O Ocidente e a Mansidão Democrática perante o Mal Organizado
BOX DE FACTOS
- Em Maio de 2026, a presidência rotativa do Conselho de Segurança das Nações Unidas pertence à China.
- O Conselho de Segurança continua estruturalmente limitado pelo direito de veto dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, Reino Unido, França, Rússia e China.
- A Assembleia Geral da ONU condenou a agressão russa contra a Ucrânia em Março de 2022 por 141 votos favoráveis.
- A União Europeia adoptou em Abril de 2026 o 20.º pacote de sanções contra a Rússia pela sua guerra de agressão contra a Ucrânia.
- Em Maio de 2026, o Conselho da União Europeia alargou medidas restritivas contra membros do Politburo do Hamas que promovem, defendem ou justificam acções violentas.
- A questão central permanece: as democracias conseguem defender-se do mal organizado sem perder a sua própria alma civilizacional?
A Mansidão Democrática perante o Mal Organizado
Há uma forma de cobardia moderna que se veste de prudência. Usa linguagem diplomática, invoca valores universais, organiza conferências, publica comunicados e termina quase sempre com uma expressão piedosa: “profunda preocupação”. O mundo arde; os comunicados suspiram.
A presidência chinesa do Conselho de Segurança da ONU em Maio de 2026 é, por si só, uma imagem quase teatral da tragédia contemporânea: uma organização criada para defender a paz mundial pode ser temporariamente conduzida por uma potência autoritária que censura, vigia, reprime dissidentes, esmaga liberdades em Hong Kong e mantém uma política dura de controlo interno. Não se trata de hostilidade ao povo chinês, que é vítima e herdeiro de uma civilização admirável. Trata-se de olhar para o regime que governa a China sem pedir licença à hipocrisia.
O mesmo se aplica à Rússia de Putin, à Coreia do Norte da dinastia Kim e ao Irão teocrático. Não falamos de nações no sentido cultural ou humano. Falamos de regimes. Regimes que transformaram o Estado em máquina de repressão, a propaganda em oxigénio político e o medo em método de governo.
A ONU: uma arquitectura nobre com canalizações podres
A Organização das Nações Unidas nasceu de uma intenção elevada: impedir que o mundo regressasse à barbárie total depois da Segunda Guerra Mundial. Mas a sua arquitectura política contém uma contradição fatal. O Conselho de Segurança, órgão encarregado da paz e da segurança internacionais, pode ser bloqueado por qualquer um dos seus cinco membros permanentes. Entre eles estão precisamente a Rússia e a China.
Esta estrutura cria um paradoxo moral: quando um membro permanente viola a ordem internacional, invade países, protege aliados criminosos ou bloqueia sanções decisivas, a ONU transforma-se numa espécie de tribunal onde o réu tem a chave da porta, escolhe o juiz e ainda decide se a sentença pode ser lida em voz alta.
A invasão russa da Ucrânia revelou este absurdo com uma clareza brutal. A Assembleia Geral condenou a agressão russa por esmagadora maioria. Mas a capacidade executiva da ONU ficou limitada pelo bloqueio político no Conselho de Segurança. A comunidade internacional falou; o mecanismo de poder engasgou-se. E, como sempre, os mortos não esperam pela próxima ronda de negociações.
A Europa dos valores e o medo de usar a palavra força
A Europa gosta de falar de valores. Direitos humanos, democracia, dignidade, Estado de Direito, paz, multilateralismo. Tudo isto é essencial. Mas os valores, quando não são defendidos, tornam-se decoração moral. São vitrais bonitos numa catedral vazia.
A União Europeia tem aplicado sanções contra a Rússia, contra redes ligadas ao terrorismo e contra actores envolvidos em violações graves. Isso deve ser reconhecido. Mas também é verdade que a Europa reage frequentemente tarde, dividida, exausta pelos seus próprios procedimentos e incapaz de transformar poder económico em vontade estratégica.
Durante décadas, muitos europeus convenceram-se de que a História tinha terminado, que o comércio domesticaria ditaduras, que a interdependência económica bastaria para impedir guerras, que regimes autoritários se tornariam razoáveis se fossem convidados para fóruns, tratados e jantares com tradução simultânea. A Rússia destruiu essa ilusão na Ucrânia. O Irão e os seus instrumentos regionais destruíram-na no Médio Oriente. A China testa-a no Indo-Pacífico. A Coreia do Norte ri-se dela entre mísseis e campos de repressão.
A Europa continua muitas vezes a agir como se o mundo fosse uma reunião de condomínio complicada. Mas há actores que não querem ajustar quotas de condomínio: querem incendiar o prédio.
