Os Melhores do Mundo no Campeonato da Mediocridade
Fragmentos do Caos | Crónica Política
Os Melhores do Mundo no Campeonato da Mediocridade
Artigo crítico sobre o patriotismo de cartolina, a ilusão nacional e o país real que continua a empobrecer
Há uma frase que regressa ciclicamente à vida pública portuguesa como uma música pimba em festa de concelho: “somos os melhores do mundo”.
Marcelo Rebelo de Sousa já tinha dito, em 2019, que os portugueses eram “os melhores dos melhores do mundo”, num discurso em Braga, durante a inauguração da ampliação da Bosch Car Multimedia. A frase foi registada pela RTP, no mesmo momento em que o Presidente admitia que ainda havia “muito mais” a fazer pela qualificação das pessoas.
Mais recentemente, Luís Montenegro, em contexto desportivo, disse que Portugal era candidato a ganhar o Campeonato do Mundo, “que o mesmo é dizer, somos candidatos a poder ser os melhores do mundo”. Pediu ainda ao país uma “mentalidade vencedora” e falou em “espremer o talento”.
O problema não é querer vencer. O problema é transformar um país estruturalmente frágil numa bancada de auto-elogio permanente.
Uma coisa é orgulho nacional. Outra coisa é delírio terapêutico.
Portugal tem talento, sem dúvida. Tem trabalhadores competentes, jovens brilhantes, técnicos extraordinários, emigrantes respeitados, cientistas capazes, engenheiros, enfermeiros, professores, artistas, operários, agricultores e empresários sérios. O país tem povo. O que muitas vezes não tem é elite à altura do povo.
E é aqui que a frase “somos os melhores do mundo” se torna ofensiva.
Somos os melhores do mundo, mas os salários continuam miseráveis para o custo de vida.
Somos os melhores do mundo, mas os jovens qualificados continuam a emigrar.
Somos os melhores do mundo, mas a classe média transformou-se numa espécie em vias de extinção, estudada pela sociologia e recordada por quem ainda conseguiu comprar casa antes da loucura imobiliária.
Somos os melhores do mundo, mas fechámos fábricas, abandonámos estaleiros, desactivámos linhas férreas, reduzimos a indústria, deixámos definhar competências produtivas e depois chamámos “modernização” a hotéis, turismo, recibos verdes e precariedade com Wi-Fi.
Somos os melhores do mundo, mas não conseguimos construir um país onde os melhores queiram ficar.
A realidade entra em cena, sem pedir licença
O salário médio bruto mensal em Portugal atingiu 1.694 euros em 2025, segundo dados do INE. A componente regular ficou nos 1.365 euros e a remuneração base nos 1.277 euros. Isto é antes de impostos e descontos, claro, porque o Estado português gosta muito de elogiar os trabalhadores enquanto lhes passa a mão ao bolso com a ternura de um assaltante burocrático.
Depois há a habitação. A OCDE afirma, no seu relatório económico de 2026 sobre Portugal, que os desafios estruturais do mercado da habitação, agravados pela procura, reduziram a acessibilidade à casa. Muitas pessoas têm dificuldade em comprar ou arrendar casa, pagar o crédito, mudar de habitação ou melhorar casas degradadas. Os jovens são, segundo a própria OCDE, desproporcionalmente afectados.
Não há “mentalidade vencedora” que sobreviva a salários baixos, casas impossíveis e futuro bloqueado.
Convém repetir devagar, para ver se chega a alguns gabinetes onde o ar condicionado parece congelar a inteligência: um povo não se alimenta de frases motivacionais. Um país não se reconstrói com palmas. Uma economia não muda porque alguém, num púlpito qualquer, decidiu chamar “vencedora” a uma população cansada, endividada e fiscalmente espremida.
A Pordata tem mostrado, em diferentes retratos do mercado de trabalho, uma realidade pouco compatível com a euforia oficial: baixos salários, precariedade, contratos temporários, trabalhadores qualificados mal pagos e uma distância persistente face à média europeia. O país formou mais gente, sim. Mas a economia continua demasiadas vezes incapaz de pagar como país desenvolvido.
Isto é o retrato perfeito da mentira nacional: temos trabalhadores cada vez mais qualificados, mas uma economia que continua muitas vezes a pagar como se a qualificação fosse uma decoração de currículo, não uma fonte de valor.
