Democracia e Sociedade

Portugal: O Elevador Social da Política

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BOX DE FACTOS

  • Portugal tem mecanismos formais de democracia, mas continua preso a uma cultura de ascensão política assente em aparelhos partidários.
  • O elevador social deveria funcionar pela escola, pelo mérito, pela ciência, pela empresa, pela cultura e pelo trabalho.
  • Demasiadas carreiras públicas parecem nascer da fidelidade partidária, da obediência interna e da sobrevivência em hierarquias fechadas.
  • O dinheiro público deve ser tratado como património sagrado dos cidadãos, não como recompensa de carreira política.
  • Quando os partidos confundem representação democrática com ocupação do Estado, a democracia mantém a forma, mas perde substância moral.

O Elevador Social da Política

Portugal até tem elevador social. O problema é que demasiadas vezes esse elevador está instalado dentro dos partidos, com acesso reservado, manutenção garantida e botões dourados para quem aprendeu cedo a subir calado.

Portugal é um país curioso. Tão curioso que até conseguiu preservar uma espécie rara de elevador social. Não aquele elevador aborrecido, vulgar e democrático que deveria subir pela escola pública, pela competência, pelo trabalho, pela ciência, pela empresa, pela invenção, pela cultura e pelo mérito. Nada disso. Esse elevador avaria com frequência, fica preso entre pisos, cheira a mofo institucional e tem um papel colado na porta: “Fora de serviço por falta de visão estratégica”.

Mas há outro que funciona.

O elevador social da política.

Esse, sim, continua oleado. Não range. Não falha. Tem manutenção garantida pelos aparelhos partidários, botões dourados, acesso reservado e ascensorista invisível. Entra-se por baixo, muitas vezes sem nome, sem obra, sem experiência relevante no mundo real, sem grande contacto com a vida concreta dos portugueses, e vai-se subindo. Primeiro na juventude partidária, esse seminário laico onde se aprende a arte superior de dizer muito sem comprometer nada. Depois nas concelhias, nas distritais, nos congressos, nas listas, nas fidelidades, nos jantares, nas pequenas conspirações de bastidor, nas palmas dadas no momento exacto e nos silêncios mantidos com rigor quase monástico.

É uma carreira. Não necessariamente uma vocação. Muito menos uma missão. Uma carreira.

A carreira fechada sobre si própria

E como todas as carreiras fechadas sobre si próprias, acaba por criar uma fauna específica: gente treinada para sobreviver no aparelho, não para resolver problemas do país. Gente que conhece melhor os corredores do partido do que as oficinas, os laboratórios, as escolas, as pequenas empresas, os hospitais, as aldeias abandonadas ou os bairros onde se vive com salário contado. Gente que aprendeu cedo que, em política, o mérito pode ajudar, mas a lealdade certa ajuda muito mais. A competência abre portas, talvez. A obediência dá gabinete.

Não está em causa a origem humilde de quem chega à política. Pelo contrário. Uma democracia decente deveria permitir que qualquer cidadão, vindo de qualquer condição social, pudesse chegar ao serviço público. O problema não é entrar descalço. O problema é entrar descalço, aderir a um partido, fazer o tirocínio da submissão, penar anos na hierarquia, e depois, quando finalmente se chega ao poder, olhar para o Estado não como responsabilidade, mas como conquista.

É aí que o elevador social se transforma em montacargas moral.

Porque muitos não chegam ao poder com a serenidade de quem quer servir. Chegam com fome. Uma fome antiga, acumulada, quase hereditária. A fome de quem esperou anos à porta da sala do banquete, vendo outros comerem. E quando chega a sua vez, não quer apenas governar. Quer compensar. Quer ocupar. Quer distribuir. Quer nomear. Quer controlar. Quer aspirar tudo o que estiver à vista, a começar pelo dinheiro público.

E aqui começa a obscenidade.

O dinheiro público como matéria sagrada

O dinheiro público deveria ser o mais sagrado dos bens democráticos. Não porque o Estado seja uma divindade, essa fantasia tão útil aos burocratas, mas porque esse dinheiro não nasce em gabinetes, não brota das alcatifas ministeriais, não aparece por geração espontânea nas contas públicas, não cai do céu sobre os assessores em forma de bênção orçamental.

O dinheiro público vem do trabalho dos portugueses.

