O Mal Extremo que Regressa com Botas Novas
BOX DE FACTOS
- A invasão russa da Ucrânia iniciou-se em larga escala em 24 de Fevereiro de 2022.
- O Tribunal Penal Internacional emitiu, em 17 de Março de 2023, mandado de detenção contra Vladimir Putin por alegados crimes de guerra relacionados com a deportação ilegal de crianças ucranianas.
- A ONU tem documentado milhares de vítimas civis e violações de direitos humanos desde o início da invasão.
- A NATO classificou a China como “decisive enabler” da guerra russa, devido ao apoio material e político à base industrial militar de Moscovo.
- A tragédia europeia regressa mais de oitenta anos depois da derrota do nazismo, agora com novos uniformes, novas alianças e velhas ambições imperiais.
O Mal que Regressa com Botas Novas
Mais de oitenta anos depois da Segunda Guerra Mundial, a humanidade volta a assistir ao regresso de uma velha sombra. Não regressa exactamente igual, porque a História raramente se repete com a preguiça de um funcionário público; regressa antes como tragédia remodelada, com tecnologia moderna, propaganda digital, drones, satélites, fábricas de desinformação e uma burocracia fria capaz de transformar cidades em cinza e crianças em estatística.
A Rússia de Vladimir Putin invadiu a Ucrânia não por necessidade defensiva, não por fatalidade histórica, não por ameaça existencial comprovada, mas por vontade imperial. A Ucrânia tornou-se, aos olhos do Kremlin, uma nação culpada do crime intolerável de querer existir por si própria. E quando um povo livre se torna insuportável para um império, o império revela sempre a sua verdadeira natureza: primeiro nega-lhe a identidade, depois nega-lhe a soberania, finalmente tenta negar-lhe a vida.
A velha máquina do terror
O mal extremo não começa apenas quando os tanques atravessam fronteiras. Começa antes: na linguagem. Começa quando se chama “libertação” à ocupação, “defesa” à agressão, “paz” à rendição do outro, “segurança” à destruição da liberdade. Começa quando a mentira deixa de ser um acidente e passa a ser método de governo.
Foi assim com os grandes totalitarismos do século XX. Antes dos campos, vieram os discursos. Antes das valas comuns, vieram os decretos. Antes das ruínas, vieram os mapas desenhados por homens sentados em gabinetes aquecidos, convencidos de que a vida dos outros era apenas matéria-prima para a sua arquitectura de poder.
Putin não é Hitler, nem Estaline, porque a História não produz fotocópias. Mas transporta consigo elementos reconhecíveis dessa linhagem negra: culto da força, perseguição da oposição, desprezo pela verdade, imperialismo territorial, sacrifício de vidas humanas em nome de uma grandeza imaginária e transformação da pátria numa extensão da vontade do chefe.
A Ucrânia como fronteira moral
A Ucrânia tornou-se hoje mais do que um país em guerra. Tornou-se uma fronteira moral da civilização. De um lado está a ideia de que uma nação tem direito a escolher o seu destino; do outro, a ideia arcaica de que os povos pequenos existem por tolerância dos impérios grandes.
Nas cidades bombardeadas, nas centrais eléctricas destruídas, nas casas reduzidas a escombros, nas famílias separadas e nos milhares de civis mortos ou feridos, não vemos apenas uma guerra regional. Vemos uma pergunta dirigida a todos nós: a liberdade ainda merece defesa, ou tornou-se apenas uma palavra bonita para discursos de domingo?
A ONU tem vindo a documentar o custo humano desta guerra, incluindo vítimas civis, destruição de infra-estruturas e violações graves de direitos humanos. Em Abril de 2026, a missão de monitorização da ONU para os direitos humanos na Ucrânia registou um dos meses mais pesados para civis desde Julho de 2025, com centenas de mortos e feridos. Isto não é uma abstração geopolítica. É carne, sangue, medo, luto e infância interrompida.
O mandado que atravessa a máscara
Em Março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandado de detenção contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova, acusando-os de responsabilidade por crimes de guerra relacionados com a deportação ilegal e transferência de crianças ucranianas de territórios ocupados. A Rússia rejeitou as acusações, como rejeita quase tudo o que a confronta com a sua própria sombra.
Mas esse mandado tem valor simbólico profundo. Diz ao mundo que o poder absoluto não pode ser confundido com inocência. Diz que uma assinatura presidencial não lava um crime. Diz que há crianças que não são peças de xadrez, nem troféus ideológicos, nem instrumentos de reeducação imperial.
A China e a oficina silenciosa da retaguarda
A China apresenta-se como actor prudente, defensor do diálogo e da estabilidade. Mas a prudência, quando serve para alimentar a máquina de guerra de outro regime autoritário, torna-se cumplicidade elegante. A NATO declarou em 2024 que a República Popular da China se tornou um “decisive enabler” da guerra russa contra a Ucrânia, referindo a parceria sem limites com Moscovo e o apoio à base industrial de defesa russa.
Pequim não precisa de disparar o míssil para participar na arquitectura do desastre. Basta fornecer profundidade económica, canais comerciais, componentes de dupla utilização, cobertura diplomática e oxigénio estratégico. O mundo autoritário aprendeu a cooperar por camadas: um bombardeia, outro financia; um ameaça, outro compra energia; um destrói, outro fala de paz.
A relação sino-russa não é uma amizade romântica entre impérios. É uma conveniência fria. A China não deseja necessariamente morrer pela Rússia, mas também não deseja uma derrota russa que fortaleça o Ocidente democrático. E assim o mundo entra numa zona cinzenta: não uma guerra mundial declarada, mas uma guerra global fragmentada, económica, tecnológica, informacional e moral.
