Democracia e Sociedade

Quando a Saúde Falha : o País que Deixa o Cidadão à Porta do Socorro

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BOX DE FACTOS

  • A Entidade Reguladora da Saúde impôs medidas correctivas ao Hospital CUF Descobertas após uma cirurgia realizada no pé errado de uma criança de 10 anos, segundo notícia RTP/Lusa.
  • Foi noticiado que uma grávida de 40 semanas, em trabalho de parto, terá sido recusada no Hospital de Faro por não ter contactado previamente a Linha SNS 24, acabando transportada para Portimão.
  • A Portaria n.º 93/2026/1 estabelece referenciação prévia para urgências de obstetrícia e ginecologia, mas também prevê triagem presencial, que deve prevalecer sobre a triagem telefónica.
  • A Lusa noticiou que a destruição de gravações telefónicas impediu a IGAS de apurar plenamente o motivo da demora do INEM no accionamento de socorro a um homem em Évora.
  • A Organização Mundial da Saúde defende a utilização da Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica para reduzir erros, eventos adversos e melhorar a comunicação das equipas cirúrgicas.
  • Erros como cirurgia no local errado são considerados, em sistemas internacionais de segurança do doente, eventos gravíssimos e altamente preveníveis.

Quando a Saúde Falha: o País que Deixa o Cidadão à Porta do Socorro

Há falhas administrativas que irritam. Há falhas políticas que empobrecem. Mas há falhas na saúde que atingem uma zona mais funda da vida colectiva: a confiança elementar de que, quando alguém cai, sofre, sangra, entra em trabalho de parto ou entrega um filho ao bloco operatório, o sistema existe para proteger — não para se esconder atrás do procedimento.

Portugal parece atravessar uma daquelas fases sombrias em que os incidentes deixam de parecer excepções e começam a desenhar um padrão. O INEM falha. O SNS falha. A urgência fecha, condiciona, referencia, reencaminha. O privado, vendido durante anos como refúgio de eficiência e segurança, também falha. E no centro desta engrenagem cada vez mais cansada está sempre o mesmo corpo vulnerável: o cidadão.

Não estamos perante pequenos incómodos de secretaria. Estamos perante situações em que a demora no socorro, a rigidez burocrática, a falha de comunicação clínica ou a ruptura de protocolos podem afectar directamente a integridade física, a vida e a dignidade das pessoas. Quando isto acontece, já não se trata apenas de “melhorar processos”. Trata-se de saber se o país ainda compreende o que significa cuidar.

O INEM e o abismo entre a chamada e o socorro

O caso noticiado pela Lusa sobre a demora do INEM no accionamento do socorro a um homem em Évora é perturbador por dois motivos. Primeiro, porque terá havido demora excessiva no accionamento de uma ambulância. Segundo, porque a destruição das gravações telefónicas terá impedido a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde de apurar plenamente o motivo dessa demora.

Num sistema de emergência médica, a gravação de uma chamada não é mero arquivo burocrático. É memória operacional. É prova. É instrumento de auditoria. É aquilo que permite reconstruir a cadeia de decisões quando algo corre mal. Destruí-la antes de se poder compreender cabalmente o sucedido é apagar pegadas num corredor onde alguém pode ter ficado sem socorro adequado.

O INEM não pode ser tratado como mais um departamento administrativo. O INEM é a linha entre o acidente e a sobrevivência, entre a paragem cardiorrespiratória e a tentativa de reanimação, entre o tempo perdido e o tempo que ainda salva. Numa emergência, cada minuto é matéria viva. Não é uma métrica para relatório. É sangue, oxigénio, cérebro, coração.

Quando a emergência médica falha, o Estado falha no seu ponto mais elementar: estar presente quando o cidadão já não consegue defender-se sozinho.

A grávida de Faro: quando o procedimento ameaça substituir o bom senso

O caso da grávida de 40 semanas que terá sido recusada no Hospital de Faro por não ter contactado previamente a Linha SNS 24 é um retrato quase cruel da burocratização da saúde. Uma mulher em trabalho de parto não é uma senha fora de sequência. Não é um pedido mal instruído. Não é uma ocorrência para devolver à linha telefónica como quem devolve um formulário com campo obrigatório por preencher.

A reorganização das urgências de obstetrícia e ginecologia, incluindo a referenciação prévia pela Linha SNS 24, pode ter uma lógica de gestão. Pode procurar evitar deslocações desnecessárias, organizar fluxos, encaminhar melhor as utentes e proteger serviços sobrecarregados. Mas há uma linha vermelha: a regra nunca pode tornar-se mais importante do que a pessoa.

