Democracia e Sociedade

Portugal Refém da Mediocridade Instalada

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BOX DE FACTOS

  • Portugal continua a confundir estabilidade com continuidade da mediocridade.
  • A competência é frequentemente vista como ameaça aos sistemas instalados.
  • A excelência é muitas vezes confundida com arrogância ou inconveniência.
  • A obediência partidária, a fidelidade aos aparelhos e a prudência burocrática continuam a ser mais premiadas do que o mérito real.
  • Um país que não promove os melhores condena-se a ser governado, administrado e representado pelos mais convenientes.
  • Sem cultura de mérito, exigência, responsabilidade, competência e integridade, Portugal continuará a empobrecer com discursos elegantes e resultados medíocres.

Portugal Refém da Mediocridade Instalada

Enquanto Portugal confundir mérito com inconveniência e mediocridade com estabilidade, continuará a empobrecer com bons modos e a falhar com excelente protocolo.

Portugal está refém de um sistema de mediocridade instalada. Não se trata apenas de uma frase amarga, saída do cansaço de quem olha para o país e vê sempre os mesmos bloqueios. Trata-se de uma descrição cada vez mais precisa de uma realidade nacional que se prolonga há décadas.

Enquanto o país não valorizar a competência e a excelência, celebrando-as, promovendo-as e colocando-as no centro da vida pública, económica, científica, empresarial e institucional, continuará condenado a escolher entre a obediência partidária, a prudência burocrática e a gestão cinzenta da decadência.

Nenhum país se levanta promovendo os medíocres, protegendo os obedientes, premiando os convenientes e afastando os que pensam, criam, arriscam e executam.

A competência incomoda sempre os sistemas fracos, porque expõe a inutilidade dos instalados. A excelência ameaça os aparelhos medíocres, porque demonstra que o país poderia ser melhor se deixasse de escolher os mesmos, pelos mesmos motivos, para servir os mesmos interesses.

É por isso que Portugal falha tantas vezes. Não por falta absoluta de talento, inteligência ou capacidade. O país tem técnicos, professores, médicos, engenheiros, cientistas, programadores, empresários, investigadores, operários qualificados, criadores e profissionais de enorme valor. O problema é que demasiadas vezes essa energia fica fora do centro da decisão.

O centro continua ocupado por gente útil ao sistema, não necessariamente útil ao país.

A Mediocridade Como Método de Sobrevivência

A mediocridade instalada não é apenas ausência de brilho. É um método de sobrevivência. É uma forma de organização do poder.

O medíocre teme a competência porque ela mostra a sua insuficiência. Teme a excelência porque ela cria comparação. Teme a liberdade de pensamento porque ela rompe a disciplina do rebanho. Teme a inovação porque ela perturba rotinas. Teme a exigência porque ela obriga a prestar contas.

Por isso, os sistemas medíocres criam defesas naturais. Promovem os obedientes. Protegem os previsíveis. Premiam os que não fazem perguntas difíceis. Elevam os que sabem esperar na fila certa. Desconfiam dos que chegam com ideias, método, coragem e capacidade de execução.

Em Portugal, esta lógica atravessa demasiadas áreas: partidos, administração pública, empresas protegidas, universidades, reguladores, serviços públicos, fundações, institutos, câmaras, gabinetes, conselhos de administração e estruturas que vivem da proximidade ao poder.

O país não está apenas bloqueado por incompetência. Está bloqueado por mecanismos que seleccionam e reproduzem a incompetência conveniente.

É uma espécie de ecossistema da pequenez. Alimenta-se de favores, prudência, silêncio, lealdade, medo, cálculo e sobrevivência. A excelência entra ali como um corpo estranho, quase uma ameaça sanitária. Naturalmente, o organismo tenta expulsá-la. A espécie humana, quando organiza a mediocridade, revela sempre um talento administrativo notável.

A Competência Como Inconveniência

Em sociedades saudáveis, a competência é procurada, respeitada, chamada, escutada e colocada onde pode produzir valor. Em sociedades decadentes, a competência é tolerada nas margens, usada quando há incêndios e afastada quando começa a incomodar a normalidade dos instalados.