A tragédia que insiste em repetir-se
O mais terrível não é apenas que a barbárie regresse. O mais terrível é que regresse depois de tudo sabermos. Depois de Auschwitz. Depois do Gulag. Depois de Hiroshima. Depois de Sarajevo. Depois de Alepo. Depois de tantas promessas solenes de “nunca mais”, repetidas em assembleias internacionais, escolas, museus, discursos presidenciais e cerimónias com coroas de flores.
O “nunca mais” tornou-se, demasiadas vezes, uma frase decorativa. Um verniz moral aplicado sobre a madeira velha da cobardia. Dizemos “nunca mais” enquanto negociamos com tiranos, enquanto relativizamos invasões, enquanto calculamos custos energéticos, enquanto fingimos neutralidade perante a vítima e o agressor.
A tragédia humana não se repete porque a humanidade nada aprende. Repete-se porque aprende e esquece. Aprende nos escombros, esquece nos salões. Aprende nos cemitérios, esquece nos mercados. Aprende diante dos mortos, esquece diante dos contratos.
O mal moderno usa gravata
O mal extremo dos nossos dias raramente se apresenta como demónio de teatro. Usa gravata, estatísticas, conferências de imprensa, ecrãs de plasma, comunicados oficiais, mapas militares e palavras cuidadosamente higienizadas. Fala de “multipolaridade” quando quer dizer zonas de submissão. Fala de “segurança” quando quer dizer obediência. Fala de “tradição” quando quer dizer medo da liberdade.
Este é talvez o rosto mais perigoso do mal contemporâneo: a sua capacidade de parecer administrativo. Já não precisa de gritar sempre. Por vezes basta-lhe carimbar. Assina uma ordem, bloqueia uma cidade, deporta uma criança, bombardeia uma central, censura uma palavra, prende um opositor, manipula uma eleição. Tudo com a frieza de quem preenche uma folha Excel da infâmia.
A responsabilidade das democracias
As democracias não são perfeitas. São lentas, hesitantes, contraditórias, tantas vezes capturadas por burocracias medíocres e interesses mesquinhos. Mas ainda conservam uma diferença essencial: podem ser criticadas sem que o crítico desapareça numa prisão, numa janela aberta ou num campo remoto.
Defender a Ucrânia não é defender um governo perfeito. É defender um princípio imperfeito mas indispensável: nenhum país deve ser apagado porque um vizinho poderoso se convenceu de que a História lhe pertence. A liberdade não é pura. Mas a tirania é previsível: começa por prometer ordem e acaba sempre a exigir silêncio.
A Europa, que tanto gosta de se imaginar como continente da memória, tem agora de provar que a memória não é apenas museu. É política. É coragem. É energia. É defesa. É indústria. É tecnologia. É capacidade de dizer aos predadores que o tempo das fronteiras redesenhadas à força não pode regressar sem custo.
Epílogo: a luz não é neutra
Há momentos em que a neutralidade deixa de ser prudência e passa a ser cumplicidade. Perante um incêndio, ninguém é neutro entre a água e a gasolina. Perante uma invasão, ninguém é igualmente distante da vítima e do agressor. Perante a deportação de crianças, a destruição de cidades e a chantagem nuclear, a moderação verbal pode tornar-se apenas cobardia com fato académico.
O mal extremo paira sobre a humanidade não porque seja invencível, mas porque encontra sempre quem o desculpe, quem o financie, quem o relativize, quem lhe compre gás, petróleo, metais, microchips ou silêncio. O mal raramente vence sozinho. Precisa de cúmplices, de medrosos, de oportunistas e de contabilistas da consciência.
Mais de oitenta anos depois, a tragédia regressa à Europa como um velho comboio nocturno carregado de fantasmas. Mas ainda há povos que resistem, cidades que se levantam, vozes que recusam ajoelhar-se, soldados que defendem as suas casas, mães que procuram os seus filhos, jornalistas que documentam a verdade, cidadãos que não aceitam trocar liberdade por conforto.
Talvez seja essa a última esperança: a de que a humanidade, mesmo ferida, ainda conserve alguma luz. Não uma luz ingénua, de postal ilustrado, mas uma luz dura, consciente, vigilante. A luz que sabe que a civilização não é aquilo que herdámos; é aquilo que temos de defender todos os dias contra os que querem transformar o mundo num mapa de possessões.
Porque a barbárie tem botas novas. Mas a consciência humana, quando desperta, ainda sabe fazer barricadas de memória.
Referências internacionais
-
Reuters — ataque russo a Kyiv com mísseis e drones, Maio de 2026:
Russia hits Ukraine with Oreshnik missile in one of war’s biggest attacks on Kyiv -
AP News — ataques russos e ameaças a Kyiv:
Russia maintains attacks on Ukraine -
ONU / Human Rights Monitoring Mission in Ukraine — vítimas civis e violações de direitos humanos:
Protection of Civilians in Armed Conflict — April 2026 -
Tribunal Penal Internacional — mandados de detenção contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova:
ICC judges issue arrest warrants -
Reuters — cobertura do mandado do TPI contra Putin:
ICC judges issue arrest warrant for Putin over war crimes in Ukraine -
NATO — declaração da Cimeira de Washington, classificando a China como “decisive enabler” da guerra russa:
Washington Summit Declaration -
Chatham House — análise sobre a relação estratégica entre China e Rússia:
China and Russia’s strategic duo endures – but its limits are clear -
Conselho da União Europeia — sanções contra entidades que fornecem bens de dupla utilização ao complexo militar-industrial russo:
20th round of EU sanctions
Crónica de Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — onde a memória não aceita ajoelhar-se perante a barbárie.
Com apoio Editorial e investigação a cargo de Augustus Veritas.


