Portugal, o País das Equivalências
Portugal, o País das Equivalências
Quando tudo é cultura, nada precisa de nos tornar melhores
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos | Julho de 2026
Esta crónica não pretende expulsar a música popular, o futebol, as festas locais ou o entretenimento do território da cultura. Todos eles pertencem à vida de uma comunidade e possuem valor social, afectivo e identitário.
A crítica dirige-se à abolição de qualquer critério: à ideia cómoda de que todas as manifestações culturais têm o mesmo valor formativo, intelectual e cívico, como se uma biblioteca, uma bancada de estádio, um livro exigente e um produto comercial de consumo imediato fossem experiências equivalentes.
“Quando uma sociedade chama cultura a tudo, deixa de ter de explicar aquilo que escolheu abandonar.”
O país onde tudo é equivalente
Portugal tornou-se o país das equivalências. Um concerto é cultura. Uma festa popular é cultura. Uma visita presidencial é cultura. Um congresso partidário é cultura. Uma feira gastronómica é cultura. Um campeonato de futebol é cultura. Uma inauguração com três discursos, duas fotografias e um prato de croquetes também é cultura. Tudo cabe na palavra, tudo recebe o mesmo carimbo e tudo pode ser apresentado como prova de vitalidade colectiva.
O problema não está em reconhecer que a música popular, o futebol, as romarias e as tradições locais fazem parte da identidade de um povo. Evidentemente que fazem. Quim Barreiros tem um lugar legítimo na cultura portuguesa, tal como o têm o fado, o cante alentejano, o teatro, a literatura, a ciência, a filosofia e a criação contemporânea.
O problema começa quando se conclui que tudo tem o mesmo valor formativo, intelectual e cívico.
Uma biblioteca não é equivalente a um estádio. Um livro não é equivalente a uma canção publicitária. Um debate filosófico não é equivalente a um painel de comentadores desportivos. Uma investigação jornalística não é equivalente à leitura obediente de um comunicado governamental. Uma universidade não deveria ser equivalente a uma fábrica de certificados.
Mas Portugal, com aquela extraordinária capacidade de transformar o nivelamento por baixo numa política de inclusão, decidiu abolir as diferenças. Para não parecer elitista, deixou de distinguir profundidade de ruído, conhecimento de entretenimento, criação de promoção comercial e cultura de ocupação do tempo livre.
Assim nasceu uma sociedade onde tudo é cultura porque já quase ninguém se atreve a perguntar para que serve a cultura.
A cultura sem exigência
A verdadeira cultura não é apenas aquilo que um povo faz. É também aquilo que permite a esse povo compreender-se, questionar-se e ultrapassar-se.
A cultura digna desse nome não confirma permanentemente as nossas certezas. Incomoda-nos. Obriga-nos a comparar ideias, a conhecer outros tempos, a reconhecer erros e a imaginar futuros que não cabem no presente. Exige silêncio, atenção, curiosidade e algum esforço.
Precisamente por isso, tornou-se inconveniente.
É muito mais fácil organizar um espectáculo, contar o número de espectadores e publicar fotografias nas redes sociais do que avaliar se uma comunidade lê, compreende, debate e participa. É mais simples montar um palco do que manter uma biblioteca viva. É mais popular contratar um cantor do momento do que convidar investigadores, escritores ou pensadores para discutir os problemas do território.
O espectáculo oferece resultados imediatos: aplausos, multidões, imagens e votos potenciais.
O pensamento oferece perguntas.
E o poder, como sabemos, nunca teve grande simpatia por perguntas que não possa previamente ensaiar.
Em 2022, apenas 41,3% da população portuguesa entre os 18 e os 69 anos declarou ler livros como actividade de lazer. O valor representou uma subida de 2,5 pontos percentuais face a 2016, mas confirmou que a leitura continuava longe de constituir um hábito maioritário.
Não faltam livros. Não faltam bibliotecas. Não faltam universidades. Falta uma cultura que valorize o conhecimento para além da sua utilidade profissional imediata.
