas próprias instituições do que do Estado que procurava enfraquecê-las.

A grande vitória de uma guerra híbrida não consiste em destruir uma ponte.

Consiste em convencer metade da população de que a ponte caiu por acidente, a outra metade de que nunca existiu ponte e uma terceira metade, matematicamente impossível mas politicamente muito comum, de que a culpa foi de Bruxelas.

Uma Europa que precisa de deixar de ser ingénua

A resposta europeia não pode limitar-se a sanções aplicadas depois de cada operação.

É necessário proteger infra-estruturas, reforçar a contra-espionagem, controlar o financiamento político, responsabilizar intermediários financeiros, melhorar a partilha de informações e tratar o recrutamento de criminosos por Estados estrangeiros como matéria de segurança nacional.

É igualmente necessário investigar patrimónios, empréstimos, doações, contratos de consultoria e redes de influência sem receio de encontrar nomes respeitáveis.

A maior vulnerabilidade europeia não está nos seus cabos submarinos, ferrovias ou redes eléctricas.

Está na convicção das elites de que pessoas ricas são necessariamente respeitáveis, de que antigos governantes nunca vendem influência e de que um contrato legal não pode servir um objectivo hostil.

Putin compreendeu que a Europa possuía instituições fortes, mas vontades fragmentadas; serviços competentes, mas governos hesitantes; leis sofisticadas, mas dinheiro suficiente para contratar quem as soubesse contornar.

A Europa ainda dispõe de recursos económicos, tecnológicos, militares e humanos muito superiores aos da Rússia.

O que lhe faltou foi reconhecer atempadamente que já estava a ser atacada.

Não por colunas de tanques a atravessar Berlim ou Paris, mas por dinheiro a entrar nos partidos, veneno a entrar em hotéis, agentes a atravessar aeroportos, incendiários recrutados pela Internet, mentiras multiplicadas por algoritmos e interesses privados instalados dentro das decisões públicas.

A Europa não está condenada à derrota.

Mas terá de abandonar a confortável ficção de que a guerra só começa quando alguém a declara.

Putin nunca precisou de a declarar. Bastou-lhe perceber que, enquanto ele jogava uma guerra, a Europa julgava estar apenas a fazer negócios.

Nota Editorial

Esta crónica distingue deliberadamente entre factos judicialmente estabelecidos, atribuições oficiais, investigações em curso e hipóteses que permanecem sem prova pública conclusiva.

Os assassínios de Alexander Litvinenko e Zelimkhan Khangoshvili, o ataque com Novichok em Salisbury e as explosões de Vrbětice foram objecto de conclusões judiciais, investigações oficiais ou atribuições formais por parte de autoridades europeias.

Em contraste, a alegada responsabilidade do FSB pelas explosões dos edifícios residenciais russos em 1999 continua sem demonstração judicial independente. O episódio permanece rodeado por contradições, obstruções e perguntas legítimas, mas não deve ser apresentado como facto definitivamente provado.

Do mesmo modo, não existe prova pública conclusiva de que Nigel Farage tenha sido directamente pago por Vladimir Putin ou de que o Brexit tenha sido produzido pelo Kremlin. Existem, porém, relações políticas, amplificação mediática, falhas graves de investigação e casos demonstrados de corrupção pró-russa no mesmo espaço político. A crítica democrática torna-se mais forte quando não precisa de converter suspeitas em certezas.

Referências credíveis

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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