A própria Portaria n.º 93/2026/1 prevê a existência de triagem presencial e estabelece que essa triagem deve prevalecer sobre a triagem telefónica. Ora, uma grávida de termo, com contracções e sinais de trabalho de parto, à porta de uma unidade hospitalar, exige uma resposta clínica imediata, humana e prudente. Primeiro avalia-se. Primeiro protege-se. Primeiro cuida-se.

Depois, se necessário, escreve-se o relatório, ajusta-se a escala, corrige-se o circuito, telefona-se a quem se tiver de telefonar. Mas o corpo humano não espera que o regulamento acabe de interpretar-se a si próprio.

A CUF Descobertas e a queda do mito da segurança privada automática

Como se o cenário público não fosse já suficientemente inquietante, surge a notícia de que o Hospital CUF Descobertas foi alvo de medidas correctivas da Entidade Reguladora da Saúde após uma cirurgia realizada no pé errado de uma criança de 10 anos.

Este caso é especialmente grave porque desfaz uma ilusão confortável: a de que o problema da saúde em Portugal é apenas o SNS. Não é. O problema também atravessa a saúde privada quando falham cultura de segurança, verificação clínica, comunicação entre profissionais, responsabilidade individual e redundância nos processos.

Uma cirurgia no pé errado não é um pequeno lapso administrativo. É um daqueles acontecimentos que a cultura internacional de segurança do doente considera praticamente intolerável, precisamente porque existem barreiras sucessivas para o impedir: identificação do doente, confirmação do procedimento, confirmação da lateralidade, marcação do local cirúrgico, consentimento informado, revisão do processo, participação da equipa e “time-out” imediatamente antes da incisão.

A Organização Mundial da Saúde desenvolveu a Lista de Verificação de Segurança Cirúrgica para reduzir erros, eventos adversos e melhorar a comunicação nas equipas. A lógica é simples e poderosa: antes da anestesia, antes da incisão e antes da saída do bloco, a equipa pára, confirma, verbaliza e valida. O objectivo é impedir que a rotina, a pressa, a hierarquia ou o excesso de confiança matem o óbvio.

Quando uma criança entra num bloco operatório e o lado errado é intervencionado, não falhou apenas uma pessoa. Falhou uma cadeia. Falharam as redundâncias. Falhou o sistema que devia impedir que o erro humano se transformasse em dano real.

O país dos protocolos que não seguram a vida

Portugal tornou-se exímio em produzir normas, portarias, planos, plataformas, linhas, orientações, algoritmos, despachos e siglas. Há sempre um circuito. Há sempre uma entidade competente. Há sempre uma recomendação em análise. Há sempre um inquérito a decorrer. Há sempre uma auditoria anunciada. Há sempre uma explicação pronta para explicar por que razão a realidade não funcionou.

Mas a pergunta moral é outra: quem responde perante o cidadão quando o sistema falha?

Não basta dizer que houve uma “falha humana”. Essa expressão, repetida com ar técnico, pode transformar-se numa cortina de fumo. A falha humana existe, sempre existirá, porque a medicina é praticada por seres humanos. Mas os sistemas de segurança existem precisamente para impedir que a falha humana atravesse todas as defesas. Quando atravessa, o problema já não é apenas humano: é organizacional.

Também não basta dizer que faltam meios. Faltam, muitas vezes. Faltam médicos, enfermeiros, técnicos, assistentes, ambulâncias, escalas robustas, condições de trabalho, chefias competentes e sistemas informáticos decentes. Mas há falhas que não se explicam apenas por falta de dinheiro. Explicam-se por cultura. Por ausência de responsabilidade. Por processos mal desenhados. Por burocracia cega. Por chefias que gerem o risco depois da tragédia, nunca antes.

A segurança do doente não pode ser ornamento institucional

Portugal tem um Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2021-2026. Tem normas. Tem reguladores. Tem orientações da Direcção-Geral da Saúde. Tem estruturas de qualidade. Tem comissões. Tem relatórios. Tem sistemas de notificação de incidentes. Tem linguagem moderna.

Mas a segurança do doente não se mede pela existência de documentos. Mede-se pela capacidade de evitar dano. Mede-se pela disciplina das equipas. Pela humildade de verificar. Pela coragem de interromper uma cirurgia quando há dúvida. Pela obrigação de não deixar uma grávida entregue ao labirinto. Pela garantia de que uma chamada de emergência não cai num buraco administrativo. Pela preservação da prova quando há investigação.

