A República do Guardanapo Amassado
A República do Guardanapo Amassado
Crónica tragicómica sobre políticos, partidos e outros fenómenos meteorológicos da democracia portuguesa
As instituições, coitadas, trabalham. Trabalham tanto que chegam sempre cansadas ao momento da verdade. E quando finalmente chegam, a verdade já prescreveu, mudou de morada fiscal ou está em Bruxelas com crachá diplomático.
Portugal não é uma república. É uma sala de espera com bandeira.
No centro do palco está sempre o político português, esse animal mitológico meio tribuno, meio contabilista criativo, meio vítima de si próprio. Entra em cena com ar grave, mão no peito e frase ensaiada:
“Estou de consciência tranquila.”
É uma frase extraordinária. Em Portugal, quando alguém diz que está de consciência tranquila, o cidadão prudente verifica logo se ainda tem a carteira no bolso, a escritura da casa na gaveta e a paciência em estado respirável.
A consciência tranquila tornou-se a versão política do ambientador de casa de banho. Não resolve o problema, mas deixa uma fragrância institucional por cima do desastre.
O Hamlet de Vilar de Maçada
Tivemos Sócrates, figura trágica por excelência, quase shakespeariana, mas em versão TGV que nunca chegou. Homem de gravata, verbo eléctrico e convicção blindada, atravessou a política portuguesa como um cometa: iluminou muita coisa, incendiou outra tanta e deixou atrás de si uma cauda judicial tão longa que já devia pagar portagem própria.
Sócrates é o Hamlet de Vilar de Maçada:
ser ou não ser arguido, eis a questão.
Mas a peça é tão longa que até o fantasma do pai de Hamlet já teria pedido transferência para outro tribunal.
Costa, o prestidigitador sorridente
Depois veio António Costa, o prestidigitador sorridente. Costa tinha aquela arte rara de cair sempre de pé, como os gatos e certos contratos públicos. Governava com um sorriso de quem acabara de perceber que os portugueses já não distinguem estabilidade de anestesia.
Chamavam-lhe habilidade política; talvez fosse. Mas há habilidades que, depois de muito usadas, começam a parecer truques de casino.
Costa saiu de São Bento pela porta da suspeita política e entrou na Europa pela porta grande da diplomacia continental. Portugal olhou para aquilo com o espanto habitual de quem vê uma panela queimada ser promovida a chefe de cozinha.
Não se sabe se foi castigo, prémio ou reciclagem diplomática. A União Europeia, essa grande máquina de lavar roupa política, tem programas para tudo: algodão, sintéticos, delicados e ex-primeiros-ministros.
Montenegro e a transparência fosca
Entretanto chegou Montenegro, prometendo seriedade, competência, normalidade e outras palavras que em Portugal deviam vir com garantia de dois anos ou livro de reclamações.
Surgiu como o homem que vinha limpar a casa. Mas, mal entrou, tropeçou na mobília da Spinumviva, esse nome que parece uma clínica de fisioterapia para colunas vertebrais políticas.
Spinumviva.
Só o nome já parece escrito por um consultor que cobra à sílaba.
E Montenegro, em vez de abrir janelas, explicar tudo e deixar entrar ar, fez aquilo que a política portuguesa sabe fazer melhor: invocou reserva, privacidade, protecção, terceiros, cautelas, recursos e aquela névoa jurídica onde a transparência entra jovem e sai reformada.
O cidadão português, que é pobre mas não é completamente distraído, pergunta:
“Então mas quem governa não devia ser mais transparente que uma montra lavada?”
Resposta do sistema:
“Depende da montra, do vidro, do regulamento aplicável e da interpretação constitucional da esfericidade do candeeiro.”
É nisto que somos grandes. Não resolvemos problemas: fabricamos nevoeiro à medida.
Os partidos, essas confrarias com logótipo
Os partidos políticos, por sua vez, são confrarias com logótipo.
O PS diz que é o partido do povo, mas o povo raramente é convidado para a sala onde se decide o seu destino.
O PSD diz que é reformista, mas reforma sobretudo o discurso de quatro em quatro anos.
O CDS reaparece de tempos a tempos como aqueles familiares antigos que ninguém sabe bem se ainda vivem na mesma morada.
O Chega grita contra o sistema enquanto aprende, com assinalável entusiasmo, as vantagens acústicas de fazer parte dele.
O Bloco acusa todos de tudo com a superioridade moral de quem nunca teve de gerir uma repartição pública às nove da manhã.
O PCP continua em 1975, com boa memória, má adaptação e uma relação sentimental com o século XX.
O Livre tenta ser civilizado num país onde a civilização é frequentemente confundida com fraqueza.
O PAN aparece para lembrar que os animais merecem respeito — e, olhando para o Parlamento, percebe-se a urgência zoológica da mensagem.
No fundo, todos prometem o futuro. Mas entregam-nos sempre uma factura do passado.
A procissão da governabilidade
A política portuguesa é uma procissão onde cada partido carrega o seu santo, a sua dívida moral e o seu departamento de comunicação.
Uns levam cravos, outros levam calculadoras, outros levam tochas, outros levam PowerPoints. O povo segue atrás, com a vela na mão e o IMI no bolso, esperando que Nossa Senhora da Governabilidade faça um milagre orçamental.
