A Corte Televisiva do País Pobre
A Corte Televisiva do País Pobre
Quando o serviço público se transforma numa corte mediática, a factura chega sempre ao povo.
Nota de abertura:
Esta crónica não questiona a necessidade de uma televisão pública nem desvaloriza os jornalistas, técnicos, produtores e restantes profissionais que asseguram diariamente a emissão. Questiona uma estrutura que parece exigir sacrifícios à base, proteger contratos no topo e considerar inconveniente a transparência sobre remunerações financiadas directa ou indirectamente pelos cidadãos.
Portugal é um país curioso.
Paga salários baixos a quem trabalha, remunera mal quem ensina, investiga, cuida, constrói e produz, mas encontra sempre dinheiro para sustentar uma corte televisiva que vive muito acima da realidade económica do povo que a financia.
Na televisão pública, essa contradição torna-se particularmente obscena.
Não porque uma estação pública não deva ter bons profissionais.
Não porque o talento não deva ser remunerado.
Mas porque existe uma diferença profunda entre pagar dignamente a competência e financiar principescamente a banalidade.
E aquilo que muitas vezes se apresenta como “serviço público” não passa de entretenimento medíocre, conversa vazia, moralismo de estúdio e uma sucessão interminável de rostos que aprenderam a transformar presença televisiva em estatuto social.
Há apresentadores cujas remunerações divulgadas na imprensa se aproximariam dos vinte mil euros mensais. A ausência de publicação clara e individualizada de todos os contratos impede o contribuinte de confirmar, com uniformidade, os valores, as condições e os serviços efectivamente abrangidos. Essa opacidade não enfraquece a crítica. É parte dela.
Vinte mil euros.
Num país onde centenas de milhares de trabalhadores recebem salários que mal chegam para pagar casa, alimentação, transportes e energia.
Num país onde jovens licenciados dividem quartos depois dos trinta anos.
Num país onde idosos contam moedas antes de entrar numa farmácia.
Num país onde famílias com emprego continuam pobres.
E, ainda assim, o contribuinte é chamado a financiar figuras televisivas que podem receber num mês aquilo que muitos portugueses demoram largos meses, ou mais de um ano, a ganhar.
Não por realizarem investigação científica.
Não por salvarem vidas.
Não por dirigirem infra-estruturas críticas.
Não por criarem tecnologia, conhecimento ou riqueza exportável.
Mas por apresentarem concursos, entretenimento ligeiro, conversas de circunstância e programas cujo conteúdo intelectual cabe frequentemente numa legenda de rodapé.
A nova aristocracia
A velha aristocracia portuguesa vivia em palácios.
A nova aristocracia vive em estúdios.
Já não usa perucas, espadas ou brasões.
Usa maquilhagem, auriculares e contratos confidenciais.
A corte reúne-se sob luzes cuidadosamente desenhadas, entre cenários brilhantes, aplausos comandados e conversas onde todos parecem importantes porque são filmados de frente.
O estatuto nasce da exposição.
A exposição gera notoriedade.
A notoriedade produz novos contratos.
Os contratos alimentam mais exposição.
E assim se constrói uma elite que não precisa de demonstrar especial competência, profundidade ou utilidade social.
Basta aparecer.
A presença substitui o mérito.
A popularidade substitui o valor.
A audiência substitui a qualidade.
Na televisão privada, esta lógica pode ser discutível, mas pertence ao risco comercial de empresas e accionistas.
Na televisão pública, a questão é completamente diferente.
A RTP é sustentada directa e indirectamente pelos cidadãos. É financiada por receitas públicas, pela Contribuição para o Audiovisual e por diferentes mecanismos que, no final, têm sempre a mesma origem: o bolso dos portugueses.
Logo, não pode comportar-se como uma corte fechada que distribui salários, contratos e privilégios sem prestar contas claras a quem paga.
O dinheiro público exige outra ética.
Exige transparência.
Exige moderação.
Exige mérito verificável.
Exige que cada euro gasto tenha uma justificação que ultrapasse a velha frase: “é uma figura muito conhecida”.
Ser conhecido não é uma função pública.
Um cidadão não precisa de desejar viver no palácio para perguntar quem paga o banquete. Na televisão pública, o banquete é pago por todos, incluindo por quem nunca se sentou à mesa.
O talento obrigatório
Há uma palavra usada frequentemente para justificar remunerações absurdas:
“Talento”.
Diz-se que determinada figura possui talento, carisma, capacidade de comunicação ou valor de mercado.
Mas o verdadeiro talento não deveria temer a transparência.