Regimes autoritários e terrorismos de procuração
O mal político contemporâneo raramente aparece sozinho. Vem em rede. Regimes autoritários apoiam-se mutuamente, trocam tecnologia, energia, armas, narrativas e métodos de repressão. Organizações terroristas funcionam como braços informais, instrumentos de pressão e formas de guerra por procuração.
O Irão é um exemplo central desta lógica. O regime teocrático iraniano não ameaça apenas pela repressão interna, pelo controlo das mulheres, pela perseguição de opositores ou pelo uso da pena de morte. Ameaça também pelo ecossistema regional que alimenta: milícias, organizações armadas, propaganda religiosa e política, e uma visão do mundo onde a destruição do adversário é convertida em missão sagrada.
A Rússia ameaça pela guerra aberta, pela desinformação, pela chantagem energética, pela nostalgia imperial e pelo desprezo pela soberania de Estados vizinhos. A China ameaça de forma mais paciente e sistémica: controlo tecnológico, pressão económica, vigilância, censura, infiltração estratégica e ambição de remodelar as regras internacionais à sua medida. A Coreia do Norte representa a caricatura extrema do totalitarismo nuclear: um Estado-prisão armado até aos dentes.
E depois há o terrorismo. Não como abstracção académica, mas como método: matar civis, espalhar medo, sequestrar, violar, usar populações como escudo, transformar escolas, hospitais, bairros e campos de refugiados em peças de uma guerra moralmente deformada.
Israel e a solidão das democracias cercadas
Israel é uma democracia imperfeita, dura, dividida, muitas vezes turbulenta, com conflitos internos profundos e decisões políticas que podem e devem ser escrutinadas. Mas é também uma democracia cercada por inimigos que, em muitos casos, não contestam apenas uma política, uma fronteira ou um governo: contestam o seu direito à existência.
Essa distinção é essencial. Criticar um governo israelita é legítimo. Criticar operações militares concretas é legítimo. Exigir respeito pelo direito humanitário é legítimo. Mas negar a Israel o direito de se defender perante organizações terroristas que declaram querer destruí-lo já não é crítica política: é cumplicidade moral com a barbárie.
Uma democracia tem o direito e o dever de proteger os seus cidadãos. Nenhum Estado livre pode aceitar que massacres, raptos, foguetes, túneis, chantagem sobre civis e culto da morte sejam tratados como formas exóticas de resistência. O terrorismo não é uma opinião com explosivos. É a negação violenta da vida civilizada.
Mas precisamente por ser uma democracia, Israel deve combater sem se transformar na imagem moral dos seus inimigos. A força é necessária; a vingança cega é perigosa. A legítima defesa é um direito; a protecção de civis inocentes é uma obrigação. A fronteira entre civilização e barbárie não se mede apenas pelos inimigos que enfrentamos, mas pelos limites que recusamos ultrapassar mesmo quando temos razão para estar furiosos.
Com o terrorismo não se negoceia como se fosse burocracia
Há uma frase que incomoda as almas delicadas dos salões diplomáticos: com o terrorismo não se negoceia como se fosse uma divergência administrativa. Combate-se.
Isto não significa recusar toda a diplomacia, toda a mediação ou toda a estratégia política. Significa apenas recusar a mentira moral que coloca democracias e terroristas no mesmo plano. Uma coisa é um Estado democrático responder perante leis, tribunais, imprensa livre, oposição política e opinião pública. Outra coisa é uma organização armada que glorifica a morte, instrumentaliza civis e transforma a destruição em identidade.
A paz não nasce da ingenuidade. Nasce, muitas vezes, da percepção clara de que o agressor não vencerá. A paz sem força é súplica. A força sem moral é brutalidade. A civilização precisa das duas coisas: firmeza e limites.
A doença moral do falso equilíbrio
Uma das grandes doenças do nosso tempo é o falso equilíbrio. A tentação de colocar tudo no mesmo prato: democracia e totalitarismo, defesa e agressão, erro militar e terrorismo deliberado, censura e liberdade de expressão, Estado de Direito e polícia política.
Este falso equilíbrio dá uma aparência de sofisticação intelectual. Na verdade, é preguiça moral com gravata. O mundo é complexo, sim. Mas complexidade não significa equivalência. Há regimes que prendem, torturam, executam, censuram e ameaçam vizinhos. Há organizações que matam civis por doutrina. Há Estados que procuram defender-se. Misturar tudo numa sopa moral indistinta é uma forma elegante de abdicar do juízo.
A Europa tornou-se perita nesta arte da nuance até à paralisia. Teme parecer agressiva. Teme parecer parcial. Teme parecer ocidental. Teme, acima de tudo, assumir que os seus próprios valores exigem defesa, custo e risco. Mas uma civilização que tem vergonha de se defender já começou a redigir o prefácio da sua submissão.
