Portugal: Os Carris abandonados e cobertos de ervas daninhas
📷 O caminho-de-ferro que o país deixou apodrecer, enquanto os camiões continuam a destruir as estradas.
A Ferrovia que o País Matou: o preço (elevado) do abandono
Ensaio sobre o desinvestimento crónico na ferrovia de mercadorias, a transferência forçada para a estrada e o prejuízo económico e ambiental que pagamos todos os dias
Portugal gasta milhões em campanhas de electrificação, promete um futuro verde e paga subsídios para comprar carros eléctricos. Mas há um modo de transporte que, sendo o mais eficiente e menos poluente para mover mercadorias, foi sistematicamente abandonado. Falamos, claro, do caminho-de-ferro. A ferrovia de mercadorias em Portugal definhou durante décadas, vítima de uma aposta cega na rodovia e de uma visão de país míope. O resultado é o que vemos todos os dias: auto-estradas congestionadas por camiões de mercadorias que deviam viajar de comboio, custos de logística mais elevados para as empresas e uma pegada de carbono que não condiz com as metas climáticas que nos impomos. A hipocrisia, instalada.
Os números são brutais e escancaram o desastre. O caminho-de-ferro representa pouco mais de 12% do total da carga transportada em Portugal, um valor que mal se alterou em anos e que contrasta com a média europeia. Cerca de 88% das nossas mercadorias viajam por estrada, sufocando o país e engordando uma conta de importação de combustíveis que nos sangra. E o pior: os próprios objectivos governamentais — ambiciosos 30% para a ferrovia até 2030 — parecem não passar de uma utopia irresponsável, dada a dimensão do fosso e a lentidão dos investimentos.
🎬 Pondé: a farsa do discurso ecológico que se esquece do modo de transporte mais ecológico de todos. Hipocrisia, chama-se.
Cinco décadas a desmantelar o país: as linhas que morreram
🗺️ O legado de terra queimada nos mapas ferroviários
A história do abandono começa muito antes de se falar de agenda verde. Nos anos 80 e 90, no auge da construção das auto-estradas, decidiram que o comboio já não servia. Linhas inteiras foram encerradas, num processo que desfigurou o país. O exemplo mais paradigmático é o que aconteceu no Interior Norte e no Alentejo. A Linha do Corgo, que ligava Peso da Régua a Chaves, foi encerrada de forma faseada: primeiro em 1990, por um governo de Cavaco Silva, e depois em 2009, por um governo de José Sócrates. «O que esta linha precisava era de investimento e modernização, não de encerramento», afirmou recentemente um dirigente do PCP, criticando as justificações baseadas na falta de rentabilidade e acusando os governos de «favorecerem o transporte rodoviário».
No Alentejo, a sangria não foi menor. Entre 1987 e 1990, pela mão de um governo PSD, encerraram-se importantes troços como Évora/Reguengos, Évora/Mora, Estremoz/Portalegre e Beja/Moura. A ideia de uma rede ferroviária coesa, capaz de servir o interior e transportar mercadorias do sul para o norte de forma eficiente, foi atirada para o lixo. Ficaram as estações a apodrecer, os carris a enferrujar e as populações isoladas. O país ficou mais pobre e mais dependente da estrada.
• 12,0%: a quota do caminho-de-ferro nas mercadorias. Os camiões levam 88% de tudo o que circula em Portugal. O desequilíbrio é brutal.
• 30%/50%: as metas ilusórias do governo. Queriam 30% para a ferrovia em 2030 e 50% em 2050. São números de um país paralelo.
• 2,1 milhões de toneladas: o que a ferrovia transportou no 3.º trimestre de 2025. Um aumento, sim, mas ainda muito longe do que poderia e deveria ser.
• 1.380 milhões de euros: o valor do investimento da IP para 2025. Finalmente se fala em dinheiro, mas chega tarde e, para já, é muito mais para passageiros do que para a carga.
O estrangulamento da Linha do Norte: um país refém de um corredor
O abandono não se fica pelo interior. A rede que sobrou está sufocada. A Linha do Norte, a principal artéria ferroviária do país, construída no século XIX, é um dos maiores constrangimentos à competitividade nacional. É por ali que passam cerca de 92% de todos os comboios de mercadorias. Sim, leu bem: 92% da carga que viaja por via férrea em Portugal é forçada a usar um único eixo ferroviário, que serve também os comboios de passageiros e que, naturalmente, está no limite da sua capacidade. O resultado é o estrangulamento puro e duro: atrasos, falta de fiabilidade e custos acrescidos para os operadores logísticos, que acabam por desistir e voltar para a estrada.
Este dado é absolutamente escandaloso e demonstra a fragilidade do sistema. Um país que se quer moderno e virado para a economia global não pode ter a sua principal infra-estrutura de mercadorias dependente de um único corredor, partilhado com o transporte de pessoas e com mais de um século de idade. A tal “descarbonização” dos transportes, tão badalada, torna-se uma miragem quando as condições para a ferrovia são estas.
A roda que não trava: as razões para o desastre (e o que fazer)
Conclusão: a ferrovia que nos falta é o espelho do país que não temos
O abandono do transporte de mercadorias por caminho-de-ferro é um dos maiores exemplos da miopia estratégica portuguesa. Preferiu-se o betão e o camião, ignorando a eficiência, a segurança e a pegada ecológica do comboio. Pagamos todos os dias essa factura: em estradas esburacadas, em trânsito infernal, em ar poluído e numa economia menos competitiva. A ferrovia de mercadorias é um cadáver que o país insiste em manter na sala, financiando-o apenas o suficiente para que não assuste, mas nunca o suficiente para que funcione a sério. Enquanto assim for, o discurso da “descarbonização” e da “mobilidade sustentável” será uma mera anedota. E Portugal, um país que gosta de se ver ao espelho, continuará a ser aquele que prefere a imagem do progresso ao trabalho de o construir.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


