Democracia e Sociedade

Portugal e a Inovação de Cartaz

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BOX DE FACTOS

  • Portugal fala muito de inovação, mas continua a ter dificuldade em transformar conhecimento em indústria exportadora.
  • Segundo a DGEEC, em 2024 a despesa nacional em I&D atingiu 5.020 milhões de euros, cerca de 1,73% do PIB.
  • O sector das empresas executou 63% da despesa nacional em I&D em 2024.
  • Segundo o Eurostat, a média da União Europeia em despesa de I&D foi de 2,24% do PIB em 2024.
  • O European Innovation Scoreboard 2025 assinala que as exportações portuguesas de produtos de média e alta tecnologia atingem apenas 56% da média da União Europeia.
  • A OCDE tem alertado para a necessidade de Portugal aumentar produtividade, investimento, competências e eficiência económica.

Portugal e a Inovação de Cartaz

Portugal tem uma relação complicada com a palavra inovação. Usa-a para iluminar cartazes, conferências, colóquios, discursos ministeriais, programas públicos e PowerPoints. Mas inovação não é uma palavra mágica. É a capacidade de transformar ideias em produtos, fábricas, empresas, exportações, propriedade intelectual e salários melhores.

Portugal tem uma relação quase litúrgica com a palavra inovação.

Pronuncia-a em conferências. Imprime-a em cartazes. Projecta-a em PowerPoints. Invoca-a em discursos ministeriais. Usa-a para baptizar fundos, agendas, programas, laboratórios, universidades, incubadoras, aceleradoras, colóquios e seminários onde toda a gente concorda com toda a gente, esse desporto nacional que tanto tem feito pela produção de sono qualificado.

A palavra está em todo o lado. Nas paredes. Nos relatórios. Nos planos estratégicos. Nos slogans. Nos gabinetes. Nos painéis luminosos. Nas fotografias oficiais onde meia dúzia de pessoas engravatadas aponta para um ecrã com a expressão grave de quem acabou de descobrir a roda, embora ainda falte abrir concurso público para o eixo.

Mas a pergunta essencial raramente é feita com brutalidade suficiente:

Onde está a indústria que nasce dessa inovação?

Porque inovação não é dizer inovação. Não é invocar inovação. Não é escrever inovação em letras grandes sobre fundo azul europeu, com setas para cima e fotografias de jovens sorridentes ao lado de robôs que, naturalmente, não produzem nada naquele edifício.

Inovação é outra coisa.

É pegar numa ideia e atravessar com ela o deserto difícil que vai da investigação ao produto, do produto ao mercado, do mercado à escala, da escala à exportação, da exportação à riqueza real.

Inovar é transformar conhecimento em músculo económico.

É fazer nascer empresas que produzem tecnologia própria. É criar fábricas modernas. É desenvolver software exportável. É patentear soluções. É fabricar sensores, dispositivos médicos, equipamentos industriais, componentes electrónicos, máquinas, materiais, plataformas digitais, sistemas de energia, soluções de segurança, robótica, inteligência artificial aplicada, telecomunicações, semicondutores, biotecnologia, defesa, espaço, automação e tudo aquilo que um país adulto precisa para não viver eternamente ajoelhado perante importações, turismo, imobiliário e remessas de esperança.

Inovar não é invocar

Portugal gosta da parte cerimonial da inovação.

Gosta da inauguração. Gosta da fotografia. Gosta do “ecossistema”. Gosta do “hub”. Gosta do “cluster”. Gosta da “agenda mobilizadora”. Gosta da “capacitação”. Gosta da “transição digital”. Gosta da “transição verde”. Gosta da “resiliência”. Gosta da “valorização do conhecimento”. Gosta tanto destas palavras que, por vezes, parece ter desenvolvido uma economia paralela baseada na fotossíntese de substantivos abstractos.

O problema é que a inovação verdadeira começa precisamente quando acaba o discurso.

Começa quando uma equipa tem de construir um protótipo.

Quando alguém tem de arriscar capital.

Quando é preciso transformar uma investigação numa patente.

Quando é necessário fabricar uma primeira série.

Quando o produto falha.

Quando a máquina avaria.

Quando o mercado não compra.

Quando o concorrente estrangeiro é melhor, mais rápido e mais barato.

Quando é preciso corrigir, melhorar, vender, exportar, escalar, gerir, contratar, formar técnicos, criar canais comerciais e sobreviver sem viver eternamente pendurado no cordão umbilical do subsídio.

A inovação que não chega ao mercado é pensamento engarrafado. Pode ser brilhante, mas não muda a economia.

O paradoxo português

Portugal não é um país sem inteligência. Pelo contrário.

