A Escola Não Vacina a Consciência — 55 Anos Depois, o Mesmo Povo, as Mesmas Frases
- Contexto: Portugal antes do 25 de Abril de 1974 e Portugal após 51 anos de democracia.
- Frases repetidas: “Se eu estivesse no lugar deles também roubava” e “Não quero saber de política”.
- Surpresa central: A escolaridade aumentou drasticamente, mas o discurso popular manteve-se.
- Conclusão: Emoção e instinto governam a maioria; a razão surge raramente.
- Tom: Memória pessoal, crítica social e reflexão filosófica.
A Escola Não Vacina a Consciência
Vou confessar algo que hoje, à distância de mais de meio século, ainda me soa como um eco que se recusa a morrer.
Em Portugal, ainda antes do 25 de Abril de 1974, eu ouvia as conversas do povo sobre corrupção e governação.
E quase sempre a música era a mesma, repetida como um refrão gasto: “se eu estivesse no lugar deles também roubava”, “não quero saber de política”, e outras tiradas do mesmo calibre.
Nessa altura eu estudava no 5.º ano dos liceus — e, apesar de tudo, ainda tentava compreender. Pensava: a grande maioria da população é iletrada; muitos nem chegavam à antiga 4.ª classe da primária. Muitos outros totalmente analfabetos.
E, num misto de pena e racionalização, eu desculpava aquelas “perfeitas idiotices” — pelo menos no meu modo de pensar de então.
Eu olhava para aquele Portugal pré-25 de Abril e ainda havia uma explicação possível:
analfabetismo, pobreza extrema, isolamento cultural, medo, censura, ausência de horizontes.
Mas hoje?
Hoje temos universidades em cada distrito.
Temos doutorados a comentar política no TikTok entre dois anúncios de cremes.
Temos acesso instantâneo à Biblioteca de Alexandria no bolso — e usamos para ver gatos a cair de sofás.
E o discurso… é o mesmo.
O pasmo que resiste ao tempo
O que me pasma hoje é isto: volvidos mais de 55 anos, e após 51 anos de democracia, num país onde a escolaridade mínima é de 12 anos, com uma grande parte da população
com licenciaturas e até doutoramentos, eu ouço exactamente as mesmas frases.
Como se a passagem do tempo não tivesse passado dentro da cabeça colectiva.
Como se os diplomas tivessem aumentado, mas a fibra moral tivesse ficado estacionada no mesmo apeadeiro antigo, à espera de um comboio que nunca chega.
Esta simples frase “Se eu estivesse no lugar deles também roubava” é hoje talvez a mais devastadora de todas.
Porque nela está contida a confissão colectiva:
Não me revolta a corrupção.
Revolta-me não ser eu o corrupto.
Não é ignorância.
É normalização do mal.
Hannah Arendt chamou-lhe isso mesmo:
a banalidade do mal.
Não é o monstro que destrói as sociedades.
É o cidadão comum que diz:
— “É assim mesmo.”
— “Sempre foi.”
— “Nada vai mudar.”
E depois vai jantar.
Democracia sem cidadãos não é democracia
É apenas contabilidade eleitoral.
Votar de quatro em quatro anos não cria democracia
se nos outros 1.459 dias reina a indiferença.
O meu espanto não é ingenuidade
é o choque de quem acreditou que o conhecimento liberta.
Mas a verdade é mais cruel:
O conhecimento só liberta quem quer ser livre.
Para os outros, serve apenas para ganhar salário.
Há 2.000 anos… e hoje
Os romanos já diziam:
‘Panem et circenses’.
O povo não queria virtude.
Queria conforto.
Não queria justiça.
Queria sobreviver.
Não queria liberdade.
Queria não pensar.
Dois milénios depois, mudámos o Coliseu por ecrãs LED,
mas o instinto é o mesmo.
A maioria das pessoas vive dominada por três forças primárias:
O medo, desejo e conformismo.
A razão exige esforço.
A emoção exige apenas impulso.
E o cérebro humano, biologicamente, não evoluiu quase nada desde a Idade do Bronze.
Mudámos as ferramentas.
Não mudámos o software.
Talvez a tragédia não seja a ignorância
Talvez seja outra coisa:
A maioria não quer pensar.
Pensar obriga a escolher.
Escolher obriga a assumir culpa.
Assumir culpa obriga a agir.
É mais cómodo dizer:
“Não me interesso por política.”
Como se política não se interessasse por eles.
Mas interessa.
Sempre interessou.
E cobra juros.
A minha conclusão
A minha conclusão é amarga e simples: a humanidade, com escolaridade ou analfabetos, repete o mesmo comportamento de há 2000 anos.
A maioria vive movida sobretudo pela emoção e pelo instinto.
A razão — essa — é rara, e muitas vezes nem chega a fazer a sua aparição nas mentes onde mais falta faria.
E quando alguém diz “se eu lá estivesse também roubava”, não está apenas a normalizar a corrupção — está a confessar uma rendição íntima: a abdicação do dever de ser melhor do que o que critica.
É o triunfo do cinismo como forma de sobrevivência.
O mais inquietante não é a ignorância: é a indiferença. Porque a indiferença é um voto silencioso a favor da continuação de tudo. É uma assinatura invisível no contrato da decadência.
Epílogo
Talvez a escola ensine a ler — mas não ensina necessariamente a pensar.
Talvez produza profissionais, mas não forme cidadãos.
E se a razão é uma ferramenta, então a pergunta final é brutal: quantos querem realmente usá-la?
O resultado é uma sociedade cheia de diplomas —
e vazia de responsabilidade cívica.
Porque o problema nunca foi a falta de instrução.
Foi — e continua a ser — a ausência de formação do carácter.


