Democracia e Sociedade

A Europa Que Inventou Computadores e Depois Comprou a Sua Dependência

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BOX DE FACTOS

  • A Comissão Europeia apresentou, em 3 de Junho de 2026, um novo pacote de soberania tecnológica, incluindo propostas ligadas a chips, cloud, IA e open-source.
  • A Europa já teve uma indústria informática própria relevante, com empresas como ICL, Bull, Olivetti, Siemens/Nixdorf, Philips Data Systems e outras.
  • Nos anos 70 e 80, a Europa produzia hardware, sistemas operativos, software de base, aplicações empresariais e conhecimento técnico industrial.
  • Nas últimas décadas, a Europa perdeu grande parte dessa capacidade e tornou-se fortemente dependente de plataformas norte-americanas e asiáticas.
  • Projectos como Quaero, LiMux e Gaia-X mostram uma tendência europeia recorrente: anunciar soberania, financiar pilotos, perder continuidade e regressar à dependência.

A Europa Que Inventou Computadores e Depois Comprou a Sua Dependência

A Europa não perdeu apenas fábricas. Perdeu memória industrial, perdeu músculo técnico, perdeu continuidade estratégica e, talvez pior ainda, perdeu a coragem de construir o seu próprio destino tecnológico.

De tempos a tempos, a Europa acorda sobressaltada e descobre que depende tecnologicamente dos Estados Unidos, da Ásia, das grandes plataformas digitais e dos gigantes que constroem a infra-estrutura invisível do mundo moderno. Acorda, faz conferências, publica comunicações, convoca painéis, produz relatórios, cria programas, anuncia fundos e declara solenemente que chegou a hora da soberania tecnológica.

Depois o dia passa.

Vem o fim da tarde institucional, apagam-se as luzes da sala de conferências, recolhem-se os copos de água, arquivam-se as apresentações em PowerPoint e a Europa regressa ao conforto habitual: Microsoft no escritório, Amazon ou Azure na cloud, Google na pesquisa, Apple ou Android no bolso, Nvidia na inteligência artificial, TSMC e Samsung nos semicondutores, e a grande esperança continental embrulhada em regulamentos, directivas e boas intenções.

A tragédia não é a Europa não saber pensar. A tragédia é pensar demasiado depois de já ter deixado de fabricar.

O Novo Despertar de 2026

Em Junho de 2026, a Comissão Europeia voltou a apresentar uma iniciativa de soberania tecnológica, procurando reduzir a dependência europeia de fornecedores estrangeiros em áreas críticas como semicondutores, cloud, centros de dados, inteligência artificial e software open-source. Entre as propostas anunciadas surgem o Chips Act 2.0, o Cloud and AI Development Act e uma nova estratégia europeia para open-source.

Segundo a própria Comissão Europeia, este pacote pretende reforçar a capacidade tecnológica da Europa e apoiar ecossistemas digitais mais seguros, competitivos e resilientes. A Reuters descreveu a iniciativa como uma tentativa de travar a dependência europeia face às grandes tecnológicas norte-americanas, em especial em sectores sensíveis como banca, energia, saúde e administração pública. A Associated Press sublinhou igualmente que a União Europeia procura reduzir a dependência dos EUA na cloud e na IA, e da Ásia na produção de microchips.

Tudo isto é necessário. Mas a pergunta incómoda continua de pé, com as mãos nos bolsos e um sorriso irónico:

Porque é que a Europa está sempre a recomeçar aquilo que nunca devia ter abandonado?

A Europa Que Sabia Construir Máquinas

Houve uma Europa que fabricava computadores. Não apenas caixas metálicas com luzinhas e logótipos patrióticos, mas sistemas completos: hardware, sistemas operativos, compiladores, linguagens, bases de dados, comunicações, aplicações empresariais, suporte técnico, formação e investigação.

A Europa dos anos 70 e 80 tinha empresas como Bull, Olivetti, ICL Computers, Siemens/Nixdorf, Philips Data Systems, Secoinsa e outras. Eram empresas imperfeitas, naturalmente. Tinham limitações, mercados fragmentados, dependências políticas e dificuldades de escala. Mas tinham uma coisa que hoje faz falta como pão numa aldeia isolada: capacidade real de construção tecnológica.

A ICL, no Reino Unido, não era apenas um fabricante de hardware. Era uma empresa com engenharia de sistemas, software próprio, investigação, ligação às universidades, centros de desenvolvimento e uma presença internacional significativa. A empresa nasceu em 1968, da fusão de várias entidades britânicas de computação, e tornou-se o principal símbolo da indústria informática do Reino Unido, até ser progressivamente absorvida pela Fujitsu e desaparecer como entidade própria em 2002.

