Portugal: O brilho do parecer apaga o suor do fazer — a fachada que esconde o vazio
📷 “O brilho do parecer apaga o suor do fazer” — a fachada que esconde o vazio.
A tirania da aparência: como Portugal se deslumbra com o ‘ser’ e esquece o ‘gerar’
Ensaio sobre a sociedade do faz-de-conta, onde o valor real é secundário e a decadência é o prémio
Vivemos o tempo da vitrina. O que conta não é o que se faz, mas o que se aparenta. Não o valor que se gera, mas a pose que se exibe. Em Portugal, esta doença é crónica, mas agravou-se: o país inteiro tornou-se um palco onde todos representam, poucos produzem e quase ninguém cobra resultados. O empreendedor de meia-tigela que anda de BMW mas deve ao fornecedor. A startup que recebe subsídios e não vende um produto. O político que anuncia obras e inaugura rotundas, enquanto as escolas caem de podres. A universidade que se gaba de papers, mas forma desempregados. O cidadão que posta vidas perfeitas, enquanto o salário mal chega ao fim do mês. Gerar valor é sempre secundário. O que interessa é a aparência de ser. E assim, entre espelhos e tretas, se acaba com uma sociedade e um país.
🎬 Pondé: a farsa do politicamente correcto é apenas uma das máscaras. A grande farsa portuguesa é amar a pose e odiar o esforço.
Onde a doença se mostra
🎭 Na política: o reino das inaugurações e das comissões
O político português é um mestre da aparência. Anuncia, promete, inaugura placas. Mas pergunte-lhe: quantos postos de trabalho reais criou? Quantas empresas exportadoras nasceram? Quanta produtividade aumentou? O silêncio é ensurdecedor. O que conta é a fotografia ao lado da obra, o discurso na abertura da conferência, o título no jornal. O valor — esse, fica para depois. E o depois nunca chega.
💼 Nas empresas: o culto do carro e do escritório vazio
Conhece o empresário que anda de Mercedes e paga salários de fome? Conhece a startup que aluga um espaço moderno, tem logótipo bonito, mas não tem clientes? A aparência de sucesso substituiu o sucesso real. O mercado português está cheio de empresas-fantasma, de projectos financiados que não geram retorno, de líderes que confundem posture com competência. E os bancos, os consultores, os media — todos alimentam a ilusão. Porque a ilusão dá notícia. O trabalho silencioso, não.
📱 Nas redes sociais: o império do “parecer feliz”
A vitrina digital é o espelho máximo da nossa decadência. Ninguém posta o insucesso, o cansaço, a conta vazia. Posta-se o brunch, a viagem, o momento de glória. As vidas são filtradas, editadas, publicitadas. O jovem que vê aquilo pensa que é o único que falha. E a ansiedade cresce. A depressão galopa. Porque a comparação com a aparência dos outros é uma luta perdida. O valor real — o estudo, o trabalho, a resiliência — fica nos bastidores, invisível.
• Baixa produtividade: Portugal está 40% abaixo da média da UE em produtividade por hora trabalhada.
• Fuga de talento: Mais de 30% dos jovens com ensino superior já emigraram ou pensam emigrar.
• Subsídio-dependência: 90% do investimento público financiado por fundos comunitários.
• Empresas zombie: Milhares de empresas vivem de apoios, não de facturação real.
• Dívida privada elevada: O endividamento das famílias para manter a aparência é uma das maiores da Europa.
Porque é que isto acontece (e se perpetua)
1. A educação que não educa para o valor real: A escola premia a memorização, não a criação. O aluno é avaliado por repetir, não por inovar. Sai de lá sem saber fazer um projecto, mas sabe preencher um teste.
2. A cultura do “jeitinho” e da cunha: Mais vale ter um bom contacto do que ser competente. O mérito é suspeito; a lealdade tribal, premiada.
3. O medo do fracasso: Ninguém quer arriscar porque o erro é público e humilhante. Mais vale não tentar do que tentar e falhar. A aparência de competente mantém-se assim, sem ser testada.
4. Os media que alimentam a fachada: As revistas de celebridades, os programas de tarde, os jornais que publicam comunicados de imprensa como se fossem notícias. O que vende é o escândalo e o brilho, não a análise séria.
Como sair do ciclo da aparência (e voltar a gerar valor)
O papel do cidadão: preferir o suor à pose
Não podemos esperar que o regime se auto-reforme. O sistema da aparência alimenta-se da nossa vaidade e do nosso medo. A mudança começa em cada um de nós: preferir o que é real ao que é mostrado; o que é feito ao que é dito; o que custa ao que é fácil. Deixar de aplaudir o político que inaugura e começar a exigir o que entrega. Deixar de seguir o influenciador que exibe e valorizar o trabalhador que produz. Deixar de invejar o vizinho de BMW e perguntar: “Com o quê?”. A tirania da aparência só cai quando cada um de nós se recusa a ser actor nela.
Portugal ainda pode escolher: continuar a ser um país de fachada, cada vez mais pobre e irrelevante; ou reinventar-se como um lugar onde o valor real é rei. O tempo urge. As aparências matam. O suor salva. A escolha é nossa.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


