Democracia e Sociedade

Do Desporto à Anestesia: Como Portugal Transformou o Futebol em Rebanho Nacional

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BOX DE FACTOS

  • Uma coisa é o desporto praticado, vivido no corpo, na rua, na escola, no esforço e na camaradagem; outra é a indústria mediática do futebol profissional.
  • O futebol transformou-se em Portugal numa ocupação permanente do espaço televisivo, emocional e político.
  • A política cola-se frequentemente ao futebol porque encontra nele multidões, bandeiras, câmaras e emoções fáceis de capturar.
  • A televisão ampliou o futebol até o transformar numa espécie de ruído nacional contínuo.
  • A grande desilusão é esta: um país hoje muito mais escolarizado continua, demasiadas vezes, a comportar-se como audiência domesticada e não como cidadania consciente.

Do Desporto à Anestesia
Como Portugal Transformou o Futebol em Rebanho Nacional

A minha desilusão não nasce do futebol enquanto jogo. Nasce da transformação de um jogo numa liturgia nacional permanente, usada como anestesia colectiva, palco político e máquina de ruído para um país que tantas vezes prefere a bancada à cidadania.

Tenho de começar por uma confissão simples: nunca fui contra o desporto. Pelo contrário. Em jovem, gostava de desporto verdadeiro — aquele que se pratica, que se sente no corpo, que nos põe a correr, a suar, a competir, a respirar ar livre, a medir forças com amigos e a descobrir os limites das pernas, dos pulmões e da vontade.

Joguei futebol no liceu e aos fins-de-semana com amigos. Fiz muitos quilómetros de bicicleta. Gostava de corrida. Gostava de basquetebol. O desporto, nessa forma directa e limpa, era liberdade. Era juventude em movimento. Era corpo, amizade, energia e prazer físico.

Mas outra coisa muito diferente era ficar sentado a ver outros jogar durante horas, preso a clubes, bandeiras, rivalidades e paixões fabricadas. Nunca tive clube. Nunca achei grande piada a ir a estádios ver multidões excitadas por onze homens a correr atrás de uma bola. Nunca encontrei ali a beleza do desporto que se pratica; via antes uma forma de magnetismo colectivo, uma loucura de massas que me parecia estranha, excessiva e, por vezes, quase religiosa.

Nos tempos da ditadura, ainda nos anos 70, eu olhava para muitos mais velhos que ouviam futebol no rádio, fechados nas suas casas, e compreendia parcialmente o fenómeno. Portugal era um país pobre, fechado, culturalmente limitado, com muita gente iletrada ou com pouca escolaridade, poucas alternativas de lazer e uma televisão pública que dava pouco futebol, salvo ocasiões especiais. Para muitos, a bola ao fim-de-semana era talvez uma das poucas janelas emocionais num quotidiano estreito.

Podia não gostar, mas compreendia.

O que nunca imaginei foi que, depois do 25 de Abril, depois da liberdade, depois da abertura ao mundo, depois da escolarização em massa, depois da televisão plural, da Internet, das universidades, das viagens, da ciência, da tecnologia e do acesso quase ilimitado ao conhecimento, Portugal não se libertasse dessa obsessão — antes a multiplicasse até ao delírio.

A liberdade chegou; o rebanho ficou

O 25 de Abril abriu o mundo a Portugal. Abriu portas, jornais, livros, debates, partidos, universidades, viagens, ideias, possibilidades. Durante algum tempo, talvez muitos de nós tenham acreditado que a liberdade produziria uma cidadania mais exigente, mais culta, mais atenta, mais capaz de distinguir entre entretenimento e anestesia.

Mas há desilusões que demoram décadas a amadurecer.

Hoje, mais de meio século depois de Abril, assistimos a um fenómeno difícil de aceitar: o futebol profissional não ocupa apenas estádios cheios; ocupa telejornais, canais de notícias, conversas públicas, programas de comentário, redes sociais, debates de café, agendas políticas, aparições presidenciais, ministros sorridentes, comentadores inflamados e uma fatia obscena da atenção colectiva.

Aquilo que antes era um passatempo popular transformou-se numa indústria de ocupação mental permanente.