Portugal tem uma relação difícil com os competentes. Admira-os quando estão longe, quando emigraram, quando venceram no estrangeiro, quando já não ameaçam os equilíbrios locais. Mas dentro de portas, demasiadas vezes, a competência é vista como arrogância, impaciência, dificuldade de adaptação ou falta de espírito de equipa.

O “espírito de equipa”, em muitos ambientes medíocres, significa apenas saber calar no momento certo, sorrir ao superior certo e nunca perguntar porque é que o disparate continua a ser promovido.

Quem resolve problemas antigos torna-se perigoso, porque mostra que esses problemas não eram inevitáveis. Quem executa depressa expõe quem arrastou durante anos. Quem pensa estruturalmente incomoda quem vive de remendos. Quem fala verdade perturba quem construiu carreira a decorar a mentira.

O resultado é conhecido: os melhores cansam-se, afastam-se, emigram, criam projectos à margem ou acabam triturados por organizações que preferem a mediania obediente à excelência incómoda.

Um país que trata a competência como problema acaba governado por quem nunca foi solução.

A Cultura da Fidelidade Contra a Cultura do Mérito

Portugal precisa de substituir a cultura da fidelidade pela cultura do mérito.

Durante demasiado tempo, a vida pública portuguesa premiou a proximidade, a conveniência, a lealdade partidária, o compadrio, a obediência hierárquica, a paciência de aparelho e a capacidade de circular entre gabinetes sem fazer ondas.

O mérito real exige outra coisa: conhecimento, resultados, integridade, coragem, experiência, capacidade de decisão, responsabilidade e serviço ao interesse público.

Mas o mérito tem um defeito grave para os sistemas capturados: não obedece facilmente à lógica da distribuição de lugares. O mérito pergunta: quem sabe fazer? Quem já demonstrou? Quem resolveu? Quem construiu? Quem tem visão? Quem tem independência? Quem serve o país e não apenas o grupo?

Estas perguntas são perigosas. Sobretudo para quem nunca deveria ter chegado onde chegou.

Por isso, a mediocridade prefere outros critérios. Quem é dos nossos? Quem não incomoda? Quem aceita? Quem deve favores? Quem pode ser controlado? Quem fala bem em público e não mexe em nada em privado?

Assim se constrói uma administração pública cansada, uma economia pouco ambiciosa, partidos fechados, serviços públicos em falha e uma sociedade onde os melhores são frequentemente chamados demasiado tarde, quando já só resta apagar incêndios.

O País Que Não Celebra os Seus Melhores

Um país também se define por quem celebra.

Portugal celebra demasiadas vezes o poder, a notoriedade, o sucesso fácil, o comentário televisivo, a influência partidária, o futebol, a esperteza, a subida social pela política, a capacidade de circular nos corredores certos.

Celebra pouco o cientista que investiga em silêncio, o professor exigente, o engenheiro que resolve, o médico que resiste, o programador que cria, o operário qualificado que domina uma técnica, o empresário que arrisca capital próprio, o funcionário público que serve com dignidade, o inventor, o técnico, o cuidador, o investigador, o trabalhador competente.

Uma sociedade que não celebra os seus melhores acaba por ensinar aos jovens que a excelência não compensa. Que o esforço é ingénuo. Que pensar demasiado atrapalha. Que a honestidade é bonita, mas pouco prática. Que subir exige menos mérito do que adaptação aos jogos certos.

Depois admira-se da emigração, do cinismo, da falta de ambição, da baixa produtividade e da desconfiança nas instituições.

Uma nação que não dá palco à competência acaba por entregar o palco à espuma.

A Excelência Não É Arrogância

Há em Portugal uma desconfiança cultural perante a excelência. Quem se destaca é muitas vezes visto como vaidoso. Quem exige é visto como difícil. Quem pensa diferente é visto como conflituoso. Quem aponta falhas é acusado de negativismo. Quem quer fazer melhor é acusado de não perceber “como isto funciona”.

Mas a excelência não é arrogância. Arrogância é a mediocridade convencida de que deve continuar a mandar.

A excelência é disciplina, estudo, método, persistência, coragem, humildade perante a complexidade e recusa de aceitar o mal feito como destino nacional.

Um país que quer desenvolver-se precisa de cultivar excelência na escola, na empresa, no Estado, na justiça, na saúde, na ciência, na tecnologia, na cultura, na indústria e na política.

