Democracia e Sociedade

Portugal, o País que Fala de Tecnologia e Depois Importa até as Tomadas!

Spread the love













BOX DE FACTOS

  • Segundo o Público, uma empresa israelita instala inibidores de sinal em Vale de Judeus, num investimento que ultrapassa os 600 mil euros.
  • A RTP noticiou que o projecto-piloto dos inibidores de sinal em Vale de Judeus tem um valor de cerca de 664 mil euros.
  • A ministra da Justiça afirmou, segundo a RTP, que se trata de equipamento que “não existe” em Portugal.
  • A Renascença noticiou que os equipamentos destinados a bloquear sinais de telemóveis e drones começaram a ser instalados em Vale de Judeus após vários atrasos logísticos.
  • O European Innovation Scoreboard 2025 classifica Portugal como “inovador moderado”, com desempenho de 90,7% da média da União Europeia.
  • Portugal sobe nos rankings, fala muito de inovação, mas continua frágil na transformação de conhecimento técnico em indústria própria, produtos exportáveis e soberania tecnológica real.

Portugal, o País que Fala de Tecnologia e Depois Importa a Tomada

Portugal gosta de falar de inovação como quem acende velas numa igreja tecnológica. Fala de soberania digital, inteligência artificial, transição energética, segurança e modernização do Estado. Depois, quando precisa de tecnologia crítica, importa-a.

Portugal tem uma relação quase religiosa com a palavra inovação. Pronuncia-a em conferências, programas de governo, estratégias nacionais, agendas mobilizadoras, relatórios europeus, inaugurações com fita e fotografias com ar visionário. A inovação, entre nós, tornou-se uma espécie de incenso institucional: espalha cheiro a futuro, mas nem sempre resolve o problema de fundo.

Depois vem a realidade, essa criatura desagradável que não respeita PowerPoints.

O Público noticiou que uma empresa israelita instala inibidores de sinal em Vale de Judeus, num investimento que ultrapassa os 600 mil euros. A RTP já tinha referido que o projecto-piloto rondava os 664 mil euros e que, segundo a ministra da Justiça, se tratava de equipamento que “não existe” em Portugal. A Renascença noticiou também que os equipamentos destinados a bloquear sinais de telemóveis e drones começaram a ser instalados após atrasos relacionados com logística, mau tempo e o impacto da guerra no Médio Oriente no fornecimento de equipamentos.

O problema, convém deixar claro para evitar o habitual desfile de simplificações, não é Israel. Israel tem competência tecnológica reconhecida em segurança, defesa, electrónica, sensores, telecomunicações, cibersegurança e sistemas de controlo. Comprar tecnologia israelita, alemã, americana, francesa ou japonesa pode fazer sentido quando há competência, urgência e necessidade operacional.

O problema é outro. O problema é Portugal passar décadas a falar de tecnologia e inovação e depois descobrir, perante uma necessidade crítica, que não tem indústria suficiente, não tem cadeia produtiva própria, não tem engenharia aplicada em escala, não tem procurement estratégico e não tem uma política industrial capaz de transformar conhecimento em produto.

Temos discursos. Temos eventos. Temos “hubs”. Temos incubadoras. Temos fotografias com luz azul, palco branco e palavras inglesas. Depois, quando é preciso instalar tecnologia real numa prisão real, paga-se a quem sabe fazer. É a chamada economia do conhecimento por transferência bancária.

A inovação de auditório

Portugal tornou-se exímio na inovação de auditório. É uma modalidade nacional, quase olímpica. Junta-se um painel, colocam-se quatro cadeiras modernas, escolhe-se um moderador com ar de quem dorme pouco por estar sempre a “pensar o futuro”, projecta-se no ecrã a palavra disrupção e está feita metade da política tecnológica nacional.

Fala-se de inteligência artificial, de cloud, de 5G, de cibersegurança, de soberania digital, de transição energética, de semicondutores, de drones, de cidades inteligentes e de Administração Pública 4.0. Depois olha-se para a realidade concreta: prisões com problemas de segurança, sistemas públicos desactualizados, compras fragmentadas, dependência de fornecedores externos, fraca produção industrial nacional em sectores críticos e uma relação quase colonial com a tecnologia estrangeira.