Quando uma remuneração muito elevada é suportada por uma televisão pública, a sociedade tem o direito de saber porquê.
Que valor extraordinário produz?
Que serviço insubstituível presta?
Que benefício cultural, educativo ou informativo oferece ao país?
Que resultado não poderia ser alcançado por profissionais igualmente competentes e muito menos dispendiosos?
Nenhuma destas perguntas é populismo.
São perguntas básicas de gestão pública.
O populismo, pelo contrário, está em fingir que qualquer crítica a remunerações excepcionais constitui inveja social.
É a velha defesa dos privilegiados: quem questiona o privilégio só pode estar ressentido por não o possuir.
Mas um cidadão não precisa de desejar viver no palácio para perguntar quem paga o banquete.
E, na RTP, o banquete é pago por todos.
Até por quem não vê televisão.
Até por quem mal consegue pagar a factura da electricidade.
Até por quem considera grande parte daquela programação pobre, repetitiva e culturalmente irrelevante.
A mediocridade bem iluminada
A televisão tem uma capacidade extraordinária para conferir aparência de importância àquilo que não a possui.
Coloque-se uma pessoa num estúdio, acendam-se as luzes, acrescente-se música, aplausos e grafismo, e imediatamente a banalidade adquire solenidade.
Frases comuns passam a parecer profundas.
Opiniões previsíveis transformam-se em análise.
Pequenas emoções tornam-se acontecimentos nacionais.
A mediocridade, quando bem iluminada, parece competência.
É assim que figuras de reduzida densidade intelectual se transformam em referências públicas.
Não porque tenham produzido obra, conhecimento ou pensamento original.
Mas porque entram diariamente em casa das pessoas.
A repetição cria familiaridade.
A familiaridade cria confiança.
A confiança cria poder.
E esse poder começa depressa a ultrapassar o entretenimento.
O apresentador passa a comentador moral.
O entertainer torna-se consciência pública.
A figura televisiva começa a explicar ao país como deve pensar, sentir e comportar-se.
Já não apresenta apenas programas.

Distribui lições.
Os sacerdotes da moral
É talvez esta a dimensão mais irritante da elite televisiva.
Não lhe basta viver confortavelmente acima do país real.
Precisa também de ensinar moral ao país que a sustenta.
Das cadeiras acolchoadas dos estúdios, falam de solidariedade, sacrifício, tolerância, humanidade e justiça social.
Escolhem causas distantes, internacionalmente prestigiadas e socialmente seguras.
Choram guerras longínquas.
Indignam-se com injustiças cuidadosamente seleccionadas.
Defendem minorias, refugiados e vítimas estrangeiras, muitas vezes com razão.
Mas raramente demonstram a mesma intensidade perante o sofrimento silencioso que existe à porta dos próprios estúdios.
Os trabalhadores pobres não têm boa imagem.
Os idosos isolados não geram prestígio internacional.
As famílias expulsas da habitação não garantem aplauso automático.
Os jovens que emigram por falta de oportunidades não cabem facilmente num momento emocional entre publicidade e meteorologia.
A pobreza portuguesa tornou-se demasiado banal para comover a elite mediática.
Está perto demais.
É quotidiana demais.
E, sobretudo, levanta perguntas desconfortáveis sobre o próprio sistema de que essa elite beneficia.
É mais fácil defender a humanidade em abstracto do que enfrentar a desigualdade concreta.
É mais cómodo adoptar causas distantes do que reconhecer o abismo entre o salário de quem fala e o salário de quem escuta.
O humanismo confortável
Existe um humanismo que exige coragem.
E existe um humanismo de estúdio.
O primeiro implica enfrentar poderes, interesses, desigualdades e estruturas de privilégio.
O segundo consiste em pronunciar as palavras certas perante as câmaras.
É um humanismo sem risco.
Não ameaça contratos.
Não perturba administrações.
Não questiona remunerações.
Não pergunta por que razão uma televisão pública paga valores extraordinários a determinadas figuras enquanto muitos dos seus trabalhadores comuns recebem aumentos quase simbólicos.
Não pergunta por que razão o país pobre sustenta uma programação tão frequentemente pobre.
Não pergunta por que razão existe tanta opacidade em torno de contratos financiados pelo dinheiro público.
Esse humanismo é uma forma de higiene moral.
Permite aos privilegiados sentirem-se virtuosos sem alterarem absolutamente nada nas condições que sustentam o seu privilégio.
Defendem os pobres.
Desde que os pobres permaneçam longe do estúdio.
A televisão que não vê o país
Uma verdadeira televisão pública deveria mostrar Portugal inteiro.
Não apenas Lisboa.