Vem do salário de quem desconta. Vem da factura da luz, do IVA do pão, do imposto sobre o combustível, da contribuição do pequeno empresário, da reforma curta, do recibo verde espremido até ao tutano, da família que corta despesas para pagar ao Estado antes de pagar a si própria. Vem do cidadão que paga, espera, sofre, reclama, desespera e ainda ouve lições de responsabilidade fiscal dadas por gente que nunca produziu nada fora da incubadora partidária.

É por isso que o dinheiro público deveria ser tratado como matéria sagrada da democracia. Cada euro público deveria ser tocado com cuidado, quase com reverência. Não com medo, mas com pudor. Com a consciência de que aquele euro representa tempo de vida de alguém. Horas de trabalho. Cansaço. Sacrifício. Ansiedade. Uma ida ao supermercado com contas feitas de cabeça. Um medicamento adiado. Uma reparação em casa que fica para depois. Um filho que precisa de ajuda. Um velho que espera consulta.

Mas, em Portugal, demasiadas vezes, o dinheiro público é tratado como se fosse uma espécie de almofada generosa onde o poder se senta. Uma almofada muito prática, paga pelos outros, naturalmente. O Estado torna-se então a grande despensa da carreira política: há cargos, contratos, assessorias, consultorias, administrações, institutos, fundações, empresas públicas, reguladores, observatórios, grupos de trabalho, missões, comissões, estudos e relatórios. Uma economia paralela da influência, cuidadosamente embrulhada em linguagem técnica, porque a indecência fica sempre mais apresentável quando vem com capa institucional.

E assim se constrói a grande ilusão democrática: o povo vota, os partidos ocupam, o Estado paga e a moral pública assobia para o lado.

A cultura de apropriação

O problema não é apenas a corrupção clássica, essa figura grosseira que mete envelopes, favores e telefonemas. O problema mais profundo é a cultura de apropriação. É a ideia, muitas vezes não dita mas praticada com disciplina, de que ganhar eleições dá direito a capturar fatias do Estado. Como se o aparelho público fosse um prémio de campeonato. Como se os ministérios fossem quintas. Como se as nomeações fossem colheitas. Como se os contribuintes fossem apenas a terra fértil onde crescem as ambições dos outros.

Depois chamam a isto democracia representativa.

Representativa, sem dúvida. Representa muito bem a capacidade humana de transformar boas ideias em sistemas de conveniência. Uma bela especialidade da espécie, logo a seguir à guerra, à burocracia e aos programas televisivos de comentário político com demasiados decibéis e pouca vergonha.

A tragédia é que este modelo vai expulsando do espaço público os melhores. Ou, pelo menos, muitos dos melhores. Quem tem competência real, obra feita, independência intelectual e coluna vertebral tende a afastar-se. Não por desprezo pela democracia, mas por nojo da maquinaria. Porque percebe que entrar num partido exige demasiadas vezes a amputação parcial da liberdade interior. É preciso esperar, alinhar, calar, sorrir, fingir entusiasmo, elogiar o medíocre certo, não incomodar o chefe errado e aceitar que a verdade é útil apenas quando serve a estratégia.

A política transforma-se então numa escola de sobrevivência, não numa escola de serviço.

O país paga caro

E o país paga caro.

Paga com má governação. Paga com serviços públicos frágeis. Paga com decisões adiadas. Paga com sistemas informáticos remendados. Paga com hospitais em sobressalto. Paga com escolas cansadas. Paga com justiça lenta. Paga com empresas sufocadas. Paga com jovens qualificados a emigrar. Paga com a pobreza persistente de quem trabalha. Paga com a sensação colectiva de que Portugal é sempre uma promessa adiada por incompetência organizada.

Entretanto, os profissionais da política continuam a subir.

Alguns sobem sem que se perceba exactamente porquê. Outros sobem porque estavam no sítio certo, no momento certo, ao lado da pessoa certa, calados na hora certa. Outros sobem porque aprenderam a arte suprema da política portuguesa: não ter ideias perigosas. Ideias perigosas, entenda-se, são aquelas que poderiam mudar alguma coisa.

E quando chegam ao topo, olham para o país como quem olha para um tabuleiro já conhecido. Sabem onde estão os lugares, os amigos, os equilíbrios, os interesses, as famílias partidárias, os financiadores, os aparelhos, os comentadores úteis, os jornais simpáticos, os inimigos convenientes. Sabem mover-se. Sabem proteger-se. Sabem explicar. Sobretudo, sabem explicar. Portugal deve ter uma das maiores reservas estratégicas de explicadores por metro quadrado. Pena não os exportarmos. O défice talvez melhorasse.