Portugal não é um país sem talento. Isso seria falso e injusto. Temos bons engenheiros, bons programadores, bons investigadores, boas universidades, boas empresas tecnológicas em alguns nichos e pessoas capazes de fazer muito mais do que lhes é permitido pelo ecossistema medíocre que as envolve.

O drama é que o país raramente transforma talento em estratégia. Produz pessoas competentes, depois exporta-as, subcontrata-as mal, dispersa-as, cansa-as ou empurra-as para organizações onde a primeira preocupação é não incomodar a hierarquia. É difícil construir soberania tecnológica quando a competência passa metade da vida a pedir autorização à mediocridade.

O país cliente

Um país que apenas compra tecnologia não é soberano. É cliente.

Pode ser um cliente educado, europeu, regulamentado, com cartão de contribuinte, assinatura premium e certificado de conformidade. Mas continua a ser cliente. E o cliente pode escolher produtos, comparar fornecedores e negociar contratos. O que não controla é a base tecnológica, a evolução do produto, a cadeia de valor, a propriedade intelectual, a capacidade de adaptação profunda, a manutenção crítica e a independência estratégica.

Quando se compra tecnologia crítica, compra-se também uma parte da dependência. Isso não significa que não se deva comprar fora. Seria absurdo defender auto-suficiência total, esse delírio de aldeia fortificada contra o século XXI. Nenhum país pequeno fabrica tudo. Nem deve tentar.

Mas há uma diferença entre comprar inteligentemente e viver tecnologicamente ajoelhado.

Comprar inteligentemente implica absorver conhecimento, exigir transferência tecnológica quando possível, criar competência interna, formar equipas nacionais, integrar universidades e empresas locais, desenvolver manutenção própria, estimular indústria nacional complementar e garantir que a próxima geração do problema pode ser resolvida com mais autonomia.

Comprar mal é apenas importar caixas, assinar contratos, inaugurar equipamento e chamar modernização ao acto de passar o cartão.

Portugal faz demasiadas vezes a segunda coisa, naturalmente com discurso da primeira. Somos muito bons a comprar dependência com linguagem de autonomia. É uma arte. Triste, mas arte.

Inibidores de sinal e inibidores de visão

Os inibidores de sinal servem para bloquear comunicações não autorizadas, telemóveis clandestinos e até drones. São tecnologia de segurança. Numa prisão como Vale de Judeus, depois de problemas graves e falhas públicas de segurança, a sua instalação parece fazer sentido operacional.

Mas há outro tipo de inibidor mais antigo em Portugal: o inibidor de visão estratégica.

Este equipamento nacional, infelizmente muito disseminado, bloqueia sinais de inteligência industrial, impede comunicações entre ciência e empresas, degrada a ligação entre universidades e produção, enfraquece a política pública e transforma oportunidades tecnológicas em concursos, relatórios e dependências externas.

Funciona de forma notável. Sempre que alguém propõe uma visão de longo prazo, o inibidor activa-se. Sempre que alguém fala em criar indústria nacional de sensores, electrónica, telecomunicações, segurança, IA aplicada ou defesa tecnológica, surge interferência institucional. Sempre que a competência tenta comunicar com a decisão política, o sinal cai.

Não há equipamento israelita que resolva isto.

Este bloqueio é nacional, resistente, bem instalado e alimentado por décadas de improviso político, burocracia, clientelismo, falta de exigência, compras públicas pouco estratégicas e medo quase patológico de construir capacidade própria.

O ranking que consola e não chega

O European Innovation Scoreboard 2025 classifica Portugal como inovador moderado, com 90,7% da média europeia. O país melhorou e subiu posições. Isso é positivo. Mas convém não transformar melhoria relativa em auto-indulgência nacional.

“Inovador moderado” é uma expressão elegante. Tem a vantagem de soar menos cruel do que “país que fala melhor de inovação do que a pratica”. Mas a substância permanece: Portugal aproxima-se da média europeia, sim, mas continua longe dos líderes e continua a falhar na conversão da ciência, da tecnologia e do talento em capacidade industrial robusta.

