Democracia e Sociedade

A Universidade Sem Biblioteca Interior: Que Literacia Está Portugal a Formar?

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BOX DE FACTOS

  • A PORDATA regista 456.032 alunos matriculados no ensino superior em Portugal em 2025, contra 81.582 em 1978.
  • A percentagem da população entre os 30 e os 34 anos com ensino superior completo passou de 9,8% em 1998 para 41,7% em 2025, segundo a PORDATA.
  • A Comissão Europeia indica que Portugal atingiu 43,2% de diplomados do ensino superior entre os 25 e os 34 anos em 2024, perto da média da União Europeia.
  • No PISA 2022, 77% dos alunos portugueses de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2 em leitura, mas apenas 5% chegaram aos níveis superiores.
  • No Survey of Adult Skills 2023, a OCDE assinala que 30% dos adultos portugueses se encontram nos dois níveis mais baixos quando se consideram, em conjunto, literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas.

A Universidade Sem Biblioteca Interior
Que Literacia Está Portugal a Formar?

Portugal massificou o ensino superior, multiplicou diplomas, abriu portas, democratizou acessos. Mas a pergunta incómoda continua de pé: que espécie de literacia sai hoje das universidades portuguesas? A literacia que lê o mundo — ou apenas a que decifra slides antes do exame?

Durante décadas, Portugal viveu um atraso educativo profundo. Era necessário abrir a escola, alargar o acesso, levar mais jovens ao secundário, ao politécnico, à universidade. Essa transformação foi indispensável. Seria injusto negar-lhe o mérito histórico. Um país que durante demasiado tempo condenou gerações à instrução curta e ao destino estreito tinha, naturalmente, de correr atrás do tempo perdido.

Mas há momentos em que a quantidade começa a esconder a pergunta essencial da qualidade. E essa pergunta, no Portugal contemporâneo, é esta: estamos a formar cidadãos capazes de pensar, interpretar, argumentar, escrever, duvidar e criar — ou estamos apenas a certificar percursos académicos administrativamente bem sucedidos?

A grande subida dos diplomas — e a sombra por detrás da estatística

Os números mostram uma transformação impressionante. Segundo a PORDATA, Portugal tinha 81.582 alunos matriculados no ensino superior em 1978. Em 2025, esse número chegou a 456.032. O salto é gigantesco. O país passou de uma universidade relativamente restrita para um sistema massificado, com universidades, politécnicos, ensino público, privado, mestrados, doutoramentos, pós-graduações e uma indústria inteira de credenciação académica.

Também a escolaridade superior entre os jovens adultos cresceu fortemente. A PORDATA regista que a população dos 30 aos 34 anos com ensino superior completo passou de 9,8% em 1998 para 41,7% em 2025. A Comissão Europeia, no Education and Training Monitor 2025, assinala igualmente que Portugal chegou a 43,2% de diplomados do ensino superior entre os 25 e os 34 anos em 2024, muito perto da média europeia.

À primeira vista, parece uma história de sucesso. E em parte é. Mas um país não se mede apenas pelo número de diplomas que emite. Mede-se pela densidade intelectual, pela autonomia crítica, pela capacidade de transformar conhecimento em cultura, ciência, inovação, responsabilidade cívica e criação de riqueza.

O diploma, por si só, não pensa. Não escreve. Não interpreta. Não distingue uma ideia sólida de um slogan embrulhado em linguagem moderna. O diploma pode abrir uma porta; mas quem entra por ela precisa de ter uma biblioteca interior.

A literacia mínima não chega para uma sociedade complexa

O PISA 2022, da OCDE, mostra que Portugal está próximo da média da OCDE em leitura, matemática e ciência. Em leitura, 77% dos alunos portugueses de 15 anos atingiram pelo menos o nível 2, ligeiramente acima da média da OCDE. Mas apenas 5% chegaram aos níveis 5 ou superiores, aqueles em que os alunos conseguem lidar melhor com textos longos, conceitos abstractos, distinções subtis entre facto e opinião, e informação implícita.

Este dado é decisivo. Portugal não parece sofrer de uma incapacidade generalizada para ler. Sofre antes de uma dificuldade em elevar a leitura para níveis superiores de complexidade. Ou seja, muitos alunos conseguem compreender o essencial de um texto moderado; poucos demonstram domínio elevado da leitura crítica, da análise fina, da interpretação profunda.

Ora, a universidade devia precisamente ser o lugar onde essa competência se expande. A universidade não devia limitar-se a fornecer conteúdos técnicos; devia ensinar a pensar por camadas, a ler argumentos, a escrever com clareza, a desconfiar de respostas fáceis, a cruzar disciplinas, a entrar em diálogo com autores, teorias, dados, história, ciência e experiência humana.