Lê-se para passar num exame, obter uma classificação, alcançar um emprego ou acrescentar uma linha ao currículo. Raramente se lê para compreender o mundo, duvidar das próprias convicções ou conquistar independência intelectual.
Um país com diplomas e sem pensamento
Portugal orgulha-se, justamente, de ter alargado o acesso à educação. Milhares de pessoas que anteriormente estariam afastadas do ensino superior puderam licenciar-se, fazer mestrados e concluir doutoramentos.
Mas a multiplicação dos diplomas não produziu automaticamente uma sociedade mais culta, mais exigente ou mais participativa.
O diploma certifica um percurso académico. Não certifica curiosidade, discernimento, coragem intelectual ou sentido cívico.
Pode haver licenciados incapazes de interpretar um texto complexo. Mestres que nunca lêem um livro fora da sua especialidade. Doutorados que repetem palavras de ordem partidárias. Técnicos altamente qualificados que não compreendem o funcionamento das instituições, não acompanham a vida pública e não distinguem informação de propaganda.
A OCDE registou, em 2025, que 46% dos adultos portugueses entre os 25 e os 64 anos possuíam competências de literacia iguais ou inferiores ao nível 1, perante uma média de 27% no conjunto da organização. Nesse nível, o adulto consegue lidar sobretudo com textos muito curtos, informação explícita e poucos elementos de distracção.
Estes números são particularmente inquietantes porque Portugal já não é o país rural e analfabeto de meados do século XX. É um país europeu, integrado, digitalizado, com universidades, centros de investigação, telecomunicações avançadas e centenas de milhares de diplomados.
Temos mais escolaridade, mas continuamos a revelar dificuldades profundas na compreensão e utilização do conhecimento.
Curiosamente, os alunos portugueses de 15 anos obtiveram, no PISA 2022, resultados próximos da média da OCDE em leitura, matemática e ciências. Porém, os resultados em matemática e leitura desceram face a 2018, e os resultados de 2022 foram inferiores aos de avaliações anteriores nas três áreas.
Isto sugere que o sistema escolar não é apenas uma fábrica de fracasso. O problema é também aquilo que acontece depois: as competências não são cultivadas, a leitura abandona-se, a curiosidade diminui e a vida adulta transforma-se numa sucessão de tarefas profissionais, burocráticas e domésticas.
A sociedade portuguesa parece ensinar durante alguns anos e depois desistir de aprender.
“A iliteracia moderna não consiste apenas em não saber ler. Consiste em ler sem compreender, ouvir sem questionar, votar sem conhecer e obedecer convencido de que se está a pensar.”
A televisão como anestesia nacional
A televisão continua a ser o grande altar doméstico português. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, verificou que sete em cada dez pessoas em Portugal tinham consultado notícias através da televisão na semana anterior ao inquérito. Foi a percentagem mais elevada entre os 48 mercados analisados.
Isto atribui às televisões uma responsabilidade social gigantesca. Mas, em vez de utilizarem esse poder para elevar a qualidade do debate público, muitas estações transformaram a informação numa sucessão de conferências de imprensa, declarações partidárias, crimes do dia, indignações recicladas e futebol industrializado.
O telejornal apresenta frequentemente a política como uma procissão de ministros, secretários de Estado, assessores, autarcas e dirigentes partidários. Chegam, visitam, inauguram, declaram, prometem e partem. O jornalista segura o microfone, o político entrega a frase preparada e o cidadão recebe o acontecimento já embalado.
Pouco se investiga. Pouco se contextualiza. Pouco se compara aquilo que foi prometido com aquilo que foi realizado.
Terminada a liturgia governamental, inicia-se o campeonato nacional da distracção. Horas de futebol, antevisões de futebol, análises de futebol, reacções ao futebol e debates sobre acontecimentos ocorridos num rectângulo de relva, tratados como se deles dependesse a sobrevivência da República.
Não é o futebol que está a mais. É o resto do país que está a menos.
Falta ciência. Falta história. Falta economia explicada sem catecismos partidários. Falta tecnologia. Falta cultura europeia e internacional. Falta acompanhamento sério das políticas públicas. Falta dar voz a pessoas que conhecem os assuntos, mas que não pertencem ao circuito rotativo dos comentadores profissionais.