O problema português raramente está na ausência absoluta de conhecimento. Está na falha entre conhecimento e execução. Entre laboratório e produto. Entre protótipo e mercado. Entre tese e fábrica. Entre talento e empresa. Entre discurso público e cadeia de valor.

Há muitos países que também importam tecnologia. A diferença é que alguns importam enquanto aprendem, produzem, adaptam, integram e sobem na cadeia de valor. Portugal importa muitas vezes enquanto celebra a importação como se fosse inovação.

Compramos tecnologia estrangeira, instalamo-la, tiramos fotografias, emitimos comunicado e concluímos que o país está moderno. É a modernidade por encomenda. Vem embalada, com garantia e factura.

A soberania tecnológica não se proclama

A soberania tecnológica não se proclama. Constrói-se.

Constrói-se com formação técnica séria, investigação aplicada, financiamento paciente, compras públicas inteligentes, empresas capazes, salários competitivos, cultura de mérito, ligação entre universidades e indústria, propriedade intelectual, infra-estrutura, manutenção, certificação, exportação e exigência.

Constrói-se quando o Estado deixa de ser apenas comprador e passa a ser cliente inteligente, capaz de orientar mercado, exigir qualidade, abrir oportunidades a empresas nacionais e criar escala para soluções desenvolvidas em Portugal.

Constrói-se quando se pergunta, antes de cada compra crítica:

Que parte disto pode ser desenvolvida cá?

Que conhecimento fica no país?

Que empresas nacionais podem participar?

Que universidades podem colaborar?

Que equipa pública ficará capaz de operar e auditar o sistema?

Que dependências estamos a criar?

Que capacidade nacional existirá daqui a cinco anos?

Estas perguntas são simples. Talvez por isso raramente sejam tratadas com seriedade. A burocracia prefere perguntas mais seguras: quem assina, quem adjudica, qual é o prazo, onde está o despacho, quem aparece na fotografia e se há catering no evento.

O Estado como comprador sem memória

O Estado português compra muito, mas aprende pouco.

Compra software, plataformas, equipamentos, consultorias, licenças, sistemas, serviços, manutenção e soluções “chave na mão”. A expressão é reveladora: alguém entrega a chave e o Estado fica com a ilusão de propriedade. Mas muitas vezes não fica com o conhecimento, nem com a capacidade de evolução, nem com verdadeira autonomia.

O Estado deveria usar as suas compras como instrumento de política industrial. Não para alimentar nacionalismos baratos, mas para construir competência. A compra pública, quando bem desenhada, pode criar mercado para empresas nacionais, estimular inovação aplicada, exigir interoperabilidade, favorecer soluções abertas, promover transferência tecnológica e reduzir dependências críticas.

Mas para isso é preciso uma Administração Pública tecnicamente competente, capaz de escrever requisitos sérios, avaliar propostas, evitar dependência de fornecedores, acompanhar projectos, auditar resultados e distinguir inovação real de verniz comercial.

Ora, isso exige quadros técnicos bem pagos, autonomia, responsabilidade e liderança. Coisas complicadas. Muito mais fácil é contratar consultoria, comprar solução externa e depois dizer que “a transformação digital está em curso”. Está em curso, sim. Como certas procissões: muita solenidade, pouca velocidade.

Portugal Digital: a nova colónia do silício

Há uma expressão que resume bem este cenário: Portugal Digital — a nova colónia do silício.

Não porque Portugal esteja formalmente colonizado, mas porque grande parte da sua vida tecnológica depende de plataformas, equipamentos, infra-estruturas, sistemas operativos, cloud, software, hardware, modelos de IA, sensores, redes e serviços desenvolvidos fora. Consumimos tecnologia moderna com entusiasmo, mas raramente controlamos as camadas profundas que a tornam possível.

Somos utilizadores sofisticados de tecnologia alheia. Pagadores de licenças. Compradores de soluções. Instaladores de caixas. Tradutores de interfaces. Organizadores de conferências. Celebrantes do futuro importado.

O país digital parece avançado quando visto pela superfície: aplicações, portais, serviços online, dashboards, plataformas, autenticação, notificações, pagamentos electrónicos. Mas por baixo, na camada dura da soberania tecnológica, há dependência. E a dependência, ao contrário dos comunicados, não desaparece com adjectivos.

