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A Europa à Janela Enquanto a Ucrânia Arde

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A Europa à Janela Enquanto a Ucrânia Arde

Quatro anos e meio depois da invasão em grande escala, e doze anos depois do início da guerra russa contra a Ucrânia, a Europa continua a confundir solidariedade com logística e coragem com comunicados.

Nota de abertura:
A invasão russa em grande escala começou em 24 de Fevereiro de 2022. A guerra, porém, começou em 2014, com a ocupação da Crimeia e a intervenção russa no Donbass. Não são quase seis anos: são quatro anos e meio de invasão total e mais de doze anos de agressão. A precisão cronológica não diminui a indignação. Torna-a mais pesada.

Durante a noite, a Rússia voltou a lançar sobre Kyiv e a sua região uma combinação de drones, mísseis
balísticos e projécteis hipersónicos. Não foi um acidente, um excesso táctico ou uma daquelas abstracções higiénicas com que a diplomacia costuma lavar o sangue antes das conferências de imprensa. Foi mais uma operação de terror aéreo contra uma sociedade europeia obrigada a dormir ao som de sirenes, explosões e
edifícios a desabar.

Pelo menos dezassete pessoas morreram no ataque de 5 de Agosto de 2026 e mais de quarenta ficaram feridas.
A Ucrânia abateu quase noventa por cento dos 115 drones lançados, mas não conseguiu interceptar nenhum dos 24 mísseis balísticos nem nenhum dos quatro mísseis Zircon. Não por falta de competência, coragem ou experiência. Faltavam interceptores.

A Europa tinha discursos. A Ucrânia precisava de mísseis capazes de destruir outros mísseis.
A diferença entre ambas as coisas mede-se em vidas humanas.

A noite em que os comunicados não subiram ao céu

Os sistemas Patriot são, no arsenal ucraniano, a principal capacidade para interceptar mísseis balísticos
russos como os Iskander-M e ameaças de velocidade comparável. Mas uma bateria sem interceptores é pouco mais do que arquitectura militar dispendiosa. Pode detectar a morte que se aproxima, calcular-lhe a trajectória e assistir, com uma precisão tecnologicamente irrepreensível, à sua chegada.

O Presidente Volodymyr Zelensky afirmou que, em 2026, os aliados entregaram apenas cerca de um terço dos mísseis de defesa aérea fornecidos em 2025. Ao mesmo tempo, a Rússia acelerou os ataques sobre Kyiv e prepara, segundo as autoridades ucranianas, uma expansão da produção balística antes do Inverno. Moscovo produz o instrumento do terror; o Ocidente administra a escassez do antídoto.

Esta é a obscenidade central: a Ucrânia não está a pedir aos europeus que inventem uma nova lei da física.
Está a pedir-lhes que entreguem, produzam e comprem em escala suficiente os sistemas que já existem. Mas a Europa, depois de décadas a transformar a defesa numa nota de rodapé orçamental, descobriu que as linhas de montagem não obedecem a resoluções parlamentares e que um interceptor não nasce por aclamação.

A Europa não faz nada. Faz pior: faz aquém do necessário

Seria factualmente errado afirmar que o Reino Unido, a Alemanha, a França e a União Europeia nada fizeram.
O Reino Unido comprometeu milhares de milhões de libras em apoio militar, centenas de milhões para defesa aérea e novas entregas de mísseis, radares e drones. A Alemanha reservou 11,5 mil milhões de euros para apoio militar em 2026, incluindo sistemas IRIS-T, munições e componentes para Patriot. A União Europeia aprovou um empréstimo de 90 mil milhões de euros para 2026 e 2027, com uma parcela indicativa de 60 mil milhões destinada à assistência militar e à indústria de defesa.

Tudo isto conta. Tudo isto importa. E tudo isto continua a ser insuficiente quando, numa única noite, nenhum dos 28 mísseis mais perigosos é interceptado.

A crítica séria não consiste em apagar o apoio já prestado. Consiste em comparar esse apoio com a dimensão, a urgência e a previsibilidade da ameaça. A Rússia não escondeu que pretendia destruir a capacidade energética, industrial e logística da Ucrânia. Não escondeu que usaria o Inverno como arma. Não escondeu que aumentaria a
produção de drones e mísseis. A surpresa europeia, portanto, já não é inocência. É negligência com agenda, actas e tradução simultânea.

O dinheiro futuro não intercepta o míssil desta noite

A União Europeia tornou-se exímia em anunciar fundos de grande dimensão, programas plurianuais, iniciativas
industriais e coligações de vontades. O problema é que a guerra decorre no tempo presente. Um empréstimo para
2027 não protege uma estação ferroviária em Agosto de 2026. Uma fábrica prevista para o fim da década não intercepta um Iskander lançado às três da manhã.

A Europa precisa de pensar em três escalas ao mesmo tempo: emergência, reposição e autonomia. Na emergência, tem de transferir imediatamente interceptores existentes, aceitando uma redução temporária das reservas
nacionais. Na reposição, deve contratar produção conjunta, garantir encomendas plurianuais e eliminar a competição absurda entre governos europeus pela mesma munição. Na autonomia, precisa de desenvolver e fabricar sistemas antibalísticos em território europeu e ucraniano, sem permanecer dependente de uma licença americana concedida ou retirada ao ritmo do humor presidencial de Washington.

A Europa escolheu durante demasiado tempo proteger cada arsenal nacional como se a segurança de Berlim, Paris, Londres, Varsóvia ou Lisboa pudesse ser separada da sobrevivência de Kyiv. Mas a fronteira estratégica europeia já não passa apenas pelos limites jurídicos da União ou da NATO. Passa pelo céu ucraniano. Cada míssil russo que atravessa esse céu sem oposição ensina ao Kremlin uma lição: a capacidade europeia de indignação é superior à sua disponibilidade para correr riscos.

