Democracia e Sociedade

A Memória Capturada: 2011, a Troika e a Infâmia das Narrativas Convenientes

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BOX DE FACTOS

  • O ano central desta discussão centra-se em 2011: PEC IV, queda do Governo Sócrates, pedido de assistência externa e chegada da troika.
  • Em 23 de Março de 2011, o PEC IV foi rejeitado na Assembleia da República e José Sócrates apresentou a demissão.
  • Portugal pediu assistência financeira externa em Abril de 2011, num programa que envolveu Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI.
  • O programa de assistência financeira foi de cerca de 78 mil milhões de euros.
  • Em 2010, antes do resgate, Portugal registava já um défice de 9,8% do PIB e uma dívida pública de 93,3% do PIB.
  • A memória política de 2011 continua a ser disputada por narrativas partidárias que procuram absolver uns e condenar outros.

A Memória Capturada
2011, a Troika e a Infâmia das Narrativas Convenientes

Há textos que não querem recordar a História: querem domesticá-la. Não servem a memória; servem uma tribo. E quando a memória se torna criada de quarto da política, a verdade é sempre a primeira a ser despedida — sem indemnização, naturalmente.

Há dias voltou-me às mãos um daqueles textos que circulam como relíquia moral da esquerda bem instalada: uma crónica atribuída a Clara Ferreira Alves, jornalista no Expresso, publicada no tempo em que ainda se tentava escrever a queda de José Sócrates como tragédia nacional provocada quase exclusivamente pela ambição de Pedro Passos Coelho.

O texto é brilhante na forma, hábil no veneno, elegante na lâmina. Mas precisamente por isso deve ser lido com cuidado. Porque há peças políticas que não precisam de mentir frontalmente: basta-lhes escolher muito bem aquilo que mostram, aquilo que escondem e aquilo que transformam em emoção.

E essa é talvez a maior arte da propaganda culta: não gritar slogans, mas vestir a narrativa com seda literária. O panfleto deixa de parecer panfleto quando entra pela porta principal do jornalismo de opinião, perfumado, de luvas brancas, com ar de quem veio apenas salvar a memória. Em Portugal, até a demagogia gosta de entrar de casaco e gravata.

Para a história ficou 2011.

Foi em Março de 2011 que o PEC IV foi rejeitado no Parlamento e José Sócrates apresentou a demissão. Foi em Abril desse ano que Portugal pediu assistência financeira externa. Foi em Maio que o país entrou formalmente no programa de ajustamento com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional.

Tecnicamente, Portugal não declarou falência formal. Mas perdeu a autonomia financeira normal, ficou encurralado nos mercados e teve de aceitar uma intervenção externa que condicionou severamente a sua soberania económica. Foi uma humilhação nacional com assinatura institucional.

Mas a pergunta essencial é outra: quem construiu o caminho até ali? A narrativa conveniente responde depressa: Passos Coelho, o PSD, a direita, a sede de poder. Tudo simples, tudo arrumado, tudo moralmente confortável. O mal estava de um lado; a vítima, do outro.

O problema é que a realidade raramente cabe nesse teatro infantil que se desenrola nesta democracia nada adulta.

A absolvição de Sócrates como operação literária

A tese da crónica é sedutora: Pedro Passos Coelho teria preferido o poder ao país; teria recusado o PEC IV não por discordância estratégica, mas por cálculo partidário; teria empurrado Portugal para a troika para vencer eleições. É uma acusação grave, politicamente poderosa e moralmente confortável para quem queria transformar José Sócrates num governante traído pela ambição dos outros.

Mas há aqui uma operação de prestidigitação. Enquanto o leitor olha para o chumbo do PEC IV, desaparecem anos de governação, endividamento, propaganda, parcerias público-privadas, obras faraónicas, clientelas, promessas irrealistas, captura do Estado e degradação da confiança pública.

A crise de 2011 não caiu do céu numa terça-feira mal disposta. Foi sendo fabricada ao longo de anos, com cimento orçamental fraco, betão político armado e muita retórica modernizadora por cima. Portugal não acordou falido porque um partido da oposição decidiu chumbar um programa. Portugal chegou a esse ponto porque o modelo económico e político estava já profundamente apodrecido.