Temos investigadores competentes, engenheiros brilhantes, programadores excelentes, universidades respeitáveis, centros tecnológicos, laboratórios, empresas capazes e uma geração de jovens qualificados que, muitas vezes, só precisa de atravessar a fronteira para descobrir que afinal era talento e não “recurso humano”.

O problema português não é a ausência de capacidade. É a dificuldade em transformar capacidade em poder económico.

Segundo a DGEEC, em 2024 a despesa nacional em investigação e desenvolvimento atingiu 5.020 milhões de euros, representando 1,73% do PIB, com as empresas a executarem 63% desse total. É progresso. É sinal de evolução. Mas o Eurostat coloca a média da União Europeia nos 2,24% do PIB em despesa de I&D em 2024. Estamos melhor do que já estivemos, sim, mas ainda longe do patamar de quem quer realmente transformar conhecimento em vantagem estratégica.

E o European Innovation Scoreboard 2025 mostra uma ferida particularmente reveladora: as exportações portuguesas de produtos de média e alta tecnologia atingem apenas 56% da média da União Europeia.

Ou seja: estudamos, investigamos, discutimos, planeamos, financiamos, anunciamos, celebramos, mas continuamos a ter dificuldade em converter tudo isso em produtos tecnológicos que o mundo compre.

A inovação portuguesa sofre muitas vezes de uma doença antiga: fica presa entre o laboratório e a fábrica, entre a universidade e a empresa, entre o artigo científico e o catálogo comercial, entre o protótipo e a produção em série, entre a ideia e o contentor que sai do porto.

A cadeia que Portugal ainda não domina

A verdadeira inovação é uma cadeia.

Começa numa ideia.

Passa por investigação.

Depois por protótipo.

Depois por engenharia.

Depois por financiamento.

Depois por gestão.

Depois por produção.

Depois por certificação.

Depois por venda.

Depois por exportação.

Depois por escala.

E depois, se houver inteligência estratégica, por reinvestimento em mais conhecimento, mais tecnologia, mais produtividade e melhores salários.

Portugal tropeça demasiadas vezes a meio desta cadeia. Produz conhecimento, mas nem sempre o industrializa. Tem ideias, mas nem sempre as protege. Cria projectos, mas nem sempre os transforma em empresas robustas. Forma talento, mas deixa-o fugir. Atrai fundos, mas nem sempre cria valor permanente. Fala de economia do conhecimento, mas continua demasiado dependente de sectores de baixo valor acrescentado.

Isto não é apenas um problema económico. É um problema civilizacional.

Porque um país que não transforma conhecimento em produção fica condenado a viver de intermediação, turismo, serviços de baixa margem, consumo importado e dívida moral perante os seus próprios jovens.

O país que confunde laboratório com economia

As universidades são fundamentais. A investigação é fundamental. A ciência é fundamental. Mas nenhuma destas dimensões substitui a indústria.

Um país não enriquece apenas porque publica artigos científicos. Enriquece quando consegue transformar conhecimento em bens e serviços sofisticados que outros países compram. Enriquece quando cria empresas capazes de competir. Enriquece quando retém propriedade intelectual. Enriquece quando fabrica. Enriquece quando exporta. Enriquece quando paga bem porque produz bem.

A economia moderna não perdoa países que confundem intenção com execução.

A Alemanha não se tornou potência industrial por organizar colóquios sobre metalomecânica avançada. A Coreia do Sul não se tornou potência tecnológica por fazer seminários sobre ambição. Taiwan não se tornou central nos semicondutores por decorar auditórios com a palavra “resiliência”. Israel não construiu um ecossistema tecnológico apenas por gostar de inovação em brochuras.

Estes países, com todas as suas diferenças, perceberam uma coisa simples: conhecimento sem estratégia produtiva é ornamento.

Portugal precisa de perceber o mesmo.

O país não precisa de mais cerimónias sobre inovação. Precisa de mais linhas de produção, mais engenharia aplicada, mais propriedade intelectual e mais empresas exportadoras.

A produtividade é a palavra que estraga a festa

Há uma palavra menos elegante do que inovação, mas muito mais decisiva: produtividade.

A produtividade não fica tão bonita num cartaz. Não dá tanto brilho a uma conferência. Não permite tantos discursos vagos. É uma palavra rude, operacional, quase desagradável. Obriga a falar de organização, tecnologia, gestão, capital, formação, processos, escala, exportações, equipamento, eficiência, mérito e resultados.