Não apenas os mesmos comentadores.
Não apenas os mesmos artistas.
Não apenas os mesmos convidados que circulam entre programas, jornais, festivais, fundações e conselhos consultivos.
Deveria mostrar o interior abandonado.
Os hospitais sobrecarregados.
As escolas degradadas.
Os investigadores esquecidos.
Os pequenos empresários esmagados.
Os cuidadores informais.
Os trabalhadores agrícolas.
Os técnicos qualificados expulsos do mercado pela idade.
Os jovens que não conseguem formar família.
Os reformados que sustentam filhos e netos.
Deveria dar voz a quem normalmente não tem acesso ao microfone.
Mas a televisão pública portuguesa parece muitas vezes funcionar como um espelho colocado diante de uma pequena elite urbana.
A elite vê-se.
Reconhece-se.
Convida-se.
Elogia-se.
Premia-se.
Depois chama a esse circuito fechado “representação da sociedade”.
Portugal transforma-se, assim, no país visto a partir de um estúdio.
Um país abstracto, simplificado e convenientemente editado.
O QUE DEVE SER EXIGIDO A UMA TELEVISÃO PÚBLICA
- Divulgação clara dos contratos e remunerações de topo, salvaguardando apenas dados pessoais estritamente necessários.
- Critérios públicos de desempenho, valor cultural, audiência, produção nacional e utilidade social.
- Separação transparente entre salários, prestações de serviços, produtoras externas e direitos associados.
- Comparação regular entre o custo de figuras mediáticas e alternativas profissionais disponíveis.
- Representação efectiva do território, das classes sociais e das realidades económicas portuguesas.
- Protecção dos trabalhadores técnicos e editoriais que asseguram o serviço sem estatuto de estrela.
Os trabalhadores invisíveis
Importa dizer com clareza que a RTP não é composta apenas por estrelas, apresentadores e dirigentes.
Existem técnicos, jornalistas, operadores, realizadores, produtores, administrativos e muitos outros profissionais que trabalham sem privilégios ou salários principescos.
São eles que mantêm a emissão, resolvem problemas, asseguram operações e suportam diariamente a máquina.
Muitos vivem uma realidade completamente diferente daquela das figuras mais conhecidas.
A crítica não lhes é dirigida.
Pelo contrário.
É precisamente em respeito por esses trabalhadores que se deve questionar uma estrutura onde algumas figuras recebem valores extraordinários enquanto a base profissional enfrenta contenção salarial, precariedade ou aumentos irrisórios.
A desigualdade dentro da própria televisão pública reproduz a desigualdade do país.
No topo, contratos protegidos.
Na base, sacrifícios.
No ecrã, discursos sobre justiça social.
A ironia já nem precisa de argumentação.
Transmite-se em alta definição.
O argumento das audiências
Quando surgem críticas, aparece sempre o argumento das audiências.
Determinado apresentador atrai público.
Determinado programa gera receitas.
Determinada figura é popular.
Mas uma televisão pública não existe apenas para competir em audiências.
Se essa fosse a sua única missão, não seria necessária uma televisão pública.
Bastaria entregar toda a programação ao mercado e deixar que a publicidade decidisse o que merece existir.
O serviço público justifica-se precisamente por oferecer aquilo que o mercado tende a desvalorizar:
cultura, educação, ciência, investigação, memória, informação rigorosa, debate plural, produção nacional e representação territorial.
Se a televisão pública imita as privadas, paga como as privadas e compete apenas pelas mesmas audiências, então o contribuinte tem o direito de perguntar por que razão deve financiá-la.
E, sobretudo, por que razão deve financiar salários de estrela para produzir conteúdos que o mercado já oferece abundantemente.
A transparência que nunca chega
O problema não está apenas nos valores pagos.
Está na dificuldade em conhecê-los.
Contratos, empresas intermediárias, produtoras externas, prestações de serviços e diferentes modelos de remuneração tornam frequentemente difícil ao cidadão perceber quanto custa realmente determinada figura.
E essa opacidade é incompatível com o serviço público.
Quem recebe dinheiro público não deve esconder-se atrás do segredo comercial com a mesma facilidade de uma empresa privada.
A transparência deveria ser simples:
quanto recebe cada figura de topo;
por que tipo de contrato;
por quantas horas ou programas;
com que critérios;
com que resultados;
e com que comparação de alternativas.
O contribuinte não precisa de conhecer detalhes pessoais.
Precisa de saber como é utilizado o seu dinheiro.
Mas a televisão pública, como tantas outras instituições portuguesas, parece considerar a transparência uma forma de hostilidade.