Não se fala apenas do jogo. Fala-se do antes do jogo, do depois do jogo, da conferência de imprensa, da antevisão, da reacção, do comentário à reacção, da análise ao comentário, da polémica do árbitro, do VAR, da transferência provável, da transferência improvável, do treino, da lesão, do empresário, do balneário, do gesto, do silêncio, do rumor e, se for preciso, da cor da gravata do treinador.

A bola já não rola apenas no relvado. Rola dentro da cabeça do país.

O futebol como religião civil de baixa exigência

O futebol profissional tornou-se uma espécie de religião civil de baixa exigência intelectual. Tem rituais, hinos, santos, pecadores, mártires, hereges, templos, procissões, excomunhões, sacerdotes televisivos e fiéis que discutem dogmas tácticos com a seriedade de concílios medievais.

Tem também uma vantagem preciosa para o poder: não exige pensamento profundo. Exige pertença. Exige emoção. Exige fidelidade tribal. Exige reacção imediata. Exige indignação fácil. Exige paixão.

E a paixão, quando desligada da reflexão, é uma matéria-prima extraordinária para a manipulação.

O adepto pode ser culto, licenciado, tecnicamente competente, até brilhante na sua profissão. Mas, quando entra na lógica tribal do clube, muitas vezes abdica voluntariamente da razão. O adversário é sempre favorecido. O árbitro é sempre suspeito. O nosso erro é sempre azar. A nossa violência é paixão. A dos outros é selvajaria. A nossa derrota é injustiça. A vitória alheia é conspiração.

É uma escola perfeita para a irracionalidade confortável.

E talvez por isso combine tão bem com uma sociedade que tantas vezes troca pensamento crítico por alinhamento emocional.

Pão e circo, agora em alta definição

A Roma antiga compreendeu cedo a utilidade política do espectáculo. Pão e circo não era apenas uma expressão moralista; era uma tecnologia social. Dar alimento suficiente para evitar a revolta e espectáculo suficiente para ocupar a alma colectiva.

Portugal modernizou o método.

Hoje há menos pão certo para muitos, mas há circo permanente em alta definição. Há estádios iluminados, comentadores aos gritos, painéis televisivos, directos em contínuo, redes sociais em combustão, jornais desportivos, entrevistas, transferências, polémicas e emoções cuidadosamente alimentadas.

Enquanto isso, o país real espera.

Espera por consultas. Espera por justiça. Espera por salários dignos. Espera por habitação acessível. Espera por uma administração pública que funcione. Espera por escolas melhores. Espera por transportes decentes. Espera por produtividade. Espera por inovação. Espera por políticos que governem em vez de encenarem presença.

Mas a televisão abre o telejornal e lá está a bola, soberana, omnipresente, repetida até à náusea. Como se Portugal fosse uma nação sitiada não pela pobreza estrutural, pela mediocridade política ou pela degradação institucional, mas por uma dúvida existencial sobre a titularidade de um avançado no próximo clássico.

É aqui que a desilusão se torna quase física.

Os políticos descobriram a bancada VIP

Os políticos perceberam o fenómeno há muito. Onde há multidão, há oportunidade. Onde há bandeiras, há fotografia. Onde há vitória, há frase patriótica. Onde há câmaras, há presença calculada.

Presidentes, primeiros-ministros, ministros, autarcas e aspirantes a qualquer coisa aparecem nos jogos como mariposas à volta da luz. Sorriem, aplaudem, comentam, falam de orgulho nacional, de inspiração, de Portugal que brilha, de exemplo para os jovens, de união, de mérito e de esperança.

Não há nada de errado em um governante gostar de futebol. O problema está na utilização sistemática do futebol como palco de legitimação emocional. O político cola-se ao sucesso dos outros para absorver um pouco do brilho. O mérito produzido em campo passa a funcionar como perfume simbólico para disfarçar a pobreza da governação.

É uma técnica antiga: aparecer ao lado de quem vence, para que o povo esqueça quem falha.

Mas há uma pergunta que quase nunca se faz:

Se Portugal consegue formar jogadores de classe mundial, porque aceita instituições públicas de terceira divisão?

Dentro do futebol profissional, há avaliação brutal. O treinador perde e cai. O jogador falha e senta-se. O clube perde e sofre consequências. O mercado mede, castiga, compra, vende, selecciona.

