Democracia e Sociedade

Portugal perdeu o comboio dos sistemas abertos e arrisca perder o da inteligência artificial

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BOX DE FACTOS
  • Portugal subiu ao 8.º lugar no European eGovernment Benchmark 2025, acima da média europeia em serviços digitais públicos.
  • A Comissão Europeia assinala, no entanto, que o País enfrenta desafios na adopção de IA pelas empresas e nas competências digitais de base.
  • A Agenda Nacional de Inteligência Artificial foi publicada em 8 de Janeiro de 2026, aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026.
  • O Governo anunciou para essa agenda uma mobilização de mais de 400 milhões de euros até 2030.
  • Portugal dispõe de um enquadramento político e legal favorável ao software de código aberto e a standards abertos, mas a adopção generalizada continua longe de se ter tornado cultura nacional.
  • Portugal participa numa das primeiras fábricas europeias de IA, associada ao MareNostrum 5 e ao ecossistema do Barcelona Supercomputing Center.

Portugal perdeu o comboio dos sistemas abertos e arrisca perder o da inteligência artificial

Durante anos, Portugal confundiu modernização com compra de plataformas, digitalização com dependência e inovação com powerpoint. Agora, quando a inteligência artificial redefine economias, soberanias e cadeias de valor, o País corre o risco de repetir o mesmo vício: modernizar a fachada e alugar o cérebro.

Portugal tem uma estranha especialidade nacional: gosta de parecer moderno sem se dar ao trabalho de ser estruturalmente livre. Ao longo de décadas, o País investiu em informatização, em portais, em aplicações, em balcões electrónicos, em programas de transição digital e em sucessivas narrativas de “modernização”. E, no entanto, por baixo dessa camada de verniz, persistiu uma realidade mais dura e menos fotogénica: a dependência tecnológica, a fragmentação de soluções, a falta de visão industrial e a incapacidade de transformar sistemas abertos numa verdadeira política de soberania digital.

O paradoxo é quase caricatural. Portugal até consegue apresentar indicadores simpáticos na digitalização administrativa. Subiu ao 8.º lugar no European eGovernment Benchmark 2025, superando a média da União Europeia em serviços em linha, interoperabilidade e usabilidade. Mas esse progresso, embora real, não resolve o ponto central: uma administração digital pode continuar a ser intelectualmente dependente, economicamente refém e tecnologicamente pouco soberana. Ter portais é importante. Ter autonomia no motor que os sustenta é outra coisa, e muito mais decisiva.

Sistemas abertos tratados como nota de rodapé

O mais irónico é que não faltou, sequer, enquadramento formal. O Portugal 2025 Country Intelligence Report, no âmbito europeu do software aberto, reconhece que o País construiu um quadro político e legal favorável à adopção de software open source, interoperabilidade e standards abertos, incluindo orientações na contratação pública para comparação entre soluções licenciadas e abertas. Em linguagem simples: Portugal sabia, pelo menos no papel, que os sistemas abertos eram uma peça racional e estratégica.

Mas saber não bastou. Porque a máquina do Estado, as instituições, as grandes organizações e boa parte do tecido empresarial nacional continuaram demasiadas vezes a olhar para os sistemas abertos como solução de nicho, expediente táctico ou concessão ideológica. Nunca os assumiram, em massa e com convicção, como política de independência tecnológica, como escola nacional de competências, como gerador de ecossistema local, como forma de reduzir aprisionamentos proprietários e como alicerce de um País tecnologicamente menos colonizado.

E assim se perdeu o comboio. Não por inexistência de talento. Não por falta de engenheiros. Não por ausência de conhecimento técnico. Perdeu-se por algo mais português e mais velho: a cultura de curto prazo, a reverência burocrática pela solução “de marca”, a fragmentação das compras, a timidez estratégica e o eterno fascínio pelo pacote fechado que promete simplicidade hoje e factura dependência amanhã.

A inteligência artificial chegou e apanhou-nos com os mesmos velhos reflexos

Quando a vaga da inteligência artificial acelerou brutalmente, sobretudo a partir de 2023, Portugal deveria ter percebido de imediato uma evidência histórica: quem não dominasse infra-estrutura, dados, computação, competências e software aberto à escala suficiente ficaria reduzido a consumidor de inteligência alheia. Não bastaria “usar IA”. Seria preciso participar na sua cadeia de valor, na sua experimentação, na sua integração industrial, no seu treino, na sua adaptação ao interesse nacional.

Ora, a própria Comissão Europeia, no Digital Decade 2025, assinala que Portugal enfrenta dificuldades na adopção de IA pelas empresas e nas competências digitais básicas, apesar de dispor de redes de conectividade sólidas e de bons serviços públicos digitais. Isto diz muito. Quer dizer que o País até montou infra-estruturas e serviços visíveis, mas não conseguiu ainda converter isso, com a velocidade necessária, em adopção produtiva, disseminada e transformadora da inteligência artificial no tecido económico.

E esse atraso não é neutro. Na economia contemporânea, chegar tarde não significa apenas perder prestígio; significa perder produtividade, perder valor acrescentado, perder margem de decisão, perder massa crítica e aceitar um papel subalterno na nova arquitectura tecnológica. Quem depende dos modelos, das clouds, das APIs, dos centros de dados, das plataformas e das licenças dos outros pode até parecer digital. Mas não manda. Limita-se a arrendar futuro.