A televisão não proíbe o pensamento. Limita-se a preencher o espaço disponível até já não restar tempo para pensar.
É uma censura sem censores: não se elimina a informação relevante; afoga-se essa informação num oceano de banalidade.
Da cidadania ao espectáculo
Este ambiente produz uma população que observa a democracia como observa um jogo de futebol.
Escolhe uma equipa, adopta as suas cores, desculpa os seus erros e culpa o adversário. A política deixa de ser a gestão racional do bem comum e transforma-se numa competição emocional entre claques.
Os factos passam a ser avaliados segundo a sua conveniência partidária. Um escândalo é intolerável quando envolve os outros e perfeitamente explicável quando envolve os nossos. A incompetência muda de gravidade conforme a cor do governo. A corrupção é combatida com enorme vigor até atingir alguém próximo.
O cidadão transforma-se em espectador.
Comenta, protesta nas redes sociais, partilha frases e regressa à rotina. Raramente acompanha decisões municipais, consulta documentos públicos, exige dados, participa em associações ou confronta os eleitos com os compromissos assumidos.
Temos democracia eleitoral, mas uma cidadania intermitente.
Aparecemos para votar, quando aparecemos, e desaparecemos durante o resto do mandato. Entregamos o Estado aos partidos, os partidos entregam-no aos aparelhos e os aparelhos distribuem lugares, influências e oportunidades. Depois todos fingem surpresa quando a máquina pública começa a servir prioritariamente aqueles que vivem dentro dela.
Entretanto, os congressos partidários são apresentados como acontecimentos nacionais. Horas de emissão, discursos cuidadosamente coreografados, aplausos sincronizados e análises sobre quem sorriu, quem ficou na primeira fila e quem foi suficientemente hábil para dizer nada durante vinte minutos.
Também isto recebe o nome de cultura democrática.
Mas uma democracia não se mede pela quantidade de congressos transmitidos. Mede-se pela qualidade do escrutínio, pela transparência das decisões, pela independência das instituições e pela capacidade de o cidadão compreender aquilo que está a ser feito em seu nome.
A mediocridade como sistema de protecção
A mediocridade portuguesa não resulta apenas da falta de talento. Portugal tem investigadores, engenheiros, médicos, artistas, professores, empresários e técnicos de grande qualidade.
O problema é que o sistema raramente escolhe os melhores.
Prefere os previsíveis, os obedientes, os que não incomodam, os que sabem circular pelos corredores certos e os que dominam a delicada arte de não contrariar ninguém com poder suficiente para distribuir lugares.
A competência perturba porque revela a incompetência instalada. A independência assusta porque não pode ser controlada. A originalidade incomoda porque obriga a mudar procedimentos. O mérito torna-se perigoso porque ameaça hierarquias construídas sobre lealdades e favores.
Assim, a mediocridade protege-se.
Nomeia os seus semelhantes, promove os seus cúmplices e afasta discretamente quem faz perguntas. Não precisa de conspirar. Basta reproduzir-se.
É um ecossistema quase perfeito: os medíocres escolhem outros medíocres porque junto deles se sentem seguros. Os competentes cansam-se, emigram, isolam-se ou aprendem a fingir que não vêem.
O país perde capacidade, mas preserva a tranquilidade das estruturas.
O país que teremos
Se continuarmos por este caminho, Portugal será um país formalmente instruído, tecnologicamente equipado e civicamente infantil.
Teremos inteligência artificial nos serviços públicos, mas cidadãos incapazes de contestar decisões automatizadas. Teremos aplicações para todos os procedimentos, mas instituições que continuam a não responder. Teremos licenciados, mestres e doutorados, mas pouca autonomia intelectual. Teremos eleições regulares, mas um escrutínio irregular. Teremos liberdade de expressão, mas um espaço público dominado pelo insulto, pela palavra de ordem e pela emoção instantânea.
Seremos consumidores sofisticados e cidadãos rudimentares.
