O Estado Dentro do Estado: A Casta de Auto-Eleitos que Usurpou Abril
A Democracia Cativa: Portugal e a Casta dos Partidos
– Tema: Regime político português pós-1974
– Ângulo: Crítica estrutural e filosófica
– Destinatário: Sociedade civil que já não aceita este teatro da mediocridade em que transformaram Portugal.
1. A promessa de Abril e o fecho da porta
O país que emergiu do 25 de Abril foi um país aceso de esperança, vibrante de futuro, sedento de cidadania. Mas, discretamente, enquanto o povo celebrava a rua, — e jamais devolveram a chave.
Aquilo que deveria ter sido a arquitectura de uma democracia aberta transformou-se, com o passar das décadas, numa cadeia de produção de poder, onde as mesmas famílias políticas circulam entre gabinetes, empresas públicas, institutos, administrações e ministérios. Um carrossel de conveniência, um ecossistema fechado.
A sociedade civil foi afastada com uma delicadeza aparentemente democrática:
“Participem, mas só dentro das regras que nós definimos.”
“Contribuam, mas não decidam.”
“Proponham, mas nós rejeitamos.”
Nascia assim a democracia de papel selado: bela por fora, esvaziada por dentro.
2. O novo sacerdócio laico: a casta partidária
Portugal vive hoje sob uma aristocracia modernaça, não hereditária, mas autoproduzida. Um clero de políticos-profissionais que se legitimam a si próprios e se protegem mutuamente. Vertentes ideológicas distintas? Sim.
Práticas de poder? As mesmas.
Como na velha advertência salazarista — “Veja lá, não se meta na política” —, também hoje a participação cívica é desencorajada, marginalizada, ridicularizada. Não por ditadura, mas por desprezo sistémico.
Para os partidos, o cidadão é um figurante: aparece no dia das eleições, aplaude nos comícios, cala-se nos restantes 1460 dias.
A cidadania política, aquela que poderia transformar o país, foi substituída por cidadania administrativa, reduzida a formulários, senhas de espera e caixas multibanco.
3. Corrupção, nepotismo e a opacidade que alimenta ambos
A corrupção em Portugal não é um acidente: é a consequência lógica de um sistema construído para ser opaco. É a geometria da própria máquina.
– Concursos feitos por quem concorre.
– Fiscalização conduzida por quem deve ser fiscalizado.
– Nomeações efectuadas por quem é nomeado.
– Conselhos independentes preenchidos por dependentes.
Os partidos institucionalizaram a permuta permanente: hoje nomeio eu, amanhã nomeias tu — e assim se mantém a paz interna. Não é um pacto de governação: é um pacto de sobrevivência.
E tudo isto sustentado por uma narrativa paternalista:
“Nós sabemos o que é melhor para o país.”
“O povo não entende a complexidade do Estado.”
“Deixem-nos trabalhar.”
Assim, a democracia esvazia-se. A República torna-se uma empresa capturada. O Estado deixa de ser res-publica — coisa do povo — e transforma-se em res partidum — coisa dos partidos.
4. Portugal na distopia orwelliana
Portugal não vive numa distopia hedonista à la Huxley; vive num cenário mais próximo do que George Orwell descreveu — não pela violência aberta, mas pela manipulação das narrativas, pelo controlo simbólico do discurso político e pela criação de uma classe dirigente que funciona como o “Comité dos Porcos” de Animal Farm.
Começam iguais aos restantes, mas rapidamente se convencem — e convencem o país — de que são “mais iguais do que os outros”.
É o duplo-pensar:
participação significa obediência;
contestar é sinónimo de ignorância;
e a democracia reduz-se ao ritual que legitima a casta.
Como em 1984, controla-se o presente através da linguagem e o futuro através da resignação.
Não se reprime com medo — reprime-se com burocracia, retórica e um paternalismo autoritário disfarçado de serviço público.
Orwell não falhou o diagnóstico.
Nós é que chegámos tarde demais a percebê-lo.
5. Mas a História nunca pára… e a cidadania desperta
Nenhuma estrutura de poder se perpetua quando deixa de responder ao povo. As democracias não morrem apenas; também se regeneram.
E o que hoje se sente em Portugal — por baixo da superfície calma — é uma vibração nova. Uma inquietação. Uma recusa silenciosa. Uma fadiga do engano.
As pessoas começam a perceber que:
Democracia não é votar.
Democracia é participar.
Democracia é vigiar.
Democracia é decidir.
Democracia é dizer não quando o sistema diz “sim”.
Há um país que desperta.
Um país que está cansado de ser governado, e anseia por governar-se.
Um país que não quer apenas mudar de gestores do regime, mas mudar o regime da gestão.
Um país que quer futuro — não promessas.
6. O papel dos inconformistas
E aqui, caro cidadão que entra o teu papel — e o de todos os que se recusam a aceitar este teatro da mediocridade. O futuro de Portugal não virá dos partidos; virá das mentes que não se deixam domesticar pelo discurso oficial.
Dos que não cedem ao cansaço.
Dos que não se ajoelham perante a narrativa única.
Dos que ousam pensar fora da moldura onde nos querem aprisionar.
O inconformismo é a energia inicial de toda a renovação.
E a democracia só revive quando a cidadania adquire coragem.
Tu és um desses faróis.
E este ensaio é parte desse caminho. Pensa, nao te conformes, ousa denunciar a mentira que é esta democracia.
Só assim Portugal terá futuro.
Artigo autoria de ✒️Francisco Gonçalves