A série ICL 2900, o sistema operativo VME, os sistemas médios, os mainframes, os terminais, os produtos de retalho, os sistemas bancários, as soluções de comunicações e os ambientes de desenvolvimento faziam parte de um ecossistema completo. Quem viveu esse tempo sabe: havia ali uma inteligência industrial que não se limitava a comprar tecnologia. Produzia-a.

Hoje, grande parte dessa memória desapareceu. Não apenas das fábricas, mas também das universidades, dos ministérios, dos conselhos de administração e da imaginação política.

A Grande Rendição Doce

A partir dos anos 90, a Europa começou a render-se por camadas. Primeiro, rendeu-se no desktop. Depois, rendeu-se no sistema operativo. Depois, no office. Depois, na pesquisa. Depois, nos telemóveis. Depois, na cloud. Depois, nos chips avançados. Agora olha para a inteligência artificial como quem olha para um comboio que já partiu, perguntando se ainda haverá uma carruagem de segunda classe para Bruxelas.

A rendição não foi anunciada como rendição. Veio embrulhada em palavras confortáveis: racionalização, interoperabilidade, modernização, compatibilidade, eficiência, standardização, outsourcing, redução de custos, parceria estratégica. O vocabulário era elegante; o resultado foi brutal.

A Europa deixou de controlar a sua base tecnológica. E quando uma civilização deixa de controlar a sua base tecnológica, pode continuar a escrever leis sobre o mundo digital, mas já não governa verdadeiramente o chão onde pisa.

É excelente proteger direitos digitais. É necessário regular plataformas. É indispensável defender privacidade. Mas nenhuma civilização tecnológica vive apenas de regulamentos. Vive de fábricas, programadores, arquitectos de sistemas, redes, centros de dados, capital paciente, compras públicas inteligentes, investigação aplicada e coragem industrial.

A Europa tornou-se brilhante a regular aquilo que já não domina.

Quaero: O Sonho Europeu de Concorrer com a Google

Em meados dos anos 2000, a Europa teve mais um desses despertares solenes. O projecto Quaero, apresentado com forte impulso político franco-alemão, pretendia criar uma espécie de resposta europeia à hegemonia da Google na pesquisa e na indexação multimédia.

O nome era bonito. Quaero: “eu procuro”. Mas a Europa procurou, procurou, e acabou por encontrar sobretudo divergências internas. A Alemanha afastou-se do projecto em 2006, surgiram diferenças estratégicas entre uma abordagem mais textual e outra mais multimédia, e o projecto acabou por se transformar em mais um monumento à incapacidade europeia de converter ambição em produto global.

Este padrão repete-se quase como liturgia:

primeiro, o discurso grandioso;
depois, o consórcio;
a seguir, a comissão;
depois, a divergência nacional;
finalmente, o relatório a explicar porque não foi possível competir.

É a inovação por acta. A revolução tecnológica redigida por juristas e encerrada por falta de alinhamento estratégico.

LiMux: Quando a Liberdade Falha Por Falta de Continuidade

O caso de Munique, com o projecto LiMux, é outro símbolo poderoso. A cidade tentou migrar para Linux e software livre, procurando independência estratégica face a fornecedores proprietários. Durante anos, foi apresentada como exemplo europeu de autonomia digital.

Mas a continuidade política falhou, surgiram resistências internas, problemas de suporte, dificuldades de aceitação e pressões institucionais. O projecto sofreu reversões e reorientações. Mais tarde, Munique voltou a discutir políticas open-source, tentando recuperar lições da experiência anterior.

O problema não estava apenas no Linux. Estava na falta de doutrina. Soberania tecnológica não é instalar Linux num fim-de-semana administrativo. É formar pessoas, manter equipas, garantir suporte, financiar continuidade, adaptar processos, construir ecossistema e resistir à nostalgia confortável do fornecedor dominante.

O software livre não falha por ser livre. Falha quando é tratado como uma excentricidade orçamental, e não como infra-estrutura estratégica.

Gaia-X e a Cloud Que Não Chegou a Ser Nuvem

Na cloud, a Europa acordou tarde. Quando AWS, Azure e Google Cloud já tinham escala planetária, investimentos colossais, ecossistemas maduros e domínio de mercado, a Europa começou a falar de soberania, federação, interoperabilidade e standards.

