Assalto a "coisa pública",  Corrupção,  Mediocridade,  Nepotismo

Entre o Código e o Caos — Crónica da Falha Portuguesa

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O Governo das Tecnologias e o Código da Vergonha

🜂 Box de Factos

O novo sistema informático dos Tribunais Administrativos e Fiscais, introduzido no dia 20, mergulhou a Justiça no caos: processos perdidos, juízes sem acesso, julgamentos adiados e erros de encaminhamento. O Conselho Superior dos Tribunais exigiu uma reunião urgente com o Ministério da Justiça, que respondeu com a promessa de “melhorar as funcionalidades”.

Portugal quis digitalizar a Justiça e conseguiu — digitalizou o caos.
O novo sistema informático, lançado com pompa e “visão tecnológica”, não trouxe eficiência, mas desordem. É a velha tradição lusitana do milagre digital: a cada nova plataforma, nasce um novo colapso.

Os tribunais ficaram paralisados, processos evaporaram-se, acessos desapareceram e juízes receberam dossiês que nunca lhes pertenceram. Mas, claro, o Ministério da Justiça tranquilizou a nação com a sua ladainha habitual: “Comprometemo-nos a melhorar as funcionalidades.”
Frase sagrada, dita sempre que o desastre é demasiado grande para ser explicado.

Vivemos num país onde o Estado se gaba de “governo digital”, mas ainda não aprendeu a testar um sistema antes de o colocar em produção. Onde o “CTO das Maravilhas” é um político com PowerPoint, e o código é entregue a empresas que programam às cegas, sem auditoria, sem redundância e, claro, sem responsabilidade.

Quando um tribunal perde processos por falha informática, não é uma “ocorrência técnica” — é uma **violação da justiça**.
O software tornou-se a nova toga dos juízes, e cada erro é um julgamento adiado, um direito ferido, uma confiança quebrada.

Mas nada disto é novo. É a cultura do improviso e do favor, aplicada à informática pública: concursos milionários, sistemas entregues por quem não compreende a sua importância e direções gerais transformadas em feudos digitais.

O resultado é previsível — bugs, falhas, promessas e… comunicados.
No fim, o povo paga. O programador invisível leva a culpa. O ministro sorri. E o sistema continua a falhar com elegância institucional.

Chama-se modernização. Eu chamo-lhe o código da vergonha.


una junção de cabos de rede unplugged

Durante décadas, assisti a estas tragédias digitais a repetirem-se com nomes novos e erros antigos.
São sempre os mesmos fantasmas: a falta de visão estrutural, a ausência de planeamento, a mediocridade travestida de modernidade.
Vi ministros encantados com protótipos e diretores fascinados por contratos — mas quase nunca encontrei engenheiros a pensar o futuro.
Em Portugal, a tecnologia pública é muitas vezes conduzida por quem não sabe o que é um ciclo de vida de projeto, um teste de stress, uma arquitetura redundante.
E por isso tudo falha — não por azar, mas por incompetência pura e dura.
Enquanto a vaidade dita as decisões, o país continua a tropeçar nos seus próprios cabos.

— Francisco Gonçalves / Fragmentos do Caos


“Um bug no coração da Justiça é mais grave do que mil falhas num servidor — é o colapso da confiança.”

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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