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As Portas Giratórias da Vergonha: PJ, Poder e a Normalização do Conflito

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BOX DE FACTOS
  • Tema: nomeações, promoções e “portas giratórias” em cargos de topo do Estado.
  • Exemplo: corrida à direcção da PJ e a sombra inevitável das ligações políticas (mesmo quando são apenas familiares).
  • Problema: em Portugal, a confiança pública é tratada como detalhe — e depois queixam-se da “falta de credibilidade”.
  • Ponto jurídico: o director nacional da PJ é nomeado por despacho do Primeiro-Ministro e do membro do Governo responsável pela justiça.
  • Tese: o que mata não é só a corrupção (quando existe) — é a normalização do conflito e da aparência de conflito.

As Portas Giratórias da Vergonha

A democracia não se perde apenas com ditadores. Perde-se, lentamente, quando o Estado se habitua a nomear “como sempre”, a promover “como convém”, e a explicar “como dá jeito”.
O país vê. O país aprende. E depois dizem-nos: “confiem”.

Há um fenómeno português que devia ser estudado com luvas de laboratório: a capacidade de fazer coisas à vista de todos e, ainda assim, agir como se o povo não tivesse olhos.
Chamam-lhe “procedimento”. Chamam-lhe “normalidade”. Chamam-lhe “experiência”.
Eu chamo-lhe pelo nome certo: descaramento institucional.

Quando um jornal escreve que o próximo director da Polícia Judiciária “deverá ser um polícia” e que há nomes na calha, a notícia não é apenas “quem”.
A notícia é o ambiente: a corrida, as preferências, as proximidades, as ligações — e a forma como tudo isto é tratado como se fosse apenas espuma.
E quando, no meio do retrato, aparece a referência a um familiar ligado ao gabinete do primeiro-ministro, o país não precisa de prova de crime para sentir o cheiro: basta-lhe a repetição do padrão.

1) O problema não é só o conflito — é a aparência de conflito

Um Estado sério não se limita a ser íntegro: tem de parecer íntegro. Porque a confiança pública vive tanto da substância como da percepção.
E quando se normaliza a proximidade ao poder como “nada de especial”, a mensagem que passa é simples: há sempre alguém mais perto do balcão.

Não é preciso acusar pessoas específicas para denunciar o mecanismo. Aliás, a crítica mais dura é esta: mesmo que todos sejam honestos, o sistema está desenhado para parecer suspeito.
E um sistema que parece suspeito, a prazo, deixa de ser respeitado.

2) Nomear por despacho: legal, sim — saudável, nem sempre

A lei prevê que o director nacional da PJ seja nomeado por despacho do Primeiro-Ministro e do membro do Governo responsável pela justiça.
Ou seja: é um cargo com peso técnico e sensível, mas com porta política de entrada.
Isto pode ser inevitável num Estado democrático. O que não é inevitável é a falta de muralhas entre decisão e conveniência.

3) Portas giratórias: quando o Estado vira elevador social de elites

E depois há o outro quadro, mais largo: o país onde um topo de instituição passa para ministro, e a cadeira que fica vaga abre uma nova corrida.
Não discuto biografias; discuto o efeito: o cidadão assiste a uma coreografia onde os mesmos círculos se revezam, e aprende a lição errada — a de que o mérito é secundário face à proximidade e à oportunidade.

Um povo que aprende isto não se torna mais participativo; torna-se mais cínico.
E o cinismo é o melhor fertilizante do extremismo.

4) O que um país decente faria (sem discursos, com regras)

Se quisermos reduzir o cheiro a “arranjo”, há medidas simples e concretas:

  • Critérios públicos para nomeação: experiência, resultados, integridade, gestão, visão operacional — por escrito, antes do nome.
  • Declaração de interesses e ligações relevantes (não para condenar, mas para clarificar).
  • Escrutínio parlamentar com perguntas sérias e respostas registadas (não “audições” decorativas).
  • Períodos de nojo e travões a transições imediatas entre funções sensíveis e funções políticas.
  • Relatórios públicos de desempenho (o país tem direito a saber se a instituição melhora ou piora).

Epílogo: a vergonha maior é a normalização

O que destrói Portugal não é apenas a corrupção quando existe. É o hábito de fazer tudo como se fosse natural: a escolha “óbvia”, o nome “na calha”, a promoção “esperada”, a porta “aberta”.
E quando alguém protesta, respondem com a frase do regime invisível: “isso é assim”. “O poder somos nós.”

Pois. É esse “assim” que nos apodrece.
Porque um país onde a confiança é tratada como pormenor acaba, inevitavelmente, governado por quem já não tem vergonha.

Num Estado sério, a justiça não pode viver à sombra do poder — nem sequer da sombra da sombra.

Francisco Gonçalves
Fragmentos do Caos — Co-autoria técnica e editorial: Augustus

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Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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