Amolgados pela vida, mas não homologados pela mediocridade. A integridade não tem certificado
📷 Amolgados pela vida, mas não homologados pela mediocridade. A integridade não tem certificado.
Amolgados, mas não homologados
Ensaio sobre a resistência elegante à domesticação da consciência — e o riso como insurreição
Há uma espécie de gente que a vida tentou dobrar, mas não conseguiu arquivar. Gente que atravessou décadas de trabalho duro, repartições com cheiro a papel cansado, chefias com ar de carimbo, bancos com gravata e alma hipotecada, sistemas feitos para esmagar o pensamento livre e aquela mediocridade nacional que se apresenta sempre bem penteada, com discurso sério e ausência total de vergonha.
Essa gente chega a certa altura da vida com mossas, sim. Com riscos na pintura. Com ferrugem em algumas dobradiças da alma. Com memórias que já não cabem nas gavetas. Mas conserva uma coisa preciosa: não foi homologada. Amolgada, talvez. Homologada, nunca.
Porque ser homologado é outra coisa. É aceitar a etiqueta. É pedir licença para pensar. É preencher o formulário antes de sentir. É deixar que nos meçam a dignidade por escalões, que nos avaliem a coragem por indicadores de desempenho e que nos classifiquem a alma segundo normas europeias de conformidade emocional.
O cidadão homologado ri pouco, desconfia menos ainda e, quando vê o absurdo, pergunta primeiro se há circular interna sobre o assunto.
Já o cidadão amolgado, mas não homologado, olha para o mesmo absurdo e ri-se. Não por frivolidade. Não por falta de seriedade. Ri-se em legítima defesa.
Porque há momentos em que o riso é o último bastião da sanidade. Quando o país se transforma num balcão de atendimento sem senha visível; quando os incompetentes sobem como humidade nas paredes; quando a inteligência é tratada como suspeita; quando a honestidade parece uma anomalia estatística; quando a bondade é confundida com fraqueza; quando a integridade dá mais trabalho do que lucro — então resta-nos rir.
Mas rir com precisão cirúrgica. Rir como quem afia uma lâmina de lucidez. Rir como quem recusa ajoelhar-se diante do grotesco. Rir como quem diz: “Podem ter-me cansado, mas ainda não me converteram.”
🎬 Pondé: a farsa do politicamente correcto é uma das muitas tentativas de homologar a alma. Resistir é um acto de coragem silenciosa.
Há quem passe pela vida a tentar encaixar. Outros passam a tentar compreender. E há ainda aqueles, mais perigosos para o sossego da manada, que passam a tentar transformar. Estes últimos costumam pagar caro. Não recebem medalhas. Recebem processos, silêncios, portas fechadas, sorrisos falsos e aquela frase venenosa: “Ele é competente, mas é difícil.” Difícil, entenda-se, significa normalmente: não se vendeu barato.
O amolgado não homologado sabe isso. Sabe que o mundo prefere muitas vezes os maleáveis aos íntegros, os obedientes aos criadores, os cinzentos aos luminosos. Sabe que há países onde a mediocridade não é um acidente: é quase uma arquitectura. Tem fundações, regulamentos, reuniões, actas e comissão de acompanhamento.
E, mesmo assim, continua. Continua a pensar. Continua a criar. Continua a desconfiar. Continua a rir. Não é ingenuidade. É resistência.
Porque o contrário seria pior: transformar-se num daqueles seres que passam a vida a justificar o injustificável, que chamam prudência à cobardia, realismo à resignação e maturidade à rendição.
Não. Há uma idade em que já não temos paciência para ser domesticados. Podemos aceitar as rugas, as dores, os erros, os descarrilamentos, as saudades e até as noites em que a memória vem bater à porta com a mala cheia de fantasmas. Mas não aceitamos a domesticação da consciência.
A integridade pode estar cansada, mas não está vencida. A honestidade pode ter pago portagem, mas não mudou de estrada. A bondade pode ter levado pancada, mas não se tornou crueldade. E o pensamento — esse velho animal livre — continua a saltar cercas.
É por isso que a frase merece ficar gravada como divisa de uma certa forma de estar no mundo: Amolgados, mas não homologados.
Amolgados pela vida, pelo trabalho, pela injustiça, pelo país que tantas vezes não reconhece os seus melhores artesãos humanos. Mas não homologados pela mediocridade, não certificados pela cobardia, não normalizados pela estupidez ambiente.
Somos, no fundo, sobreviventes de muitas pequenas guerras invisíveis. Trazemos marcas, mas não códigos de barras. Trazemos memória, mas não manual de submissão. Trazemos cicatrizes, mas também ironia. E, quando o absurdo se aproxima com gravata, despacho e selo branco, exercemos o direito natural de rir.
Rir não como fuga. Rir como insurreição elegante. Rir como higiene mental. Rir como quem limpa o pó da alma antes que ela ganhe bolor administrativo.
Porque enquanto formos capazes de rir, ainda há uma parte de nós que não foi capturada. Enquanto formos capazes de pensar, ainda há futuro. Enquanto formos capazes de ser bons sem sermos ingénuos, honestos sem sermos submissos, íntegros sem pedirmos desculpa por isso, ainda existe uma pequena república interior onde nenhum burocrata entrou.
E talvez seja aí, nessa república íntima, que reside a verdadeira liberdade. Não a liberdade de bandeira ao vento e discurso de cerimónia. Mas a liberdade mais difícil: a de chegar ao fim de muitas batalhas, olhar para o espelho e reconhecer ainda o mesmo rosto essencial.
Com mossas, sim. Com cansaço, sim. Com algumas saudades a fazerem barulho no sótão da memória, também. Mas inteiro. Amolgado, talvez. Homologado, nunca.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