O projecto Gaia-X nasceu com a ambição de reforçar a soberania digital europeia através de uma infra-estrutura federada, aberta e compatível com valores europeus. A intenção era nobre. O problema é que uma federação de princípios não substitui, por si só, uma cloud industrial com escala, serviços maduros, capacidade comercial, adopção massiva e investimento contínuo.

A Europa quis responder aos hyperscalers com arquitectura institucional. Mas os hyperscalers não são apenas centros de dados. São ecossistemas completos de computação, armazenamento, redes, segurança, bases de dados, inteligência artificial, DevOps, marketplaces, certificações, suporte e integração empresarial.

Mais uma vez, a Europa confundiu soberania com enquadramento. Mas a soberania não se decreta. Constrói-se.

O Vírus Silencioso: Burocracia Contra Inteligência

O verdadeiro inimigo europeu não é apenas a concorrência dos EUA, da China, da Coreia, de Taiwan ou do Japão. O inimigo mais profundo está dentro da própria Europa: a burocracia que sufoca a inteligência antes de ela se transformar em produto.

A União Europeia consegue produzir directivas, mecanismos, programas-quadro, observatórios, fundos, regulamentos, comités, grupos de peritos e plataformas de consulta. Mas quando chega a hora de construir empresas globais, sistemas dominantes, produtos simples, rápidos e competitivos, começa a longa procissão dos carimbos.

A mediocridade administrativa é particularmente hábil a domesticar a excelência técnica. Pega num engenheiro brilhante e transforma-o num gestor de formulário. Pega numa ideia industrial e transforma-a num projecto-piloto. Pega num produto e transforma-o numa candidatura. Pega numa equipa criativa e obriga-a a explicar, em vinte anexos, porque merece existir.

A Europa não tem falta de inteligência. Tem dificuldade em deixá-la respirar.

Regular Não Chega

A Europa gosta de se apresentar como potência normativa. E, em parte, é verdade. O Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados, a legislação sobre mercados digitais, os debates sobre inteligência artificial e a defesa de direitos fundamentais no espaço digital são contributos relevantes.

Mas regular não é substituir. Fiscalizar não é fabricar. Multar não é inovar. Escrever regras sobre plataformas alheias não equivale a criar plataformas próprias.

A pergunta que se impõe é simples:

onde estão os sistemas operativos europeus de escala global?
onde estão as clouds europeias dominantes?
onde estão os modelos fundacionais europeus de IA com adopção planetária?
onde estão os fabricantes europeus de hardware de grande consumo?
onde está a estratégia pública de compras que proteja tecnologia europeia quando ela é estratégica?

A Europa não pode continuar a comportar-se como uma civilização que escreve o código moral do mundo digital enquanto importa quase todo o código operacional.

O Que Teria de Mudar

A soberania tecnológica europeia exigiria uma mudança de cultura, não apenas mais um pacote legislativo. Exigiria uma doutrina industrial digital com continuidade de décadas, não anúncios episódicos ao sabor da geopolítica.

A Europa teria de comprar europeu quando está em causa infra-estrutura crítica. Teria de financiar empresas durante tempo suficiente para amadurecerem. Teria de usar open-source como infra-estrutura pública, e não como ornamento ideológico. Teria de criar clouds soberanas com escala real. Teria de apoiar chips, sistemas, electrónica, software de base e IA como sectores estratégicos. Teria de ligar universidades, empresas e Estado sem transformar tudo num pântano burocrático.

E, acima de tudo, teria de recuperar o respeito pelo engenheiro, pelo programador, pelo arquitecto de sistemas, pelo investigador aplicado, pelo técnico que sabe fazer e pelo empresário que arrisca.

Não há soberania tecnológica sem gente capaz de construir. E não há gente capaz de construir quando tudo à sua volta está organizado para pedir autorização, preencher formulários e aguardar parecer.

Epílogo: A Europa Precisa de Oficina, Não Apenas de Gabinete

A Europa já teve oficina. Teve laboratórios, fábricas, equipas, mainframes, sistemas médios, investigação, universidades ligadas à indústria, linguagens, sistemas operativos, arquitecturas próprias e orgulho técnico.

Depois trocou a oficina pelo gabinete. Trocou o engenheiro pelo gestor de programa. Trocou a ambição industrial pelo documento estratégico. Trocou a fábrica pelo concurso público. Trocou a memória tecnológica pela dependência confortável.

Agora acorda, de tempos a tempos, e descobre que a casa digital onde vive foi construída por outros.

