Democracia e Sociedade

A Europa das Esplanadas e o Som das Botas Cardadas

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BOX DE FACTOS

  • A despesa de defesa dos Estados-membros da União Europeia deverá atingir cerca de 381 mil milhões de euros em 2025, aproximadamente 2,1% do PIB, segundo o Conselho da União Europeia.
  • A NATO afirma que, em 2025, todos os Aliados cumpriram ou excederam o antigo objectivo de 2% do PIB em defesa.
  • O exercício naval BALTOPS de 2026, no Báltico, deverá envolver cerca de 20 navios, 15 países e 6.000 militares, aproximadamente metade da dimensão do ano anterior, segundo a Reuters.
  • A escassez global de interceptores Patriot criou uma “janela de vulnerabilidade” explorada pela Rússia contra a Ucrânia, segundo análise publicada pelo The Guardian.
  • Centros internacionais de análise, como o CSIS, descrevem o aumento de cooperação entre Rússia, China, Irão e Coreia do Norte como um alinhamento autoritário acelerado pela guerra na Ucrânia.

A Europa das Esplanadas e o Som das Botas

A Europa aprendeu a falar de paz como quem escolhe vinho numa esplanada: com ponderação, gestos largos e uma certa superioridade moral. O problema é que, enquanto a Europa comenta, há quem fabrique mísseis, compre munições, treine exércitos e desenhe mapas sobre a mesa.

Há uma doença antiga no espírito europeu contemporâneo: a ilusão de que a civilização, por si só, dissuade a barbárie. Como se as catedrais, os cafés, os parlamentos, os festivais literários, as conferências de paz e os comunicados diplomáticos fossem suficientes para travar tanques, drones, sabotagens, chantagens energéticas e Estados predadores.

Não são. Nunca foram. A paz é uma construção moral, sim; mas é também uma arquitectura material. Tem tribunais, tratados e diplomacia, mas também fábricas, radares, arsenais, treino, inteligência, logística, energia, cabos submarinos protegidos, fronteiras vigiadas e populações mentalmente preparadas para defender aquilo que dizem amar.

1. A liturgia europeia: condenar, reunir, lamentar

A Europa condena. A Europa reúne. A Europa declara. A Europa lamenta profundamente. A Europa manifesta preocupação. A Europa acompanha com atenção. A Europa apela à contenção. A Europa sublinha a importância do direito internacional. E depois, demasiadas vezes, regressa à sua cadeira almofadada, satisfeita por ter produzido mais uma magnífica nuvem de palavras.

O problema não está em falar de paz. Falar de paz é necessário. O problema está em falar de paz como substituto da força, como se a paz pudesse sobreviver sem consequência. A diplomacia sem músculo é música ambiente para autocratas. Putin, Xi, Teerão e Pyongyang não escutam conferências como convites à razão: escutam-nas como sinais de hesitação.

A União Europeia está a gastar mais em defesa. Segundo o Conselho da UE, a despesa dos Estados-membros deverá alcançar cerca de 381 mil milhões de euros em 2025, ou 2,1% do PIB. É um crescimento importante. Mas a pergunta decisiva não é apenas quanto se gasta; é em quê, com que rapidez, com que integração industrial e com que capacidade operacional real. Uma verba anunciada não intercepta um míssil. Uma cimeira não substitui munições.

2. “Cada centímetro” — a frase certa, a dúvida errada

A NATO repete, há anos, que defenderá cada centímetro do território aliado. A frase é necessária. Mas a sua força depende de uma única coisa: o adversário acreditar nela. A dissuasão vive menos daquilo que se promete e mais daquilo que o inimigo julga que estamos dispostos a fazer.

A Aliança afirma que, em 2025, todos os Aliados cumpriram ou excederam o antigo objectivo dos 2% do PIB em defesa, e que os Aliados europeus e o Canadá aumentaram significativamente o investimento. Isso é positivo. Mas a História tem uma ironia cruel: os impérios raramente testam os números dos orçamentos; testam os nervos das sociedades.

Quando a Reuters noticia que o exercício BALTOPS de 2026 no Báltico será reduzido para cerca de 20 navios e 6.000 militares, aproximadamente metade da dimensão do ano anterior, por constrangimentos operacionais noutros teatros, a mensagem pública pode continuar a ser de unidade. Mas os adversários lêem também outra coisa: dispersão, fadiga, dependência americana, competição de crises e limites logísticos.

Não basta dizer “cada centímetro”. É preciso que cada centímetro tenha artilharia, defesa aérea, planos de mobilidade militar, depósitos de munições, capacidade médica, comunicações resilientes, indústria activa e governos que não tremam ao primeiro uivo do Kremlin.

3. O erro moral: culpar sempre os aliados, desculpar sempre os carrascos

Há uma parte da opinião pública europeia que desenvolveu um reflexo quase pavloviano: perante qualquer crise internacional, a culpa deve estar nos Estados Unidos, em Israel, na NATO, no Ocidente, no capitalismo, no colonialismo ou noutra abstracção confortável. Tudo serve, desde que o agressor concreto desapareça atrás de uma cortina ideológica.

Criticar os aliados é legítimo. Criticar os Estados Unidos é necessário muitas vezes. Criticar Israel, quando há razões para isso, também. Mas transformar essa crítica numa absolvição automática de regimes que invadem países, esmagam dissidentes, financiam milícias, atacam civis, envenenam opositores, controlam a imprensa e usam o medo como política externa é uma forma de cegueira moral.