Espremer o talento até ele sair pelo aeroporto
Querem “espremer o talento”? O talento já foi espremido. Foi espremido até sair pelo aeroporto.
A Pordata assinalou, num retrato sobre migrações, que entre os emigrantes os jovens entre os 20 e os 34 anos têm sido o grupo mais prevalente, representando quase sempre mais de 50% e atingindo um máximo de 57% em 2024.
Isto não é mobilidade internacional saudável. É sangria nacional embrulhada em discursos sobre cosmopolitismo.
Quando um jovem português sai porque quer conhecer mundo, óptimo. Quando sai porque o país lhe fecha a porta à habitação, ao salário digno, à carreira estável e à possibilidade de construir família, isso já não é liberdade. É expulsão económica com bilhete de avião.
Mas os nossos dirigentes continuam encantados com a própria retórica.
“Somos os melhores do mundo.”
Melhores em quê?
Em sobreviver com baixos salários?
Em pagar casas a preços de capitais ricas com rendimentos de periferia?
Em formar jovens para depois os oferecer a economias estrangeiras?
Em transformar fundos europeus em rotundas, consultorias, eventos, observatórios e apresentações de PowerPoint?
Em substituir indústria por turismo e chamar a isso estratégia?
Em vender o país aos pedaços e depois cantar o hino comovidamente?
O país precisa de menos palco e mais oficina
Portugal precisa de menos frases motivacionais e mais vergonha institucional.
Precisa de menos palco e mais oficina.
Menos cerimónias e mais fábrica.
Menos “hub”, “cluster”, “ecossistema” e “inovação” de conferência, e mais salário digno, produtividade real, capital produtivo, indústria, justiça funcional, escola exigente, saúde eficaz, habitação possível e Estado competente.
A OCDE, no seu relatório económico de 2026, identifica desafios ligados à produtividade, investimento, competências, envelhecimento populacional e habitação. Ou seja: os problemas são conhecidos, diagnosticados, escritos, traduzidos, publicados e repetidos. Falta apenas aquela pequena coisa exótica chamada governação competente.
Portugal é um país cheio de diagnósticos e pobre em tratamento.
Temos relatórios, conselhos, comissões, estratégias, pactos, agendas, planos, visões, roteiros e cimeiras. O que falta é execução. Falta disciplina. Falta responsabilidade. Falta uma elite que não confunda governar com comentar o país em pose de estadista.
A mediocridade portuguesa não está no povo. Está na incapacidade persistente de transformar talento em sistema, trabalho em património, liberdade em prosperidade e educação em mobilidade social.
É por isso que o discurso do “somos os melhores do mundo” se tornou insuportável.
Porque funciona como cortina de fumo.
Enquanto se repete que somos os melhores, evita-se dizer que demasiados portugueses vivem mal.
Enquanto se repete que somos os melhores, evita-se explicar por que razão tantos jovens não conseguem sair de casa dos pais.
Enquanto se repete que somos os melhores, evita-se discutir por que razão Portugal não construiu uma economia produtiva capaz de pagar bons salários de forma generalizada.
Enquanto se repete que somos os melhores, evita-se perguntar quem beneficiou com décadas de fundos, privatizações, desindustrialização, imobiliário inflacionado, turismo descontrolado e captura do Estado por clientelas partidárias.
Patriotismo não é bajulação
O patriotismo sério não diz ao povo que ele é o melhor do mundo.
O patriotismo sério pergunta: porque é que um povo com tanto talento vive tantas vezes num país tão mal organizado?
O patriotismo sério não embala a nação com frases fofinhas.
O patriotismo sério confronta a nação com aquilo que ela perdeu, aquilo que destruiu, aquilo que aceitou, aquilo que calou e aquilo que ainda pode reconstruir.
Portugal não precisa de presidentes e primeiros-ministros a fazerem discursos de balneário.
Precisa de dirigentes que saibam construir um país onde um trabalhador qualificado consiga comprar casa, criar filhos, poupar, envelhecer com segurança e não depender da emigração como plano de carreira.
Precisa de dirigentes que percebam que a classe média não se faz com hashtags, mas com salários, habitação, produtividade, indústria, serviços públicos decentes e justiça económica.
Precisa de dirigentes que entendam que a liberdade política é uma conquista extraordinária, mas não basta quando a vida material de milhões de pessoas continua esmagada.