A liberdade precisa de músculos
Durante muito tempo, os europeus imaginaram que a liberdade era uma espécie de ambiente natural, como o ar ou a luz da manhã. Não é. A liberdade é uma construção histórica frágil, cara, imperfeita e permanentemente ameaçada. Precisa de instituições, cultura, memória, educação, energia, defesa, tecnologia, fronteiras, alianças e coragem.
Os inimigos da liberdade sabem isto melhor do que muitos democratas. Por isso investem em propaganda, ciberataques, dependências económicas, energia como arma, manipulação de redes sociais, chantagem migratória, terrorismo, espionagem e guerra híbrida. Enquanto isso, demasiadas elites europeias continuam a acreditar que a História pode ser vencida com declarações finais de cimeira.
A liberdade não se defende apenas com boas intenções. Defende-se com vontade. E, quando necessário, com força legítima.
A fronteira civilizacional
O mundo democrático não enfrenta apenas adversários geopolíticos. Enfrenta uma crise de convicção. Ainda acredita nos seus valores? Está disposto a protegê-los? Tem coragem para distinguir vítimas de agressores, democracias de tiranias, erros de crimes deliberados, defesa de terrorismo?
A resposta a estas perguntas definirá o século XXI. Não basta proclamar direitos humanos em dias comemorativos. Não basta iluminar edifícios públicos com cores simbólicas. Não basta repetir que “não há solução militar” quando há inimigos que só avançam porque acreditam que ninguém os deterá militarmente.
A civilização democrática deve querer a paz. Mas não deve confundir paz com rendição. Deve procurar diálogo. Mas não deve transformar diálogo em altar onde se sacrifica a verdade. Deve respeitar a vida humana. Mas não deve permitir que os inimigos da vida usem esse respeito como escudo para a barbárie.
Conclusão: não há civilização sem coragem
A ONU precisa de reforma profunda. A Europa precisa de coluna vertebral. As democracias precisam de reaprender a linguagem da força legítima. E os cidadãos livres precisam de abandonar a ilusão confortável de que a liberdade se mantém sozinha, como se fosse uma aplicação em segundo plano.
A verdade é mais dura: há regimes e movimentos que desprezam a liberdade, odeiam a democracia, instrumentalizam o sofrimento e usam a morte como argumento político. Perante isso, a mansidão pode ser virtude individual, mas torna-se vício estratégico.
Com o terrorismo não se negoceia como se fosse parte legítima de um desacordo administrativo. Combate-se. Mas combate-se em nome da civilização, não contra ela. Combate-se com força, sim; mas também com limites, justiça, inteligência e memória.
Porque vencer o mal exige coragem. Mas continuar a ser civilização exige alma.
Referências internacionais
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United Nations Security Council — Presidency of the Security Council, May 2026.
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European External Action Service — UN General Assembly demands Russian Federation withdraw all military forces from Ukraine, March 2022.
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Council of the European Union — 20th package of EU sanctions against Russia, April 2026.
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Council of the European Union — Sanctions framework expanded against Hamas and Palestinian Islamic Jihad, May 2026.
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Council of the European Union — EU restrictive measures against terrorism.
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Human Rights Watch — World Report 2026: China.
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Human Rights Watch — World Report 2026: North Korea.
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OHCHR — DPRK: UN report finds increased suffering, repression and fear, September 2025.
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OHCHR — Situation of human rights in the Islamic Republic of Iran, 2025.
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Human Rights Watch — World Report 2025.
Para Fragmentos do Caos
Artigo escrito em colaboração editorial de Aletheia Veritas
Nota Final
A Europa parece ter descoberto uma coragem selectiva: ergue a voz contra Israel, porque Israel responde, debate, tem imprensa livre, tribunais, oposição e escrutínio público; mas baixa o tom perante regimes que prendem, torturam, censuram, executam e financiam a violência, porque esses regimes não discutem — ameaçam.
É mais fácil condenar uma democracia em guerra do que enfrentar uma tirania em paz aparente. É mais confortável exigir pureza moral a Israel do que exigir civilização política ao Irão, à Coreia do Norte, à Rússia ou à China.
E assim a Europa arrisca transformar os seus valores numa estranha caricatura: implacável com os imperfeitos que ainda reconhecem limites; cautelosa com os brutais que nunca os reconheceram.
A crítica a Israel pode ser legítima quando se fala de civis, colonatos, proporcionalidade e direito humanitário. Mas quando essa crítica se torna obsessiva, desproporcionada e desligada da condenação firme do terrorismo e dos regimes que o alimentam, deixa de ser humanismo. Passa a ser miopia moral com perfume diplomático.
– Francisco Gonçalves