A sofisticação europeia tem por vezes este defeito ridículo: procura sempre uma explicação complexa para não nomear o óbvio. E o óbvio é isto: há regimes que não querem coexistência livre; querem zonas de influência, submissão estratégica, medo, silêncio e impunidade.

4. A aliança dos predadores não precisa de amor; basta-lhe utilidade

Rússia, China, Irão e Coreia do Norte não formam uma irmandade filosófica. Não precisam de se amar. Basta-lhes partilhar inimigos, métodos e conveniências. O CSIS descreve este alinhamento como uma cooperação crescente para desafiar os Estados Unidos e a ordem internacional, acelerada pela guerra na Ucrânia.

A Rússia precisa de munições, drones, componentes, mercados e cobertura diplomática. O Irão precisa de profundidade estratégica, influência regional e capacidade de perturbação. A Coreia do Norte precisa de dinheiro, tecnologia, alimento político e relevância militar. A China observa, calcula e aproveita. Não precisa de disparar todos os tiros; basta-lhe estudar o desgaste ocidental e garantir que a balança se inclina lentamente.

É isto que muitos europeus ainda não entenderam: o eixo autoritário não tem de vencer militarmente a Europa amanhã. Basta-lhe torná-la hesitante, dependente, fragmentada, culpada de si própria e incapaz de agir antes de cada crise se transformar numa catástrofe.

5. A escassez de Patriots e a realidade que não cabe nos discursos

O caso dos interceptores Patriot é exemplar. O The Guardian noticiou que a escassez global destes mísseis criou uma “janela de vulnerabilidade” explorada pela Rússia na Ucrânia. Eis a realidade nua: quando faltam interceptores, não é uma resolução parlamentar que detém um míssil balístico.

Durante décadas, a Europa viveu do chamado dividendo da paz. Cortou arsenais, reduziu exércitos, adiou investimento, desindustrializou parte da sua defesa, confiou nos Estados Unidos e acreditou que a guerra convencional tinha sido arquivada no museu das brutalidades antigas. Putin retirou o museu da cave, limpou-lhe o pó e colocou-o de novo na estrada.

A Ucrânia paga hoje, com sangue, muitas ilusões europeias. E a Europa devia compreender que ajudar a Ucrânia não é caridade geopolítica; é defesa avançada do próprio continente. Cada drone abatido sobre Kyiv é uma lição para Varsóvia, Vilnius, Riga, Tallinn, Helsínquia, Bucareste e, sim, também para Lisboa, onde se continua a discutir o mundo como se a geografia fosse um cobertor mágico.

6. O café, a esplanada e a sombra das botas

A imagem da Europa sentada em esplanadas, ao som de música suave, a comentar o mundo com elegância e indignação selectiva, é cruel porque é verdadeira. Há uma parte do continente que se habituou à paz como quem se habitua à electricidade: carrega no interruptor e espera que a luz acenda.

Mas a paz não é electricidade. A paz é manutenção permanente. É vontade. É memória histórica. É capacidade de reconhecer o perigo antes de ele bater à porta. É a coragem de dizer que nem todos os conflitos são mal-entendidos, nem todos os tiranos são vítimas incompreendidas, nem todos os agressores podem ser domesticados por seminários.

O dia perigoso não será necessariamente aquele em que os tanques atravessarem uma fronteira da NATO. Será o dia em que uma série de pequenos testes — drones, sabotagens, ciberataques, chantagem energética, pressão migratória instrumentalizada, desinformação, compra de elites, intimidação nuclear — tiver corroído a vontade europeia até ao ponto em que já ninguém saiba onde começa a guerra e onde acabou a paz.

7. A conclusão desagradável

A Europa não precisa de se tornar belicista. Precisa de deixar de ser ingénua. Não precisa de abandonar a diplomacia. Precisa de lhe devolver coluna vertebral. Não precisa de odiar a Rússia. Precisa de perceber que o regime russo actual interpreta a fraqueza como convite, a hesitação como oportunidade e a divisão como estrada aberta.

A paz sem defesa é uma oração sem telhado. Pode ser bela, pode ser sincera, pode até comover os anjos; mas, quando começa a chover fogo, não abriga ninguém.

O drama europeu é este: quer continuar a ser jardim, mas esqueceu-se de cuidar dos muros. E há lobos que não se impressionam com flores.

Quando as botas cardadas chegarem ao pescoço, já não haverá comunicado final, nem conferência de imprensa, nem café amargo capaz de salvar os que confundiram conforto com segurança.

Referências internacionais

Crónica de Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
Texto escrito em colaboração editorial com Augustus Veritas.

Nota Final — Aviso aos Pavões da Democracia

Fica este aviso aos pavões da democracia: não basta exibir as penas ao sol das esplanadas, nem desfilar virtudes em conferências, manifestos e discursos bem iluminados.

A liberdade não sobrevive apenas de frases belas, nem a paz se defende com chávenas de café, indignações selectivas e superioridade moral de fim-de-semana. Quando a noite desce sobre a História, não são as penas que travam as botas cardadas. São a coragem, a memória, a indústria, a inteligência, a unidade e a vontade firme de um povo que ainda sabe distinguir civilização de sonambulismo.

Porque os pavões podem ser belos no jardim. Mas, perante os lobos, a beleza sem força é apenas ornamento antes do desastre.

A Europa das esplanadas contempla o mundo enquanto a sombra das botas cresce no horizonte.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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