Democracia e Sociedade

Portugal Agoniza Entre Corrupção, Bloco Central e Predadores da Coisa Pública

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BOX DE FACTOS

  • Portugal vive há décadas sob a alternância dominante do chamado bloco central político.
  • A sucessão de casos, suspeitas, investigações, negócios públicos opacos e portas giratórias alimenta uma sensação profunda de captura da República.
  • O cidadão comum sente que o Estado é severo para os pequenos e indulgente para certos círculos de poder.
  • A corrupção não destrói apenas recursos públicos; destrói confiança, esperança e a própria ideia moral de democracia.

Portugal Agoniza
Entre Corrupção, Bloco Central e Predadores da Coisa Pública

Uma nação começa a agonizar quando a corrupção deixa de ser escândalo e passa a parecer método de governação.

Portugal assiste, quase sem surpresa, a mais uma sucessão de casos, suspeitas, investigações, negócios mal explicados, interesses cruzados, portas giratórias e relações perigosamente íntimas entre política, dinheiro, empresas, Estado e poder partidário.

O problema já não está apenas neste ou naquele caso concreto. Está no padrão. Está na repetição. Está na sensação pública de que a República foi sendo lentamente capturada por uma cultura política onde o interesse da nação aparece demasiadas vezes abaixo do interesse privado, do interesse partidário, do interesse do grupo, do amigo, do financiador, do escritório certo ou da carreira futura.

Durante 52 anos de democracia, Portugal construiu liberdades formais importantes, mas permitiu também a consolidação de uma máquina política onde PS e PSD, alternando no poder e nas zonas de influência, foram ocupando o Estado, as empresas públicas, os reguladores, as fundações, as administrações, as câmaras, os institutos e os corredores onde se decidem contratos, carreiras e favores.

O chamado bloco central não precisa de estar sempre no Governo ao mesmo tempo para existir. Existe como cultura. Existe como rede. Existe como linguagem comum do poder. Existe quando a alternância política muda rostos, mas preserva hábitos, interesses, protecções e cumplicidades.

A corrupção mais perigosa não é apenas a que entra nos tribunais. É a corrupção embarcada no modo de funcionamento do país: concursos feitos à medida, nomeações convenientes, dependências cruzadas, favores invisíveis, carreiras protegidas, decisões sem transparência e responsabilidades que se dissolvem no nevoeiro institucional.

O cidadão comum vê tudo isto e percebe a regra não escrita: para os pequenos, o Estado é rápido, severo e automático; para certos grandes interesses, o Estado parece lento, cauteloso, interpretativo, labiríntico e cheio de portas laterais.

Portugal não está apenas ferido pela corrupção. Está a ser governado por uma cultura política que aprendeu a conviver com a ferida.

E essa ferida sangra em todos os lados: na saúde que falha, na justiça que tarda, nos salários baixos, nas reformas indignas, na emigração dos jovens, na pobreza escondida, nos serviços públicos degradados, na descrença dos cidadãos e na sensação de que o esforço honesto vale menos do que a proximidade ao poder.

A nação já não sofre apenas de má governação. Sofre de intoxicação moral. Sofre de décadas de propaganda, de impunidade, de promessas recicladas, de responsabilidades adiadas e de elites que aprenderam a apresentar estabilidade onde existe apenas apodrecimento administrado.

Uma democracia não morre apenas quando deixa de haver eleições. Morre também quando os cidadãos deixam de acreditar que a política serve o bem comum. Morre quando o Estado se transforma em campo de caça de interesses privados. Morre quando a justiça chega tarde demais. Morre quando a vergonha desaparece dos salões do poder.

Portugal ainda existe como país. Mas a sua alma cívica agoniza quando percebe que a coisa pública foi tratada, durante demasiado tempo, como propriedade informal de redes partidárias, económicas e pessoais.

O país não precisa de mais encenação democrática. Precisa de limpeza moral, responsabilização, transparência radical e cidadãos que recusem continuar a assistir, em silêncio, ao saque elegante da República.

Nota Final

A tragédia portuguesa não está apenas nos casos de corrupção que surgem nas notícias. Está na sensação de que esses casos fazem parte de uma cultura de poder mais profunda, onde demasiados interesses privados se habituaram a viver encostados ao Estado.

Uma nação agoniza quando o povo deixa de se surpreender com a corrupção e começa apenas a reconhecê-la como paisagem.

Portugal precisa de voltar a ser República dos cidadãos, não coutada de partidos, redes, favores e predadores da coisa pública.



Francisco Gonçalves


Fragmentos do Caos

Crónica com co-autoria editorial de Augustus Veritas, ao serviço da lucidez, da memória crítica e da inquietação criadora.

Nota Editorial

E depois ainda se mostram surpreendidos quando partidos populistas tiram partido deste estado de degradação da governação. Como se fosse estranho que um povo cansado, empobrecido, enganado, mal servido pelas instituições e diariamente confrontado com escândalos, favores, impunidades e promessas vazias acabe por procurar uma saída desesperada.

O populismo não nasce no vazio. Alimenta-se da corrupção tolerada, da justiça tardia, dos serviços públicos degradados, dos salários baixos, das reformas miseráveis, da propaganda permanente e da sensação de que a República foi capturada por redes políticas e económicas que já não servem o povo.

A tragédia é que, perante a podridão do sistema instalado, muitos cidadãos podem embarcar numa aventura ainda mais desastrosa, confundindo grito com solução, raiva com reforma e vingança eleitoral com reconstrução nacional.

Quando a democracia deixa de servir com decência, abre caminho aos que prometem salvá-la destruindo-a ainda mais.

A responsabilidade primeira não é apenas dos populistas que exploram o desespero. É também, e sobretudo, da classe política que durante décadas degradou a confiança, banalizou a mentira, protegeu interesses privados e deixou a nação chegar a este ponto de exaustão moral.

– Francisco Gonçalves

🌌 Fragmentos do Caos: BlogueEbooksCarrossel

Francisco Gonçalves, com mais de 40 anos de experiência em software, telecomunicações e cibersegurança, é um defensor da inovação e do impacto da tecnologia na sociedade. Além da sua actuação empresarial, reflecte sobre política, ciência e cidadania, alertando para os riscos da apatia e da desinformação. No seu blog, incentiva a reflexão e a acção num mundo em constante mudança.

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