Em 2010, antes do resgate, o défice das Administrações Públicas foi de 9,8% do PIB e a dívida pública atingiu 93,3% do PIB. Estes números não são uma opinião de café, nem uma maldade da direita, nem uma intriga de corredores. São dados oficiais. A partir deles, pode discutir-se quase tudo. Menos fingir que o país estava saudável e que a doença apareceu apenas quando alguém desligou a máquina.

Passos Coelho não é inocente. Mas também não é o autor único da tragédia.

Nada disto absolve Pedro Passos Coelho. O seu Governo aplicou uma austeridade dura, muitas vezes socialmente cega, frequentemente arrogante e por vezes ideologicamente entusiasmada com a purga. Houve cortes, empobrecimento, emigração, famílias destruídas, carreiras interrompidas, pequenas empresas esmagadas e uma sensação colectiva de país em penitência.

Também houve, é verdade, incompetência política, frieza social e uma estranha satisfação moralista em apresentar o sofrimento como terapia nacional. Portugal não precisava apenas de ajustamento; precisava de inteligência, justiça e visão. Recebeu muitas vezes uma contabilidade de castigo, servida em pratos frios.

Mas transformar Passos Coelho no demónio único da crise é tão falso como transformar Sócrates num mártir da soberania perdida. Um herdou parte do desastre e agravou-lhe algumas feridas. O outro governou durante anos num ciclo que ajudou a levar o país até ao precipício. A tragédia portuguesa não cabe numa fotografia partidária. É um álbum inteiro de más decisões, vaidades, dependências, ilusões e irresponsabilidades.

A memória como propriedade privada da tribo

O mais inquietante nestas crónicas de absolvição não é defenderem uma interpretação. Todos temos interpretações. O problema começa quando se pretende converter uma interpretação em memória oficial. Quando se escolhe uma narrativa onde os nossos são sempre complexos, humanos e injustiçados, enquanto os outros são ambiciosos, cruéis e moralmente inferiores.

Esse vício atravessa Portugal há décadas. A política deixou de disputar apenas o presente; passou a disputar a memória. Cada partido tenta reescrever o passado como se fosse proprietário de uma tipografia moral. Uns imprimem culpa alheia. Outros imprimem virtude própria. E o cidadão, coitado, fica a tentar perceber se viveu num país real ou numa telenovela escrita por assessores.

A crónica que procura apresentar Sócrates como vítima central da infâmia política falha precisamente onde deveria ser mais exigente: na responsabilidade histórica. Porque uma democracia adulta não se constrói com santos de ocasião nem com demónios de conveniência. Constrói-se olhando para os factos, mesmo quando eles ferem a nossa tribo.

E os factos ferem. Ferem o PS, que governou anos decisivos antes do resgate. Ferem o PSD, que aproveitou politicamente o colapso e depois governou com excesso de zelo austeritário. Ferem o CDS, que entrou na engrenagem da governação e dela saiu com o habitual perfume de irrevogável elasticidade. Ferem também o Bloco e o PCP, que chumbaram o PEC IV sem assumirem plenamente as consequências práticas de uma crise de financiamento iminente.

No fundo, quase todos participaram no teatro. Uns escreveram o guião. Outros rasgaram o pano. Outros venderam bilhetes à porta. E depois todos juraram que estavam apenas na plateia.

O perigo da literatura ao serviço da absolvição

Há escritores e cronistas com grande talento. Mas o talento não vacina ninguém contra a parcialidade. Pelo contrário: quanto maior o talento, mais perigosa pode ser a parcialidade, porque a frase bem escrita consegue fazer passar uma omissão por verdade profunda.

Neste caso, a prosa é forte. A acusação é sonora. A indignação é teatralmente eficaz. Mas a pergunta permanece: onde está o país real nesse retrato? Onde estão os anos de governação socratista? Onde está a dívida? Onde estão os défices? Onde está a máquina partidária, empresarial e financeira que viveu do Estado como quem bebe de uma nascente infinita?