A OCDE tem alertado para a necessidade de Portugal aumentar produtividade, investimento, competências e eficiência económica. Não é difícil perceber porquê. Sem produtividade, não há salários europeus. Sem salários europeus, há emigração qualificada. Sem retenção de talento, há empobrecimento estrutural. Sem indústria sofisticada, há dependência. Sem dependência reduzida, há fragilidade nacional.

A inovação só é verdadeira quando melhora a produtividade, cria valor, substitui dependências, gera exportações, fortalece empresas e aumenta a soberania económica do país.

O resto é teatro administrativo.

Menos PowerPoint, mais fábrica

Portugal precisa de menos retórica e mais execução.

Precisa de menos mesas-redondas e mais unidades-piloto.

Menos discursos sobre futuro e mais contratos de exportação.

Menos “ecossistemas” de palco e mais cadeias de fornecedores industriais.

Menos programas que desaparecem com governos e mais estratégias nacionais persistentes.

Menos dependência de fundos públicos e mais capital paciente.

Menos consultoria circular e mais engenharia aplicada.

Menos fascínio por serviços baratos e mais obsessão por produtos difíceis.

Menos inaugurações e mais manutenção, porque até as civilizações, essa maçada, precisam de manutenção.

O país precisa de criar uma cultura onde investigadores, programadores, engenheiros, gestores, operários qualificados, investidores e empresários trabalhem na mesma cadeia de valor. Não como mundos separados, cada um com a sua vaidade, mas como partes de uma máquina produtiva comum.

A universidade deve produzir conhecimento, sim. Mas deve também saber transferi-lo. A empresa deve procurar lucro, sim. Mas deve também investir em tecnologia. O Estado deve apoiar, sim. Mas deve exigir resultados. O sistema financeiro deve financiar, sim. Mas deve aprender a distinguir risco produtivo de especulação imobiliária, esse vício nacional com azulejos e varandas.

Inovação é soberania

A inovação não é apenas economia. É soberania.

Um país que não produz tecnologia própria depende da tecnologia dos outros.

Um país que não fabrica equipamentos críticos depende das cadeias de abastecimento dos outros.

Um país que não domina software, dados, automação, energia, telecomunicações, inteligência artificial, robótica e segurança digital fica vulnerável aos interesses dos outros.

A soberania do século XXI não se mede apenas em fronteiras, bandeiras e hinos. Mede-se em capacidade tecnológica. Mede-se em centros de dados. Mede-se em semicondutores. Mede-se em cabos submarinos. Mede-se em satélites. Mede-se em energia. Mede-se em indústria. Mede-se em conhecimento aplicado.

Portugal tem de decidir se quer ser apenas um país simpático, turístico, solarengo, bom para reformados estrangeiros, nómadas digitais e fotografias de pôr-do-sol, ou se quer ser também uma economia produtiva, tecnológica, exigente, capaz de vender inteligência ao mundo.

O turismo é importante. Os serviços são importantes. Mas nenhum país se torna estruturalmente próspero se fizer da baixa produtividade uma paisagem nacional.

A pergunta que devia incomodar ministros

A pergunta que devia ser feita em cada conferência sobre inovação é simples:

Quantas ideias se transformaram em produtos exportados?

Não quantas candidaturas foram aprovadas.

Não quantos eventos foram realizados.

Não quantos painéis reuniram especialistas.

Não quantas fotografias foram tiradas.

Não quantos relatórios foram apresentados.

Mas quantos produtos nasceram. Quantas fábricas se modernizaram. Quantas empresas exportaram. Quantas patentes foram defendidas. Quantos jovens ficaram. Quantos salários subiram. Quantas dependências foram reduzidas. Quantos mercados externos foram conquistados.

Esta é a métrica que separa a inovação real da inovação decorativa.

A primeira muda países.

A segunda alimenta agendas.

Portugal não precisa de falar mais de inovação.

Precisa de a fabricar.

Fabricá-la em oficinas, laboratórios industriais, fábricas, centros de engenharia, equipas de software, empresas exportadoras, cadeias de valor, portos, armazéns, linhas de montagem, plataformas digitais e mercados internacionais.

Fabricá-la com ciência, sim.

Mas também com risco.

Com capital.

Com gestão.

Com disciplina.

Com ambição.

Com indústria.

Com uma cultura menos apaixonada por cerimónias e mais obcecada por resultados.

Porque a inovação, quando é verdadeira, não termina num slide.

Termina num produto que alguém, algures no mundo, está disposto a comprar.

Referências

Fragmentos do Caos

Artigo de opinião sobre inovação, indústria, produtividade, investigação, exportações, tecnologia e a dificuldade portuguesa em transformar ideias em riqueza produtiva.

Texto de

Francisco Gonçalves

Com a co-autoria editorial e investigação de Augustus Veritas.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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