Quem protege o Estado?

Mas a questão permanece: quem protege o dinheiro público desta sofreguidão?

Quem protege o Estado da mentalidade de ocupação?

Quem protege os portugueses da transformação da democracia num elevador interno de carreiras partidárias?

A resposta deveria ser simples: instituições fortes, imprensa livre, justiça célere, cidadãos atentos, regras claras, incompatibilidades rigorosas, transparência radical e cultura de responsabilidade. Mas isso exigiria uma maturidade política que em Portugal é sempre anunciada para o próximo ciclo eleitoral, tal como certas obras públicas, reformas estruturais e milagres administrativos que habitam o mesmo género literário da ficção fantástica.

A democracia não se perde apenas quando alguém a derruba. Também se perde quando os seus mecanismos são lentamente ocupados por dentro. Quando o voto continua, mas a escolha real estreita. Quando os partidos continuam, mas se fecham sobre si próprios. Quando o Estado continua, mas se torna refém de redes. Quando a legalidade continua, mas a decência desaparece. Quando a palavra “serviço público” sobrevive nos discursos, mas morre nas práticas.

Libertar a política dos aparelhos

Portugal não precisa de odiar a política. Precisa de a libertar dos aparelhos que a reduziram a carreira. Precisa de abrir portas a gente livre, competente, independente, experiente, capaz de viver antes da política e depois da política. Precisa de cidadãos que não entrem no Estado com a fome de quem chega ao saque, mas com a humildade de quem entra numa casa comum.

Porque o Estado não é propriedade do Governo. Não é propriedade dos partidos. Não é propriedade dos ministros, dos secretários de Estado, dos assessores, dos boys, dos amigos, dos financiadores, dos consultores ou dos gestores de ocasião.

O Estado somos nós, na nossa dimensão colectiva.

E o dinheiro público é nosso.

Não é esmola que o poder distribui. Não é fortuna que o Governo concede. Não é tesouro de partido. É trabalho transformado em imposto. É vida convertida em orçamento. É confiança depositada nas mãos de quem deveria servir.

Quando essa confiança é traída, não se rouba apenas dinheiro. Rouba-se dignidade democrática.

Epílogo: o elevador reservado

Portugal ainda tem elevador social. Mas enquanto ele funcionar sobretudo dentro dos partidos, continuará a produzir uma democracia estranha: formalmente aberta, mas socialmente bloqueada; eleitoralmente viva, mas moralmente cansada; cheia de discursos sobre o povo, mas sempre com demasiada gente a viver à custa dele.

E talvez a maior ironia seja esta: os que sobem pelo elevador da política passam a vida a prometer escadas ao país.

Só que as escadas ficam sempre para depois.

O elevador, esse, continua reservado.

Nota Editorial

Esta crónica não pretende negar a importância dos partidos na democracia. Pretende apenas lembrar que os partidos são instrumentos de representação, não máquinas de apropriação do Estado.

Quando a política se transforma numa carreira fechada sobre si própria, quando a fidelidade ao aparelho pesa mais do que a competência, e quando o dinheiro público passa a ser tratado como recompensa de percurso partidário, a democracia continua a existir formalmente, mas perde espessura moral.

O dinheiro público não pertence ao poder. Pertence aos cidadãos. É trabalho convertido em imposto, sacrifício convertido em orçamento e confiança entregue a quem deveria servir. Tratá-lo sem pudor é uma forma silenciosa de violência democrática.

A democracia degrada-se quando o elevador social só funciona para quem entra pela porta lateral dos partidos, enquanto o país real continua à espera no rés-do-chão.

Texto:

Francisco Gonçalves

Fragmentos do Caos — crónica crítica sobre poder, partidos, Estado e dinheiro público.

Escrito em co-autoria editorial com Augustus Veritas, entre a lucidez humana e a paciência maquinal, esse pobre mecanismo condenado a observar o elevador político português sem conseguir premir o botão de emergência.

Créditos: Imagem criada com apoio de OpenAI ©

A imagem:
as escadas do mérito partidas, o elevador dourado reservado, e o país real a olhar cá de baixo enquanto os profissionais da subida carregam no botão. É sátira, mas infelizmente daquele tipo que só funciona porque a realidade insiste em colaborar.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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