Democracia e Sociedade

O Activismo de Aeroporto e a Pobreza que Fica em Terra

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BOX DE FACTOS

  • Dois cidadãos portugueses, Maria Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias, ambos médicos, foram detidos por Israel no âmbito da missão Global Sumud Flotilla, segundo notícias da RTP e da Lusa.
  • A RTP noticiou que as famílias relataram “três dias de muita violência”, mas também que os dois portugueses estavam bem de saúde e não integravam o grupo que precisou de ajuda médica urgente.
  • O ministro dos Negócios Estrangeiros português afirmou à Lusa que os dois portugueses estavam “bem de saúde”, embora afectados pela situação.
  • Segundo o INE, a taxa de risco de pobreza em Portugal desceu para 15,4% em 2024, mas continua a representar mais de 1,6 milhões de pessoas.
  • A PORDATA indicava, com base em dados de 2023, que 1,8 milhões de pessoas viviam abaixo do limiar de pobreza e que metade das famílias tinha rendimento mensal por adulto equivalente inferior a 1054 euros.
  • A Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e o Protocolo de Istambul recordam que denúncias de tortura e maus-tratos exigem investigação séria, documentação médica e avaliação independente.

O Activismo de Aeroporto e a Pobreza que Fica em Terra

Há causas justas, há abusos reais e há sofrimento humano que não deve ser ignorado. Mas também há teatro político, dramatização mediática e uma estranha aristocracia moral que, por vezes, parece descobrir a injustiça apenas quando há câmaras à chegada.

O episódio recente da chegada a Portugal de activistas portugueses detidos por Israel, no âmbito da missão Global Sumud Flotilla, voltou a colocar em cena uma velha doença da vida pública contemporânea: a substituição da verdade verificada pela emoção performativa. A RTP noticiou que os dois portugueses envolvidos, Maria Beatriz Bartilotti Matos e Gonçalo Reis Dias, ambos médicos, relataram através das famílias “três dias de muita violência”, mas a mesma notícia referia também que estavam bem de saúde e que não pertenciam ao grupo que necessitou de ajuda médica urgente.

A Lusa, citada pelo The Portugal News, noticiou igualmente declarações do ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, segundo as quais os dois portugueses estavam “bem de saúde”, embora naturalmente afectados pela situação vivida. Esta distinção é importante: estar psicologicamente abalado, ter sido humilhado, maltratado ou privado de direitos é grave e deve ser investigado; outra coisa é transformar automaticamente cada relato numa peça acabada de martírio físico, pronta para consumo televisivo.

A compaixão não dispensa a prova

Nenhum Estado civilizado deve tratar detidos com humilhação pública, brutalidade ou arbitrariedade. Se houve abusos por parte das autoridades israelitas, esses abusos devem ser apurados, documentados e condenados. Mas exactamente por isso é indispensável separar três coisas: denúncia, prova e encenação.

A palavra “tortura” não pode ser usada como adereço retórico. A Convenção das Nações Unidas contra a Tortura define-a como a imposição intencional de dor ou sofrimento severo, físico ou mental, por agentes públicos ou com o seu consentimento, para determinados fins. O Protocolo de Istambul, referência internacional para a investigação de tortura e maus-tratos, existe precisamente porque estas denúncias exigem documentação médico-legal, entrevistas adequadas, avaliação independente e prudência probatória.

Por outras palavras: se alguém foi torturado, o caso deve ser levado a sério. Mas levá-lo a sério não é aplaudir conferências de imprensa emocionais; é exigir exame médico, relatório consular, documentação clínica, testemunhos consistentes e investigação independente. A verdade não precisa de palco. Precisa de método.

O activismo como espectáculo de classe

Há uma forma de activismo contemporâneo que se tornou uma espécie de viagem iniciática da boa consciência. Parte-se com palavras grandes, regressa-se com fotografias, dá-se uma entrevista, publica-se uma indignação e transforma-se o episódio numa medalha moral. Não se trata de negar que existam causas legítimas. Gaza é uma tragédia humana. Israel tem responsabilidades que devem ser escrutinadas. O Hamas tem responsabilidades monstruosas. A guerra, como sempre, devora inocentes antes de devorar slogans.

Mas há algo de profundamente incómodo quando certos sectores sociais, suficientemente protegidos para poderem brincar ao risco, se apresentam como representantes universais da dor humana. O problema não é alguém defender uma causa internacional. O problema é a transformação da causa em identidade, da identidade em palco, e do palco em superioridade moral.

Enquanto isso, em Portugal, há uma pobreza silenciosa, persistente, sem câmaras à espera no aeroporto. Gente que trabalha e continua pobre. Reformados que contam moedas. Jovens que não conseguem sair de casa dos pais. Famílias que pagam rendas absurdas. Doentes que esperam consultas. Pessoas que não têm tempo para activismo performativo porque estão demasiado ocupadas a sobreviver.

O país real não chega de avião

Segundo o INE, a taxa de risco de pobreza em Portugal desceu para 15,4% em 2024, o valor mais baixo das últimas duas décadas. Mas o número absoluto continua brutal: mais de 1,6 milhões de pessoas. A estatística melhora, mas a vida concreta continua muitas vezes encurralada entre salários baixos, habitação cara, serviços públicos degradados e um Estado que distribui promessas com a mesma ligeireza com que cobra impostos.

A PORDATA, com base nos dados de 2023, traçou um retrato ainda mais cru: 1,8 milhões de pessoas viviam em famílias com rendimento inferior ao limiar de pobreza; os idosos foram o grupo etário onde a pobreza mais aumentou; as famílias monoparentais continuavam entre as mais vulneráveis; e metade das famílias tinha rendimento mensal por adulto equivalente inferior a 1054 euros.