A agenda apareceu. O tempo é que não esperou

Em Janeiro de 2026, o Governo publicou finalmente a Agenda Nacional de Inteligência Artificial, aprovada pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 2/2026, com um plano de acção 2026-2030 e com a promessa de mobilizar mais de 400 milhões de euros. É melhor do que nada. Seria absurdo negar a importância de uma agenda nacional, de um modelo de governação e de financiamento dirigido à adopção e infra-estrutura de IA.

Mas também seria ingénuo fingir que isto chega por si só. A agenda é necessária; não é milagrosa. O risco português continua a ser o mesmo: produzir documentos ambiciosos, comunicados encorajadores e eventos institucionais polidos, sem que isso se traduza com rapidez suficiente em massa crítica empresarial, em compras públicas inteligentes, em ecossistemas interoperáveis, em software reutilizável, em centros de competência espalhados pelo território e em apropriação real pelas pequenas e médias empresas.

Dito de forma frontal: Portugal entrou na era da IA com demasiada liturgia e pouca escala. E, quando o mundo acelera, a lentidão institucional torna-se uma forma de atraso económico.

Nem tudo está perdido — mas ainda falta trocar a montra pelo motor

Não convém cair no fatalismo barato. Portugal participa numa das primeiras fábricas europeias de IA, associada ao Barcelona Supercomputing Center e ao MareNostrum 5. A FCT sublinha o reforço europeu da supercomputação para IA e o potencial impacto em sectores como saúde, clima, agricultura, energia, comunicações, media e sector público. Isto mostra que o País não está completamente fora do tabuleiro europeu. Ainda há margem para recuperar terreno.

Mas recuperar terreno exige uma mudança de mentalidade que Portugal adia há demasiado tempo. Não basta participar em consórcios europeus, acolher conferências, anunciar agendas ou celebrar rankings administrativos. É preciso fazer o que raramente se faz com coragem: generalizar standards abertos, privilegiar arquitecturas reutilizáveis, reduzir dependências proprietárias onde for racional, criar procurement tecnológico mais inteligente, apoiar software público interoperável e transformar a adopção de IA numa política industrial e civilizacional — não apenas numa tendência de mercado ou numa moda ministerial.

A soberania digital não nasce de slogans. Nasce de decisões técnicas, jurídicas, económicas e culturais tomadas em sequência, durante anos, com disciplina e consistência. E isso implica aceitar uma verdade incómoda: um País pequeno só ganha densidade tecnológica se fizer escolhas mais inteligentes do que os maiores, não se imitar passivamente a sua dependência.

Portugal modernizou a casca, mas continua a importar a inteligência

O problema português não é a ausência total de digitalização. É pior e mais subtil: a digitalização sem emancipação. Fizemos sites, plataformas, apps, integrações, balcões únicos, fluxos automáticos e interfaces mais limpas. Mas, durante demasiado tempo, não tratámos a questão central: quem controla a lógica, a infra-estrutura, o ciclo de evolução, os formatos, os custos de saída, a reutilização e a soberania sobre o próprio sistema?

Na área da inteligência artificial, essa pergunta tornou-se brutal. Porque agora já não está em causa apenas a gestão de dados ou a integração de serviços. Está em causa a capacidade de produzir valor, optimizar decisões, modelar conhecimento, automatizar tarefas complexas, acelerar investigação, reorganizar sectores inteiros e influenciar a própria arquitectura futura da economia. Um País que chega tarde a isto, e que chega dependente, corre o risco de se tornar utilizador obediente de ferramentas concebidas noutro lugar, segundo interesses de outros, com custos ditados por outros.

E aqui convém dizer o óbvio com toda a crueza: Portugal não precisava de ser gigante para ser mais inteligente. Precisava apenas de ter feito mais cedo, e com mais decisão, aquilo que continuou a adiar — assumir sistemas abertos como política séria e a inteligência artificial como questão de soberania económica, cultural e tecnológica.

Conclusão

Portugal ainda pode recuperar parte do atraso. Mas não o fará com auto-elogio administrativo nem com a ilusão de que bastam agendas, fundos e discursos. Fá-lo-á apenas se compreender que a nova liberdade das nações também passa pelo código, pelos standards, pela computação, pela reutilização, pela formação e pela capacidade de não depender sempre do pensamento tecnológico dos outros.

Durante demasiado tempo, o País contentou-se com a montra digital. Agora precisa do motor. E o motor, neste século, chama-se sistemas abertos, competência acumulada, infra-estrutura própria, interoperabilidade séria e inteligência artificial tratada como estratégia nacional, não como adereço de modernidade.

Caso contrário, Portugal continuará a fazer o que sabe fazer demasiado bem: chegar à estação, olhar para o comboio a partir da plataforma, e fingir que a viagem começou porque a luz do painel electrónico estava bonita.

Francisco Gonçalves
Em coautoria editorial com Augustus Veritas, para memória tecnológica, lucidez estratégica e recusa da dependência travestida de modernização.
🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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