Trump é um problema. A dependência europeia é uma escolha

A ambiguidade de Donald Trump relativamente à Ucrânia, aos Patriot e à relação com Moscovo tornou-se um risco
estratégico. Promessas são feitas, relativizadas e por vezes contraditadas. Licenças de produção aparecem como
possibilidade e regressam depois ao nevoeiro político. A Ucrânia não pode organizar a sua sobrevivência em função da próxima improvisação presidencial americana.

Mas culpar exclusivamente Trump seria demasiado cómodo. A dependência europeia dos Estados Unidos não caiu do céu. Foi cultivada durante décadas por governos que reduziram arsenais, fecharam linhas de produção, atrasaram investimentos e confiaram que Washington continuaria eternamente disponível para fornecer liderança, logística, inteligência, dissuasão nuclear e munições. A Europa terceirizou a força e ficou surpreendida quando o fornecedor alterou as condições do serviço.

Um continente com centenas de milhões de habitantes, capacidade científica avançada, indústria aeroespacial, universidades, capital e experiência tecnológica não pode alegar impotência material. O problema é político.
A Europa consegue produzir quase tudo, desde que decida pagar, coordenar e aceitar que segurança não é um seminário sobre valores comuns.

A cobardia bem administrada

A cobardia europeia não se apresenta de capacete branco e bandeira de rendição. Aparece vestida de prudência, equilíbrio, gestão de escalada e responsabilidade. Tem excelente dicção, conhece os tratados e raramente chega atrasada a uma fotografia de família. O seu método consiste em fornecer o suficiente para impedir a derrota imediata da Ucrânia, mas não necessariamente o suficiente para lhe devolver segurança, iniciativa e capacidade de impor custos decisivos ao agressor.

O receio de “provocar Putin” converteu-se numa licença para Putin provocar, atacar, destruir e testar limites.
Durante anos, cada nova categoria de armamento foi precedida por meses de hesitação: artilharia, carros de combate, aviação, mísseis de longo alcance, autorização para atingir alvos militares em território russo.
O padrão é sempre o mesmo. A Europa atrasa, a Ucrânia paga, a linha vermelha dissolve-se e a entrega acaba por acontecer tarde, em menor quantidade e depois de milhares de mortes adicionais.

A prudência é uma virtude quando reduz o perigo. Quando aumenta a confiança do agressor, muda de nome.
Chama-se fraqueza.

O QUE DEVE SER FEITO

  • Criar uma reserva europeia comum de interceptores destinada prioritariamente à protecção das cidades ucranianas.
  • Transferir de imediato munições Patriot, IRIS-T e NASAMS disponíveis acima dos mínimos operacionais nacionais.
  • Colocar a produção de defesa aérea em regime industrial de emergência, com contratos plurianuais e financiamento conjunto.
  • Desenvolver rapidamente uma capacidade antibalística europeia e ucraniana produzida em massa.
  • Fornecer meios de longo alcance para destruir lançadores, depósitos e cadeias logísticas antes do disparo.
  • Aplicar sanções integrais às empresas, componentes e intermediários que sustentam a produção balística russa.
  • Substituir a unanimidade paralisante por coligações operacionais de Estados dispostos a agir.

A Ucrânia está a defender a fronteira moral da Europa

A Ucrânia não pede que outros povos morram no seu lugar. Pede instrumentos para impedir que os seus cidadãos morram todas as noites. Pede defesa aérea, munições, alcance e continuidade. Pede que as promessas ocidentais sobrevivam ao calendário eleitoral, às crises concorrentes e à fadiga confortável das sociedades que continuam a dormir sem sirenes.

A guerra já demonstrou que Putin interpreta concessões como oportunidade, hesitações como convite e medo como fraqueza explorável. A destruição de cidades ucranianas não é apenas uma tragédia humanitária. É uma mensagem estratégica dirigida a toda a Europa: Moscovo acredita que o tempo, o cansaço e a divisão acabarão por vencer
aquilo que os exércitos russos não conseguiram conquistar rapidamente.

A resposta europeia não pode continuar a ser uma lenta negociação entre a consciência e o inventário. Há momentos em que a política deixa de ser gestão e se transforma em carácter. Este é um desses momentos.

Se a Europa deixar a Ucrânia sem interceptores, não poderá dizer que foi surpreendida.
Terá de admitir que viu os mísseis chegar e decidiu continuar reunida.

Nota Editorial

Esta crónica distingue deliberadamente entre a existência de apoio europeu e a sua insuficiência operacional.
Reino Unido, Alemanha, França, União Europeia e outros aliados forneceram assistência financeira, militar e humanitária substancial. Negar esse facto seria intelectualmente desonesto.

Mas o critério moral e estratégico não é o volume dos anúncios. É a capacidade efectiva de proteger vidas,
território e infraestruturas no momento em que o ataque acontece. Quando a Ucrânia recebe apenas uma fracção dos interceptores anteriormente fornecidos e não consegue abater uma vaga inteira de mísseis balísticos, a
diferença entre compromisso político e defesa real torna-se impossível de esconder.

A crítica aqui formulada não exige uma guerra directa entre a NATO e a Rússia. Exige que a Europa use a sua capacidade económica, industrial e tecnológica para permitir à Ucrânia exercer plenamente o direito de
legítima defesa. O risco de agir existe. O risco de ensinar ao agressor que a violência compensa é maior.

Referências credíveis

Francisco António dos Santos Gonçalves
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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