Mas em demasiados casos, o estudante chega ao ensino superior já treinado para sobreviver ao sistema: estudar para o teste, resumir para passar, apresentar para cumprir, citar para decorar, formatar para agradar. A universidade recebe esta matéria-prima e, muitas vezes, em vez de a transformar, apenas a processa. Como uma fábrica de certificados com auditório, propinas e PowerPoint.

O aviso da OCDE: competências frágeis numa economia difícil

O Survey of Adult Skills 2023, da OCDE, é ainda mais inquietante. Quando considera em conjunto literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas, a OCDE indica que 30% dos adultos em Portugal se encontram nos dois níveis mais baixos de proficiência, contra uma média da OCDE de 18%.

Mais grave: os jovens adultos portugueses entre os 16 e os 24 anos pontuam abaixo da média da OCDE em literacia, numeracia e resolução adaptativa de problemas. Isto devia soar como alarme nacional. Não é apenas uma questão de escola. É uma questão de soberania intelectual, produtividade, democracia e futuro.

Num mundo dominado por inteligência artificial, sistemas algorítmicos, propaganda digital, burocracia automatizada, ciência complexa, finanças opacas e comunicação instantânea, a literacia já não é apenas saber ler frases. É saber interpretar sistemas. É perceber gráficos. É compreender instruções técnicas. É avaliar fontes. É distinguir correlação de causalidade. É reconhecer manipulação emocional. É escrever para ser entendido. É pensar antes de obedecer.

Sem estas competências, o cidadão torna-se vulnerável. O trabalhador torna-se substituível. O técnico torna-se executor. O dirigente torna-se perigoso. E o país transforma-se numa repartição de gente diplomada, mas intelectualmente dependente.

O erro fatal: confundir ensino superior com treino funcional

Portugal precisa de técnicos, engenheiros, médicos, enfermeiros, programadores, gestores, juristas, arquitectos, professores, investigadores. Claro que precisa. Mas precisa ainda mais de pessoas capazes de pensar para lá da tarefa imediata.

A literacia universitária não pode ser apenas funcional. Não pode limitar-se a saber usar ferramentas, preencher relatórios, produzir apresentações ou repetir conceitos. Essa é a literacia da engrenagem. Útil, sim; suficiente, não.

Uma verdadeira literacia universitária deveria ter pelo menos quatro dimensões:

Primeiro, literacia textual. Ler livros inteiros, textos difíceis, ensaios, relatórios técnicos, artigos científicos, legislação, filosofia, história, literatura, ciência e pensamento económico. Ler não apenas para responder ao professor, mas para ser modificado pela leitura.

Segundo, literacia argumentativa. Saber construir uma tese, defendê-la, reconhecer objecções, distinguir evidência de opinião, desmontar falácias e aceitar que pensar é, muitas vezes, perder uma certeza confortável.

Terceiro, literacia quantitativa e científica. Saber interpretar dados, probabilidades, gráficos, estatísticas, metodologias e limites da prova. Um país que não compreende números fica entregue aos ilusionistas da política, da publicidade e da consultoria.

Quarto, literacia humanista. Compreender que toda a tecnologia actua sobre seres humanos. Que a inteligência artificial, a medicina, a economia, a engenharia, o direito e a gestão têm consequências morais, sociais e políticas. Uma universidade sem humanismo pode formar especialistas eficientes — mas também pode formar bárbaros sofisticados.

O estudante que não lê é o profissional que não vê

Há uma tragédia silenciosa quando um jovem termina um curso superior tendo lido apenas sebentas, slides, resumos e excertos obrigatórios. Não se trata de elitismo livresco. Trata-se de formação mental. Quem lê pouco pensa com vocabulário curto. Quem lê pouco argumenta com ferramentas pobres. Quem lê pouco depende demasiado da opinião ambiente. Quem lê pouco vive intelectualmente em casa arrendada.

E isto torna-se ainda mais perigoso quando a sociedade valoriza a aparência de competência mais do que a competência real. Um relatório bem paginado pode esconder pobreza conceptual. Uma apresentação visualmente elegante pode disfarçar vazio estratégico. Uma reunião cheia de palavras modernas pode ser apenas uma procissão de lugares-comuns com ar condicionado.

Portugal conhece demasiado bem esta doença: muita forma, pouca substância; muita certificação, pouca exigência; muita comissão, pouca consequência; muita reforma anunciada, pouca transformação real.

Que universidade deveria Portugal exigir?

