Portugal : A hipocrisia da literacia financeira sem literacia política
📷 “Ensinar o povo a contar tostões, mas não a contar os votos.” — A hipocrisia da literacia financeira sem literacia política.
A última descoberta dos políticos: literacia financeira. A que eles escondem: literacia política.
Ensaio sobre a hipocrisia pedagógica do regime, que quer cidadãos a gerir contas, mas não a gerir poder
Eis a mais recente epifania da nossa classe política: o povo precisa de literacia financeira. Descobriram isto agora, depois de décadas a empobrecer o país com salários de miséria, impostos sobre o trabalho, taxas e taxinhas. Agora, subitamente, é urgente ensinar as crianças a fazer um orçamento doméstico, a poupar para a reforma, a perceber juros compostos. Ideias peregrinas, narrativas do absurdo — como se a pobreza fosse uma questão de ignorância financeira, e não de exploração estrutural.
Mas calma. O que eles não querem que se saiba, o que omitem deliberadamente do currículo escolar, é a literacia política. Ensinar o povo a ler o Orçamento do Estado. Ensinar o povo a perceber como se decide uma contra-ordenação, como se constrói uma empresa familiar, como se elabora um contrato público. Ensinar o povo a descortinar as relações promíscuas entre o poder político e o poder económico. Ensinar o povo a ler um caderno de encargos, a denunciar corrupção, a saber a que partido pertence cada juiz do Tribunal Constitucional. Isso, meus caros, fica fora do programa. Porque essa literacia, sim, incomoda.
🎬 Pondé: a farsa não é ensinar finanças — é ensinar o cidadão a gerir a mesada enquanto lhe escondem o mapa do poder.
Literacia financeira vs. literacia política: o fosso propositado
💰 A literacia financeira serve o sistema
Aprender a poupar, a investir, a evitar o endividamento — tudo isso é útil. Mas é uma formatação para a resignação. Ensina-se o cidadão a gerir a sua escassez individual, mas não se lhe ensina a questionar por que razão a escassez é coletiva. Ensina-se a fazer render o ordenado mínimo, mas não se ensina a lutar por um salário digno. É a pedagogia da conformidade: aceita o que tens, gere o que te dão, e não olhes para cima.
🏛️ A literacia política é perigosa (para eles)
Se os jovens aprendessem nas escolas o que é o processo legislativo, como se faz um orçamento participativo, como se fiscaliza um autarca, como se denuncia uma ilegalidade, como se interpreta um acórdão do Tribunal Constitucional — o regime tremia. Porque um povo politicamente letrado não se deixa enganar por promessas eleitoralistas, não se cala perante a corrupção, não aceita a promiscuidade entre o poder e os interesses privados. A literacia política é o maior inimigo do status quo. Por isso, fica de fora.
📚 O que realmente se ensina (e o que se omite)
Nas escolas portuguesas, aprende-se a fazer um orçamento familiar — uma simulação inócua. Aprende-se a diferença entre poupança e investimento — conceitos úteis, mas neutros. Aprende-se a preencher o IRS — uma habilidade prática. O que não se aprende: como funciona o financiamento dos partidos, como se forma um governo, como se controla a comunicação social, quais os mecanismos de escrutínio parlamentar, como se pode propor uma lei de iniciativa popular. Nada disso. A escola forma operários financeiros, não cidadãos políticos.
• A ler o Orçamento do Estado: perceber onde vão os impostos, o que são as rubricas, o peso da dívida pública.
• A escrutinar contratos públicos: saber onde consultar o Base.gov, como denunciar suspeitas de corrupção.
• A entender o sistema judicial: como são nomeados os juízes, o que faz o Ministério Público, como se julga um político.
• A participar na vida da comunidade: como funcionam as assembleias municipais, os referendos locais, as petições públicas.
• A identificar propaganda: distinguir factos de opinião, reconhecer falácias, detectar manipulação mediática.
A estratégia clara: fabricar narrativas, evitar o essencial
Esta sacralização da literacia financeira não é inocente. É uma narrativa fabricada, importada das agências de rating e dos think tanks neoliberais, que transforma um problema estrutural (a pobreza) numa incompetência individual (não saber poupar). Vamos todos aprender a gerir a nossa miséria, mas ninguém nos ensina a questionar o sistema que a produz. Brilhante, não é? É a pedagogia da resignação ativa.
Enquanto isso, o que não se fala: a literacia política continua a ser um buraco negro no currículo nacional. Não há uma única disciplina obrigatória de “Cidadania e Democracia” que vá além do cliché dos direitos humanos. Não se ensinam os mecanismos reais do poder. Não se simulam debates parlamentares. Não se treina a arte de redigir uma queixa ao Provedor de Justiça. Não se estuda o financiamento partidário. Tudo o que possa incomodar a classe política está ausente.
O que devia ser feito (e não será)
O papel do cidadão: auto-didactismo e exigência
Enquanto a escola falha, o cidadão tem de se fazer à estrada sozinho. Ler o Orçamento do Estado. Acompanhar o trabalho dos deputados no site da Assembleia da República. Denunciar irregularidades ao Tribunal de Contas. Participar nos orçamentos participativos. Exigir às autarquias transparência. A literacia política não se mendiga — conquista-se. Mas isso não desobriga o Estado. Pelo contrário: revela a sua falha estrutural.
Os políticos manhosos que agora descobriram a literacia financeira que metam o dedo na consciência. Ou antes, que metam a mão nos bolsos dos contribuintes — e que se preparem para uma geração que saberá exactamente onde andam a cair os seus impostos. Porque essa geração, mais cedo ou mais tarde, vai aprender. Mesmo que a escola não ensine.
✍️ Ensaio publicado em Fragmentos do Caos — cidadania, Portugal e o mundo. Texto em português de Portugal (AO 1990). Partilha livre com citação da fonte e do autor.


