Celebremos os Inquietos
Celebremos os Inquietos
Celebremos as pessoas que estudam.
Não as que coleccionam diplomas como quem pendura medalhas numa parede para impressionar visitas distraídas. Essas há muitas, e algumas até falam alto em reuniões, esse habitat natural da vaidade com PowerPoint.
Celebremos antes as que estudam porque têm fome. Fome de compreender. Fome de atravessar a neblina. Fome de olhar para uma frase, uma equação, uma ideia, uma injustiça, uma máquina, uma estrela, uma ferida humana, e perguntar:
“Mas porquê?”
Os curiosos, esses seres perigosíssimos
Celebremos os curiosos.
Esses seres perigosíssimos para qualquer sistema bem instalado. Porque o curioso não obedece facilmente ao silêncio. Remexe. Pergunta. Desconfia. Levanta pedras. Espreita para dentro das engrenagens. E, horror dos horrores, às vezes descobre que o rei não só vai nu como ainda cobra subsídio de representação.
Os que não desistem facilmente
Celebremos os que não desistem facilmente.
Os que tentam uma vez, falham, voltam, refazem, desmontam, reescrevem, recomeçam. Os que sabem que a inteligência sem persistência é fogo-de-artifício: brilha, faz barulho e depois deixa o chão cheio de lixo.
Os que pensam diferente
Celebremos os que pensam diferente.
Não por moda, nem por pose, nem para parecerem interessantes num jantar onde todos fingem ter lido livros que nunca abriram. Pensemos nos que pensam diferente porque não conseguem trair a própria consciência. Porque nasceram com uma espécie de antena interior, sintonizada para detectar mentira, mediocridade e frases feitas.
Os que odeiam a bajulação
Celebremos os que odeiam a bajulação.
Essa baba social que transforma adultos em cães de sala, abanando a cauda perante pequenos poderes de gabinete. A bajulação é uma das grandes tecnologias humanas: não requer inteligência, não exige coragem e funciona há milénios. Um prodígio lamentável, como quase tudo o que a espécie inventou para evitar a verdade.
Os que tentam
Celebremos os que tentam.
Mesmo sem garantias. Mesmo sem aplauso. Mesmo sem rede.
Porque tentar é já uma forma de dignidade. É dizer ao mundo: “ainda não aceito a derrota como arquitectura definitiva da realidade.”
Os que falham
Celebremos os que falham.
Sim, sobretudo esses. Porque só falha verdadeiramente quem se moveu. Quem ficou quieto no sofá da prudência nunca caiu, é certo. Mas também nunca chegou a lado nenhum, excepto talvez à convicção confortável de que tinha razão por nunca ter arriscado.
Os que perturbam
Celebremos os que perturbam.
Os que entram numa sala e deslocam o ar. Os que fazem perguntas incómodas. Os que não sabem estar calados quando a verdade está a ser enterrada com flores de plástico. Os que, só por existirem, lembram aos outros que pensar ainda é permitido, apesar dos regulamentos, dos comités, das chefias intermédias e dessa grande fábrica nacional de sonolência moral.
Porque são esses, afinal, os que mantêm a humanidade minimamente respirável.
Não os obedientes de luxo. Não os especialistas em concordar. Não os administradores da resignação. Não os vendedores de frases redondas, polidas, inúteis, mortas à nascença.
São os inquietos.
Os que estudam. Os que perguntam. Os que duvidam. Os que criam. Os que reparam o mundo com as mãos sujas e a alma acesa.
E se às vezes parecem poucos, talvez seja porque caminham sem fanfarra.
Mas são eles que abrem caminho.
Os outros, como sempre, aparecerão depois para inaugurar a placa.
Fragmentos do Caos
Texto de celebração dos inquietos, dos curiosos, dos que tentam compreender o mundo antes que o mundo lhes peça apenas para obedecer.
Francisco Gonçalves


