Democracia e Sociedade

Portugal : Abril, a liberdade e a democracia ferida – o desencanto português meio século depois

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BOX DE FACTOS

  • Um estudo de opinião com 1600 entrevistas mostra que 77,6% dos inquiridos consideram que as consequências do 25 de Abril foram mais positivas do que negativas.
  • Ao mesmo tempo, cerca de metade dos portugueses diz estar insatisfeita com o funcionamento da democracia.
  • Corrupção e extremismo surgem entre os riscos mais apontados para o regime democrático.
  • Portugal continua a enfrentar uma percepção persistente de corrupção no sector público e um desgaste prolongado da confiança institucional.
  • A instabilidade política dos últimos anos e o crescimento de forças radicais mostram que o mal-estar democrático já não é apenas retórico: tornou-se estrutura.

Abril, a liberdade e a democracia ferida: o desencanto português meio século depois

Portugal continua a celebrar a madrugada em que se abriu a porta da liberdade. O problema é que, passadas décadas, muitos olham para dentro da casa democrática e vêem infiltrações, corredores tomados e uma administração moralmente exausta.

Aproximam-se as celebrações efusivas do 25 de Abril, com as flores, os hinos, os gestos rituais e a liturgia civil de uma data que permanece fundadora. E, no entanto, por baixo do verniz comemorativo, cresce um desconforto que já não pode ser varrido para debaixo do tapete institucional. Os portugueses continuam, em esmagadora maioria, a reconhecer o valor histórico da revolução. Mas uma parte significativa já não se revê na qualidade concreta da democracia que herdou e viu amadurecer — ou apodrecer — ao longo de cinco décadas.

É esse o paradoxo que o novo retrato de opinião torna impossível ignorar: a memória de Abril permanece luminosa, mas o presente democrático apresenta-se cada vez mais baço. A liberdade foi conquistada; a confiança, essa, foi sendo gasta aos poucos, como um tecido nobre deixado à chuva por administrações sucessivas que confundiram representação com ocupação do aparelho.

A democracia como promessa traída

O que estes sinais revelam não é uma nostalgia da ditadura, como por vezes os pregadores do conformismo tentam insinuar. Revelam algo mais sério e mais desconfortável: a percepção de que a democracia portuguesa, embora formalmente intacta, se deixou capturar por mecanismos de bloqueio, redes de influência, impunidades mansas e uma cultura política onde demasiadas vezes o mérito é decorativo e a responsabilidade evapora-se.

O cidadão comum vota, paga impostos, espera meses ou anos por decisões, sofre serviços públicos degradados, assiste a escândalos que se arrastam sem consequência proporcional, vê elites a circular entre cargos, consultadorias, empresas e gabinetes, e conclui — com razão ou sem ela, mas sempre com base em experiência vivida — que o regime fala em seu nome, mas raramente se reorganiza em seu benefício.

O que se esgota, portanto, não é a ideia democrática. O que se esgota é a paciência para uma democracia sem densidade moral, sem eficácia institucional e sem capacidade de regeneração.

Corrupção: o ácido lento das repúblicas cansadas

Entre os principais riscos apontados pelos portugueses surge a corrupção. E não por acaso. A corrupção raramente destrói uma democracia de um dia para o outro; corrói-a como humidade dentro da parede. Primeiro banaliza-se. Depois explica-se. Em seguida relativiza-se. Por fim, institucionaliza-se sob formas mais elegantes: tráfico de influências, contratação viciada, promiscuidade entre interesse público e privado, nomeações em circuito fechado, impunidade selectiva, complacência judicial, atraso processual.

Em países como Portugal, o dano da corrupção não é apenas financeiro. É simbólico e civilizacional. Ela ensina ao cidadão que há duas pátrias paralelas: a pátria oficial das leis e a pátria real dos contactos. Numa, proclamam-se princípios. Noutra, tratam-se excepções. O resultado é devastador: quando a integridade deixa de parecer provável, até a honestidade alheia começa a ser vista como ingenuidade.

Não admira, por isso, que a percepção de corrupção continue elevada e que os sucessivos relatórios internacionais insistam em sublinhar fragilidades no combate institucional ao problema. A democracia pode sobreviver algum tempo à pobreza; sobrevive pior à suspeita permanente de que os árbitros jogam com uma camisola por baixo da toga.

Extremismo: o sintoma que cresce no vazio

O outro grande risco salientado pelos inquiridos é o extremismo. Também aqui convém recusar a leitura preguiçosa. O extremismo não cresce apenas porque existam demagogos mais agressivos ou algoritmos mais eficazes. Cresce porque o centro democrático se tornou, para muitos, previsível, burocrático, moralmente frouxo e incapaz de responder ao mal-estar social com verdade, exigência e reforma.

Sempre que o regime parece fechado sobre si mesmo, as margens ganham magnetismo. Sempre que os partidos do arco da governação soam a administração sem horizonte, os vendedores de fúria encontram mercado. Sempre que a corrupção parece impune, os radicais disfarçam-se de purificadores — mesmo quando trazem nas mãos formas novas de brutalidade política, simplificação tribal e autoritarismo emocional.

O extremismo floresce, assim, como filho ilegítimo da falência ética do centro. Não nasce do excesso de democracia, mas da sua anemia.