Precisa de dizer às crianças e aos jovens que ser bom não é vergonha. Que estudar não é submissão. Que criar não é capricho. Que exigir não é arrogância. Que liderar não é mandar. Que servir o país não é ocupar um cargo, mas resolver problemas.

Portugal precisa de uma cultura onde a excelência deixe de ser suspeita e passe a ser exigência.

O Preço Nacional da Mediocridade

A mediocridade tem custo. Não é apenas feia. É cara.

Custa hospitais mal geridos. Custa escolas degradadas. Custa justiça lenta. Custa obras públicas mal planeadas. Custa sistemas informáticos frágeis. Custa contratos públicos ruinosos. Custa empresas sem escala. Custa jovens a emigrar. Custa produtividade baixa. Custa salários miseráveis. Custa oportunidades perdidas.

Custa também moralmente. A mediocridade instalada destrói confiança. Ensina os cidadãos a esperar pouco. Habitua o país ao remendo. Transforma a ambição em ingenuidade. Faz da resignação uma virtude nacional.

Quando um povo se habitua à mediocridade, deixa de exigir grandeza. Começa a achar normal o atraso, aceitável a falha, inevitável o bloqueio, compreensível a incompetência.

E quando a incompetência se torna normal, a decadência deixa de precisar de se justificar.

É nesse ponto que um país fica verdadeiramente doente: quando já não espera melhor.

A Reconstrução Pela Competência

A saída não está em mais discursos sobre modernização. Portugal já tem discursos suficientes para pavimentar uma auto-estrada até ao futuro, embora provavelmente a obra ficasse parada por falta de parecer.

A saída está em mudar os critérios de escolha, promoção e reconhecimento.

No Estado, cargos técnicos e de direcção devem ser ocupados por competência comprovada, independência, avaliação séria e resultados. Na administração pública, a progressão deve premiar mérito real, não apenas antiguidade ou alinhamento. Na política, os partidos devem abrir-se à sociedade e deixar de funcionar como escolas profissionais de ocupação do Estado.

Na economia, é preciso valorizar empresas que inovam, exportam, pagam melhor, investem em tecnologia, formam trabalhadores e criam produtos de alto valor. Na escola, é preciso recuperar exigência, pensamento crítico, ciência, tecnologia, artes, cultura, disciplina intelectual e respeito pelo conhecimento.

Nos media, é preciso dar palco aos que sabem, não apenas aos que gritam. Nas instituições, é preciso proteger quem denuncia erros, quem propõe mudanças e quem se recusa a compactuar com a podridão conveniente.

A competência não deve ser chamada apenas para resolver catástrofes. Deve estar presente antes da catástrofe acontecer.

É esse pequeno detalhe que separa países desenvolvidos de países eternamente surpreendidos pelos seus próprios fracassos.

Conclusão: Ou Mérito, Ou Charco

Portugal não está condenado à mediocridade. Mas está aprisionado por ela.

Não falta talento. Falta promoção séria do talento. Não falta inteligência. Falta sistema que a valorize. Não falta gente capaz. Falta coragem para afastar os incapazes convenientes. Não falta juventude qualificada. Falta país que lhe dê horizonte. Não falta diagnóstico. Falta ruptura.

Enquanto a competência for vista como ameaça e a excelência como arrogância, Portugal continuará a afundar-se educadamente no seu charco, com discursos sobre futuro, práticas de passado e resultados cada vez mais pobres.

O país precisa de escolher.

Ou continua a promover os fiéis, os obedientes, os convenientes, os medíocres polidos e os gestores da continuidade.

Ou começa finalmente a promover quem sabe fazer, quem estudou, quem construiu, quem resolveu problemas, quem criou riqueza, quem inovou, quem serviu com integridade e quem recusou ajoelhar perante a mediocridade conveniente.

Enquanto Portugal confundir mérito com inconveniência e mediocridade com estabilidade, continuará a empobrecer com bons modos e a falhar com excelente protocolo.

Fragmentos do Caos
Texto crítico de Francisco Gonçalves.

Portugal: talento soberano, liderança medíocre. A República das Promessas continua de pé, mas o país real afunda-se no charco.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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