Portugal não precisa de uma universidade nostálgica, fechada numa torre de marfim, a fingir que o mundo digital não existe. Precisa exactamente do contrário: uma universidade moderna, tecnologicamente capaz, cientificamente exigente, internacionalizada, ligada às empresas e à investigação. Mas precisa também de uma universidade que não entregue a alma ao utilitarismo imediato.

Seria necessário recuperar uma cultura de exigência intelectual. Não uma exigência burocrática, feita de formulários, grelhas, plataformas e linguagem pedagógica domesticada. Uma exigência real: leitura séria, escrita frequente, avaliação argumentativa, contacto com obras fundamentais, debate oral, pensamento crítico, trabalho interdisciplinar e responsabilidade ética.

Cada curso superior, mesmo técnico, deveria obrigar o estudante a escrever melhor, ler mais, interpretar dados com rigor, compreender história e sociedade, enfrentar dilemas éticos e sair intelectualmente mais livre do que entrou.

A inteligência artificial torna isto ainda mais urgente. Num mundo em que as máquinas produzem respostas rápidas, a diferença humana estará cada vez mais na qualidade das perguntas, na capacidade de julgamento, na imaginação, na cultura e na consciência crítica. A universidade que formar apenas operadores de ferramentas estará a formar obsolescência com diploma.

Conclusão: o país que lê pouco pensa curto

Portugal conseguiu alargar o acesso ao ensino superior. Isso é uma conquista. Mas a próxima batalha é outra: transformar acesso em profundidade, diploma em competência, curso em cultura, técnica em inteligência, informação em sabedoria.

A pergunta decisiva já não é apenas quantos jovens entram na universidade. A pergunta é: quantos saem de lá capazes de ler o mundo?

Porque um país pode ter muitos licenciados e continuar pobre de pensamento. Pode ter universidades cheias e bibliotecas interiores vazias. Pode emitir diplomas enquanto importa visão. Pode formar executores quando precisava de criadores. Pode ensinar a responder quando precisava de ensinar a perguntar.

E talvez seja aí que começa a verdadeira reforma universitária: não num despacho, não numa comissão, não num relatório ministerial com capa azul e linguagem anestesiada, mas no regresso a uma ideia simples e revolucionária — a universidade deve formar pessoas capazes de pensar com liberdade, escrever com clareza, ler com profundidade e agir com responsabilidade.

Sem isso, Portugal não formará gerações preparadas para o século XXI. Formará apenas utentes avançados de sistemas alheios.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos

Crónica em co-autoria com Augustus Veritas.

Nota Final

Essa crónica nasceu precisamente de uma minha inquietação, depois de décadas a lidar com as gerações mais novas : Portugal encheu as salas de aula, multiplicou diplomas, criou estatísticas bonitas — mas esqueceu demasiadas vezes a pergunta essencial:
que profundidade intelectual estamos a construir?

Porque uma universidade sem leitura séria, sem escrita exigente, sem dúvida metódica e sem cultura humanista corre o risco de formar técnicos funcionais, mas não cidadãos livres.

E um país de cidadãos pouco leitores fica sempre à mercê dos slogans, dos burocratas e dos “especialistas” de cartolina plastificada.

Esta crónica é, acima de tudo, um aviso à navegação: Portugal terá de competir num mundo em que a incerteza será talvez a única certeza. E nesse mundo não bastará formar diplomados obedientes, treinados para repetir procedimentos; será necessário formar cidadãos livres, cultos, críticos, capazes de ler a realidade, quando ela já não vem explicada em manuais, programas ou slides de exame.

Talvez a maior certeza do nosso tempo seja precisamente esta: não sabemos o que, nos próximos cinco ou dez anos, mudará radicalmente — nem como. Por isso, uma universidade digna desse nome não deve formar apenas especialistas do presente, mas espíritos preparados para atravessar o desconhecido, capazes de aprender, desaprender, pensar criticamente e conservar humanidade num mundo onde a mudança será a única paisagem permanente.

Como Andy Grove, da Intel, há mais de 20 anos, sintetizou de forma abrupta e quase selvagem:
“no futuro, só os paranóicos sobreviverão”.
Não se trata da paranóia do medo irracional, mas da lucidez inquieta de quem percebe que a estabilidade é muitas vezes apenas uma ilusão confortável. Num tempo em que a tecnologia, a economia, a inteligência artificial e a geopolítica mudam sem pedir licença, sobreviverão melhor os que observam, aprendem, questionam, antecipam e se adaptam antes de a realidade lhes bater à porta com as malas feitas.

– Francisco Gonçalves (2026)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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