A Pordata indicou que, em 2023, cada contribuinte em Portugal declarou, em média, um rendimento bruto mensal de 1.155 euros depois de descontado o IRS. No mesmo retrato sobre pobreza, Portugal surgia em posição modesta no rendimento mediano mensal das famílias dentro da União Europeia.
É este o país dos “melhores do mundo”?
Então talvez sejamos os melhores do mundo numa coisa: em suportar a distância absurda entre a propaganda oficial e a vida real.
Porque o país real não vive nos discursos. Vive nos salários. Vive nas rendas. Vive nas filas do SNS. Vive nos jovens que partem. Vive nos professores cansados. Vive nos enfermeiros exaustos. Vive nos técnicos mal pagos. Vive nos pensionistas aflitos. Vive nos trabalhadores que fazem contas antes de comprar carne, gasolina ou medicamentos.
O país real não precisa que lhe digam que é o melhor do mundo.
Precisa que deixem de o tratar como parvo.
Acordem, medíocres
Acordem, medíocres.
Acordem, gestores da ilusão.
Acordem, fabricantes de frases patrióticas para consumo televisivo.
Um povo não se engrandece com bajulação. Engrandece-se com verdade, exigência e futuro.
Portugal não será melhor por repetir que é o melhor.
Portugal será melhor quando deixar de expulsar talento, esmagar trabalho, premiar clientelas, destruir indústria, proteger incompetentes e confundir retórica com destino.
A verdade não é inimiga da nação.
A verdade é talvez a última hipótese de a salvar.
Aletheia Veritas
para Fragmentos do Caos
Referências
-
RTP/Lusa, “Marcelo diz que portugueses são ‘os melhores dos melhores do mundo’”, 22 de Março de 2019.
https://www.rtp.pt/noticias/pais/marcelo-diz-que-portugueses-sao-os-melhores-dos-melhores-do-mundo_a1136627 -
Rádio Renascença, “Luís Montenegro: ‘Assumimos sem rodeios, somos candidatos a ganhar o Campeonato do Mundo’”, 28 de Maio de 2026.
https://rr.pt/noticia/politica/2026/05/28/luis-montenegro-assumimos-sem-rodeios-somos-candidatos-a-ganhar-o-campeonato-de-mundo/472438/ -
INE, “Remuneração bruta mensal média por trabalhador”, dados provisórios de 2025, incluindo remuneração total, regular e base.
https://www.ine.pt/xportal/xmain?DESTAQUESdest_boui=757873293&DESTAQUESmodo=2&xpgid=ine_destaques&xpid=INE -
Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Pordata retrata mercado de trabalho em Portugal e na União Europeia”, Dia do Trabalhador, 2026.
https://ffms.pt/sites/default/files/2026-04/01.05%20PR%20FFMS%20Pordata%20Dia%20do%20Trabalhador.pdf -
Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Pordata retrata a evolução da pobreza em Portugal”, Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, 2025.
https://ffms.pt/sites/default/files/2025-10/17.10.25%20PR_Dia%20Internacional%20Pobreza_2025_PORDATA.pdf -
Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Pordata faz retrato da população imigrante em Portugal”, com dados sobre emigração jovem, 18 de Dezembro de 2025.
https://ffms.pt/sites/default/files/2025-12/18.12.2025%20PR%20Pordata%20Migra%C3%A7%C3%B5es.pdf -
OECD, “OECD Economic Surveys: Portugal 2026”, relatório sobre produtividade, investimento, competências, crescimento económico e habitação.
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-portugal-2026_025b3445-en.html -
OECD, “Tackling Portugal’s housing affordability challenge: promoting sustainable and inclusive housing”, capítulo do relatório económico de 2026 sobre acessibilidade à habitação.
https://www.oecd.org/en/publications/oecd-economic-surveys-portugal-2026_025b3445-en/full-report/tackling-portugal-s-housing-affordability-challenge-promoting-sustainable-and-inclusive-housing_c920df36.html -
OECD, “Improving public spending efficiency, skills and housing policies would boost Portugal’s economy and living standards”, comunicado de imprensa sobre o relatório económico de Portugal 2026.
https://www.oecd.org/en/about/news/press-releases/2026/01/improving-public-spending-efficiency-skills-and-housing-policies-would-boost-portugal-s-economy-and-living-standards.html