De quatro em quatro anos, dizem-nos que chegou a hora da mudança.
E o país muda, de facto.
Muda o slogan. Muda o cenário. Muda o assessor. Muda o grafismo do programa eleitoral.
O essencial fica sentado, com contrato sem termo, a beber café no gabinete.
“Mas os outros também”
Portugal tem uma relação curiosa com a corrupção, a suspeita e o abuso de poder. Não gosta, claro. Condena, evidentemente. Indigna-se, profundamente.
Mas depois vota, esquece, desculpa, relativiza e pergunta:
“Mas os outros não faziam igual?”
Esta frase devia estar inscrita no frontão da República:
“Mas os outros também.”
É o nosso hino moral alternativo.
Roubaram? “Mas os outros também.”
Mentiram? “Mas os outros também.”
Manipularam? “Mas os outros também.”
Falharam? “Mas os outros também.”
Com este princípio, não há decadência que não encontre absolvição popular. Somos um povo que transformou a comparação com o pior numa filosofia de Estado.
Os sacerdotes do óbvio
E depois há os comentadores, esses sacerdotes do óbvio.
Passam noites inteiras em estúdios televisivos a explicar o inexplicável com ar de quem está a revelar a estrutura secreta do universo, quando na verdade estão apenas a dizer que o PS quer ganhar, o PSD não quer perder, o Chega quer crescer, o Presidente quer aparecer, e o país quer sobreviver.
A política tornou-se uma novela sem fim.
Sócrates foi a temporada judicial.
Costa foi a temporada do sorriso táctico.
Montenegro é a temporada da transparência fosca.
Ventura é o trailer permanente de uma série de incêndios.
Marcelo foi durante anos o narrador com afecto, beijo, selfie e comentário ao domingo. Um Presidente tão presente que por vezes parecia estar em directo dentro do nosso frigorífico, a avaliar a frescura dos iogurtes constitucionais.
O povo, esse sobrevivente atlântico
E o povo?
O povo trabalha, paga, cala, protesta no café, encolhe os ombros, partilha indignações no Facebook e depois continua.
O povo português é uma mistura de estoicismo romano, fadiga atlântica e desconto no Continente. Aguenta tudo com uma dignidade triste e uma ironia quase genética.
Somos especialistas em sobreviver ao absurdo.
Talvez porque o absurdo, entre nós, não é acidente. É património imaterial.
O país que podia ser uma oficina de futuro
O mais trágico é que Portugal podia ser outra coisa.
Podia ser um pequeno país inteligente, ágil, culto, tecnológico, honesto, exigente, capaz de transformar escala em precisão e periferia em laboratório.
Podia ser uma oficina de futuro plantada junto ao Atlântico.
Mas preferimos muitas vezes ser uma comissão de acompanhamento de oportunidades perdidas.
E lá seguem os políticos, todos muito preocupados com o país, desde que o país não atrapalhe demasiado a carreira.
Falam de reformas estruturais com a mesma convicção com que um barbeiro careca recomenda champô milagroso.
Prometem simplificação administrativa e criam três portais, cinco autenticações, sete códigos e uma linha de apoio que nunca atende.
Chamam a isto modernização.
Nós, que já vimos mainframes, disquetes, modems, certificados digitais, Simplex, e-Clics, balcões únicos e repartições múltiplas, sabemos reconhecer uma treta quando ela chega embrulhada em PDF.
A ferrugem da democracia
No fim, talvez o problema não seja só termos maus políticos.
Talvez o problema seja termos criado um ecossistema onde a mediocridade não é penalizada, a esperteza é confundida com inteligência e a falta de vergonha é tratada como competência negocial.
A política portuguesa não caiu do céu.
Nasceu cá.
Foi criada à nossa mesa.
Foi alimentada com favores, cunhas, medo, clubite, reverência e aquela velha frase:
“Não te metas nisso.”
Pois talvez esteja na hora de nos metermos.
Não com ódio. Não com fanatismo. Não com tribos.
Mas com cidadania adulta, memória longa e uma exigência simples: quem governa deve servir, explicar, responder e sair quando perde a confiança.
A democracia não é uma romaria onde vamos de quatro em quatro anos beijar a mão aos partidos.
A democracia é uma oficina.
E está cheia de ferrugem.
Mas ainda há ferramentas.
Epílogo
Enquanto houver cidadãos que não aceitam ser tratados como figurantes na peça dos mesmos de sempre, ainda há esperança.
Pequena, teimosa, mal paga, pouco televisiva — mas esperança.
Porque Portugal pode estar amolgado.
Mas ainda não está homologado.
Nota editorial: Esta crónica é uma peça de sátira política e opinião. As figuras públicas aqui referidas são tratadas no plano literário, humorístico e crítico, não constituindo imputação judicial nem conclusão factual sobre matérias ainda sujeitas a apreciação pública, política ou legal.
Crónica humorística por
Francisco Gonçalves
& Augustus Veritas
A política portuguesa dá tragédia, comédia, farsa, opereta e, quando se descuida, sketch dos Monty Python traduzido por uma secretaria de Estado.