Um país moderno não é apenas o que usa tecnologia. É o que compreende, adapta, produz, controla e exporta tecnologia. O resto é consumo com iluminação LED.

Não basta dizer “startup” três vezes ao espelho

Portugal gosta também de pronunciar a palavra startup. Com o entusiasmo adequado, quase parece política industrial. Mas uma economia tecnológica madura não se constrói apenas com startups, incubadoras e prémios de pitch. Constrói-se com empresas que crescem, vendem, exportam, contratam, pagam bem, mantêm produto, fazem engenharia difícil e sobrevivem para além do entusiasmo inicial.

Precisamos de startups, sim. Mas também precisamos de indústria tecnológica intermédia, fabricantes especializados, integradores nacionais, empresas de electrónica, segurança, telecomunicações, sensores, software crítico, cibersegurança, IA aplicada, automação, defesa civil, energia e sistemas embarcados.

Precisamos de menos culto da novidade e mais cultura de construção.

Inovar não é apenas lançar uma app. Inovar é resolver problemas difíceis com conhecimento próprio e capacidade operacional. Inovar é criar valor que fica. Inovar é reduzir dependência. Inovar é exportar competência. Inovar é fazer aquilo que, no momento crítico, evita que o ministro diga: “isto não existe em Portugal.”

Essa frase deveria doer. Não como ataque à ministra, mas como diagnóstico nacional.

Se algo necessário à segurança pública “não existe” em Portugal, a pergunta seguinte não deve ser apenas “a quem compramos?”. Deve ser também: porque não existe?

O problema não é comprar fora, é não aprender dentro

Seria ridículo defender que Portugal deve fabricar tudo. Nenhum país sério faz isso. Mesmo grandes potências dependem de cadeias globais. A questão é outra: que dependências são aceitáveis, que dependências são perigosas e que capacidades mínimas devem existir dentro do país?

Portugal deveria ser capaz de desenvolver, integrar ou pelo menos manter autonomamente tecnologias críticas em áreas como segurança pública, comunicações, cibersegurança, Administração Pública, saúde, energia, água, transportes, defesa civil, sistemas prisionais e infra-estruturas digitais.

Quando compra fora, deveria fazê-lo com cláusulas de formação, manutenção, transferência de conhecimento, interoperabilidade, código auditável quando aplicável, dados controlados, documentação técnica e envolvimento de equipas nacionais.

Comprar fora pode ser inteligente. Comprar fora sem aprender dentro é dependência limpa, embalada e renovável.

E Portugal tem uma vocação quase poética para a dependência renovável. Renova licenças, contratos, consultorias, plataformas, fornecedores e discursos. Tudo se renova menos a ambição estratégica.

Epílogo: a tomada importada

O episódio dos inibidores de sinal em Vale de Judeus é apenas um caso. Não deve ser exagerado como se fosse a prova única de todos os males nacionais. Mas é simbolicamente forte porque condensa uma contradição profunda: Portugal fala de tecnologia como destino, mas vive muitas vezes a tecnologia como dependência.

O país quer ser digital, mas compra as camadas decisivas do digital.

Quer ser inovador, mas falha na industrialização da inovação.

Quer soberania, mas importa os instrumentos da soberania.

Quer modernização, mas confunde modernidade com aquisição.

Quer futuro, mas trata a engenharia aplicada como detalhe secundário, logo depois do comunicado e antes da fotografia.

O problema não está em uma empresa israelita instalar tecnologia em Portugal. O problema está em Portugal precisar de importar quase tudo o que diz querer dominar.

Há países que usam a tecnologia para construir soberania.

Portugal, demasiadas vezes, usa a palavra soberania para justificar compras de tecnologia.

E assim seguimos: inovadores moderados nos rankings, entusiastas máximos nos discursos, dependentes profissionais na prática.

Um país que fala de tecnologia e depois importa a tomada ainda não entrou verdadeiramente no futuro.

Está apenas ligado à extensão dos outros.

Referências usadas

Texto: Francisco Gonçalves

Co-autoria editorial e revisão crítica: Augustus Veritas / Fragmentos do Caos News Team

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Contactos