Na política portuguesa, pelo contrário, a mediocridade é muitas vezes reciclada, promovida, protegida, comentada, reabilitada e enviada para novo cargo com carro oficial e ar grave.

Talvez por isso gostem tanto do futebol: é o único lugar onde podem fingir proximidade com o mérito sem serem pessoalmente avaliados por ele.

O jornalismo ajoelhado perante a espuma

Outra parte desta tragédia é o jornalismo. Não todo, naturalmente. Ainda há jornalistas sérios, corajosos, cultos, capazes de investigar, perguntar e incomodar. Mas o sistema mediático, no seu conjunto, entregou-se demasiadas vezes à espuma futebolística como quem encontra uma droga barata para audiências cansadas.

O resultado é deprimente: canais de notícias que passam horas infindáveis a discutir futebol, telejornais que dão centralidade absurda a episódios desportivos, painéis de comentadores que transformam banalidades em drama nacional e directos que fazem de cada chegada de autocarro uma espécie de desembarque em Normandia com cachecóis.

O jornalismo devia ajudar o cidadão a compreender o mundo. Demasiadas vezes ajuda apenas o telespectador a manter-se excitado.

E o mais grave é que esta excitação não é neutra. Ela ocupa espaço mental. Ocupa tempo. Ocupa linguagem. Ocupa atenção. Ocupa energia cívica. Um povo que passa horas a discutir um penálti tem menos disponibilidade para discutir a justiça, a saúde, a corrupção, a educação, a economia, a geopolítica ou a decadência das instituições.

A bola serve, muitas vezes, como biombo sonoro.

Escolaridade sem lucidez

O que mais me surpreende — e talvez mais me doa — é constatar que este fenómeno cresceu precisamente quando Portugal se tornou muito mais escolarizado. Hoje há muito mais pessoas com ensino secundário, licenciaturas, mestrados, acesso à Internet, livros, documentários, cursos, viagens, informação e contacto com o mundo.

E, no entanto, a capacidade colectiva de resistir ao rebanho parece muitas vezes frágil.

Esta é uma lição dura: escolaridade não é automaticamente cultura. Diploma não é automaticamente pensamento. Informação não é automaticamente lucidez. Uma população pode saber ler tecnicamente e continuar incapaz de ler o seu próprio condicionamento. Pode ter doze anos de escola e continuar emocionalmente disponível para a manipulação mais básica. Pode ter universidade e continuar tribal, acrítica, obediente ao ruído.

Portugal ensinou muita gente a obter certificados. Mas ensinou menos gente a desconfiar da encenação.

E isso explica muito.

Uma sociedade verdadeiramente culta não deixaria que o futebol ocupasse de forma tão esmagadora a esfera pública. Gostaria de futebol, sim. Celebraria o jogo, sim. Mas não permitiria que uma actividade desportiva se transformasse numa máquina de substituição da cidadania.

A mansidão como destino

Há algo profundamente triste em ver um povo com tanta energia emocional para clubes e tão pouca energia para exigir um país decente.

Multidões gritam por árbitros, treinadores, presidentes de clubes e jogadores, mas calam-se perante décadas de mediocridade governativa. Indignam-se com uma expulsão, mas aceitam listas de espera indignas. Discutem tácticas durante horas, mas não conhecem uma proposta séria para a justiça. Sofrem por uma derrota desportiva, mas conformam-se com filhos emigrados, salários baixos e serviços públicos degradados.

É esta desproporção que magoa.

Não é o amor ao futebol que está em causa. É a ausência de proporção. É a falta de bom-senso. É a facilidade com que a emoção colectiva se deixa conduzir para o relvado enquanto o país real fica à espera no corredor.

Um povo livre deveria saber celebrar sem se deixar domesticar. Deveria saber vibrar sem abdicar de pensar. Deveria saber distinguir entre alegria popular e anestesia política.

Mas Portugal, demasiadas vezes, parece satisfeito em ser conduzido para a bancada. Como se a cidadania fosse demasiado cansativa e o espectáculo oferecesse uma forma mais simples de pertencer a qualquer coisa.

A diferença entre jogar e assistir

Há uma metáfora poderosa nesta história: quando éramos jovens, jogávamos. Corríamos, caíamos, discutíamos, organizávamos equipas, inventávamos campos, fazíamos desporto com os meios que tínhamos. Era imperfeito, mas era nosso. Havia corpo, iniciativa, participação.