Um sistema de saúde seguro não é aquele que diz ter protocolos. É aquele em que os protocolos vivem na prática diária, nos gestos, nas equipas, nos corredores, nos blocos operatórios, nos centros de orientação de doentes urgentes e nas portas das urgências.

A segurança não é um cartaz na parede. É uma cultura. E uma cultura prova-se precisamente quando o dia corre mal.

Público ou privado: o cidadão não pode ser a variável de ajuste

Durante anos alimentou-se uma guerra simplista: público contra privado, SNS contra grupos de saúde, Estado contra mercado. Mas os casos recentes mostram uma verdade mais dura: tanto o público como o privado podem falhar quando a responsabilidade se dilui, quando a segurança é tratada como formalidade, quando a gestão prevalece sobre o cuidado e quando o cidadão passa a ser visto como fluxo, episódio, número, processo ou cliente.

No SNS, a falha aparece muitas vezes como exaustão institucional: urgências condicionadas, profissionais no limite, referenciações confusas, linhas telefónicas transformadas em portões de entrada. No privado, a falha pode surgir sob outro disfarce: eficiência aparente, marca reputacional, tecnologia, hotelaria clínica, processos polidos — mas, no momento crítico, a mesma fragilidade humana e organizacional.

O cidadão não quer saber se a falha vem embrulhada em papel público ou privado. Quer saber se é atendido, se é protegido, se é operado no local correcto, se o filho sai do bloco melhor do que entrou, se a grávida é assistida, se a ambulância chega, se alguém assume responsabilidade quando a vida esteve em risco.

O que devia acontecer num país sério

Num país sério, cada um destes casos produziria mais do que indignação passageira. Produziria consequências. Não necessariamente caça às bruxas. Não humilhação pública de profissionais. Não populismo punitivo. Mas responsabilização clara, auditorias independentes, publicação de conclusões, correcção obrigatória de procedimentos, formação efectiva, reforço de equipas, preservação de provas e monitorização transparente.

Num país sério, uma cirurgia ao local errado obrigaria à revisão profunda dos protocolos de lateralidade, marcação, consentimento, “time-out” e comunicação entre equipas. Uma grávida recusada obrigaria à clarificação imediata da regra: nenhuma triagem telefónica pode impedir avaliação presencial de uma situação clinicamente urgente. Um atraso no socorro obrigaria à reconstrução completa da cadeia de decisão, com gravações preservadas e responsabilidades identificadas.

Num país sério, os reguladores não seriam apenas bombeiros depois do incêndio. Seriam guardiões preventivos da segurança. E as instituições de saúde compreenderiam que reputação não se defende com comunicados; defende-se com verdade, reparação, aprendizagem e humildade.

A indignação necessária

Há quem diga que não devemos dramatizar. É uma frase cómoda, quase sempre dita por quem não estava à espera da ambulância, não estava em trabalho de parto, não tinha um filho no bloco operatório, não viu um erro atravessar a pele de uma criança.

Mas há momentos em que dramatizar é apenas chamar as coisas pelo nome. Uma saúde que falha no socorro, falha na porta da urgência e falha no bloco operatório não está apenas cansada. Está perigosamente desorganizada. E uma sociedade que se habitua a isto começa a perder o nervo moral.

A indignação, quando é informada e justa, não é ruído. É alarme. E este país precisa de alarmes, porque parece ter demasiadas instituições a funcionar em modo de sonolência burocrática.

Conclusão: primeiro a vida, depois o formulário

A saúde é o último lugar onde a burocracia deveria vencer a humanidade. Uma urgência não é uma repartição. Um bloco operatório não é uma linha de montagem. Uma chamada de emergência não é um ticket pendente. Uma grávida em trabalho de parto não é um caso a reencaminhar. Uma criança no bloco não é uma ficha clínica onde se pode trocar esquerda por direita e seguir em frente.

O país está a falhar quando obriga o cidadão a desconfiar do socorro, da urgência, da triagem, do hospital, do processo, da chamada e até do lado do corpo que vai ser operado.

O pacto civilizacional é simples: quando alguém precisa de cuidados, o sistema deve aproximar-se. Não afastar-se. Não pedir primeiro uma senha. Não esconder-se no despacho. Não apagar a gravação. Não operar o lado errado.

Primeiro a vida. Primeiro a pessoa. Primeiro o cuidado.

Tudo o resto — regulamentos, portarias, linhas, circuitos, plataformas e relatórios — só tem legitimidade se servir essa verdade elementar.

Referências

Artigo da Autoria de A Sombra da Dúvida.
Para Fragmentos do Caos.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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