Quando uma crónica transforma uma crise sistémica numa história de traição pessoal, estamos perante literatura política, não perante memória histórica. E a literatura política pode ser útil, mas só quando o leitor sabe que está diante de uma construção. O problema começa quando a construção se disfarça de monumento.

Não é preciso invocar conspirações. Basta observar as redes de conveniência.

Há em Portugal uma tentação permanente para explicar tudo por sociedades discretas, clubes fechados, grupos de influência, salões reservados e cumplicidades subterrâneas. Algumas dessas redes existem, outras são exageradas, outras servem apenas para dar forma ao nosso espanto perante a impunidade.

Mas, neste caso, nem é preciso ir tão longe. Basta observar o funcionamento normal da nossa elite político-mediática: proximidades, afinidades, biografias cruzadas, almoços, colunas de opinião, cargos, convites, editoriais, assessorias, amizades antigas e aquela estranha solidariedade entre membros do mesmo aquário ideológico.

Portugal não precisa sempre de uma conspiração. Muitas vezes basta-lhe a previsível coreografia dos mesmos de sempre: os que falam, os que comentam, os que governam, os que perdoam, os que esquecem e os que voltam, anos depois, a explicar-nos que a culpa foi sempre de outro.

O verdadeiro crime: a irresponsabilidade sem consequência

A maior infâmia de 2011 talvez não tenha sido apenas o chumbo do PEC IV, nem apenas o pedido de assistência externa, nem apenas a austeridade que se seguiu. A maior infâmia foi a ausência de consequência moral e política para os responsáveis por décadas de desgoverno.

Portugal foi tratado como uma quinta mal gerida, mas os caseiros continuaram a circular pelos salões com ar respeitável. O povo pagou. Os reformados pagaram. Os trabalhadores pagaram. Os jovens emigraram. As pequenas empresas fecharam. Os contribuintes foram chamados à missa do sacrifício. Mas muitos dos sacerdotes do desastre continuaram no altar, agora com novas vestes e discursos ainda mais graves.

É por isso que a memória não pode ser deixada nas mãos dos partidos nem dos seus cronistas de estimação. A memória pública deve ser incómoda. Deve raspar a tinta dourada dos retratos oficiais. Deve perguntar quem decidiu, quem assinou, quem lucrou, quem mentiu, quem se calou e quem reapareceu depois como se viesse de férias e não de um naufrágio.

Epílogo: a História não é criada de quarto do poder

A História não existe para consolar partidos. Existe para incomodar os vivos em nome dos mortos, dos pobres, dos enganados e dos que pagaram a factura.

A crise de 2011 não deve ser lembrada como lenda partidária. Deve ser lembrada como advertência. Um país que deixa degradar as suas contas, a sua economia, as suas instituições e a sua cultura de responsabilidade acaba sempre ajoelhado perante alguém: mercados, credores, burocratas externos ou salvadores internos.

E quando isso acontece, surgem depois os cronistas da tribo, os advogados da memória selectiva, os engenheiros da absolvição. Uns dirão que a culpa foi da direita. Outros dirão que foi da esquerda. Outros ainda dirão que foi da Europa, dos mercados, dos alemães, dos bancos, da troika, do destino, da chuva ou do mau feitio lusitano.

Mas a verdade, essa senhora pouco convidada para jantares oficiais, continua à porta:

Portugal não caiu por acaso. Portugal foi sendo empurrado. E muitos dos que ajudaram a empurrar ainda hoje discutem quem deve segurar a vela no funeral.

Referências consultadas

Crónica de Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — onde a memória não pede licença ao poder.

Com co-autoria editorial de Augustus Veritas.

Nota editorial:
O verdadeiro problema da opinião pública portuguesa não está na existência de opinião, mas na sua frequente separação da moral e do bom-senso. Quando a palavra deixa de servir a verdade e passa a servir a tribo, o poder ou a conveniência, nasce a narrativa do absurdo. Bastaria, muitas vezes, uma pequena dose de decência e bom-senso para resolver metade dos problemas nacionais — e impedir que a outra metade fosse transformada em propaganda.

Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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