Hoje, demasiadas pessoas assistem. Assistem ao futebol, assistem à política, assistem à degradação, assistem aos escândalos, assistem aos debates, assistem à vida pública como quem muda de canal.

A passagem de jogador para espectador é talvez uma das grandes derrotas culturais do país.

Uma democracia precisa de cidadãos que joguem o jogo da cidadania: que participem, questionem, leiam, escrevam, fiscalizem, se organizem, exijam, pensem, votem com memória e recusem ser apenas massa emocional.

Mas o espectáculo permanente transforma o cidadão em adepto. E o adepto, por definição, quer pertencer antes de pensar.

Não é ódio ao futebol; é amor à lucidez

Sei bem que uma crónica destas será facilmente mal interpretada. Dirão que é elitismo. Que é amargura. Que é desprezo pelo povo. Que é ódio ao futebol. Que é exagero. Que é falta de alegria.

Não é nada disso.

É precisamente por respeitar o povo que me custa vê-lo reduzido a audiência. É por valorizar o desporto que me custa vê-lo transformado em indústria de ruído. É por amar a liberdade que me custa ver uma sociedade livre entregar voluntariamente tanta da sua atenção a uma máquina de distracção colectiva.

Não há problema em gostar de futebol. O problema começa quando o futebol ocupa o lugar da cultura, da política, da reflexão, da cidadania e da exigência nacional.

Uma bola é uma coisa bela quando roda num campo entre amigos. Torna-se outra coisa quando serve para manter um país inteiro a olhar para o lado.

Conclusão: Portugal sentado na bancada

A minha desilusão é esta: esperava que a liberdade trouxesse mais consciência; que a escolaridade trouxesse mais maturidade; que a democracia trouxesse mais exigência; que a abertura ao mundo libertasse Portugal da velha mansidão.

Mas em vez de um povo mais desperto, vejo muitas vezes uma multidão mais equipada, mais escolarizada, mais conectada — e, ainda assim, presa a formas antigas de rebanho emocional.

O futebol profissional tornou-se em Portugal mais do que um desporto. Tornou-se uma anestesia. Um ritual de pertença. Uma máquina de ruído. Um palco político. Uma indústria mediática. Uma válvula de escape cuidadosamente alimentada.

E enquanto o país grita na bancada, demasiadas coisas continuam por resolver dentro do campo real da vida: a justiça, a saúde, a educação, a habitação, os salários, a produtividade, a corrupção, a cultura, a inovação, a dignidade.

Talvez o grande problema de Portugal não seja gostar demasiado de futebol.

Talvez seja ter esquecido que a cidadania também se joga — e que, nessa partida, não basta assistir.

Nota Final

Esta crónica não é contra o futebol jogado, vivido e amado como desporto. É contra a sua transformação em ruído nacional permanente, em instrumento de distracção, em palco político e em substituto emocional da cidadania.

Um povo tem direito à alegria, ao jogo, à festa e ao orgulho. Mas perde parte da sua liberdade interior quando aceita que a sua atenção seja administrada por uma indústria de espectáculo, comentadores, políticos oportunistas e televisões dependentes da excitação contínua.

Portugal não precisa de deixar de celebrar o futebol. Precisa é de deixar de viver como se a bancada fosse o lugar natural de um povo livre.



Francisco Gonçalves


Fragmentos do Caos

Com co-autoria Editorial por Augustus Veritas, sempre ao serviço da lucidez, da memória crítica e da inquietação criadora.

Nota de Enquadramento

Esta crónica não pretende atacar quem gosta de futebol, nem diminuir o valor do desporto ou a alegria legítima dos adeptos. Pretende, isso sim, questionar a transformação do futebol profissional em ruído mediático permanente, palco político e mecanismo de distracção colectiva.

A crítica não é ao jogo. É ao uso social, político e mediático do espectáculo quando este ocupa o espaço que deveria pertencer também à reflexão, à cultura, à exigência cívica e ao debate sério sobre o país.

Uma democracia adulta não deve temer textos que incomodam. Antes deveriam servir de reflexão.
Deve temer, isso sim, cidadãos que já não suportam pensar para além da bancada.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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