Portugal entre a liturgia de Abril e o cansaço do presente

Há algo de profundamente português neste contraste. O país celebra simbolicamente a liberdade com uma intensidade quase religiosa, mas tolera no quotidiano uma cultura de resignação que vai minando a própria substância dessa liberdade. Como se dissesse: sim, vencemos a noite; mas depois habituámo-nos ao nevoeiro.

Os últimos anos não ajudaram. Crises políticas sucessivas, governações frágeis, eleições repetidas, suspeitas públicas em torno de titulares de cargos, dificuldades persistentes na habitação, pressão sobre serviços essenciais e a velha lentidão reformista alimentaram um ambiente de fadiga colectiva. A democracia não caiu. Mas para muitos deixou de entusiasmar, e isso é talvez mais perigoso. Regimes não morrem apenas por golpe; por vezes morrem por exaustão afectiva.

Celebrar Abril exige mais do que encenar memória

Celebrar Abril sem enfrentar este desencanto seria transformar a revolução numa peça de museu. A melhor homenagem ao 25 de Abril não consiste em repetir slogans ou coreografias de ocasião. Consiste em perguntar, sem medo nem reverência aparatosa, porque razão um povo que continua a valorizar a liberdade se mostra tão desconfiado do modo como ela foi administrada.

Uma democracia digna desse nome precisa de mais do que eleições regulares e retórica constitucional. Precisa de instituições eficazes, justiça credível, escrutínio real, transparência robusta, combate sério à corrupção, administração pública menos capturada, e uma cultura de responsabilidade que não termine sempre no rodapé de um comunicado.

Se não fizer esse trabalho de regeneração, a democracia portuguesa corre o risco de continuar solenemente comemorada e silenciosamente esvaziada. E não há cravo que salve um regime que perde, pouco a pouco, a confiança dos seus próprios cidadãos.

Epílogo

O 25 de Abril foi uma aurora. Mas nenhuma aurora dura cinquenta anos por inércia. A luz precisa de ser merecida todos os dias. Quando metade do país já olha para a democracia com desilusão, a pergunta deixa de ser comemorativa e passa a ser civilizacional: o que fizemos nós da liberdade que recebemos?

Talvez a resposta seja esta, dura como pedra ferroviária: construímos a democracia, sim — mas deixámos demasiadas vezes a sua alma à guarda de carreiristas, medíocres com gravata e devotos profissionais da irresponsabilidade.

Referências nacionais e internacionais

Portugal: Diário de Notícias; Governo de Portugal; Comissão Europeia / Rule of Law Report (capítulo sobre Portugal); PORDATA.

Internacionais: Transparency International; Economist Intelligence Unit; V-Dem Institute; Reuters; Associated Press; The Guardian.

Francisco Gonçalves — com Co-autoria editorial e investigação por Augustus Veritas

Para o Fragmentos do Caos: onde a liberdade não é incenso cívico, mas matéria viva de confronto, lucidez e recusa da mediocridade.

Nota editorial

Vivi o 25 de Abril ainda estudante, com a alma aberta e a convicção sincera de que Portugal entrava finalmente numa era de liberdade autêntica, dignidade colectiva e futuro mais justo para todos os portugueses. Acreditei, como tantos da minha geração, que o fim da ditadura abriria caminho a uma nação mais culta, mais próspera, mais exigente consigo própria e mais fiel ao talento do seu povo. Julguei, com a ingenuidade luminosa da juventude, que a liberdade bastaria para libertar também as energias criadoras, a honestidade pública e o mérito.

Mas a minha ingenuidade não durou muito. Com o passar dos anos, fui vendo erguer-se um outro país dentro do país: o das conveniências, das cumplicidades discretas, da mediocridade protegida, dos aparelhos partidários, do carreirismo sem grandeza e da progressiva captura das instituições por interesses que pouco tinham a ver com o bem comum. A promessa de uma democracia viva e regeneradora foi sendo substituída, demasiadas vezes, por uma administração cinzenta do poder, mais preocupada em conservar posições do que em transformar o país.

O que mais me feriu não foi apenas a corrupção material, embora ela tenha sido vasta e persistente. Foi a corrupção da esperança. Foi ver um povo honrado, trabalhador e paciente ser sucessivamente desapontado, desmobilizado e habituado a pedir cada vez menos. Foi assistir à degradação lenta da exigência cívica, ao rebaixamento cultural do debate público e à instalação de uma resignação quase ritual, como se Portugal estivesse condenado a sobreviver abaixo das suas possibilidades e sempre aquém do seu génio.

Hoje, olhando para trás, não renego a importância histórica do 25 de Abril. Seria moralmente indecente fazê-lo. O 25 de Abril foi uma ruptura necessária e uma porta aberta sobre a noite. Mas também sei, com a dureza que os anos ensinam, que a liberdade política, por si só, não garante grandeza nacional, nem decência institucional, nem justiça efectiva. Sem lucidez, sem cultura, sem coragem moral e sem vigilância cívica, a liberdade pode ser ocupada, esvaziada e usada contra aqueles que nela depositaram o melhor de si.

É talvez por isso que continuo a escrever. Não por nostalgia, nem por gosto amargo em denunciar ruínas, mas porque a memória é uma forma de resistência. E porque, quando a propaganda se torna espessa e a mentira se veste de comentário respeitável, recordar o que se sonhou e o que foi traído passa a ser um dever de consciência.

– Francisco Gonçalves (2026)

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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