Talvez ainda haja tempo. A Europa continua a ter universidades extraordinárias, cientistas brilhantes, engenheiros de qualidade, empresas de nicho, capacidade regulatória, mercado interno e uma tradição humanista que poderia dar ao mundo uma tecnologia mais respeitadora da liberdade humana.

Mas, para isso, terá de fazer mais do que acordar.

Terá de se levantar.

Terá de largar a almofada dos regulamentos, calçar as botas da engenharia e voltar à oficina.

Porque a soberania tecnológica não nasce em comunicados.

Nasce onde sempre nasceu: na coragem de construir.

Referências e Publicações Consultadas

  1. Comissão Europeia — Strengthening Europe’s tech sovereignty, 3 de Junho de 2026.
    https://commission.europa.eu/news-and-media/news/strengthening-europes-tech-sovereignty-2026-06-03_en
  2. Comissão Europeia — Communication on European Tech Sovereignty, accompanied by an EU Open Source Strategy, 3 de Junho de 2026.
    https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/library/communication-european-tech-sovereignty-accompanied-eu-open-source-strategy
  3. Reuters — EU targets Big Tech dependence with ‘made-in-Europe’ drive, 3 de Junho de 2026.
    https://www.reuters.com/business/eu-targets-big-tech-dependence-with-made-in-europe-drive-2026-06-03/
  4. Associated Press — European Union launches tech sovereignty initiative to boost chips, cloud and AI at home, 3 de Junho de 2026.
    https://apnews.com/article/b16729f7758120260c7005bfba0774c3
  5. Comissão Europeia — Proposal for the Chips Act 2.0, 2026.
    https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/library/proposal-chips-act-20
  6. Comissão Europeia — European Chips Act.
    https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/policies/european-chips-act
  7. The Guardian — Germans pull out of European bid to rival Google, 28 de Dezembro de 2006.
    https://www.theguardian.com/technology/2006/dec/28/news.germany
  8. Interoperable Europe / OSOR — Munich’s Long History with Open Source in Public Administration, 31 de Janeiro de 2024.
    https://interoperable-europe.ec.europa.eu/collection/open-source-observatory-osor/document/munichs-long-history-open-source-public-administration
  9. Archives of IT — ICL — International Computers Limited.
    https://archivesit.org.uk/icl/
  10. Polytechnique Insights — Gaia-X: the bid for a sovereign European cloud, 18 de Junho de 2025.
    https://www.polytechnique-insights.com/en/columns/digital/gaia-x-the-bid-for-a-sovereign-european-cloud/

Crónica de Francisco Gonçalves

No Fragmentos do Caos, onde a lucidez ainda tenta atravessar o nevoeiro burocrático antes que a máquina nos transforme a todos em utilizadores autenticados da própria decadência.

Nota Editorial

Esta crónica nasce da memória viva de quem conheceu e colaborou numa Europa tecnológica que ainda construía, inventava, programava, fabricava e competia. Uma Europa onde empresas como a ICL, a Bull, a Olivetti, a Siemens/Nixdorf, a Philips Data Systems e tantas outras demonstravam que o continente não estava condenado a ser apenas consumidor de tecnologia alheia.

O texto não pretende negar os avanços europeus em matéria de regulação, direitos digitais, privacidade ou investigação científica. Pelo contrário: reconhece-os. Mas procura sublinhar uma evidência incómoda — uma civilização que regula aquilo que já não fabrica corre o risco de confundir soberania com papel timbrado.

A crítica aqui expressa não é contra a Europa como ideia. É contra a sua desistência industrial, contra a burocracia que sufoca a inteligência, contra a incapacidade de transformar talento em produtos globais, contra a facilidade com que se anunciam estratégias e se abandonam caminhos.

A Europa não precisa apenas de mais fundos, mais comissões ou mais comunicados. Precisa de recuperar a oficina, o laboratório, a fábrica, o código, o risco, a continuidade e o respeito por quem sabe construir.

Porque a autonomia tecnológica não se proclama em Bruxelas. Constrói-se todos os dias, linha a linha, máquina a máquina, ideia a ideia — antes que a próxima geração descubra que herdou apenas regulamentos para administrar dependências.

– Francisco Gonçalves
“in” memórias de uma vida.


NA IMAGEM : ICL COMPUTERS PC 2 (1981) CDOS O/S

A ICL Computers

A Europa não está pobre de inteligência. Está pobre de nervo. Não lhe faltam cérebros, universidades ou engenheiros; faltam-lhe visão, risco, continuidade e liderança. Entregou o futuro a burocratas que sabem regular impérios tecnológicos alheios, mas já não sabem construir os seus próprios.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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