Prestar contas é visto como suspeita.
Questionar despesas é tratado como ataque.
E pedir moderação salarial transforma-se rapidamente em populismo.
É uma defesa conveniente.
E muito bem remunerada.
A verdadeira obscenidade
A obscenidade não está apenas em alguém poder receber vinte mil euros por mês.
Está no contexto.
Está em receber esse valor num país de baixos salários.
Está em receber esse valor através de uma instituição sustentada pelos cidadãos.
Está em produzir conteúdos muitas vezes banais.
Está em viver protegido da realidade económica do público.
E está, sobretudo, em assumir depois a posição de superioridade moral perante esse mesmo público.
A elite televisiva portuguesa habituou-se a falar ao povo de cima para baixo.
Explica-lhe o que deve sentir.
Que causas deve apoiar.
Que palavras deve utilizar.
Que indignações são legítimas.
Que opiniões são aceitáveis.
Mas raramente aceita que o povo lhe faça a pergunta mais simples:
Quanto custa e por que razão devemos pagar?
Talvez porque essa pergunta destrua o cenário.
Apaga as luzes.
Interrompe os aplausos.
E revela aquilo que existe por detrás do espectáculo:
uma pequena corte mediática, confortavelmente instalada, financiada por um país que vive muito abaixo dela.
O serviço público e o povo
Uma televisão pública é necessária quando serve o país.
Quando informa com rigor.
Quando educa sem paternalismo.
Quando protege a cultura.
Quando dá voz a quem não tem poder.
Quando investiga aquilo que os interesses privados prefeririam manter escondido.
Quando representa o território e a diversidade social.
Quando presta contas.
Quando respeita cada euro recebido.
Mas deixa de cumprir a sua missão quando se transforma num condomínio de elites, estrelas, produtores, comentadores e dirigentes que vivem em circuito fechado.
O serviço público não pode ser apenas pago pelo povo.
Tem de respeitar o povo.
Tem de representar o povo.
Tem de compreender o povo.
E, acima de tudo, tem de prestar contas ao povo.
Caso contrário, não estamos perante uma televisão pública.
Estamos perante uma corte.
Uma corte sem rei, mas com muitos favoritos.
Uma corte que prega humildade enquanto vive no privilégio.
Que fala de pobreza sem a conhecer.
Que ensina solidariedade sem praticar contenção.
Que exige sacrifícios que nunca lhe serão pedidos.
E que chama “serviço público” ao privilégio de ser generosamente sustentada por um país pobre.
A velha nobreza cobrava impostos para financiar palácios.
A nova elite mediática cobra contribuições para financiar estúdios.
Mudaram os cenários.
Mudaram os figurinos.
Mas a factura continua a chegar ao povo.

Nota Editorial
Esta crónica defende a existência de um serviço público de rádio e televisão forte, independente, plural e culturalmente ambicioso. Precisamente por ser financiado pelos cidadãos, esse serviço deve obedecer a padrões de transparência e responsabilidade superiores aos exigidos a uma estação privada.
As remunerações individuais de determinadas figuras são frequentemente divulgadas pela imprensa, mas a informação pública disponível não permite confirmar de forma simples, uniforme e integral todos os valores, contratos, empresas prestadoras e contrapartidas envolvidas. Essa limitação recomenda prudência na apresentação de números concretos, mas reforça a exigência de transparência contratual.
A crítica não é dirigida aos muitos trabalhadores da RTP que asseguram diariamente informação, produção e operação em condições comuns às do restante país. É dirigida à concentração de estatuto e remuneração numa pequena elite mediática, à banalização apresentada como serviço público e à distância moral entre certos discursos televisivos e a realidade económica de quem os financia.
Uma televisão pública ganha autoridade não através da celebridade das suas figuras, mas através da qualidade do serviço, da independência editorial, da diversidade representada e da confiança de cidadãos que sabem exactamente como é utilizado o seu dinheiro.
Referências credíveis
-
RTP Notícias — RTP registou prejuízos de 3,9 milhões de euros em 2025
-
European Broadcasting Union — Governance Principles for Public Service Media
-
European Broadcasting Union — Public Service Values, Editorial Principles and Guidelines
-
Eurostat — At-risk-of-poverty rate in the European Union
-
Reuters — Portugal procura responder à crise de habitação e à subida acentuada dos preços
-
Le Monde — Em Portugal, acumular dois ou três empregos tornou-se cada vez mais comum
-
European Broadcasting Union — Public Service Media Atlas 2026
Francisco Gonçalves
Autor e Investigador Independente
Fragmentos do Caos
FC-Chronic-News