Este é o país que raramente entra nos directos televisivos com pompa moral. Não desembarca entre aplausos. Não tem comités de recepção. Não regressa da Turquia. Regressa todos os dias do supermercado com menos comida no saco, do centro de saúde sem consulta marcada, da repartição com mais um papel em falta, do trabalho com a sensação amarga de que cumprir já não basta.

Uma flotilha para Gaza é, em grande parte, um acto político-mediático: sabe-se que será interceptada por Israel, haverá câmaras, comunicados, deportações, conferências de imprensa e capital simbólico. A própria AP noticiou que a flotilha foi interceptada por forças israelitas a cerca de 167 milhas de Gaza, com mais de 400 activistas detidos e grande reacção internacional.

Portanto, sim: há aqui uma selectividade evidente. Gaza oferece uma narrativa moral simples, visual, televisiva: “activistas contra bloqueio”. Ucrânia/Rússia é mais difícil, mais perigoso, mais geopolítico, menos confortável para certas tribos ideológicas. Ali não basta ir representar o papel de consciência do mundo; ali o mundo responde com artilharia, minas e silêncio.

O activismo moderno escolhe muitas vezes o palco onde a probabilidade de regressar como mártir mediático é maior do que a probabilidade de regressar num caixão. Cru? Sim. Mas a realidade tem este péssimo hábito de não pedir licença à retórica.

Governar não é emocionar-se em directo

Um Governo responsável tem o dever de proteger os seus cidadãos no estrangeiro. Tem também o dever de protestar diplomaticamente quando há indícios de violação de direitos. Mas não deve governar por impulsos emocionais, nem deixar que a política externa seja conduzida por vídeos virais, indignações selectivas ou liturgias de aeroporto.

O procedimento deveria ser simples: apoio consular imediato; contacto directo com os detidos; exame médico independente; recolha de testemunhos; pedido formal de esclarecimentos ao Estado responsável; avaliação jurídica; comunicação pública serena. A ordem importa. Primeiro factos. Depois juízo. Só no fim, se for caso disso, condenação diplomática proporcional.

O que muitas vezes acontece é o contrário: primeiro a indignação, depois o comunicado, depois a fotografia, depois a pressão partidária, e só muito mais tarde — quando já ninguém quer saber — os factos. A verdade chega sempre atrasada à estação da propaganda.

A moral pública precisa de menos palco e mais decência

Portugal não precisa de menos solidariedade internacional. Precisa é de solidariedade com espinha dorsal, inteligência e proporcionalidade. Defender direitos humanos exige rigor. Denunciar abusos exige prova. Combater injustiças exige trabalho paciente, não apenas gestos simbólicos de grande visibilidade.

Há uma pergunta que deveria incomodar-nos: porque razão certos sofrimentos estrangeiros conseguem mobilizar tanta energia simbólica, enquanto a pobreza portuguesa, permanente e concreta, continua tratada como paisagem? Talvez porque a pobreza interna obriga a enfrentar responsabilidades domésticas. E isso é menos glamoroso. Não dá fotografias épicas. Não permite discursos fáceis contra um inimigo distante. Obriga a olhar para dentro — e Portugal raramente gosta de espelhos.

É fácil gritar contra o mundo. Difícil é arrumar a própria casa. É fácil salvar a humanidade num cartaz. Difícil é salvar o vizinho da solidão, o reformado da miséria, o jovem da precariedade, o doente da espera, a criança da escola medíocre, o trabalhador da humilhação salarial.

Epílogo: a verdade não usa megafone

Se houve maus-tratos, investigue-se. Se houve tortura, prove-se e condene-se sem hesitações. Se houve apenas dramatização, que se diga também. A dignidade humana não deve ser instrumentalizada nem por Estados brutais, nem por activistas performativos, nem por governos ansiosos por parecer moralmente iluminados antes de serem politicamente sérios.

A pobreza portuguesa, essa, continua no mesmo lugar: sem cartazes, sem flotilhas, sem recepções no aeroporto. Apenas com o peso de dias iguais, rendimentos curtos e uma esperança que vai sendo adiada por um país que fala muito de justiça, mas continua a organizar demasiado bem a injustiça.

No fim, talvez a pergunta essencial seja esta: queremos uma sociedade que chore diante das câmaras ou uma sociedade que pense, verifique, aja e repare? Porque a compaixão sem verdade é teatro. E a justiça sem método é apenas barulho com boa iluminação.

Referências credíveis

  • RTP — “Três dias de muita violência”. Activistas portugueses chegam a Portugal na sexta-feira:
    RTP Notícias
  • The Portugal News / Lusa — Portuguese detained by Israel “in good health”:
    The Portugal News
  • Sábado / Lusa — MNE prevê regresso dos portugueses detidos por Israel:
    Revista Sábado
  • INE — Inquérito às Condições de Vida e Rendimento; risco de pobreza em Portugal:
    Instituto Nacional de Estatística
  • PORDATA / Fundação Francisco Manuel dos Santos — Retrato da evolução da pobreza em Portugal:
    PORDATA — Relatório sobre pobreza
  • Eurostat — Pessoas em risco de pobreza ou exclusão social na União Europeia:
    Eurostat
  • OHCHR — Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes:
    Nações Unidas — OHCHR
  • OHCHR — Protocolo de Istambul, manual internacional para investigação e documentação de tortura:
    OHCHR — Istanbul Protocol

Autor:

Francisco Gonçalves

Co-autoria editorial por : Augustus Veritas.

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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