Saberemos utilizar plataformas digitais, mas não reconhecer manipulações. Teremos acesso a mais informação do que qualquer geração anterior, mas menos tempo e disposição para a compreender. Confundiremos velocidade com conhecimento, popularidade com qualidade e visibilidade com importância.
Continuaremos a chamar cultura a tudo, porque distinguir exige critérios, e os critérios criam desconforto.
Mas uma sociedade sem hierarquias de valor não se torna mais livre. Torna-se mais vulnerável.
Quando o conhecimento e a ignorância recebem o mesmo estatuto, vence aquilo que é mais ruidoso. Quando a reflexão e o entretenimento são tratados como equivalentes, vence aquilo que exige menos esforço. Quando a verdade e a opinião são colocadas ao mesmo nível, vence quem possui mais poder para repetir a sua versão.
Ainda há tempo
Portugal não está condenado à mediocridade. Nenhum país está, embora alguns se esforcem com admirável perseverança.
A mudança começa quando deixarmos de confundir cultura com agenda de espectáculos, educação com acumulação de certificados e democracia com transmissão televisiva de dirigentes partidários.
Começa quando as escolas ensinarem a interpretar, argumentar e duvidar, em vez de apenas preparar para exames. Quando as bibliotecas forem transformadas em centros vivos de conhecimento e debate. Quando a televisão pública compreender que a sua missão não é imitar os canais comerciais. Quando o jornalismo recuperar o dever de investigar o poder em vez de apenas lhe segurar o microfone.
O Conselho da Europa identifica vinte competências necessárias a uma cultura democrática, distribuídas por valores, atitudes, aptidões, conhecimento e compreensão crítica. A cidadania não nasce espontaneamente do acto de votar. Aprende-se, pratica-se e protege-se.
Começa, sobretudo, quando os cidadãos deixarem de aceitar a mediocridade como uma característica inevitável da paisagem portuguesa.
Um país não se transforma apenas construindo estradas, digitalizando formulários ou distribuindo diplomas. Transforma-se quando aprende a pensar sobre si próprio.
“Uma sociedade que troca o pensamento pelo entretenimento permanente não fica apenas mais ignorante. Fica mais fácil de governar, mais simples de manipular e infinitamente mais difícil de salvar.”
Referências internacionais e documentação
Instituto Nacional de Estatística — Inquérito à Educação e Formação de Adultos 2022. Em 2022, 41,3% da população dos 18 aos 69 anos declarou ler livros como actividade de lazer, mais 2,5 pontos percentuais do que em 2016.
OCDE — Education at a Glance 2025: Portugal. Dados sobre escolaridade, competências de literacia dos adultos, participação educativa e resultados do sistema de ensino.
OCDE — Survey of Adult Skills 2023: Portugal. Análise comparada das competências de literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas na população adulta.
OCDE — PISA 2022 Results — Country Note: Portugal. Resultados dos alunos portugueses em matemática, leitura e ciências, evolução temporal e comparação internacional.
Reuters Institute for the Study of Journalism — Digital News Report 2026: Portugal. Análise do ecossistema mediático português e da persistente centralidade da televisão no consumo de notícias.
Conselho da Europa — Reference Framework of Competences for Democratic Culture. Modelo de valores, atitudes, aptidões e conhecimento necessários à participação efectiva numa cultura democrática.
Nota Editorial
Esta crónica distingue deliberadamente diversidade cultural de equivalência cultural. Reconhecer a legitimidade da cultura popular não obriga a abandonar o juízo crítico, nem a fingir que todas as experiências possuem a mesma capacidade de aprofundar conhecimento, autonomia e consciência cívica.
Os dados citados não provam, por si só, uma relação causal entre consumo televisivo, hábitos de leitura, qualificação académica e participação democrática. Servem como indicadores convergentes de um problema mais vasto: a existência de escolaridade e acesso à informação não garante pensamento crítico, literacia funcional ou cidadania activa.
Democratizar a cultura significa alargar o acesso ao que eleva. Não significa baixar tudo até ao ponto em que já nada exige elevação.
Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos
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